HYMNO Á DOR

Sorri com mais doçura a boca de quem soffre,

Embora amargue o fel que os seus lábios beberam;

É mais ardente o olhar, onde como um aljofre,

A Dor se condensou e as lágrimas correram.

Sôa, como se um beijo ou uma caricia fôsse,

A voz que a soluçar na Desgraça aprendeu;

E não ha para nós consolação mais doce,

Que o regaço de quem muito amou e soffreu.

Voz, que jamais vibrou num soluço de mágua,

Ao nosso coração nunca pode chegar...

Mas o pranto, ao caír d'uns olhos razos d'agua,

Torna mais penetrante e mais profundo o olhar.

Lábio, que só bebeu na fonte da Alegria,

É frio, como o olhar de quem nunca chorou;

A Bondade é uma flor que se alimenta e cria

Dos resíduos que a Dor no coração deixou.

Em tudo quanto existe o Soffrimento imprime

Uma augusta expressão... mesmo a Suprema Graça,

Dando aos versos do Poeta esse esmalte sublime

Que torna immorredoira a Inspiração que passa.

É por isso que a Dor, sem trégua nem guarida,

Dor sem resignação, Dor de estoico ou de santo,

Só de a vermos passar no tumulto da Vida

Deixa os olhos da gente ennublados de pranto.

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 67 / 106 题