HYMNO Á VIDA

Tenho-te medo, embora ignoto amor me traga

Preso a ti, como o feto ao seio em que germina...

Foi por ventura o sol, da espuma d'uma vaga,

Ou Deus que te creou d'uma essencia divina?

Que importa? D'onde quer que o teu sorriso veio,

Quem quer que sejas,--flôr d'inefavel deleite,

D'ódio ou de fel,--és sempre o mesmo augusto seio

Em que a Dor e o Prazer bebem o mesmo leite!

Calix do Sacrificio em que os meus labios ponho!

--Trazendo o Amor e a Morte a servir-te d'escolta,--

Deste ao mundo o licôr do seu primeiro sonho,

O vinho e a embriaguez da primeira revolta!

Sobes do prado em flor, desces dos altos cumes,

Na immarcessivel luz que os orbes incendeia;

Passas no largo vento a derramar perfumes,

Choras no vasto oceano a rebentar na areia!

O teu Genio, que o barro amolda e purifica,

Enleva os corações de jubilo e transporte,

Se no Esqueleto exhibe a tunica mais rica,

Se em Belleza sorri na máscara da Morte:

Teu segredo, que em sangue e lagrimas se envolve,

Mais obscuro se faz quanto mais o investigo;

--Sôpro que tudo cria e que tudo dissolve,

Força occulta, mysterio augusto, eu te bemdigo!

Se, ousado, alguem buscando a tua ignota origem,

O abysmo a perscrutar sobre ti se debruça,

Da treva apenas sae, dissipada a vertigem,

Um immenso clamor que blasphema e soluça!

És o raio de sol, a tempestade e o vento;

Vôo d'ave a cantar na floresta orvalhada;

Ancia no coração, lava no pensamento,

O Amor e o Odio, o Bem e o Mal,--és Tudo e és Nada!

Mão potente, que a rocha endurecida escarva,

Tornando-a em fragil pó d'onde rebentam flores;

Fada occulta que tece o casulo da larva

E aos insectos iria as asas de esplendores...

Beijo d'onde a traição como um veneno escorre;

Riso que se desfaz num amargo travor;

Larga estrada sem fim que a Ventura percorre,

Como um cego a cantar pelo braço da Dor!

Quem quer que sejas,--tudo ou nada,--eu te bemdigo!

Pelo esforço immortal da tua heroica belleza,

Que, no revolto chão do soffrimento antigo,

Deixou tantos padrões e tropheus de grandeza!

Se a alguem o teu mysterio a Esphinge revelasse,

Talvez nunca, a rolar dos planaltos risonhos,

A onda humana através da historia se lançasse,

Erguendo cathedraes e accumulando sonhos!

Por isso eu te bemdigo, Alma que enches o Mundo!

Occulto coração, graça, illusão suprema!

Se tudo vem de ti, d'esse enygma profundo,

--A solução que importa? O que é grande é o problema!...

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 63 / 106 题