RIO AMARGO

A pouco e pouco a Dor, no coração do Homem,

Vae como um rio amargo escavando o seu leito,

E dia a dia, o sulco em que as mágoas se somem

Mais profundo se faz, mais escarpado e estreito.

A principio trasborda e alastra: é uma torrente!

Nada a pode conter--nem diques, nem escolhos;

Submerge o coração num tumultuar plangente,

E onda a onda rebenta em lagrimas dos olhos.

Mas o tempo transforma em profunda ravina

O leito onde mais viva a torrente passou;

A onda continua a correr nessa ruina,

Mas, de funda que vae, aos olhos se occultou.

Desde então não se escuta o bramir da tormenta,

Mas da face tranquilla e dos olhos enxutos

Ninguem inveje a paz que essa calma apparenta:

Vae cheio o coração de lagrimas e lutos!

Ditoso o Homem a quem, na primeira investida,

A Dor, como uma vaga, envolveu na ressaca,

Em vez de o arremessar, como «épave» perdida,

De soffrer em soffrer, mas que nunca se aplaca!

A Dor que mata, a Dor que d'um golpe redime,

É compassiva; o mal, que cessa, não é grande...

Mas a Dor que não pára, a Dor que nos opprime

Sem esp'rança de ver que o seu martyrio abrande,

Essa Dor, não ha som, na palavra que chora,

Para a exprimir; é a Dor que mil dores condensa:

Trazer a Morte em nós, senti-la a toda a hora,

E viver! E viver no horror d'essa presença!

Onde o peito de heroe, onde o animo forte

Para uma dor egual sem revolta afrontar,

Tendo a pesar sobre elle a mão fria da Morte?

E sem poder fugir! e sem poder luctar!

Só o Homem que espera em Deus, martyr ou santo,

Pode um supplicio tal resignado soffrer,

Com o labio a sorrir, com os olhos sem pranto,

Mas a angustia no olhar, mas a boca a gemer...

Só esse a quem a Graça illuminou, na etherea

Luz immortal d'estrella ignota alvorecida,

Pressente da Alma Humana o Infinito e a Miseria

Na eterna expiação d'este peccado--a Vida!

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 60 / 106 题