A VENTURA

A Ventura, de vãos e ephemeros sorrisos,

Nunca, em alto lavor,

Nos meus versos deixou cariatides ou frisos

De que ella fôsse o alacre e luzido esculptor.

Trouxe-a um dia, illudida, a minha Noiva, quando

No meu lar se installou;

A Musa, deslumbrada, emmudeceu, sonhando,

E d'amor nunca mais um só verso rimou.

Mas d'essa adoração em que vivia absorta,

Um dia, ao despertar,

Viu que tinham levado a minha Noiva morta,

E d'angustia chorou, na angustia do meu lar.

Chorou... Sempre que a dor nos empolga e sacode

Como um arbusto ao vento,

Nenhuma forma d'arte em eloquencia pode

Egualar a expressão d'um grito ou d'um lamento.

Chorou... E desde então, a Musa dolorida

Vive numa anciedade

A ouvir a minha dor no seu canto escondida,

Mansamente, a chorar, como chora a saudade...

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 56 / 106 题