CYSNE BRANCO

Cysne branco, esquecido a sonhar no alto Norte,

Vendo-se, ao despertar, das neves prisioneiro,

Ergue os olhos ao ceu, enublados de morte,

Mas o sol já não vem romper-lhe o captiveiro.

O gêlo, no lençol todo immovel das ondas,

Em que a aurora boreal põe reflexos de brasas,

Deslumbra-lhe um momento as pupillas redondas,

Dá-lhe a illusão do sol, mas não lhe solta as asas.

Vê que o torpor do frio o invade lentamente;

Debate-se, procura o cárcere romper;

Mas a asa é d'arminho, o gêlo é resistente:

Tem as pennas em sangue e sente-se morrer.

Então põe-se a cantar, sem que ninguem o escute;

Solta gritos de dor em que lhe foge a vida;

Mas essa dor, se ao longe um echo a repercute,

Parece uma canção no silencio perdida...

Melodia que a voz da Saudade acompanha,

Amarga e triste como o exilio onde agoniza,

Longe do claro sol que outras paysagens banha,

Dos rios e do mar que outra alvorada irisa.

Voz convulsa a chorar perdidas maravilhas:

--Tardes occidentaes de sanguínea e laranja,

Noites de claro ceu, como um mar cheio d'ilhas,

Manhãs de seda azul que o sol tece e desfranja!

Mas ao longe, á distancia onde a leva a Saudade,

Tão esbatida vae essa triste canção,

Que não desperta já commoção nem piedade:

Encanta o ouvido, mas não chega ao coração.

E o Cysne, abandonado ao seu destino, expira,

Hallucinado e só, sob o silencio agreste,

Pensando que no azul, como um mar de saphira,

Os astros a luzir são a geada celeste...

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 50 / 106 题