(Noite de S. João)
_Passarinho trigueiro,
Põe-te na areia_!...
A areia é d'oiro,--painço loiro...
Leito macio... Vê como o Rio
Vae socegado, todo enlevado,
Todo encantado na areia fina!
_Passarinho trigueiro_! Olha o salgueiro
Como se inclina,
A ver se as aguas
Pode beijar!
E o velho choupo, todo curvado,
Todo engelhado,
De tantas mágoas
Que viu passar!
Nas aguas mansas, folhas cahidas,
Como esperanças desfallecidas,
Lá vão perdidas nas aguas mansas,
Como esperanças
Desfallecidas...
_Passarinho trigueiro,
Põe-te na areia_!...
A velha ponte talvez te conte
Lindas historias para encantar,
Lindas historias da Lua Cheia,
Quando na areia põe a corar
O alvo linho
Do seu tear...
Passarinho trigueiro! pia baixinho!
Ouve as cantigas, que as raparigas,
No S. João,
Soltam ao vento como um lamento
Do coração!
............................
_A vossa capella cheira,
Cheira ao cravo, cheira á rosa,
Cheira á flor da laranjeira_...
Laranjeira desfolhada
Numa noite de orvalhada,
No leito d'algum linhar...
Mas a alcachofra cortada
Sabe alguem se vae seccar?!
_Passarinho trigueiro,
Põe-te na areia!_
A areia é doce como se fosse
Vergel macio para noivar...
E dorme o Rio... praia deserta...
Cuidado! Alerta! que a Lua espreita,
Nunca se deita, sempre a rondar.
_Passarinho trigueiro_,
Olha a estrella do boieiro
Que nunca dorme no ceu,
A ver se do seu rebanho
Alguma rêz se perdeu...
Olha o Rio! é côr d'estanho
Como um espelho a brilhar;
Cuidado! se é muda a areia,
Pode o Rio murmurar,
E ás noites a Lua Cheia
Vem com elle conversar...
Já vae alto o sete-estrêllo,
Vae despontar a alvorada;
Mas uma voz desgarrada,
Como um grito sem appêllo,
Passa a cantar pela estrada:
«Esta noite, na novena,
S. João pôs se a chorar...
Da minha dor tinha pena,
Sem me poder consolar.
As andorinhas voltaram,
Desabrocharam as flores,
E as andorinhas contaram
Que tinhas novos amores...
Ninguem mais penas soffreu
Nem dor maior supportou;
Quem amou nunca esqueceu,
Quem esqueceu nunca amou!
Ai! infeliz de quem passa!
Ninguem seu amor escolhe,
Pois o amor é uma desgraça,
Que sem se esperar nos colhe...
Ai, infeliz de quem passa!...
............................»
_Passarinho trigueiro_,
Não ha amor como o primeiro...
Vôa, vôa sem parar!
Deixa a Lua estremunhada,
Deixa o Rio a murmurar...
O amor tem a asa ligeira,
E antes que rompa a alvorada.
Leva o ramo de oliveira
Àquella dor desgarrada!