CABELLOS BRANCOS

Não repares na cor dos meus cabellos

Sem ler primeiro Anacreonte;

Verás que os sonhos juvenis, mais bellos,

Tambem se evolam d'enrugada fronte.

O espirito do Poeta é sempre moço;

O Coração nunca envelhece...

Basta um sorriso, um nada, um alvoroço,

E tudo nelle se illumina e aquece.

Deusas d'eterna graça adolescente,

Jamais as Musas desdenharam

Da luz que treme incendiando o poente,

Dos rouxinoes que ao pôr do sol cantaram.

Fina e fragil vergontea melindrosa,

Que foi na ceifa abandonada,

Ruth, apesar de moça e de formosa,

Nos braços de Booz dorme encantada.

Quantas flores d'inédita fragrancia

Em mãos provectas vão abrindo...

Abisag, ao sair quasi da infancia,

No leito de David entrou sorrindo.

E d'esse beijo, inverno e primavera,

D'esse connubio, oh maravilha!

Como se a ruina fecundasse a hera,

Veio á luz uma estrella, que ainda brilha.

Esculpturaes patricias, d'olhos ledos,

Quem as lembrara, se deixassem

Que mãos obscuras, mercenários dedos,

A velhice d'Horacio engrinaldassem?

Quantos nomes illustres! quantos casos!

Mas que direi mais eloquente?

Não ha dias tão pallidos, e occasos

Como explosões d'uma cratera ardente?

Não repares na côr dos meus cabellos;

A branda luz que nelles arde,

Como o poente, das nuvens faz castellos,

Tinge d'alva o crepusculo da tarde...

Muita vez os cabellos embranquecem

Na dor d'horriveis soffrimentos...

Não são os annos que nos envelhecem;

«São certas horas más, certos momentos...»

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 46 / 106 题