M. ***

Perguntas d'onde vem a timidez estranha,

Este quasi terror com que te fallo e escuto,

Como se a sombra hostil d'uma grande montanha,

Que se erguesse entre nós, me cobrisse de luto.

Ignoras a razão d'este absurdo respeito

Com que te beijo a mão, que estendes complacente,

--Fria do ardor que tens concentrado no peito,

Que mão fria é signal de coração ardente.

E admiras-te de ver que os olhos baixo, e tremo,

--Se passas como um sol de planetas cercado--

Sem dar mostras sequer d'esse orgulho supremo

De quem se sente eleito entre todos, e amado!

Não podes conceber que uma paixão tão alta

Se vista de recato ou de pudor mesquinho...

Mas, se é sincero, o Amor só a occultas se exalta,

Faz-se tanto maior quanto é discreto o ninho.

E tudo o que tu crês fingida gravidade

É uma intima oblação, pois nas almas piedosas

O Verdadeiro Amor é feito de humildade:

Sobre o annel nupcial não ha pedras preciosas.

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 37 / 106 题