A SELVA ESCURA

Perdi-me no caminho solitario

D'uma floresta immensa e fria...

Medrosa ainda, a Noite lívida descia,

E o clarão do luar, como um pranto mortuário,

Pelas folhas das árvores corria.

No silencio da Noite, o silencio da Selva

Enchia-se de vozes enigmáticas...

E os meus pés vacillavam sobre a relva,

Entre as sombras das árvores extácticas.

Numa clareira funda, aguas dormentes,

Como um lago lunar, tremeluziam

Nas lágrimas de luz, altas e ardentes

Que das estrellas pálidas caíam.

Nem ruido de mar, folhas ou vento...

O mystério, porém, da Noite e da Floresta

Enchia de terror meu pensamento,

Como um sopro boreal que me gelava a testa.

Não sei se era visão, filha do Mêdo,

Se verdadeira apparição nocturna;

Mas da sombra profunda do arvoredo,

Que o luar tornava muito mais soturna,

Vinham surgindo mysteriosamente

Phantasmas espectraes que eu distinguia

Através do sudário transparente

Como o primeiro alvorecer do dia...

E por deante de mim todos passavam,

E olhavam-me e choravam...

De mágoa ou compaixão,--não sei dizê-lo;

Mas tudo o que aos meus olhos evocavam

Parecia-me um longo pesadelo...

Eram os Sonhos, as Chimeras mortas

Na minha morta Phantasia,

Que do vasto sepulcro abrindo as portas,

Passavam nessa funebre theoria...

Projectos, Intenções, Ideias, Planos,

--Illusões d'um passado esquecido e desfeito,

Na areia que rolou da ampulheta dos annos

E que um vento de morte espalhou no meu peito.

Era a Noiva feudal esquecida a scismar

Na pompa e no esplendor em que o Sonho a envolveu,

Trazendo-me nas mãos, todas brancas de luar,

Como um tropheu perdido o espadim de Romeu!

Illusões juvenis d'odaliscas e fadas,

Helena, Laura, Ignez, romanescas e bellas,

E tu, Willi immortal das florestas sagradas,

Loira d'olhos azues, como duas estrellas!

Era a Glória, mas já sem a tuba estridente,

Que ingenuamente ouvi pela amplidão vibrar;

Era a Ambição, captiva a sua asa fremente,

Que tão alto esvoaçou, entre as nuvens e o mar.

Era o Orgulho... o Poder... a Riqueza... loucuras,

Chimeras juvenis do meu abril risonho,

Borboletas azues, larvas escuras

Que deslisaram no meu sonho...

Todas essas visões, d'aspectos sobrehumanos,

Por deante de mim, lentas, passavam...

E olhavam-me e choravam,

Como espectros de longos desenganos

Que os meus olhos das trevas evocavam...

E olhavam-me e choravam,

Sumindo-se nas sombras da floresta,

Aos primeiros clarões da madrugada

Como um rumor de festa,

Despertavam, partindo em revoada,

As aves a cantar. O sol rompia

E as derradeiras névoas dissipava...

Tudo cantava e ria!

Só eu chorava... só eu chorava...

Só no meu coração não despontava o dia.

Só eu chorava... só eu chorava...

Só eu soffria...

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 30 / 106 题