A AGUIA PRISIONEIRA

Aguia soberba a quem mão perversa d'escravo,

Num ocio de tyranno, os olhos arrancou!

E, a gosar d'esse feito o delicioso travo,

Da jaula hedionda a férrea porta escancarou...

A aguia, aturdida e cega, a principio esvoaçava

Rente ao chão, e a roçar com as asas na terra,

Sem saber d'onde vinha a dor que a lancinava,

Nem que mysterio aquella obscuridade encerra.

Mas na ancia de luz que a devora sem treguas,

Cobra o animo, e erguendo o vôo, a tudo alheia,

Lança-se para o azul, sobe leguas e leguas,

Sem poder dissipar a treva que a rodeia.

E tão alto subiu no seu vôo desfeito,

Que de repente, não podendo respirar,

Sentiu que lhe estalava o coração no peito,

E veio aos pés do escravo exanime rolar...

Alma humana! Aguia cega em perpetua anciedade,

Por mais alto que eleve o desvairado arrojo,

Quando julga atingir a suprema verdade,

No pó, d'onde partiu, cae outra vez de rojo!

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 28 / 106 题