A ARMADURA

Desenganos, traições, combates, soffrimentos,

Numa vida já longa accumulados, vão

--Como sobre um paúl continuos sedimentos,

Pouco a pouco envolvendo em cinza o coração.

E a cinza com o tempo attinge uma espessura,

Que nem os mais crueis desesperos abalam;

É como tenebrosa, impavida armadura

Ou coiraça de bronze em que os golpes resvalam.

Impermeavel da Inveja á peçonhenta bava,

Nella a Calumnia embota os seus dentes hervados;

Não ha braço que possa amolgá-la, nem clava

Que nesse duro arnez se não faça em bocados.

E no entanto, através d'essas rijas camadas,

Ou rompendo por entre as junctas da armadura,

Escorrem muita vez gotas ensanguentadas

Que o coração verteu d'alguma chaga obscura...

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 20 / 106 题