DESCENDO A ENCOSTA DO PARNASO

Quando moço, cantei, mas em formas discretas

Que nunca o meu segredo ousassem revelar,

Tudo o que sem mysterio a muitos outros poetas

Soube o Amor e a Paixão em voz alta inspirar.

Feliz, o Amor... nem mesmo ephémero sorriso

Deixou nessas canções memoria do seu rastro;

Desditoso, ficou como um luar indeciso,

Chamma d'oiro escondida em vasos d'alabastro.

A Dor, mal comprimida em gritos suffocados,

--O abandono, a traição, o esquecimento, o ciume--

Ennublou muita vez os meus olhos magoados,

Mas se ao labio acudia, era apenas queixume...

Éstos do coração, sobresàltos do instincto,

--Amor ideal, vehemente impulso do desejo,--

Tudo vinha em surdina ou echo mal extincto,

No meu verso expirar, como um simples arpejo.

Se a angustia me opprimia em continua tortura,

Para allivio a esse mal, que ninguem consolava,

Como alguem que a si proprio illudir-se procura,

Precisando de ouvir a minha voz--cantava!

Echo do meu soffrer, de tão fundo partia,

Que deixando ao passar todo o amargo travor,

Essa voz, rara vez, murmurando trahia

O secreto pungir da primitiva dor.

Mas de cada palavra ou gesto contrafeito

Em que ella se disfarça, a alma profunda evoca

Os lamentos e os ais suffocados no peito,

Todos os gritos vãos que morreram na boca!

No escrinio da Canção as lagrimas vertidas,

Brilham sob a expressão em que a Dor se transforma,

Como gotas de luz, d'olhos tristes caidas,

A tremer no cristal transparente da Fórma.

Mal se adivinha a dor, no esmalte que a reveste;

Mal se vê no sorriso um esgar de tristeza;

A Dor, na alma do artista, é como um dom celeste,

Que lhe ornamenta a vida e se expande em belleza.

Mas por entre o fulgor das gemmas, no artificio

Da phrase que a primor o artista cinzelou,

Quem soffreu sente ainda o estertor do supplicio,

O desespero e a dor d'onde a estrophe brotou.

A Arte [f]az da paixão arabescos risonhos;

Muda em graça verbal todo o grito pungente;

--Galateia a scismar, olhos cheios de sonhos,

Que a um sopro vão partir da pupilla dormente...

Harpa de Sylpho aereo a ressoar no vento,

Caricia quasi etherea, o Verso é um desafogo...

--Mel na boca a sorrir, emquanto o soffrimento

Sobre a nossa alma imprime os seus lábios de fogo!

D'esse beijo profundo, as angustias e as dores,

Se em imagens procura o artista convertê-las,

Espinhos entrelaça em grinaldas de flores,

E lágrimas combina em mosaicos d'estrellas.

Mas o vulgo, á belleza e á graça inaccessivel,

O espirito banal, nunca pode sentir,

A mágoa que por trás da palavra insensivel,

Como ave triste, espreita, emboscada, a carpir!

Só almas d'eleição commungam no mysterio

Que á Dor empresta o encanto e a seiva que a renova,

Como á flor que sorri num chão de cemiterio,

O amargo coração que se desfaz na cova.

Só ellas, através d'um molde tão restricto

Como esse em que a palavra as emoções fixou,

Alcançam entrever não sei quê d'infinito

No minuto de sonho em que a Dor se embalou...

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 18 / 106 题