ELEGIA DE ABERTURA

_Elegia d'abertura_

_A minha Lyra tinha uma corda:

Emquanto môço tanto cantei,

Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa accorda,

E quer de novo pôr-se a cantar,

Ninguem a corda pode emendar.

Era uma corda que só vibrava

Quando a minh'alma toda chorava,

E tantas mágoas, tantas, cantei,

Que a pobre corda despedacei.

O Amor e as penas da Mocidade,

Chimera ou Sonho de cada dia,

Eram os themas que ella escolhia.

Porém um dia veio a Saudade,

D'olhos vidrados e humedecidos,

Poisar-lhe os dedos emmagrecidos...

Então, vibrando, toda chorosa,

Sob esses dedos, brancos de cera,

Mais angustiada nunca gemera!

E uma alma nova tão dolorosa,

Com tanta mágoa nella ressôa,

Que um ai supremo despedaçou-a!

Desde esse instante, nas minhas penas,

Sem essa corda que me sustinha,

--Pobre Saudade! chora sósinha...

Manhãs d'estio, tardes serenas,

Occasos d'oiro, nocturno ceu,

Para os meus olhos, tudo morreu!

Mas a Saudade, no meu tormento,

Geme e soluça com tanta mágoa,

Que, a ouvil-a, os olhos enchem-se d'água,

E sem um grito, sem um lamento,

Minh'alma vive na dor que a enleia,

Como uma aranha na sua teia...

A minha Lyra tinha uma corda:

Emquanto moço tanto cantei,

Que a pobre corda despedacei.

Agora, ás vezes, se a Musa accorda,

E quer de novo pôr-se a cantar,

Ninguem a corda pode emendar...

A Mocidade não pensa em nada,

E a pobre corda vi-a quebrada

Quando tocava mais afinada...

A Mocidade não pensa em nada_!

I

Sol de Inverno ultimos versos : 1915 · 第 16 / 106 题