PRIMEIRA PARTE.

Ao valor dos Portuguezes deve o Imperio da China ver-se livre dos

piratas, que por duas vezes pertenderam dominalo. A primeira foi obra

dos Lusitanos do seculo XVI: a segunda de seus descendentes nossos

contemporaneos, a tempo que seus irmãos na Patria anniquilavam as aguias

do oppressor da Europa. Depois que no seculo XVI os piratas foram

destruidos, tentaram formar novo partido; e pouco a pouco engrossaram

seu numero e força de modo, que em 1805 estavam senhores de grande

esquadra, bem guarnecida de artilheria, e com perto de quarenta mil

homens de tripulação. Tendo morrido o Chefe dos piratas ficou sua

mulher, não só herdeira do posto, mas tambem da sua audacia no exercicio

da piratagem. Assim que tomou posse do commando de tão grande poderio,

dividio-o em duas esquadras, e deu o commando dellas a dois parentes do

marido, que mais se tinham acreditado debaixo das suas ordens. A

primeira e mais possante coube ao celebre _Apócha_, que depois se chamou

_Cam-pau-sai_, e onde sempre residio a viuva. _Apau-tai_ foi commandar a

segunda, composta de 130 embarcações, e com bandeira preta.

Cam-pau-sai, homem forte, ardiloso e emprehendedor, depois de ter

ganhado o affecto dos seus, teve arte de dispolos a executar qualquer

empreza que imaginasse. Com effeito concebeu projecto tão elevado, que

bem se pode comparar com o de Afonso de Albuquerque, quando pertendeu

tirar da Meca o corpo do Profeta, e mudar a direcção do rio Nilo,

fazendo-o desaguar no mar roxo para anniquilar desse modo os Turcos no

Egypto! Cam-pau-sai tentou coroar-se Imperador dos Chinezes, e lançar a

dynastia Tartara para o Norte da grande muralha, que a divide da China.

Começou a fazer guerra tão atroz, que não só paralisou o commercio

maritimo nas costas meredionaes do Imperio, mas tambem fazia

desembarques no continente, e arrasava todos os logares por onde

passava. Sendo a Cidade de Cantão a mais rica e a mais commerciante,

quiz embaraçar alli o negocio com os europeos. Para esse fim veio postar

suas forças na emboccadura do rio Tygre, e em todos os canaes que formam

as ilhas visinhas de Macáo. Assombrando assim Cam-pau-sai os mares das

ilhas da China com seu poder, não se limitou a perseguir seus irmãos

Chinezes, tambem se atreveu a insultar os navios da Europa.

Vendo o Governo de Macáo o risco em que ficava, rodeado de immensa força

inimiga, na estação em que todos os navios da praça se achavam ausentes;

mandou a Bengalla fazer um brigue para ficar de guarda costa, em quanto

estes não se recolhiam: porque em os piratas sabendo, não haverem navios

dentro do porto, que os fossem acommetter, chegavam quasi ao alcance da

artilheria das nossas fortalesas, para embaraçarem os mantimentos, que

todos os dias entram na Cidade.

Deu-se tanta pressa á factura do brigue, que do momento em que se lançou

a quilha no Estaleiro, até sair da barra fóra, só mediaram vinte e oito

dias! Quando chegou a Macáo estavam os piratas tam destemidos, que o

Governo julgou ser insufficiente tão pequena força, para os afastar da

Cidade. Comprou mais o navio Arriaga, a que deu o nome de Ulises, e

mandou-o armar, abrindo-lhe uma bateria na coberta.

Assim que estas duas embarcações começaram a bater os piratas, estes não

ousavam aproximar-se dellas. Com tudo ainda faziam damno ao commercio;

porque os nossos vasos não podiam entrar nos pequenos canaes, onde elles

o interceptavam. Alli podia a esquadra Imperial fazer-lhe algum ataque;

mas o respeito devido a Cam-pau-sai, tirava a lembrança de o

acommetterem. Passou o anno de 1806, e parte de 1807, sem que os piratas

arriscassem entrar em combate com os nossos. Esperavam achalos

separados, e em parte onde não se podessem soccorrer; no entanto iam

devastando a provincia de Cantão.

Meado o anno de 1807 achou o nosso brigue em boa posição para atacalo.

Mandou uma divisão commandada por um de seus Capitães mais

experimentados, que o fosse combater. Commandava o nosso brigue, o

valente e destemido _Pereira Barreto_. Já nesse tempo havia adquirido

tam grande credito entre os Chinezes, que lhe chamavam o Tygre do

mar.[5] O impavido _Barreto_ tinha valor para investir com toda a

esquadra de Cam-pau-sai, quanto mais com uma de suas divisões. Assim que

a julgou ao alcance da artilheria, virou sobre ella fez-lhe fogo tão

vivo, e estrago tão grande, que todos fugiram deixando a Capitanía ás

mãos com o brigue. Vendo o forte _Barreto_, que a artilheria inimiga éra

de maior calibre, resolveu abordar o Taó[6]. Deve imaginar-se uma grande

lancha dando abordagem a uma Náo. Assim parecia o brigue junto ao Taó, e

apenas tinha um quinto da equipagem do navio inimigo. Todavia o forte

_Barreto_ dirige a sua embarcação á pôpa do Taó. Quando se lhe botavam

os arpéos lançaram os piratas uma balça de fogo dentro da prôa do

brigue, que decerto o abrazaria, se o previdente _Barreto_ não corresse

a lançala ao mar. A este tempo unem se as embarcações; _Barreto_ é o

primeiro que trépa pelo Taó acima, e tão depressa pôde firmar os pés

sobre a tolda inimiga, cantou victoria:

_Saltando a fará só com lança e espada

De quatro centos mouros despejada_[7]

_Barreto_ usava de espada colubrina, e manejava de sorte que dos setenta

homens, equipagem do brigue, os que poderam subir disseram, que chegando

acima, viram a tolda coberta de mutilados! Achou o nosso heroe tão

porfiada resistencia, que todos foram mortos porém nenhum vencido, ou

aprisionado. Os que pertenderam escapar aos golpes do nosso Marte irado,

lançaram-se ao mar. O seu Chefe, vendo-se perdido desceu á camara, pegou

em sua mulher pelos cabellos, cortou-lhe a cabeça com o alfange, e

sepultou-se no mar com ella.[8]

Este combate foi dado perto de Macáo; _Barreto_ conduzio immediatamente

a preza ao porto. Os macaenses e muitos estrangeiros, foram logo dar o

parabem a tão valente Capitão, e ver o navio inimigo. Ficaram

horrorisados da carnagem, porque os piratas só se rendiam com a morte.

Haviam seculos, que já se não faziam d'estas proezas; e até nos parecia

impossivel, que no tempo de Camões, D. Lourenço de Almeida fosse

bastante para debellar em uma Náo da Méca quatro centos mouros. Mas

ainda em nossos dias mostra o entendimento supremo, que um portuguez só

com seu braço é sufficiente para destruir em um Taó mais de 300

Chinezes.

Esta verdade precisa quasi de tanto valor para escrevela, como para

obrala, ainda sendo evidente ao escriptor; mas é qualificada pelos

habitantes de uma cidade, onde residiam subditos de varias nações. Já o

nosso Diniz cantou as victorias de outro Barreto; justo é que tão divino

estro sirva para immortalisar os dois.

_Lavremos pois, oh! Musa, á gran memoria

Com argivo buril padrão sagrado:

Morda-se o tempo irado,

Que ella eterna fará a clara historia

Alma que atraz da fama immenso espaço

Corre, veja em meus hymnos

Que em vão não sua bellicoso braço._[9]

Por feito tão assombroso ficou Macáo em socego. Os piratas retiraram-se

para longe, mas sempre fazendo estrago em tudo que podiam vencer. A

esquadra imperial com a noticia d'esta victoria animou-se a sair de

Cantão e aproximar-se de Macáo, cruzeiro que ella já não ousava fazer

com receio dos piratas. A brilhante proeza do invicto _Barreto_ fez

desapparecer das ilhas da China aquella praga devastadora: por

consequencia o Governo de Macáo mandou recolher as suas embarcações.

Sabendo-se na China, que o Sr. D. João VI tinha deixado Portugal para

reinar no Brazil; lembraram-se os macaenses de mandar cumprimentar o Rei

dos Lusos nas suas possessões do polo antarctico. Apromptaram o navio

Ulises, nomeando para ir saudar El-Rei, pelo Senado, ao honrado cidadão

Antonio Joaquim de Oliveira Matos; e deram o commando da embarcação ao

denodado _Barreto_. Destinando-se aquella enviatura a obsequiar o Chefe

dos Lusos, pensaram não ser pequeno mimo fazer-lhe conhecer quem tanto

honrava o nome portuguez. Foi o nosso heroe recebido no Brazil, quasi da

mesma sorte que os Dias, e os Gamas, recolhendo-se de suas trabalhosas

viagens, eram recebidos pelos antigos reis portuguezes. O Sr. D. João VI

o elevou de primeiro Tenente a Capitão de Fragata: Premiou os macaenses:

deu-lhes distinctivos, que foram assaz estimados, talvez por se

esquecerem das altas virtudes de seus maiores, que os despresavam por

bons costumes.

Affastado Cam-Pau-Sai de Macáo por temer os portuguezes, não esfriou em

sua empreza. Começou então a proclamar a todos os do seu partido a

tyrannica oppressão, que sofria o imperio, por consentirem no thorono a

intrusa dinastia barbara. Demonstrou-lhe quão facil éra depôr aquella,

restabelecer a Chineza, e fazer a cada um dos seus regulo do imperio.

Tal pericia desenvolveu na piratagem, e na persuasão, que já os seus não

duvidavam ser elle o unico capaz de restaurar a dignidade da Patria.

Andavam assim de animo affeito á guerra, quando tiveram a feliz noticia,

de já não existir em Macáo o _tygre do mar_. Voaram como bando de Açores

famintos a devorar tudo quanto podiam encontrar pelas ilhas visinhas de

Macáo. Não esperando o Almirante Chinez aquelle infausto encontro,

cruzava afoito na bocca do Tyre. Assim que foi descoberto por

Cam-pau-sai, carregou sobre elle. Uma divisão imperial de 28 navios de

15 a 20 peças cada um, que não fugio para fazer-lhe frente, ficou

prisioneira. Soberbo com essa victoria, começou de novo a investir as

embarcações da Europa, e as macaenses. Nesta epoca alguns navios

Americanos se poderam escapar ao abrigo das nossas fortalezas.

Recolhendo-se de Goa o brigue do _Botelho_, Capitão Manoel José Vianna,

foi visto dos piratas; carregaram sobre elle; mas acharam tão grande

resistencia naquelle esforçado Capitão, que restando apenas seis homens

da sua equipagem, com elles fazia grande estrago ao inimigo. Com tudo o

fogo abrandou, pelo cansaço; mas vendo Apautai, que não arreavam

bandeira, mandou abordalos. O impavido Vianna ao ver-se rodeado de

torres ambulantes e coberto de lanças, longe de esmorecer, tomou em sua

alma o espirito de Duarte Pacheco; e á imitação dos nossos _Barretos_,

quantos inimigos lhe saltavam na sua embarcação, tantos a sua espada

lançava no abysmo. Os Chinezes espantados já não o julgavam homem, mas

sim algum ente superior á especie humana. Parecia invulneravel! Com tudo

morreu no combate. Mas como? Cançado de matar piratas.

_Cem paráos torreados,

Donde por boccas mil brota Mavorte;

Entre horrorosos brados_

_Em fogo, em fumo, em sangue envolta a morte

Zarguchos, flexas, que em chuveiro voam._[10]

Tal foi o combate supportado pelo Magnanimo Vianna. Com a sua morte

ganharam os piratas tal audacia, que tiveram a ousadia de passar com o

navio prisioneiro, e com a bandeira de rasto, á vista de Macáo. A

sensação que fez esse triste espectaculo nos moradores daquella cidade é

inexplicavel. Juraram não só retomar a sua embarcação, mas tambem dar

aos piratas o castigo merecido. Os navios que então se achavam no porto

capazes de tal empreza, eram o brigue do _Senado_, e o navio Belisario.

O brigue achava-se desarmado, e desaparelhado, assim como o Belisario.

Seriam nove horas da manhã, quando se avistou o navio apresado; e antes

de anoitecer já os nossos iam no alcance da esquadra inimiga! Como foi

possivel obrar tanto em tão pouco tempo? Tudo se deveu á generosidade

dos macaenses, e ao estimulo dado pelo incançavel Arriaga. Este digno

Ministro, honra dos togados, e columna forte da gloria nacional, não se

limitou a ser o primeiro em votar, e concorrer com meios para o

desempenho desta empreza. Pesando a importancia da cidade, e o perigo em

que ella se achava, resolveu sobre sua defeza penhorar todas as forças

sem perdoar as despezas, diligencias ou perigos. Foi com seus braços dar

exemplo aos macaenses mais distinctos, que todos trabalharam na

promptificação dos navios.

Era este varão entre os macaenses bem similhante á alma dos estoicos,

espalhada pelo universo. Estava em toda a parte. Seria preciso

eloquencia extremada e presencear todos os seus illustres feitos, para

elogiar as altas qualidades deste preclaro varão: sem isso não é

possivel apparecerem tão brilhantes como foram praticados.

Por não haver então em Macáo Official de mar, que se julgasse dextro na

politica, ainda que todos sobrepujavam, no valor, deu-se o commando em

chefe ao Capitão de artilheria José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa.

Sustentou este invicto heroe, em toda a lucta contra os piratas, a

dignidade portugueza de modo, que bem se parecia com o primeiro Capitão

Lusitano, que aportou naquelle imperio.[Nota 2^a] Theotonio da Silva

Braga, commandava o navio Belisario. Caío tão grande tufão na noite

seguinte ao dia em que saíram os navios, que se julgava telos

submergido.

Ao amanhecer subirão os montes, sobranceiros á cidade, anciosos por ver

seus campeões; avistaram o brigue do _Botelho_, que tendo surgido em

Lantáo prisioneiro, e ficando-lhe abordo os portuguezes restantes do

combate, assim que o tufão soprou do Oriente, cortaram as amarras e

vieram encalhar na Taipa. Os macaenses exultaram com este successo, e

muito mais por avistarem o brigue, e o Belisario, que pela grande

pericia de seus officiaes tinha escapado á furia do tufão.

Havia tambem uma lorcha armada em guerra[11] commandada por Antonio José

Gonçalves Caroxa: mancebo activo e destemido. Era commando de difficil

desempenho; por ser a embarcação conductora dos viveres para os nossos,

levados por entre os inimigos em frequentes combates. A força da lorcha

constava de quatro pedreiros, um obuz de doze, e trinta homens de

tripulação. Algumas vezes aconteceu estar encorporada aos nossos navios,

quando batiam os piratas. Se o acaso permittia accalmar o vento, nessas

occasiões fazia o nosso Caroxa maravilhas extremadas.

Desejava Cam-pau-sai encontralo, onde não podessem defendelo os nossos,

para mais a salvo descarregar sobre elle seu poder, e seu odio. Teve

quem lhe desse dia certo em que a lorcha havia passar por logar, onde

Cam-pau-sai podia satisfazer seus desejos. Amanheceu o dia aprasado, e o

novo _Aquilles Lusitano_ chegou ao passo, que bem pode nomear-se

Cabalão[12]. Achou-o coberto de inimigos: mas julgando urgente o

desempenho da sua commissão, tentou abrir caminho. Ainda que a sua

tripolação era toda de Chinezes, tinha a sua disciplina: julgou que isso

bastava.

Os inimigos tentaram rodealo; mas o intrepido Caroxa lançou mãos ao

obuz, e como o reparo era de pião, jogava para todos os lados. Aos que

se lhe aproximavam cortava-os com metralha; e aos que estavam mais longe

passava-os com balas. Mas os navios inimigos eram tantos, que mal podia

desbaratar a todos os que lhe vinham ao alcance. Com tudo apezar de ver

a maior parte da tripolação morta, não esfriava no empenho de vencer.

Não usava render-se, nem fugir; cada vez mais afouto pertendia

desembaraçar o passo. Mas os restantes da tripolação vendo passar-lhe as

ballas pelo vestido, sem lhe offender o corpo, e irem matar os seus

companheiros; por que não lhes succedesse o mesmo, ousaram lançar-se a

elle, e amarralo de pés e mãos. Segurando assim o homem, que lhes

parecia invulneravel, fugiram para a cidade, onde o entregáram cheios de

espanto e de temor, dando por desculpa do seu arrojo, o muito que

apreciavam a existencia do seu commandante.

Os macaenses receberam o destemido Caroxa com estimação digna dos

importantes serviços, que lhes fazia, e do valor com que se

immortalisava. Mas o conselheiro Arriaga sobresaía a todos. Tinha

maneiras singulares para introduzir heroismo nos homens, que destinava a

emprezas arriscadas. O sentimento lugubre, que mostrava pela morte de um

marinheiro habil, ou o elogio feito a outro que se distinguia, dava a

todos cobiça de se verem acatados e elogiados por elle. Nesta occasião

um abraço dado no Caroxa, em nome da patria fortaleceu a alma deste

Lusitano de modo, que só elle em sua lorcha, com outra equipagem, se

julgava sufficiente para arrostar com todos os piratas.

Em verdade, onde as leis são respeitadas, a sociedade é livre: e os

homens serão livres em toda a parte, que houver governo justo como era

então o de Macáo. Longe de envejar a seus concidadãos as vantagens,

grangiadas por sua industria, cuidava com muito desvelo em augmenta-las.

Não só deixava de opprimilos; mas assegurava a sua liberdade; bem

precioso ao homem, e necessario á sua ventura; tão distante da licença

perigosa, como da humiliação servil. O governo providente apenas liga as

mãos aos homens para não se offenderem; mas deixa-os trabalhar sem

obstaculo para a sua felicidade; sabe que a ignorancia não só deslumbra

os homens mas tambem os faz pusillanimes e desgraçados: a razão e a

liberdade melhoram o coração e os faz virtuosos e resolutos.

Arriaga sabia que a justa destribuição dos premios e das penas é a

melhor acção do governo sobre o povo: servio-se destas principaes molas

do coração humano, para animar a virtude e o merito; e obrigar o

interesse particular a promover o interesse publico. O certo é que a

virtude desapparece, quando o vicio é honrado. Algumas vezes lhe ouvi eu

que os favores dados á incapacidade, são roubos feitos ao merecimento; e

as recompensas dadas a quem bem serve a patria são dividas, que o

governo paga por ella. Fui testimunha das bençãos, que lhe lançavam os

macaenses pelo muito que se occupava da sua ventura.--Fazia do

merecimento dos homens estimação tão justa, que nem á conveniencia, nem

ao estado ficava devedor: virtude nos principes difficultosa, e nos

ministros rara[13].

Os temerarios, que tinham amarrado o invicto Caroxa, foram excluidos do

serviço portuguez. Tomou nova tripolação e continuou a destruir os

piratas. Cam-pau-sai vio constantemente frustradas, quantas diligencias

fez para o tomar.

Logo que amainou o tufão, partiram os nossos em procura do inimigo.

Acharam reunidas as esquadras de Cam-pau-sai, e Apau-tai, nos canaes de

Wam-poo, em 15 de Septembro de 1809. Assim que avistaram os navios

Macaenses, suspenderam, mas os nossos carregaram sobre elles.

Cam-pau-sai empenhou-se no combate; fez entrar nelle os seus melhores

navios: mas o fogo violento das nossas embarcações fazia-lhe tal

estrago, que saindo elles do alcance da nossa artilheria, poucas ficavam

em estado de entrar segunda vez no fogo. Com tudo cevados de raiva, e

avidos de gloria, a fim de illudir os povos do seu partido, ainda bem

uns não se tinham retirado, já outros tomavam o logar vago. Não sendo o

Belisario construido para guerra tão violenta, abrio com o impulso da

artilheria; tornou-se incapaz de combater: retirou-se. O invito

Alcoforado não podendo vencer força tão superior tambem se retirou, mas

deixou em cinzas muitas embarcações inimigas.

É sempre a guerra origem fecunda de calamidades, vexames, e ruinas para

os povos. Appareceu na China o torbulento Cam-pau-sai, para estrago de

seus moradores, e vexação dos macaenses. É evidente, que o conquistador,

não é só inimigo dos povos, onde recruta; mas tambem se torna flagello

do genero humano. Sim a guerra sobrecarrega os povos de impostos, e

raras vezes o tumulto dos combates deixa ouvir as supplicas da

justiça.[14]

Os macaenses tiveram nesta occasião motivo para julgar quão forte éra o

inimigo: e Cam-pau-sai a ufania de fazer retirar dois navios

portuguezes.

Apezar da perda que sofreu, ficou mais altivo, e mais assolador. Exaltou

o espirito dos Chinezes de modo, que se levantaram em Cantão partidos de

descontentes. O Suntó prevendo a ruina, que ameaçava o Imperio, tratou

com o Governo de Macáo para reforçar a esquadra portugueza, e junta com

a Chineza cruzar nos mares daquellas ilhas, afim de livrar o commercio

das duas cidades, e portos contiguos. O Governo macaense testimunha do

vexame em que se achavam os moradores da cidade, e dos gastos que tinham

feito em guerra tão dilatada, mal podia convencionar com os Chinezes,

por ser a empreza mui dispendiosa. Com tudo o magnanimo Arriaga, a quem

nada parecia impossivel decidio o Governo macaense a tratar com o de

Cantão, e fez-se a convenção seguinte:[15]

O Governo das duas provincias de Cantão e Quang-si, e o de Macáo,

igualmente convencidos da precisão, que tem de pôr fim ás invasões dos

piratas (os quaes sem temor infestam os mares, que cercam estas duas

cidades) de restituirem a publica tranquillidade, e as relações

commerciaes, formarão uma guarda costa, combinando a força dos dois

governos: para esse fim nomearam os seus plenipotenciarios: Cantão, os

mandarins de Nam-hay, Shon-key-chi, de Hiang-sam, Pom, e o da Caza

branca, Chu: Macáo ao Conselheiro Arriaga, e ao Procurador do Senado,

José Joaquim de Barros; os quaes depois de terem respectivamente

communicado os seus plenos poderes, e discutido a materia, concluiram e

ajustaram os artigos seguintes:

1.^o Haverá uma guarda costa, de seis navios portuguezes, conbinada com

uma esquadra imperial; cruzará seis mezes, desde a bocca do tygre á

cidade de Macáo, a fim de embaraçar que os piratas não entrem nos

canaes, que até agora tem infestado.

2.^o O Governo chinez obriga-se a contribuir com oitenta mil taés para

ajudar o armamento dos navios portuguezes.

3.^o O Governo de Macáo fará logo cruzar os dois navios, que tem

armados, e apromptará com brevidade os quatro restantes.

4.^o Ambos os Governos devem ajudar-se em tudo o que for a bem do

cruzeiro, o qual não se estenderá além dos pontos determinados.

5.^o As presas seram repartidas entre os dois Governos.

6.^o Quando a expedição finalisar serão restituidos aos macaenses os

seus antigos privilegios.

7.^o As partes contractantes obrigam-se a cumprir tudo quanto se

estipulou nos mencionados artigos sem alterar cousa alguma, e a

consideralos como ratificados em virtude de seus plenos poderes. Macáo

23 de Novembro de 1809.

Shou-Key-chi.--Arriaga.

Pom.--Chu--Barros.

O governo de Macáo observou logo o 3.^o artigo. Arriaga entrou a

promover os aprestos dos navios restantes, mas o thesouro do Senado não

podia suprir a tão grandes despesas. Arriaga tomou de seus amigos

grandes sommas sobre o seu credito: então era valor de sobejo para os

negociantes, que lhe offereceram quanto possuiam[16].

Havia na cidade pouca gente para tripolar os navios se não suprissem os

prodigios obrados pela gente portugueza.

_.....Tornando frio

De espanto o ardor immenso do oriente,

Que verá tanto obrar tão pouca gente._

Mojatecão, observando e experimentando o valor dos portuguezes em Diu,

exclamou:--São dignos de que os sirvam as outras gentes. A fortuna do

mundo está em serem poucos.--Em verdade com cem portuguezes, e sete

centos manillas e cambojas, se fez á véla a esquadra (seis dias depois

da convenção) levando por chefe o destemido Alcoforado, na galera

inconquistavel. Luiz Carlos de Miranda commandava a Pala, Anacleto José

da Silva o Indiano, Antonio José Gonçalves Caroxa, o brigue do Senado,

José Felis dos Remedios o navio S. Miguel, José Alves o Belisario. Nesse

mesmo dia attacáram e dispersaram os piratas, que se retiraram para mais

longe de Macáo.

O governo de Cantão, não foi activo como o dos macaenses; além disso a

esquadra chineza nem uma só vez chegou a auxiliar os nossos. Tanto medo

tinham de Cam-pau-sai, que nem ao lado dos portuguezes se atreviam

acommettelo. O governo de Macáo vendo assombrada toda a provincia de

Cantão, pelo grande vulto, que faziam os piratas, resolveu despresar os

soccorros da esquadra imperial, e anniquilar só o grande poder de

Cam-pau-sai. Mandou pelo chefe Alcoforado intimar-lhe, que se entregasse

á obediencia do imperador, promettendo-lhe perdão, e gráo superior na

classe mandarina.

Entraram os chefes am correspondencia: o nosso pedia ao dos piratas, que

viesse a Macáo para tractarem de convenção amigavel: declarando-lhe, que

se não conviesse com elle, poria em acção todos os recursos da guerra, e

não descançaria sem exterminalo.

Campau-sai, respondeu:--Tenho presente a vossa carta: não me assusta.

Desejo fazer a paz com os portuguezes, com tanto que não entendam

comigo. Quanto a submetter-me ao imperador, jámais o farei, ainda que me

assegureis e digais o que quizerdes. Sô não terei duvida no que tenho

acima dito. Quando abraceis esse partido, podeis retirar-vos para Macáo,

e mandai-mo dizer para não entender com os vasos portuguezes. Esta

resposta de Cam-pau-sai, firmada no dia 18 de Dezembro de 1809, foi

moderada em razão de ter sido atacado e batido pelos nossos em 11 do

mesmo mez.

Em quanto estas cousas se passavam entre Alcoforado e Cam-pau-sai, deu o

imperador amnistia a todos os piratas, que se lhe entregassem. Apau-tai

receando o valor dos nossos, julgou conveniente entregar-se. Concordou

com os principaes da sua divisão: rendeu-se com cento e trinta

embarcações bem equipadas de homens e de armas.

Trahido Cam-pau-sai pelo amigo, que mais estimava, ficou magoado por ver

a pouca perseverança dos homens, ainda mesmo os que tem as mais intimas

relações de interesse, parentesco e amisade; mas era tal o seu animo,

que nenhuma desgraça o intimidava. Mais atrevido ainda mandou apromptar

a esquadra do seu commando a fim de concluir seus designios.

Alcoforado aproveitou-se da cobardia de Apau-tai, attacou, e fez retirar

Cam-pau-sai. Logo depois mandou-lhe dizer, que assim como Apau-tai, o

havia abandonado, assim o fariam os outros seus companheiros; e

diminuidas assim as suas forças seria obrigado a entregar-se

prisioneiro: que era melhor capitular já, alcançando honra e interesse,

como lhe tinha promettido e affiançado. A esta segunda instancia

respondeu Cam-pau-sai pelo modo seguinte.

Hontem recebi uma carta vossa mui persuasiva: conheço o desejo que

tendes de me ver em Macáo: fico-vos agradecido por tão singular obsequio

e estimação.

Estando sobre os mares, como no centro de um reino, no qual empunho o

sceptro do poder, e governança para todos os que me obedecem, vivo muito

occupado. Não é simples negocio o governo de um reino: eis o motivo por

que não cumpro o vosso desejo.

Agora todo o meu empenho é restaurar e possuir as terras deste orbe:

assim ficarão completos os meus desejos. Digo-vos ingenuamente este é o

fim a que me proponho. Tenho muitas embarcações, e mantimentos para

longo tempo: nada me falta. Vendo que me estimaes, por isso vos dou a

conhecer o meu projecto.

Se quizerdes emprestar-me quatro navios para fazer com elles o que me

aprouver, mais depressa restaurarei o imperio. Depois dar-vos-ei duas o

tres provincias a vosso contento. Asseguro-vos a fidelidade da minha

promessa. Se não podeis agora mandar-me os navios seja quando vos

convier.

Ha muitas pessoas, que me aconselham para render vassalagem a um

tartaro! São exortações baldadas. Possuindo esta esquadra com a divisa

da bandeira vermelha, farei com ella os maiores esforços para restaurar

o imperio. Já mandei apromptar a minha esquadra, para se dirigir á bocca

do rio tygre; a fim de bater os imperiaes. Tenho outros assumptos a

communicar-vos, porém agora não o posso fazer. Basta o conteudo desta,

para viveres na intelligencia do meu firme proposito. Dezembro 26, de

1809.

Desenganado Alcoforado de que não conseguia a entrega dos piratas sem

fusão de sangue, começou de novo a batelos. Os nossos estavam já tão

praticos nos canaes das ilhas da China, que os piratas apenas lhe

escapavam nos pequenos rios, onde os nossos vasos não podiam entrar.

Cam-pau-sai usou entreter as embarcações portuguezas com alguns Taós, em

quanto a dextrava os seus no exercicio da artilharia, tomando por

mestres os americanos inglezes, que tinham aprisionado.

Era tão sagaz e ardiloso, que nos encobria seus planos com extranho

recato. Em 21 de Janeiro de 1810, julgou-se em estado de poder vencer a

frota macaense. Pairava esta junto á ilha de Lantáo, quando entraram a

levantar do oriente os piratas alinhados em divisões. Nesta occasião

obrou o invicto Alcoforado tão grandes prodigios, que só poderam ser

cantados antes, pelo nosso Diniz.

_A fiel ave, que arma vigilante

O grão furor a Jove.

Quando sobre os mortaes os raios chove

A dextra coruscante,

Tão rapida ao rebanho temeroso

Não cala, a garra abrindo, das estrellas,

Como o varão famoso

Sobre as immensas velas

Cahe de grande ira armado

Treçando denodado

A féra espada, e torna em seu estrago

O azul oceano em roxo lago._[17]

Considere-se uma lagôa com seis leguas de diametro, semeada de ilhas e

syrtes, onde apenas Galerno encrepava a superficie das aguas. A esquadra

portugueza constando de seis navios, sendo o maior de quatro centas

tonelladas, e o mais pequeno de 120: guarnecidos todos com 120 peças de

artilheria; e 700 homens. A esquadra inimiga, de 300 vasos, com mil e

quinhentas peças de artilheria, e mais de 20:000 homens aguerridos,

commandados por chefe valoroso e desesperado. Neste conflicto o famoso

Alcoforado, treçando denodado a féra espada mandou atacar. Foi sentelha

electrica lançada no coração dos seus companheiros. Dirigiram-se os

nossos á vanguarda das columnas inimigas despresando suas hostilidades

até chegar a tiro de espingarda. Nessa distancia uma descarga de

metralha punha em fugida o navio, que a soffria. Alguns mais destemidos

arribavam para sotavento afim de metter os nossos entre dois fogos;

manobra que estes concertavam para lançar-lhes a morte por todos os

lados. O fumo mal lhes dixava vêr as embarcações portuguezas, cercadas

pelas suas. O astuto e bravo pirata, julgava que dividindo os nossos

poderia destruilos; e o chefe portuguez julgando ter Marte em cada um de

seus companheiros quiz dar a todos motivo para demonstrarem a sua

pericia e desmedido valor. Ficaram deste modo os navios macaenses no

centro de cada circulo dos piratas: assim os raios despedidos do centro

levavam á circumferencia o estrago, o horror, e a morte. As balas da

circumferencia, raras vezes acertavam no ponto central: qualquer

desmancho nas pontarias fazia com que empregassem as balas nos seus

mesmos companheiros. Todos os Commandantes portuguezes adqueriram fama

neste dia; mas ha acasos em uma batalha, que fazem uns mais distinctos

do que outros. O navio commandado por _Luiz Carlos de Miranda_, na maior

força do combate, deu em escôlho: Cam-pau-sai, vendo aquelle navio

encalhado, considerou-o em desordem; mandou carregar sobre elle, a ver

se podia principiar o seu triunfo por destruilo. Mas o denodado Miranda,

vendo perigos por todos os lados, resolveu debellar o inimigo, ou não

saír com vida do conflicto. Entre o valor e a desesperação (ultimo

sentimento das almas grandes), disse a seus companheiros:--Creio não

haver entre nós quem regeite a immortal gloria, que este feliz dia lhe

destina: assim faça cada um o seu dever. Mandou empregar a gente da

mareação nas baterias, e diffundindo o seu valor em toda a equipagem,

fez tão grande estrago no inimigo, que já este não tinha animo para

acommettelo. Emquanto debellava os piratas, o fluxo das aguas tirou o

navio do escôlho.

O Caroxa tambem fez cousas admiraveis. Deparou-lhe o acaso o Taó do

pagode.[Nota 3^a] Logo que assomou o deposito do erro, virou sobre elle;

e emquanto não o lançou no abismo, não descançou. O templo, os bonzos,

os idolos tudo foi submergido no orco. Esta proeza do atrevido Caroxa

lançou o espanto e o horror no espirito de todos os piratas. A vista dos

seus deuses espedaçados, e levados, á discrição das aguas, tirou-lhes de

todo o animo: apenas ousaram largar as velas todas, e por entre syrtes

foram abrigar-se na bocca do rio de Hiang-san: logar onde os nossos

vazos não podiam entrar.

Não ha cores assás vivas para demonstrar a sua confusão na fugida.

Cam-pau-sai medío então as forças macaenses ainda mais pelo valor, do

que pelo seu atrevimento. Os nossos cantaram victoria! Mas incançaveis

na destruição do inimigo, não deixaram de perseguilo até á bocca do rio.

Alli formou o previdente Alcoforado apertado bloqueio a Cam-pau-sai. Só

o deixou saír para entregar-se.

Cam-pau-sai resolveu entregar-se, mas uma das principaes condições éra

de ser Miguel de Arriaga fiador de tudo quanto se ajustasse no acto de

capitulação; e que só trataria com os imperiaes, estando elle presente.

Logo que o Governo de Macáo recebeu esta participação do chefe

Alcoforado, remetteo-a ao Suntó, e este dirigio-a ao Imperador.

Succedeu nesta occasião um facto, que muita honra faz á memoria do

generoso Arriaga. Quando se tratava da entrega dos piratas, chegou a

Macáo, um novo _Ouvidor_, e segundo a lei, Arriaga deu-lhe posse do

logar. Mas Cam-pau-sai, e os mandarins, logo que o souberam avisaram o

Governo de Macáo, não poderem entrar naquella negociação com o Ouvidor

novo, mas sim com o antigo; já por saber este melhor daquelle negocio,

já porque só com elle Cam-pau-sai capitularia. O Senado e todos os

macaenses desejavam o mesmo; pois éra publica a grande reputação, que

Arriaga havia entre os Chinezes. Foi completa a vontade geral; e é só em

táes occasiões, que padecendo a lei exultam os povos. O Ouvidor Peixoto

começou no exercicio das suas funções: mas o famoso Arriaga continuou a

tractar deste importante negocio.

Em quanto os nossos bloqueavam a esquadra inimiga, e Arriaga ajustava a

capitulação com os mandarins, aconteceu outro facto, que muito honra a

memoria do invicto Alcoforado. Logo que a frota portugueza saío de

Macáo, convidou elle o chefe dos piratas para entrar em Macáo, e tractar

alli da sua capitulação: mas Cam-pau-sai confiado em suas forças

respondeu pela negativa como fica dito. Agora vendo-se obrigado a fazer

o que então recusou, pedio ao nosso Alcoforado a mercê de honralo com

uma visita para ter o gosto de o conhecer pessoalmente.

Alcoforado mandou apromptar um escaler para satisfazer Cam-pau-sai mas

os seus espozeram-lhe ser grande temeridade entregar-se a um pirata.

Esta lembrança foi acompanhada da responsabilidade, e isso obrigou

Alcoforado a chamar os commandantes das mais embarcações,

communicou-lhes o convite de Cam-pau-sai, e a deliberação, que havia

tomado. Todos acordaram com os Officiaes do seu navio, menos elle, que

fallou da maneira seguinte.--Grande é meu contentamento por ver o

empenho, que fazeis para não me arriscar nesta visita; seja por

estimardes a minha existencia, ou por julgardes em mim algum prestimo.

Confesso-vos, que tão grande é o vosso empenho, quanto mais firme se

torna a minha resolução: já porque recusando este convite ficará mui

cerceada a nossa reputação já porque seria o primeiro signal de fraqueza

da esquadra Macaense: se for traída a minha boa fé, tereis novo

incentivo para anniquilardes o inimigo vingando-me. Asseguro-vos que

vendo-me Cam-pau-sai, em seu navio, de coração socegado e alma firme,

tremerá de vós--Todos o escutavam com attenção: e ás ultimas palavras

cada um desejava ser Alcoforado: Mas a gloria de sacrificar-se pela

honra da Patria, e pela humanidade, só a ella pertencia, naquella

occasião. Despedio-se e partio para a esquadra inimiga. Assim que passou

a primeira embarcação da vanguada[Nota 4^a]:

_Sonorosas trombetas incitavam

Os animos alegres resonando:

Dos_ Chinas _os bateis o mar coalhavam,

Os toldos pelas aguas arrojando.

As bombardas horrisonas bramavam

Com as nuves de fumo o sol toldando._[18]

Ao chegar Alcoforado ao navio de Cam-pau-sai, veio este recebelo ao

portaló, e o conduzio pela mão á camara. Alli trocáram as mais apuradas

civilidades. Cam-pau-sai, estudando o modo de obsequiar o nosso heroe,

não achou outro mais capaz de lisongear a sua alma, do que offerecer-lhe

pela honra, que lhe tinha feito, a liberdade de todos os prisioneiros

europeos, que tinha em sua esquadra. O presente foi recebido com

demonstrações proprias de captivar o offerente pelas cadêas da amizade.

Cam-pau-sai assegurou-lhe, ser então o seu maior empenho não o ter por

inimigo; pois havia experimentado o valor dos portuguezes.

Demonstrou, que arriscando uma batalha, poderia ter a vantagem de saír

do bloqueio com as embarcações mais veleiras, para onde não podessemos

incommodalo; porém que a honra daquella visita o tinha penhorado de

modo, que estava resolvido a entregar-se com toda a esquadra; vista a

promessa que lhe fizera o ministro Arriaga, de quem formava alto

conceito, e a quem de boa vontade se rendia.

Alcoforado afiançou a promessa do ministro, mostrando-se pesaroso em não

depender só delle a capitulação para em tudo a fazer a contento de

Cam-pau-sai. Disse mais:--como chefe da esquadra macaense, tenho ordem

para destruir a vossa, se tentardes saír daqui: e serei obrigado a

fazelo por ser usança portugueza romper as linhas da amizade, quando

assim o urgem as precisões do estado. Espero de vós não ter occasião

para rompelas. Assim o prometteu Cam-pau-sai; e o nosso Alcoforado,

levantou-se:

Lembrai-vos de como se despedio Luiz XI, quando visitou o nosso Affonso

V;[19] ajuntai-lhe os requintes das ceremonias asiaticas, e julgai da

separação destes guerreiros; não querendo ceder um ao outro a primasia

em affectos delicados. Com tudo não pôde Alcoforado impedir a

Cam-pau-sai, de acompanhalo até ao escaler em que partio para a sua

frota. Ao entrar nella salvaram todos os navios, e os marinheiros

subiram ás vergas para todos a um tempo lhe darem os emboras.

Em quanto os chefes se visitavam cuidava-se em Macáo; no ponto, onde se

faria a entrega da esquadra inimiga, visto ser da vontade de

Cam-pau-sai, entregala aos portuguezes. Lucas José de Alvarenga,

governador militar daquella cidade, obstou a que os macaences tivessem

mais esse dia de triunfo. Temeu gente, que estremecia só de ouvir fallar

das façanhas portuguezas[20]. Assim foi Arriaga obrigado a concluir este

importante negocio fóra de Macáo.

Avisou os mondarins, _Chu_, e _Pom_, que viessem ao pagode[21]:

ajustaram alli, que o logar do congresso seria na villa de Hiang-san e

fizeram aviso aos delegados do imperador para se acharem alli em dia

aprazado. Juntaram-se os mandarins do destricto, os mandarins da côrte,

e o nosso Arriaga, que foi recebido entre elles com singular distincção.

Já o congresso deliberava sobre a capitulação, quando chegou de Macáo a

relação do que se tinha passado entre os chefes das esquadras. A ousadia

do atrevido Alcoforado não só penhorou Cam-pau-sai, mas tambem os

mandarins, que pasmados do que ouviam, ficaram por algum tempo notando o

gesto e maneiras com que o magnanimo Arriaga captivava as suas vontades.

Tornando o congresso de novo os seus trabalhos, caminhou o negocio com

mais rapidez; pois dalli em diante estavam os mandarins quasi sempre de

accordo com o nosso ministro. Convieram em mandar a Cam-pau-sai, que

viesse com sua esquadra para Chumpin, onde elles se deviam tambem

reunir: e ordenaram ao chefe Alcoforado, que levantasse o bloqueio. As

ordens foram derigidas a Cam-pau-sai, em direitura, e a José Pinto

Alcoforado, pelo governador de Macáo: homem pouco experiente dos

costumes chinezes, e cobarde, por isso demorou a ordem do congresso. No

dia seguinte recebendo Cam-pau-sai, a que lhe fora dirigida, levantou

ancora e principiou a velejar para fora. Alcoforado, ignorando as ordens

do congresso, e vendo a esquadra inimiga em movimento, mandou suspender

a sua, e manobrar de modo hostil. Cam-pau-sai, percebeu logo haver

desintelligencia: ordenou á sua frota, que amainasse e surgisse.

Sabendo-se no congresso da imprudencia do timido Alvarenga, dirigio-se

Arriaga a Macáo para animalo, e os delegados do imperador tomaram a

resolução de ir á esquadra portugueza certificar ao chefe o que se tinha

tractado com o ministro.

Assim que o nosso Alcaforado vio em sua embarcação dois chinezes de

cabaias amarellas, conheceu a gerarquia dos hospedes; por ser côr

privativa da familia imperial. Tractou-os com a cortezia devida á

civilidade chineza. Rogaram ao chefe portuguez, não compromettesse a

palavra de Arriaga, nem a delles, para com o chefe dos piratas, a quem

tinham mandado dizer, que velejasse para Chumpin, e a elle Alcaforado,

que o deixasse saír; que a inexperiencia do governador, não devia

embaraçar a execução dos poderes dados pelo Senado ao ministro Arriaga.

Alcoforado respondeu:--aprecío muito a honra, que me fazeis--e desejo,

ainda mais, ser-vos util: porém as leis militares entre nós executam-se

sem discrepancia. Tenho ordem do governo para bater a esquadra inimiga,

se tentar saír, em quanto não houver outra em contrario, não posso

deixar de fazelo.

Os mandarins tornaram-lhe:--Homem recto e valoroso, conhecemos os

serviços que tens feito ao imperio, e á tua nação: não offusques essa

gloria deixando outra vez as costas da China cobertas de piratas.

Cam-pau-sai ainda tem grandes recursos: não o irrites. Grande parte da

provincia de Chin-cheu segue o seu partido: sabes que é povoada de

homens marcantes, robustos, e denodados; a gente creada sobre as ondas é

audaz, e ardilosa; em pouco tempo equiparão outra esquadra para

obrigar-te a levantar o bloqueio; assim apezar do teu valor, e do

esforço macaense, teremos guerra eterna. Pedimos-te, pelo que mais

estimas, modefiques as ordens que tens, a fim de Cam-pau-sai não

desconfiar da nossa palavra.--Nesta occasião chegou a ordem de Macáo,

por diligencia de Arriaga, para Alcoforado levantar o bloqueio, e seguir

Cam-pau-sai para Chumpin. Mui contentes ficaram os mandarins: partiram

satisfeitos para o logar do congresso, onde já acharam o nosso Arriaga.

Mandou-se nova ordem a Cam-pau-sai; no dia immediato surgio no logar

aprazado.

Mandou-se a bordo cumprimentar o chefe dos piratas, e convida-lo a

entrar no congresso, onde devia firmar a sua capitulação. Promptamente

chegou: ao entrar na salla dos congregados, conheceu por vestiario e

gesto, o nosso ministro: dirigio-se a elle e fallou desta maneira.

Grandes motivos me fazem render e tractar comvosco da minha capitulação,

para entrar na classe dos Coláos, como mo promettestes pelo imperador.

Mas confesso-vos, que o principal foi conhecer o fulcro da lavanca

destruidora do meu poder. Já vos vi: estou satisfeito. Devo muito á

natureza, e á minha assidua applicação; mas em tudo me acho vencido por

vós.--E virando-se para os mandarins:--Tendes por experiencia de 14

annos, quão poderoso e vigilante foi o meu sceptro: sabei agora da minha

bocca, que o valor portuguez foi quem o destruira. Aqui me tendes em

vossa presença: espero que me trateis como a homem livre, e destemido--E

tomou assento.

Disseram-lhe que para exemplo era preciso castigar alguns dos seus, que

fossem mais criminosos.--Para satisfazer a esse requisito, darei os

nomes de 14 faccinorosos, que existem na esquadra. Paguem com suas

cabeças as atrocidades que fizeram, e eu desaprovei.--Sendo este o unico

embaraço que havia, concluio-se o negocio.

Cam-pau-sai declarou ter ainda uma divisão de 80 embarcações, que antes

de vir attacar a esquadra macaense, tinha mandado para Chin-cheu receber

os tributos do anno passado; mas que por aviso seu viriam entregar-se.

Ordenadas assim as cousas principaes, tractaram da forma porque se devia

repartir a preza; visto são ser o artigo 1.^o da convenção preenchido

pelo Governo Chinez; e ter só a esquadra macaense reduzido Cam-pau-sai a

capitular.

Já o Ministro Arriaga tinha mostrado aos Chinezes, quão valoroso e

sensivel éra o seu coração; mas então quiz mostrar-lhe quanto éra

liberal. De tudo quanto existia na esquadra de Cam-pau-sai, exigio a

melhor parte das bombardas: tudo o mais deixou á disposição do

Imperador. Os companheiros de Cam-pau-sai ficaram cidadãos chinezes;

elle Coláo do Imperio; e as cabeças dos 14 criminosos, para exemplo dos

malevolos, foram espetadas em paos no istmo que devide, a cidade, da

ilha de Macáo, onde ficaram até serem consumidas pelo tempo.

Concluida a capitulação, disse Cam-pau-sai, ao Conselheiro

Arriaga:--Ainda tenho um favor a pedir-vos. Pertendo ir a Macáo, se me

concederes licença, para ter o gosto de ver todos os meus vencedores--O

Ministro agradeceu: e dissolveu-se o congresso, saindo todos os seus

membros cheios de alegria e admiração: Arriaga, da inexplicavel

civilidade e sciencia dos mandarins da côrte, ou coláos! Cam-pau-sai, da

pessoa, e do espirito de Arriaga! Os coláos! de Cam-pau-sai, e de

Arriaga! Tudo lhe parecia prodigioso. Mal podiam capacitar-se de ver

livre o imperio do flagelo, que o tinha assolado em 14 annos continuos.

Assim que Arriaga entrou na cidade, tractou do triumfo dos heroes

macaenses, que éra ao mesmo tempo o seu. A caza deste illustre varão

tinha para elles a mesma consideração, que o Capitolio para os romanos.

Não foi este triumfo tão aparatoso no exterior como os de Cesar, ou o de

D. João de Castro em Goa. Mas os corações de todos os habitantes de

Macáo exultavam de prazer até alli nunco visto nem sentido.[Nota 5^a]

Em Maio chegou a Cantão a noticia de não querer entregar-se a divisão

rebelde, despresando a ordem do seu antigo chefe. Avisou-se a

Cam-pau-sai da conducta dos piratas, e Pedio-se-lhe o desempenho da

palavra dada no acto da capitulação. Respondeu:--Rebellada a divisão a

primeira vez contra a minha ordem não devo mandar-lhe outra. Tenho

recurso mais prompto. Dai-me sessenta embarcações das que foram minhas,

deixai-mas tripolar com os que já me obedeceram; e se não trouxer os

rebeldes dou a minha cabeça. Lembro-me que podeis desconfiar da minha

palavra: deixarei em refens o que possuo de mais apreciavel; dois filhos

que me deu a natureza. Se sois pai, avaliareis a qualidade do penhor.

O Suntó: apezar das demonstrações de firmesa e honrada conducta de

Cam-pau-sai, recusou entregar-lhe a esquadra que elle pedia. Mandou

apromptar uma frota imperial de perto de duzentas embarcações, e bem

equipadas com parte dos instrumentos de guerra que tinham sido de

Cam-pau-sai. Saío esta de Cantão e foi encontrar o inimigo. Em pouco

tempo veio entrar em Macáo fugida, e derrotada pela divisão rebelde.

Chegando esta noticia a Cantão, o Suntó mandou perguntar ao Conselheiro

Arriaga, o que deveria fazer ácerca do offerecimento de

Cam-pau-sai.--Que se estivesse no seu logar, tornou Arriaga, tinha

aceitado os serviços de Cam-pau-sai, logo que elle os offereceu, sem lhe

tomar refens; pois esperava delle tudo quanto é proprio de honralo, e de

utilisar ao imperio.--

O Suntó com tal resposta, mandou entregar a Cam-pau-sai sessenta

embarcações, e tudo quanto pedio. Largou o novo Almirante de Cantão

deixando a todos em expectativa. Dirigio-se a Macáo, onde estava tudo

prompto para recebelo. Em dia assignalado foram os commandantes da nossa

esquadra[Nota 6^a] com os bons moradores da cidade a caza do Ministro

Arriaga. Ainda bem o não tinham cumprimentado, annunciou-se a entrada de

Cam-pau-sai. Foi conduzido á Sala. Acabadas as civilidades requintadas,

segundo o costume Chinez disse:--Deus immortal, estão completos os meus

ultimos desejos, vendo e abraçando heroes tão sublimados--Brilhava o

jubilo no rosto de todos vendo Marte humilhado em sua presença.--Acha-se

neste circulo o valoroso commandante da Lorcha Leão? Desejo

conhecelo--Aqui me tendes respondeu o _Caroxa_. Cam-pau-sai caminhou

para elle, abraçou-o: e virando-se para o Ministro disse:--Este homem

fez mais damno ao meu poder, do que toda a vossa esquadra. Eu fui

vencido: mas quem disputando a gloria aos portuguezes dirigidos por vós,

ficará victorioso. Cedo vos mostrarei como venço a outra gente.

--Tenho conhecido em vossas acções, disse Arriaga, que sois varão

assignalado. Agradeço-vos por todos o alto conceito, que de nós fazeis:

affirmo-vos ser o maior premio de nossas fadigas, ter-vos elevado á

ordem dos Coláos, onde fareis a ventura da vossa patria, e as delicias

do Imperador. Imitai os vossos vencedores promptos sempre a dar a vida

pela restauração da gloria nacional, pelos seus direitos, e pelos do seu

Monarca legitimo. Lembrai-vos de todas as acções que lhes vistes

praticar:[Nota 7^a]

_E julgareis qual é mais excellente,

Se ser do mundo rei, se de tal gente._[22]

Se a liberdade, a propriedade, e a segurança são as unicas linhas, que

prendem os homens á terra onde habitam, e ao rei; senão ha amor de

patria, onde não existem estas vantagens; julgue-se pelo amor dos

Portuguezes ao rei e á patria, das qualidades do Senhor D. João VI. Paga

o amor que lhe temos usando do seu poder, para oppôr barreiras fortes, e

dar remedio ás paixões dos subditos, sem que possamos conhecer as suas

proprias paixões.[23]

_Do vosso nome um grão Rei

Neste reino Lusitano

Se poz esta mesma lei:

Que diz o seu Pelicano

Pela lei, e pela grei_[24]

Em todo o tempo, que esteve em Macáo o celebre Cam-pau-sai, foi

surprendido pelas maneiras singulares com que o obsequiou o ministro

Arriaga: mas foi obrigado a saír de Macáo para em breve desempenhar a

sua commissão. Em poucos dias encontrou a divisão rebelde, a quem fez

saber que era o Almirante da esquadra imperial pela seguinte:

_Procclamão_.

Camaradas e amigos, sei que duvidastes da minha ordem: fizestes bem.

Lembrastes-vos sem duvida, que era falsa; ou eu ter sido obrigado pela

força a escrevela. Não: assignei-a por minha vontade. Se ainda o

duvidais, vinde ouvilo da minha bocca. Dir-vos-hei tambem os motivos,

que me fizeram render. Neste mundo ha dois caminhos a seguir, o do bem,

ou o do mal. Todos desejamos seguir o do bem, mas somos muitas vezes

lançados pelo erro em precipicios. Em outro tempo vos aconselhava eu a

seguirdes o meu partido; mas então ainda eu não havia encetado o caminho

do bem. Hoje conheço que marchava pela estrada do erro, afastado da

vontade do maior numero. O imperio tem povoação summamente grande; e o

nosso partido a seu respeito é summamente pequeno. Não podeis negar-me,

que é preciso haver desmedida ambição nos poucos, que pertendem

apossar-se do que é de muitos. Não é conforme ás leis do imperio, nem ás

do entendimento supremo. Todos devemos concorrer para a felicidade dos

outros homens; e no caminho em que andavamos deivairados, faziamos a sua

desgraça[25]. Exposta assim a verdade a vossos olhos, espero não

duvideis abraçala; e quando useis tenacidade, em vosso erro,

experimentareis pela primeira vez o meu rigor.

Os rebeldes não attenderam ás rasões de Cam-pau-sai: julgando-se

superiores em força, cresceu, a sua audacia; responderam com despreso.

Cam-pau-sai dispoz os seus de tal sorte, que dando sobre os rebeldes, em

poucas horas os que não se afundaram, ficaram prisioneiros. Navegou com

elles para Macáo; a fim de mostrar ao ministro Arriaga, e a todos os

macaenses, a verdade do que lhe havia dito.

Entrou alli a divisão rebelde em estado tão deploravel pelo estrago

soffrido no combate, que levou muitos dias a concertar para ir a Cantão.

Cam-pau-sai largando o nosso porto, dirigio-se á _bocca do tygre_. Alli

encontrou o mar cheio de embarcações, que tinham vindo para o levar em

triumfo ao Suntó. É inexplicavel o contentamento, que o povo d'aquella

cidade teve nessa occasião. O Suntó obsequiou Cam-pau-sai de modo, que

se o imperador viesse a Cantão, não haveria mais nada a fazer-lhe para

honra-lo. Dirigio á côrte tão grandes recommendações ácerca do novo

Almirante, que o imperador mandou, que fosse a Pekim, para ter o gosto

de velo.

Partio Cam-pau-sai; e foi dando interessante espectaculo a todas as

villas e cidades, por onde passava. Todos ambicionavam ver o chefe dos

piratas (que tanto havia assustado o throno e o imperio) tornado uma das

pessoas mais interessantes ao mesmo imperio. Assim que entrou na capital

foi apresentado ao imperador: teve com elle larga conversação: depois

houve conselho de estado, em que foi Cam-pau-sai um dos seus membros.

Emprego superior aos ministros de Estado.

Pode-se julgar por este facto, qual é a politica do Governo Chinez. Já

não tinha que temer no mar; com tudo premiou Cam-pau-sai, não só para

cumprir o que havia promettido, mas tambem para se approveitar dos seus

conhecimentos e qualidades relevantes.[26] É provavel, que em quanto

elle for Conselheiro de Estado, não hajam piratas nos mares da China.

Tem adquerido tão grande reputação na côrte, que não só os particulares

mas tambem o Imperador o tracta com singular distincção.

Por mais que sejam plausiveis os motivos da guerra, sempre offende:

ainda custando só a vida de um homem, assim mesmo é funesta. A estatua

do vencedor é sempre banhada de lagrimas pelos vencidos. Todavia esta

guerra foi differente. Obrigados os macaenses por _Ladrões_ a defenderem

as vidas e a fazenda, mediram as forças mais pelo valor, do que pelo

numero; atacaram e venceram. Castigando malvados, lançaram todos os mais

ao seio da patria, nos braços de seus irmãos. Em logar de pranto de

vencidos, derramaram lagrimas de prazer trocando trabalhos e miserias

por vida socegada. Nesta guerra sempre os nossos attenderam mais á

humanidade, do que á vingança: fóra do conflicto das batalhas, não

houveram crueldades.

Quando o generoso Arriaga exigio, no acto da capitulação, a melhor parte

das bombardas de Cam-pau-sai, foi com intento de presentear com ellas ao

Senhor D. João VI. Recolhendo-se a Macáo, declarou o seu projecto no

Senado que de boa vontade assentio.

Já em 1642 o senado de Macáo mandára a El-Rei D. João IV, as bombardas

tomadas aos hollandezes, para com ellas romper de todo o jugo dos

Filippes. O mesmo senado em 1811 mandou ao Senhor D. João VI, a

artilheria tomada aos piratas da China, não só para mostrar-lhe a grande

força do inimigo vencido, mas tambem para com ella debellar as falanges

de Bonaparte.

A cidade de Macáo tinha perdido muitos dos seus privilegios. Os

chinezes, esquecidos do que os nossos antepassados tinham feito em

beneficio de seus maiores, já começavam a ver os portuguezes com a mesma

indifferença, com que olhavam para os outros europeos. Mas a serie de

factos brilhantes, paraticados no espaço de cinco annos, fizeram reviver

a nossa antiga reputação naquelle imperio.

[Figura]

_Nota_ (1.^a)

Lendo a pagina 253 da relação abbreviada da viagem de La-Perouse, as

falsidades alli escriptas em desabono dos Macaenses, não posso deixar de

as repelir. Começa dizendo não ter espressões para louvar o Governador

de Macáo. A paginas 255 rompe:--De grande importancia seria Macáo a uma

nação justa, e que tivesse firmesa e dignidade, contra o Governo Chinez,

injusto, oppressor e cobarde! Alli diz que o Governador de Macáo éra

optimo, aqui o Governo Portuguez não é digno, nem justo; e o Governo

Chinez, é reputado por elle o peior do mundo!

Se La Perou-se pertendeu fallar do Governo Portuguez em relação a Macáo,

tambem não foi exacto. Que mais poderia fazer El-Rei, ou os seus

delegados, do que nomear, para governar Macáo, um homem, que segundo o

juizo do mesmo La Perouse, estava prompto a sacrificar-se pela honra da

nação? La Perouse, queria achar nos Macaenses firmesa, que desse a todos

os europeos liberdade para irem á China quebrar as leis do Imperio como

elle mesmo fez desembarcando pelles por contrabando. E atreve-se a dizer

que o Governo Chinez é injusto, oppressor e cobarde! Como se poderão

avaliar os costumes e o caracter das nações pelo juizo de taes

escriptores? A Nação Chineza é independente; não quer ter communicação

com os Europeos; renuncía a ganancia do commercio exterior pelo socego

do Imperio. Todavia Le Perou-se, e outros europeos queriam achar em

Macáo homens que fossem agriolhar em Pekim o mesmo Imperador! Vesse

nesta memoria pelos judiciosos discursos dos Mandarins, quão falsas e

injustas são as invectivas de La Perouse contra os Chinezes e Macaenses.

_Nota_ (2.^a)

Quando louvo Fernão Peres de Andrade e outros navegadores e guerreiros,

tomo por base a justiça e as suas virtudes. Jámais escreveria este

opusculo, se a guerra feita aos piratas não tivesse por fundamento a

defesa natural, e o bem estar dos povos constituidos em sociedade.

Desta guerra resultou grande beneficio á humanidade. Eu louvo só os

Portuguezes que em épocas mais felizes, para nós, se conduziram com

valor e dignidade; e os que em nossos dias os imitam. Afonso de

Albuquerque foi respeitado ainda mais pelas suas virtudes perfeitas e

pela justiça, que praticava, do que pelo extremado valor.

_Nota_ (3.^a)

Era Cam-pau-sai tão extremoso em ardiz, que não lhe escapou de enredar

os seus no fanatismo para mais devotamente chegar aos fins dos seus

designios. Logo que os interesseiros bonzos lhe afiançaram o bom

resultado da empreza, lançou mão desses instrumentos do erro, que

degradam o homem para a classe dos brutos fazendo-os tirar o carro dos

conquistadores quasi sempre seus verdugos, mandou erigir-lhe um pagode

na maior embarcação, e deu o commando della ao Capitão mais

experimentado para defender de todo o risco o templo dos idolos.

Aqui temos Cam-pau-sai, pescador dos mares da China feito protector dos

bonzos, e reputado seu chefe.

Deram passos tão agigantados na estrada da superstituição, que já não

faziam guerra nem paz sem consultar o oraculo. Saíam todos os

commandantes de seus Taós para irem áquelle onde se achava o pagode

incensar os idolos, e ouvir do oraculo o que deviam fazer; isto é o que

o chefe dos piratas havia concertado com o principal dos bonzos.

Estes delirios julgados propicios aos seus intentos, eram favoraveis aos

nossos. Em quanto elles praticavam taes momisses, o valor macaense

anniquilava pagode, idolos, bonzos, e supersticiosos.

_Nota_ (4.^a)

Em quasi todas as circunstancias da vida, foi Alcoforado, digno de

eterna memoria: Na guerra fazia maravilhas extremadas; na paz, o juizo

de Mr. Arago, dá bem a conhecer o caracter do nosso heroe.[27] Eis como

elle o pinta.

--Parabens, meu amigo; chegamos a Diely.[28] Dir-te-hei o modo porque

fomos hospedados. Ás protestações de amisade cheias de franqueza, a

maneiras honestas e frequente agrado, é difficil ajuntar mais polidez,

nem mais desvelo para obsequiar-nos. Desde o primeiro dia a generosidade

do Governador, mandou á nossa meza, com profusão, os manjares mais

delicados. Queria mostrar, dizia elle, o prazer que sentia em brindar os

patricios dos maiores sabios do mundo.

Jantares sumptuosos, presididos pelas açafroadas bondades do paiz,

cobertas de joias; festas encantadoras, onde reinava a galantaria, mais

franca e mais activa, faziam desapparecer as horas, que voam nas azas do

prazer.

O Governador achou ainda outro modo de augmentar as provas da sua

generosa affeição: fez acceitar, a quasi todos, presentes; e fingia não

lhes dar valor para nos livrar de escrupulos. Chamava-se José Pinto

Alcoforado de Azevedo e Souza: mancebo amavel, jovial, e de

conhecimentos. O motivo de sua especie de degredo para Timor, pelo que

nos deu a entender, procedeu de causas politicas.[29] Ocupou-se com

desvelo em felicitar o paiz que lhe foi confiado: a sua administração é

doce. Os Rajaz não são aviltados pelo despotismo como succede em

Coupang. Pelo contratrio são tratados com amor.--

Já, em outras éras, menores virtudes de outro Souza foram assim

cantadas.

_Le généreux Souza, qui sut domter l'amour

Dans ces climats ardens oú son feu nous dévore,

Et q'aprés Scipion la vertu nomme encore._

_Nota_ (5.^a)

No dia 3 de Junho de 1810, cantou o honrado e benemerito cidadão José

Baptista de Miranda e Lima as virtudes do nosso Arriaga pelo modo

seguinte:

Á sombra de frondifera oliveira,

Por ti, ha tanto tempo, desejada,

(Graças ao creador Omnipotente.)

Te vejo, cara patria[N1] reclinada.

No pelago espaçoso, que te cerca,

Ja não vês tremular hostis pendões[N2].

Não ouves rebombar os horisontes[N3]

Com horrorosos tiros de canhões[N4].

De salitroso pó[N5] que antes servia

Para ao longe mandar lethaes pelouros

Se ferreos tubos hoje tu carregas[N6],

É só por festejar c'os seus estouros.

Centenares de Taós[N7] prenhes de tygres,

Que ao pé de ti rasgavam cruelmente[N8]

Meninas e donzelas delicadas

A teu Pai sujeitou[N9] o Eterno Ente.

Teu benefico Pai, o Arriaga[N10]

Estes tygres de Hyrcania domou

E a frondente oliveira, que te cobre,

Cortando mil obstaculos, plantou.

Jámais pois riscarão da fantasia[N11]

O nome deste Heroe da lusa gente:

E agora, que celebras seu triumfo,

De verde palma vai cingir-lhe a frente.

Da victoria este emblema para ornares,

Lindas flores procura designantes

D'aquelles predicados appreciaveis,

Neste filho de Lisia mui brilhantes.

O louro girasol, que sempre segue

O planeta, que os outros illumina[N12]

Designa a bem notoria lealdade

Do nosso Heroe á prole Bragantina.

Os rubros amaranthos, que resistem

Ao vento, á calma, ao gelo, symbolisam

A intrepida constancia nas empresas[N13],

Que o nome de Arriaga immortalizam.

A candida açucena, que dispende

Liberalmente o corceo, de que gosa

É symbolo do seu singello peito[N14],

Emblema da sua alma generosa.

O Lirio, que nascendo d'alta vara,

Sendo rei da florida monarquia

Para baixo a sublime frente inclina,

Sua clemencia designa, e cortezia[N15].

Das mais virtudes symbolos procura

N'outros lindos matizes dos jardins;

Não te esqueças das rosas rubicundas,

Dos junquilhos, dos cravos, dos Jasmins.

De ti receba agora esta corôa

Bem que inferior ao seu merecimento;

Em quanto outra melhor se lhe prepara

No reino superior ao firmamento.

_Notas de Antonio Francisco de Miranda e Sousa, Deão da Sé de Macáo._

[N1] 1.^a A patria é a cidade de Macáo.

[N2] 2.^a As bandeiras vermelhas e pretas das duas columnas inimigas.

[N3] ?

[N4] 4.^a Mil e oitocentas bombardas de diversos calibres entregou

Cam-pau-sai, e mais de mil Apau-tai, chefes dos piratas.

[N5] 5.^a Polvora, cuja fabrica Miguel de Arriaga estabeleceu em Macáo

em 1809, pelo Boticario J. J. dos Santos.

[N6] 6.^a Quando appareceu o retrato de El-Rei, na sala onde se

celebrava o triunfo, e onde se achava a nobreza, o clero, e nos seus

contornos, a melhor parte do povo da cidade.

[N7] 7.^a Embarcações de guerra. Cam-pau-sai entregou 3800 homens,

Apautai 2000.

[N8] 8.^a Só no canal de Hiangsan mataram mais de 15000 pessoas.

[N9] 9.^a Entrega de Cam-pau-sai á benevolencia de Miguel de Arriaga,

seu medianeiro para com o imperador da China.

[N10] 10.^a Miguel de Arriaga Brum da Silveira, ouvidor de Macáo.

[N11] 11.^a O nome de Miguel de Arriaga será lembrado não só na ilha de

Macáo mas tambem no imperio da China, pois o Suntó o mandou gravar em

seus annaes para haver delle eterna memoria.

[N12] 12.^a Grande e indefectivel zelo com que Arriaga trabalhou para

dirigir o Senado e o Governador, contra os inglezes, a fim destes não

arrebatarem esta cidade á nação portugueza.

[N13] 13.^a Contra a inveja, a intriga, e odio de alguns que mofaram da

empreza. A constancia de Arriaga foi quem nos deu a victoria.

[N14] 14.^a A candura, e inteiresa com que tratou a Cam-pau-sai, e ao

Suntó. Só o nosso Arriaga foi capaz de conciliar amizade entre aquelles

desavindos.

[N15] 15.^a Despresando difficuldades tratou sempre em Macáo os máos,

com a mesma clemencia que usava para com os bons, e tudo isso nascia da

sua nobreza de coração e das altas e perfeitas virtudes que possuia.

Em recompensa de tão relevantes serviços o conservou El-Rei D. João VI,

na ouvidoria de Macáo, sem limete de tempo, e d'ahi nasceram seus

imfortunios, e sua morte prematura.

_Nota_ (6.^a)

Entre os nossos heroes não haviam grandes patentes: a mais subida era a

do chefe, José Pinto Alcoforado de Azevedo e Sousa: Capitão de

artilheria. Em verdade para obrar grandes cousas não são precisos gráos

elevados. No tempo dos Andrades, Sousas, Pachecos e outros, que obraram

prodigios custosos de crer, por extraordinarios, tambem foram praticados

por homens, que sabiam honrar-se com o gráo do seu nome!

Para não ser extenso fallei só dos macaenses, que fizeram acções

extremadas. Se mencionasse todos os que nos cinco annos da guerra contra

os piratas, obraram cousas uteis, faria mui grosso o volume; porque

muitos foram elles, e todos merecem elogio.

_Nota_ (7.^a)

Quando os governos não excitam os homens á gloria, os concidadãos tem em

pouco a estimação publica. A maior parte dos homens são como o

negociante avaro: se armam não é com esperança de immortalisar seu nome.

Unicamente sensiveis ao ganho temem, que o navio se afaste do caminho já

sulcado; por este sabem elles não haverem novas terras para descobrir.

Com tudo recommendam ao piloto, que se por algum temporal for levado a

ilha desconhecida, e obrigado a surgir, não a explore nem reconheça os

habitantes: tome agoa e largue as velas ao seu destino sem lhe importar

descobertas[30]. Já não ha Zarcos nem Gamas! Sobre os mares deste mundo,

unicamente invejosos de honras, empregos, e riquezas poucos homens

embarcam a fim de explorar a naturesa[31]. Todavia o governo de Macáo

provou o muito que tinha excitado os seus concidadãos á gloria. Estes

para merecela, não receberam pensões, arriscaram a vida e prestaram a

fazenda. Graças aos macaenses; pela gloria que adqueriram, e pelo

desinteresse que mostraram, chegaram a par dos Castros e Albuquerques.

Memoria dos feitos macaenses contra os piratas da China e da entrada violenta dos inglezes na cidade de Macáo · 第 6 / 11 题