D. Joanna assigna: _Yo la reyna_.[75]

A desventurosa princeza morrera, pois, abraçada ao seu titulo de rainha,

que, a bem dizer, nunca passara de uma ficção, titulo sem realidade

duradoira que lhe correspondesse e o justificasse.

N’uma mensagem ao rei, appensa ao testamento, D. Joanna recorda que

fôra requerida para casar, e parece enviar-lhe documentos relativos a

essas negociações nupciaes. Dizem talvez respeito ao casamento que lhe

propuzera o viuvo de Isabel a Catholica. Mas, se nos não enganamos, ainda

mais uma vez se revela a fidalga altivez de D. Joanna, occultando o nome

de Fernando.

Por essa mesma mensagem se vê que o rei lhe havia promettido mandar

construir casa propria, que lhe era muito necessaria, _e logo,_ expressão

sua.

D. Joanna fez, porem, um segundo testamento, do qual encontramos noticia,

em termos que não admittem duvida, na _Historia seraphica_. É para

extranhar que nenhum dos seus biographos mencionasse a noticia a que nos

referimos, e pela qual se vê que a mallograda noiva de Affonso V mudara

de tenção quanto ao logar que escolheu para sepultura.

«Diziam uns, escreve frei Manuel da Esperança, que estava no sobredicto

mosteiro de Santarem (Santa Clara); outros, no de Varatojo, como havia

disposto no primeiro testamento, que depois revogou. Porem a todos

desenganamos com a luz de uma carta de el-rei D. Sebastião, a qual

passou em seu nome a rainha D. Catharina, que governava por elle na sua

menor edade, em 18 de fevereiro de 1558. Diz n’ella, que sua tia a

_Excellente Senhora ordenou por seu testamento, que se dissessem para

sempre no mosteiro de Santa Clara, de Lisboa, onde se mandou lançar, e

tem sua sepultura, seis missas cantadas em cada anno_. E ordena, que a

esmola das missas e azeite para as duas alampadas, se pague sempre pela

fazenda real. Foi escondido seu corpo dentro do seio da terra em a casa

do capitulo, e ainda que depois o trasladaram para sepultura alta, nem

porisso (_tão esquecida a querem_) lhe puzeram ou brazão ou epitaphio,

que a dê a conhecer. Só na pedra apparece este numero: 1545; mas não

declara se é o tempo da morte, se o da trasladação. Defronte lhe fica uma

vidraça, na qual se vêem de pintura as nossas quinas reaes, feita no anno

1541, como ella mesma diz.»[76]

_Tão esquecida a querem!_ pondera frei Manuel da Esperança.

Na sepultura d’essa mulher, que esteve para cingir duas coroas, podendo

dizer-se que por alguns dias as cingiu, nem um brazão, nem um epitaphio;

apenas uma data, que suppomos ser a da trasladação!..

Ao menos que, depois de tantos baldões, lhe não podiam tolher a paz do

tumulo, porto seguro onde os naufragos do mundo logram emfim descançar,

por mais que os vivos os esqueçam.

Defronte do sepulcro, uma janella por onde o sol entrava... Bem precisado

estava da amoravel visita da luz do céo o cadaver d’essa princeza, que

só conheceu na terra a luz sinistra das procellas guerreiras e das

tempestades diplomaticas!

Mas o seu destino obedecia a um mysterioso e sinistro mobil, que nem na

morte lhe permittia gosar absoluto descanço.

Vê-se pela carta regia de D. Catharina—que todavia não pudemos encontrar

na Torre do Tombo, nem nas gavetas, nem na collecção especial, nem no

corpo chronologico—que a _Excellente Senhora_ se mandara sepultar na

egreja de Santa Clara, de Lisboa.

Ora esta egreja foi derrubada pelo grande terremoto de 1755. Luiz

Cardoso, no _Diccionario geographico de Portugal_, manuscripto existente

na Torre do Tombo, diz, no tomo XX, livro 2.º, que o convento de Santa

Clara ficou excessivamente damnificado com o terremoto, e que a egreja

padeceu total ruina, ficando só em pé a parede da parte do norte.

Assim se perderam e confundiram nas ruinas de Lisboa os restos mortaes da

malfadada princeza.

Depois do terremoto, as freiras, sobreviventes, de Santa Clara, passaram

para o convento da Esperança, levando comsigo o que do seu cartorio poude

ser salvo. Esses papeis acham-se hoje na Torre do Tombo, mas nada dizem

com relação á _Excellente Senhora_, que nem depois de morta tivera o

repoiso eterno concedido aos cadaveres!

* * * * *

Ahi fica condensada, segundo os materiaes fornecidos pelos escriptores

castelhanos e portuguezes, a biographia de uma princeza notavel do seculo

XV, princeza que foi causa e pretexto de muitos acontecimentos politicos

d’essa epocha, e que, rainha sem reino, atravessou uma longa existencia

profundamente accidentada de desgostos e contrariedades.

Se as lagrimas, especialmente aquellas que se reprimem com nobre

heroicidade pódem ser uma santificação, D. Joanna merece uma pagina no

martyrologio das grandes dôres, no _Flos sanctorum_ dos martyres, nobres

ou plebeus, de que a historia conserva o nome.

Cremos ser a primeira vez que se coordena uma monographia, de maiores

dimensões, tanto quanto possivel completa, ácerca da _Excellente Senhora_

e do seu tempo. Lopes de Mendonça ao fechar, nos _Annaes das sciencias e

lettras_[77], um interessante estudo sobre a batalha de Touro, promettia

publicar, _brevemente_, outro estudo sobre a vida da princeza D. Joanna.

A promessa não poude ser cumprida. Procurámos prehencher a lacuna,

não certamente como o teria feito Lopes de Mendonça, mas como pudemos

fazel-o. E se o publico receber benevolamente este trabalho, novos

estudos historicos se lhe seguirão.

Resta-nos apenas dizer que se conhece um retrato, qualquer que possa ser

a sua authenticidade, da _Excellente Senhora_, copia do que se acha

na arvore genealogica de D. João I, manuscripto n.º 12:531 do _British

Museum_, de Londres. É o que vem nas _Rainhas de Portugal_, de Benevides,

tomo I, pag. 286.

Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV) · 第 26 / 40 题