Dom Fernando retirou, como dissemos, para Samora, e avisou do resultado
da batalha sua mulher, que estava em Tordesilhas. D. Isabel, recebendo
a noticia, ordenou que se fizesse uma procissão, em acção de graças,
á egreja de S. Paulo, indo ella propria a pé, e descalça. Mais tarde,
Fernando e Isabel fundaram, pelo mesmo motivo, o mosteiro de _San Juan
de los Reyes_, obra grandiosa, diz Lafuente, que ainda hoje se admira,
apesar das deteriorações que tem soffrido.
É para notar a circumstancia de que ambos os belligerantes se julgassem
vencedores, e agradecessem a Deus o triumpho alcançado.
O principe D. João, de Portugal, depois de acclamado rei, ordenou ao
concelho de Evora que em cada anno, nos primeiros dias do mez de março,
se fizesse uma solenne procissão para commemorar a batalha de Touro. Diz
o documento: «... e querendo nós ácerca desto nom menos fazer grato e
reconhecer a Nosso Senhor o que em nossos dias e presenças nos fez de
mercês com a batalha que houvemos em o reyno de Castella entre Touro
e Samora; ordenamos e mandamos que daqui em deante em louvor de Nosso
Senhor, e da Bemaventurada Virgem Maria sua Madre, e de S. Jorge e de
S. Christovam que o dicto dia traziamos por nosso padroeiro e nome, que
em cada um anno nos dois dias de março em que foi a dicta batalha, a
Cleresia toda dessa cidade façaaes solenne procissão...» etc.[48]
Frei Francisco Brandão diz que na batalha de Touro pertencera a Portugal
a gloria do vencimento, e a Castella o util da herança. É uma engenhosa
maneira de conciliar as coisas.
Em Lisboa tambem se fazia uma procissão para commemorar a supposta
victoria de Touro. D. João II mandou suspender a procissão quando em
1491 seu filho casou com a filha de Fernando e Isabel, porque, por esse
casamento, _todalas coisas passadas ouverom fim_, diz o proprio D. João
II.
É verdade que o voto da procissão podia até certo ponto explicar-se,
segundo as idéas do tempo, pelo facto de não ter soffrido damno algum a
pessoa do rei Affonso, de quem por algumas horas se ignorou o destino
na cidade de Touro, depois de finda a batalha. «Sendo já passado bom
pedaço do dia (seguinte), o principe chegou a Touro com a bandeira real
despregada, a o qual, como foi conhecido, o duque (de Guimarães) e o
conde (de Villa Real) vieram abrir as portas da cidade, e foi recebido
n’ella assim da rainha D. Joanna como de todas as mais pessoas com
assaz tristeza, por até então não terem novas nenhumas do que era feito
d’el-rei D. Affonso, e principalmente o duque de Guimarães que, depois
do principe ser em seu aposento, perante elle, e de todos os que com
elle estavam, depenando as barbas, e os cabellos da cabeça, fez grandes
prantos e lamentações, perguntando a os que fugiram da batalha, com
muitas lagrimas, por el-rei D. Affonso, dizendo-lhes que mal se poderiam
chamar cavalleiros, pois não sabiam dar conta nem recado de seu rei,
senhor e capitão, no que se passou um bom pedaço, sem o ninguem poder
acalentar, salvo o principe (postoque tivesse mór dor e tristeza que
nenhum dos da companhia), que com palavras prudentes fez tanto que o
duque cessou de se queixar mais do que o já tinha feito.»[49]
Mas, quando estavam todos n’esta incerteza, chegou recado que o rei
mandava de Castro-Nunho ao principe. Logo, como a noticia foi recebida,
repicaram os sinos na cidade, soando trombetas e atabales, que _toda a
perda da batalha se teve por nada em comparação de ser salva a pessoa
d’el-rei_, diz Goes, phrase que até certo ponto póde explicar a origem da
procissão de Evora.
Escreve Lafuente que o principe D. João recolheu a Portugal com
quatrocentos ginetes, «acompanhado de sua prima D. Joanna.» Os chronistas
portuguezes Ruy de Pina e Damião de Goes, parecendo este ultimo muito
bem informado, não dizem o mesmo. Segundo elles, o principe partiu na
semana santa de Touro para Castro Nunho, passando o rio em uma barca, e
os cavallos e bestas a nado, no sitio chamado Rico Vau. Na Paschoa estava
D. João em Miranda do Douro. D’ahi foi á Guarda, onde se avistou com
sua mulher D. Leonor. Descançou na Guarda alguns dias, sahindo depois
a correr todos os logares da fronteira, provendo ao que lhe parecia
necessario a fim de prevenir qualquer invasão.
D. Fernando resolveu pôr cerco a Cantalapiedra, onde estavam ainda muitos
fidalgos portuguezes. E D. Affonso, que se conservava em Touro, sabendo
que D. Isabel havia de passar de Madrigal para Medina, preparou-lhe uma
cilada, _aforrado com seis mil lanças_, mas porque o duque de Bragança
com outros, antes de tempo se descobriram, os castelhanos, conhecendo a
cilada, recolheram precipitadamente a Madrigal.
Abhorrecido por esta nova contrariedade, Affonso V partiu para Portugal
no principio do mez de junho de 1476, acompanhado pela _Beltraneja_.
Affonso V seguiu o itinerario de seu filho. Sahiu de Touro para Castro
Nunho, e veio passar a festa do Corpo de Deus a Miranda do Douro. Depois
ordenou que D. Joanna partisse para a Guarda, acompanhada do bispo de
Vizeu e do conde de Villa Real. Da Guarda, por ordem do rei, passou D.
Joanna para Coimbra, onde o principe D. João a visitou, e de Coimbra
passou finalmente para Abrantes, ao tempo que já o principe ia em caminho
do Porto, onde Affonso V estava fazendo preparativos de viagem para
França.
Julgara Affonso V que, indo em pessoa pedir auxilio a Luiz XI, lograria
attrahil-o á sua causa mais efficazmente do que a diplomacia pudera
fazel-o. Do Porto, enviou a França Pedro de Sousa a notificar a sua
resolução ao rei Luiz, e, despedido o emissario, veio D. Affonso embarcar
em Lisboa no mez de agosto. A armada que o devia acompanhar compunha-se
de dezeseis navios, com dois mil e duzentos homens. O rei ia a bordo de
uma urca preparada para recebel-o.
Arribou a Lagos a armada. Ahi, um celebre corsario francez d’esse tempo,
de nome Cullom, já antigo conhecido de Portugal por serviços prestados
em Ceuta, cumprimentou Affonso V, de quem foi recebido graciosamente. De
Lagos velejou a armada para Ceuta, e de Ceuta para França, com destino a
Marselha; chegada porem a Collioure, onde arribara por causa do tempo,
despediu-a Affonso V. Em Collioure, um capitão do exercito francez sahira
ao encontro do rei de Portugal para lhe dar as boas vindas em nome de
Luiz XI.
De Collioure jornadeou Affonso V para Perpignan, onde com grandes
honras foi acolhido pelas auctoridades locaes. De Perpignan passou por
Narbonne, Montpellier, Besiers e Nimes, seguindo d’aqui para Leon, vindo
encontral-o ao caminho o duque de Bourbon. D. Affonso não entrou em
Leon por causa da peste, e logo em Roanne recebeu outro enviado do rei
que lhe dava as boas vindas. Depois dirigiu-se a Bruges, onde descançou
alguns dias, e novos enviados de Luiz XI foram encarregados de lhe
fazer companhia. O logar da entrevista dos dois monarchas devia ser
Tours, e para ahi se dirigiu Affonso V, mas Luiz XI, pretextando uma
romaria, deixou varios cortezãos encarregados de receber o rei portuguez.
Visivelmente Luiz XI queria preparar effeitos scenicos, fazer esperada a
sua presença, tomar-se desejado.
Quando Affonso soube que Luiz XI se approximava, quiz sahir á rua,
ou pelo menos á escada, para o receber, mas o rei de França mandara
adeante dois fidalgos para impedir que Affonso V levasse tão longe a sua
cortezia. N’este facto revela-se perfeitamente o caracter de Luiz XI,
assim como o globo enorme do sol se espelha ás vezes n’uma pequena gotta
d’agua. Luiz XI fizera-se esperar; agora, mostrava-se requintadamente
cortez, quasi humilde. N’este traço está effectivamente concretizado o
caracter de Luiz XI, tal como elle resalta do perfil d’este rei traçado
pelos historiadores, e até pelos romancistas. O seu reinado foi um
combate de todos os dias, como diz Augustin Thierry,[50] pela causa da
unidade do poder e do nivelamento social, mas combate sustentado á
maneira dos selvagens, pela astucia e pela crueldade. D’ahi vem, observa
o historiador, a mistura de interesse e de repugnancia que excita em nós
este caracter tão extranhamente original.
Finalmente os dois soberanos encontraram-se a meio de uma sala. A
_mise-en-scène_ d’esta entrevista é curiosa. «El-rei de França, diz Ruy
de Pina, vinha com um só barrete na cabeça, tendo já d’ella tirado um
chapéo e duas grandes carapuças, e trazia solto um saio curto de mau
panno, e á cinta uma espada d’armas muito comprida, com a guarnição
de ferro limada, e umas botas calçadas, e nos pés as esporas do mesmo
jaez da espada, e ao pescoço uma beca de chamalote amarello, forrada de
cordeiras brancas muito grosseiras, e suas calças brancas ante-talhadas
de muitas côres. E ambos os reis com barretes nas mãos se abraçavam
inclinando os joelhos muito baixos.»
Como se vê, sobre ser original é pouco magnificente a _toilette_ do rei
de França. Accentua-se n’ella um tom de humildade, que convinha agora
a esse grande diplomata do seculo XV, para attrahir a si a victima
imprevidente.
Depois de conversarem algum tempo, retiraram-se os dois soberanos a uma
camara, onde Luiz XI indicou a Affonso V o que sem perda de tempo elle
devia fazer. Era, a seu juizo, o seguinte:
1.º Que o monarcha portuguez iria pedir ao duque de Borgonha, que então
estava em guerra com o de Lorena, que o ajudasse contra Castella, ou que
ao menos se compromettesse a não atacar o rei de França, que era pelo
duque de Lorena, emquanto Luiz XI guerreasse a favor do rei de Portugal.
A inimizade de Luiz XI com o duque de Borgonha era antiga, e violenta.
Este duque havia despojado dos seus Estados o de Lorena, a quem Luiz XI
auxiliava secretamente contra o inimigo commum.
«Quando D. Affonso V, escreve Pinheiro Chagas, intentava ingenuamente
reconciliar estes dois adversarios implacaveis, sitiara o duque de
Borgonha a cidade de Nancy, capital da Lorena, que se declarara pelo seu
legitimo senhor. Luiz XI ria-se _dans sa barbe_ da tentativa que o pobre
D. Affonso V ia emprehender, e esperava talvez que illudisse tambem
algum tanto Carlos de Borgonha, ao passo que as suas tropas caminhavam
secretamente com as do duque de Lorena, e que elle esperava, como o corvo
sinistro, os primeiros rumores d’uma derrota, para cahir sobre a presa
do campo de batalha, e cevar-se n’ella. Carlos de Borgonha, tinha só uma
filha, e Luiz esperava, com boas razões, apanhar-lhe a herança.»[51]
2.º Que Affonso V obteria do papa a dispensa apostolica precisa para
casar com sua sobrinha D. Joanna, a fim de que elle pudesse _ir em sua
ajuda com menos cargo_, diz Ruy de Pina. Era esta mais uma astucia de
Luiz XI, porque elle bem sabia que Fernando e Isabel creariam em Roma
grandes difficuldades junto do Papa. Era um meio dilatorio, no fundo; um
expediente palliativo.
A este tempo, já Luiz XI conhecia perfeitamente a credulidade
cavalleirosa de Affonso V. _Tomara-lhe o pulso_, como se diz em linguagem
vulgar. Começara então a fazer-lhe promessas e offerecimentos. Disse-lhe
que os castelhanos gostavam ás vezes de vender as fortalezas, e que
sempre lhe parecera melhor compral-as do que tomal-as. Que contasse com o
dinheiro que precisasse. E como fosse noite, e quando os dois sahiram da
camara já as tochas estivessem accesas, Luiz XI, imaginando proporcionar
a Affonso V uma noite bem passada, que o attrahisse mais para o prazer do
que para a questão de Castella, mandou pedir a Affonso V que acceitasse a
quantia de cincoenta mil escudos de oiro _para convidar qualquer gentil
dama, como era usança e cortezia de seu reino_.
D. Affonso V recusou este offerecimento. Elle tinha tido uma educação
austera, sob a direcção de seu tio D. Pedro; havia estimado tanto D.
Isabel de Lencastre, sua mulher, que ella poude sempre resistir ás
malquerenças que tinha na côrte; elle era o guerreiro d’Africa, o
soldado, o homem forte; não estava costumado ao prazer, ás noites de
sensualidade que tanto embriagavam Luiz XI. Portanto recusara.
A fim de tratar da dispensação para o casamento de Affonso V com sua
sobrinha D. Joanna, partiu para Roma uma embaixada composta de tres
representantes do rei de Portugal, os quaes iam animados da melhor fé,
e de dois do rei de França, os quaes naturalmente levavam instrucções
particulares para o pontifice.
Ao mesmo tempo, Affonso V partia para Nancy, a fim de se avistar com
o duque de Borgonha, que, como já dissemos, estava em guerra com o de
Lorena, e acampado na baixa Allemanha.
«E antes da sua partida, escreve Ruy de Pina, el-rei de França lhe disse
que pela pouca seguridade que tinha do duque de Borgonha, por ser muito
orgulhoso, duvidava que, tomando a cidade de Nancy, sobre que estava,
e destruindo o duque de Lorena, por seguir novidades quereria entrar
por França, e que com receios d’isto, pelos segurar, tinha sua gente na
frontaria, que daria causa a elle lhe não poder dar tanta ajuda, como sem
isso faria. Porem, que se por seu meio d’el-rei D. Affonso elles ambos
ficassem verdadeiros amigos, e se liassem por casamentos dos filhos, como
o duque por todas as razões devia querer, elle em sua ajuda poria a coroa
de França com todo o seu poder, e que el-rei devia requerer o duque, que
fosse com elle em pessoa; porque era bom capitão, e tinha muita gente e
singular intelligencia, e que sendo el-rei D. Affonso d’estas amizades
meio e segurador, cada um d’elles teria receio de os per si quebrar, pelo
não ter por contrario, _com os quaes muito cedo se faria pacifico rei de
Castella_.»
Sobre o modo por que Affonso V foi recebido pelo conde de Borgonha, filho
de Philippe, o _Bom_, apartam-se as opiniões dos historiadores.
Affonso V chegou ao acampamento a 29 de dezembro de 1476.
A situação de Carlos de Borgonha era a esse tempo quasi insustentavel; o
desanimo lavrava no seu exercito, e a traição do conde de Campo Basso,
um perfido napolitano, preparava-lhe um laço. Não obstante, Carlos
recebeu de boa sombra o rei de Portugal, ao qual descreveu com vivas
côres o caracter astucioso de Luiz _XI_. Citou factos em abono d’estas
revelações, e contou a Affonso V como Luiz XI, aconselhando o pobre rei
portuguez a dirigir-se a Nancy, enviara logo atraz d’elle tropas de
soccorro ao duque de Lorena. Carlos de Borgonha mostrou-se altivamente
corajoso, dizendo que não se arrecearia de dar batalha a Luiz XI só com
um pagem; mas, para dar uma prova de affectuosa consideração a Affonso V,
não duvidava entrar em negociações de paz.
Tal é a narração de Schœffer, e dos escriptores portuguezes. Mas tanto
Barante como Philippe de Commines dão outra versão, aliás muito mais
consentanea ao caracter de Carlos de Borgonha. Dizem estes chronistas que
elle respondera a Affonso V que sem demora se dirigisse a Pont-á-Mousson
para defender a cidade contra o duque de Lorena, o qual chegava da Suissa
com o seu exercito, emquanto elle Carlos de Borgonha esperaria o duque
deante de Nancy para o combater.
Affonso V, surprehendido com a resposta, balbuciara desculpas: que não
tinha armadura, nem trouxera comsigo nenhum dos seus homens de armas.
Desanimado, Affonso V partiu para Pariz.
Entretanto chegava o duque de Lorena, e Carlos de Borgonha quiz dar-lhe
combate em campo raso. A traição do napolitano Basso vingara, e Carlos
cahira morto, com grande jubilo dos francezes, jubilo que contrastava com
a tristeza de Affonso V.
E era fundada a tristeza do pobre rei portuguez.
Luiz XI, sabendo da morte de Carlos de Borgonha, tratou de apossar-se
dos dominios que lhe pertenceram, de realizar a annexação por meio de
emissarios que para esse fim enviara ás cidades borgonhezas, e foi
installar-se em Arras, onde Affonso V lhe mandara pedir uma entrevista,
que foi concedida.
Segundo o costume, não escacearam promessas nos labios de Luiz XI, mas
essas promessas eram todas mentirosas. Luiz XI importava-se então mais
com os despojos de Carlos de Borgonha do que com as pretensões de Affonso
V á coroa de Castella.
Vimos que um dos assumptos tratados entre Luiz XI e Affonso V foram
as negociações a que devia proceder-se para obter em Roma a dispensa
indispensavel á consummação do matrimonio entre o rei de Portugal e sua
sobrinha. De feito, uma embaixada partiu para Roma, sendo composta do
conde de Penamacôr, de João Teixeira e Diogo de Saldanha, por parte de
Portugal, e de mr. de Saint-Vailler e do governador de Grenoble, por
parte da França.
Partiram juntos, e por terra, os embaixadores, acompanhados de grande
sequito. O papa recebeu-os com muitas honras.
Era natural, como dissemos, que os embaixadores de Luiz XI levassem
instrucções secretas para o pontifice. Ruy de Pina diz que o auxilio dado
por Luiz XI em Roma a Affonso V, n’esta pretensão, se houve sempre por
muito duvidoso.
Fernando e Isabel contrariavam fortemente, junto da santa sé, a concessão
da dispensa pedida. O papa tergiversava com dilações, mas quando viu
desembaraçado o poder de Luiz XI pela morte de Carlos de Borgonha,
decidiu-se a conceder a dispensa em condições mais que muito duvidosas
para Affonso V.
Permittia o pontifice que Affonso V pudesse casar _com qualquer donzella
que lhe fosse achegada em qualquer grau lateral de consanguinidade
ou affinidade, exceptuando o primeiro grau_. Esquivava-se o papa
artificiosamente a nomear D. Joanna, para não affirmar opinião sobre a
sua legitimidade. Mas não parava aqui a subtileza do pontifice; declarara
que concedia a licença apenas por comprazer com o rei de França, e que o
de Portugal não poderia aproveital-a sem que o rei de França fosse ouvido
como arbitro.
Apertado mais tarde por Fernando e Isabel, que viram com maus olhos a
concessão de uma tal dispensa, o papa desculpou-se dizendo que n’aquelles
termos não a poderia negar a qualquer popular obscuro que a solicitasse;
que não deu a Affonso V o tratamento de rei de Castella, como elle
desejava; que não nomeou D. Joanna e que, porisso mesmo, a dispensa fôra
concedida em termos vagos; que havia declarado não querer que resultasse
d’ella prejuizo para terceiro, o qual se entendia ser o rei de Castella,
mas que, visto ser assim mesmo contestada, revogaria a licença que
concedera, o que fez por bulla patente enviada a D. Fernando no principio
do mez de dezembro de 1478.[52]
Depois da entrevista de Arras, Affonso começou a comprehender que não
tinha sido mais que um simples joguete nas mãos de Luiz XI. De Arras,
dirigiu-se para Honfleur, onde demorou todo o mez de setembro, entregue a
uma violenta lucta moral, acabando por querer alienar todas as grandezas
mundanas, e passar a Jerusalem com proposito feito de nunca mais voltar a
Portugal. Todo esse tempo gastou-o Affonso V entregando-se a exercicios
religiosos e escrevendo apontamentos intimos, que cuidadosamente fechava
n’um cofre de que tinha a chave, e que se julgava serem uma especie de
codicillo, de appenso ao testamento que havia feito.
Finalmente, n’uma manhã de setembro de 1477, o rei sahiu a cavallo,
como costumava, acompanhado por Soeiro Vaz e Pedro Pessoa, seis moços
de camara, e dois moços de esporas, ordenando ao seu capellão que o
fosse esperar na estrada, em logar determinado, onde effectivamente se
encontraram.
Chegados ahi, Affonso V deu ordem a um dos moços d’esporas para que
retrocedesse a Honfleur, e entregasse, aos que n’essa localidade tinham
ficado, a chave do cofre, para que o abrissem, e lessem o que deixara
escripto.
Do que no cofre se continha dá noticia Ruy de Pina:
«... deixava uma carta para el-rei de França com remoques dissimulados,
reportados á sua desventura, em que tambem lhe dava conta do fundamento
que tivera para sua partida, que era servir a Deus; porque assim lhe
fizera voto de o fazer depois da morte da rainha, sua mulher, sendo o
principe seu filho em edade para reger seus reinos como era, pedindo-lhe
amparo, favor e ajuda para os seus, que em seus reinos ficavam. E outra
carta para o principe seu filho, em que lhe dava uma triste conta de sua
viagem, encommendando-lhe e mandando-lhe por sua benção, que logo se
alevantasse e intitulasse... rei. E outra d’esta substancia para todos os
do reino, que como o proprio e verdadeiro rei obedecessem ao principe.
E outra para os seus que ahi deixara, que estivessem á obediencia e
ordenança do conde de Faro, com que todos foram tão tristes, e fizeram
tão dolorosos prantos como a razão ensina, que em terras tão extranhas e
em tanto desamparo, e o rei tão amado devia ser.»
As cartas dirigidas para Portugal foram logo enviadas ao principe por
Antão de Faria, e em virtude d’ellas se fez D. João acclamar rei de
Portugal, em Santarem, aos 10 de novembro de 1477.
Quando os portuguezes que tinham ficado em Honfleur receberam aquellas
cartas, já estavam suspeitosos da demora de Affonso V, não obstante o seu
habito de sahir a cavallo todas as manhãs.
Luiz XI tinha encarregado mr. de Lebret, fidalgo francez, de acompanhar
Affonso V e de responder pela sua pessoa. Quando mr. de Lebret soube
que o rei de Portugal havia desapparecido, mandou logo emissarios a
procural-o, accusando ao mesmo tempo os portuguezes de incuria na guarda
do seu soberano. Foi n’uma pequena aldeia da costa, uma villagem, diz
Ruy de Pina, que poude ser encontrado Affonso V, o qual, para não
ser descoberto, vivia em commum com os poucos criados que o seguiam.
O gentilhomem, que primeiro logrou encontral-o, e que se chamava
Robinet-le-Bœuf, acordou Affonso V, que estava dormindo, a fim de
melhor poder reconhecel-o, do que pediu desculpa ao rei de Portugal.
Surprehendido, Affonso V não tratou de dissimular por mais tempo a sua
identidade, e Robinet-le-Bœuf fez reunir immediatamente toda a gente
do logar, a fim de que ficasse guardando o rei, expedindo emissarios
com aviso a Luiz XI, aos portuguezes que tinham ficado em Honfleur, e
a mr. de Lebret. Dos portuguezes, o primeiro que appareceu foi o conde
de Penamacôr, que já andava em busca do rei. Affonso V mostrou-se a
principio teimoso em não renunciar á sua viagem á Terra Santa. O conde de
Penamacôr mandou porisso chamar o conde de Faro, e D. Alvaro seu irmão, a
fim de que viessem demovel-o, o que effectivamente conseguiram.
Affonso V teve pejo de voltar a Honfleur, e portanto embarcou na angra de
Hogue, com destino a Portugal. Alguns dos navios que o acompanhavam, não
puderam aguentar a conserva, e chegaram primeiro, pelo que o principe D.
João, já acclamado rei, teve noticia da chegada de seu pae. Diz-se que
D. João II andava passeando á beira do Tejo, junto do paço de Santos,
com o duque de Bragança D. Fernando e com D. Jorge da Costa, mais tarde
cardeal de Alpedrinha, quando soube que seu pae havia chegado a Cascaes,
e que perguntara aos seus companheiros de passeio o que havia de fazer
n’aquelle lance. O duque respondeu que o dever de D. João II era receber
Affonso V como seu rei e seu pae. Então D. João apanhou do chão uma
pequena pedra, que atirou ao Tejo, e que foi por algum tempo cortando
a agua. D. Jorge da Costa disse, inclinando-se ao ouvido do duque:
«Aquella pedra não me ha de acertar a mim na cabeça.» E no dia seguinte
partiu para Roma, onde conseguiu chegar a grandes honras, e ter subida
importancia.
Comprehende-se, no caracter forte e austero de D. João II este movimento
de indignação perante a fraqueza, a versatilidade de seu pae, que cedia
vergonhosamente á astucia de Luiz XI. Mas comprehende-se tambem que,
passada essa primeira impressão, fosse receber seu pae a Oeiras, e
reverentemente lhe entregasse o titulo de rei, de que já estava de posse.
Os caracteres como o de D. João II teem uma profunda comprehensão do seu
dever, embora, para o cumprir, hajam de dilacerar-se a si mesmos.
Por sua parte, Affonso V, envergonhado das circumstancias em que se
achava, e das fluctuações do seu proprio espirito, queria que o filho
conservasse o titulo de rei, guardando elle para si o dos Algarves e das
conquistas de Africa; mas o principe não lh’o consentiu.
Depois de estar em Lisboa algum tempo, Affonso V retirou-se para
Montemór-o-Novo, e d’ahi para Evora, e é notavel que, depois de tantos
desenganos, lhe tornasse a passar pelo espirito a idéa de continuar
devéras a guerra com Castella, que estava limitada a algumas incursões, e
de realizar definitivamente o seu casamento com D. Joanna.
O principe contrariou-lhe ardentemente estes pianos, sobretudo o do
casamento. Era já tarde, entendia o principe; o que elle lamentava era
que seu pae não tivesse acceitado as primeiras propostas de Castella, em
tempo de Henrique IV, desposando D. Affonso a infanta D. Isabel, e elle
a infanta D. Joanna.[53]
D. João, durante a ausencia de seu pae, havia sustentado a animosidade
com Castella, e mandara gente sua a descercar a villa de Alegrete, que
tinha sido sitiada por Affonso de Monroy, assim como mandara auxilio
a Touro e a Castro Nunho, que se conservavam fieis a D. Affonso V,
o qual, de França, dera ordem aos governadores d’essas fortalezas
castelhanas para se renderem. Elles vieram effectivamente para Portugal,
por escaparem á vingança de Fernando e Isabel, e da coroa portugueza
receberam auxilio e protecção. Todavia, o principe D. João comprehendia
perfeitamente que Portugal, sobretudo pelo pessimo estado das suas
finanças, não se achava habilitado a continuar uma guerra longa e aberta
com Castella.
O alcaide-mór da villa de Moura, Lopo Vaz de Castello Branco, quiz
revoltar-se contra o rei de Portugal, porque no paiz lavrava um fermento
de indisciplina, que era estimulado pelas proprias fluctuações do poder
real, confiado a Affonso V. Foi mais tarde preciso o caracter de ferro de
D. João II para repor as coisas no seu antigo estado, e para arcar peito
a peito com quasi toda a nobreza do paiz. Lopo Vaz de Castello Branco
pagou com a vida a ousadia do seu procedimento. Era mais uma manifestação
da austeridade de caracter do principe, que não deixava nunca de punir a
rebellião dos seus inimigos.
N’esta desgraçada pendencia com Castella, ainda Portugal teve de figurar
mais uma vez. Foi o caso que a condessa de Medellim, que seguia a causa
da princeza D. Joanna, fôra cercada nas suas fortalezas pelo mestre de S.
Tiago de Castella, e mandara pedir auxilio a Affonso V. Effectivamente
Portugal enviou-lhe soccorro, indo por capitão-mór da pequena expedição
o bispo de Evora, D. Garcia de Menezes. O mestre de S. Tiago deu batalha
ao bispo junto de Mérida, sendo o bispo vencido, ferido e preso, pois
que a desproporção das forças era enorme entre os dois exercitos. O
de Castella era muito superior. A guarda do bispo foi confiada a um
cavalleiro castelhano, que se deixou corromper, pelo que D. Garcia de
Menezes, podendo fugir, se recolheu a Medellim, onde, com os destroços da
expedição, se conservou ainda muito tempo cercado, até ao tratado de paz.
A agitação era grande em ambos os paizes, e n’um e n’outro os
especuladores de occasião tratavam de tirar todo o partido possivel das
circumstancias, mirando á ganancia. Este estado de coisas, se era grave
para Portugal, não deixava comtudo de inquietar Fernando e Isabel. Então,
negociações secretas foram entaboladas para a paz, chegando a avistar-se
na villa de Alcantara, em Castella, a rainha D. Isabel com sua tia a
infanta D. Beatriz, de Portugal, viuva do infante D. Fernando.
N’essa entrevista foi tratada a primeira combinação das pazes entre os
dois reinos. Mais tarde uma nova entrevista se realizou no Alemtejo entre
plenipotenciarios de Portugal e Castella, assentando-se que as pazes
seriam perpetuas. As condições estipuladas foram estas:
1.ª Que D. Affonso deixaria de intitular-se rei de Castella e Leão, e
Fernando e Isabel, reis de Portugal;
2.ª Que D. Joanna perderia todos os titulos de que se apossara, não se
chamando nem rainha nem infanta, salvo se viesse a casar com o principe
D. João de Castella, como ficou para resolver mais tarde;
3.ª Que o antigo tratado de pazes feito com D. João I seria
convenientemente revisto e modificado;
4.ª Que as cidades, villas e castellos que de um reino a outro houvessem
sido tomados, e assim os prisioneiros, seriam restituidos, soltos e
perdoados;
5.ª Que em relação a determinadas pessoas e cavalleiros se fariam
capitulações especiaes, e que as fortalezas que nas fronteiras de um e
outro reino haviam sido construidas, seriam derrubadas;
6.ª Que o senhorio da Guiné, desde o cabo de Nam e o Bojador até aos
indios inclusivamente, com todos os seus mares adjacentes, ilhas, costas
descobertas e por descobrir, com seus tratos, pescarias e resgates, assim
a ilha da Madeira e dos Açôres, Flores, Cabo Verde, e a conquista do
reino de Fez ficassem _in solidum_, e para sempre, ao rei de Portugal, e
que as ilhas das Canarias, e o reino de Granada ficassem _in solidum_
aos reis de Castella, e seus successores, para sempre;
7.ª Que para maior segurança d’este tratado, o infante D. Affonso, neto
de Affonso V, logo que fosse em edade de sete annos, casasse com a
infanta D. Isabel, filha primogenita dos reis de Castella, estabelecendo
qual o dote da princeza, e o modo de pagamento;
8.ª Que d’ahi a certo tempo, a senhora D. Joanna, e assim os ditos
infantes, fossem postos em terçaria na villa de Moura, em poder da
infanta D. Beatriz;
9.ª Que o principe D. João, filho dos reis de Castella, logo que chegasse
á edade de sete annos, casaria com aquella senhora, a qual passaria então
a chamar-se princeza, sendo convenientemente dotada; mas que se o dicto
principe D. João não quizesse casar com D. Joanna, ficaria ella livre da
terçaria, recebendo uma indemnização;
10.ª Que a senhora D. Joanna logo fosse posta em terçaria, como fica
dicto, ou entrasse em um de cinco mosteiros que fossem indicados,
demorando-se ahi o anno de noviciado, acabado o qual escolheria uma de
duas coisas, ou _casar ou metter freira_, segundo a expressão popular.