A BATALHA

Aposentou-se Affonso V com D. Joanna na fortaleza de Plasencia. Ahi

deslizaram alguns dias perdidos em _festas e prazeres_, diz Pina. Affonso

V iniciou a campanha de Castella por dois graves erros, reconhecidos

pelos proprios chronistas castelhanos. Zurita diz que se Affonso V, em

vez de entrar por Plasencia, tivesse entrado pela Andaluzia, Sevilha

não poderia resistir por muito tempo a um cêrco, e que, tendo elle por

si Sevilha, se renderiam logo outras cidades, favoraveis a D. Joanna,

ficando-lhe livre o caminho até aos confins do reino de Aragão; e

que se houvesse querido dirigir-se para Toledo, onde o arcebispo e o

marquez tinham poderio, haveria logrado chegar até Segovia. Accrescenta

que Affonso V se demorara nas festas de Plasencia mais do que lhe

convinha.[28] Lafuente escreve no mesmo sentido, dizendo que o rei de

Portugal, demorando-se em Plasencia e Arévalo, dera tempo a que Fernando

e Isabel supprissem á força de actividade a falta de dinheiro e de

apercebimentos de guerra.[29]

Mas o que é certo é que Affonso V se demorou em Plasencia, onde celebrou

publicamente desposorios com sua sobrinha,[30] e ambos foram proclamados

reis de Castella, Leão e Portugal. Ruy de Pina observa «... e chamou á

rainha esposa, com a qual então nem depois nunca consumou o matrimonio,

por defeito de dispensação, que não tinha nem houve nunca.» Mais tarde

trataremos este ponto. Por agora, para não interromper a narrativa com

longas divagações, diremos que D. Affonso V tratou de fazer publicar o

_Manifesto_ dos direitos de D. Joanna ao throno de Castella. Sousa[31]

copiou-o de Zurita; tem a data de 30 de maio e é dirigido á _villa_

de Madrid. N’esse documento, que é extenso e que está bem escripto,

D. Joanna historía todos os acontecimentos politicos do reinado de

Henrique IV, que o leitor já conhece. Accusa Fernando e Isabel de terem

envenenado ou mandado envenenar o rei. Insiste em que elle a reconhecera

publicamente como filha e herdeira, no leito da morte, porêm não fala

em testamento. Allude, com a desenvoltura que o assumpto requeria, á

supposta impotencia de seu pae, affirmando ás claras que elle _era hombre

poderoso para engendrar_. Referindo-se a seu tio e noivo, diz: «O que

tudo visto pelos dictos duque de Arévalo e marquez de Vilhena, como meus

tutores, guardadores, usando da lealdade e fidelidade que me devem, e

acatando, como o mais alto e mui poderoso principe D. Affonso, por a

graça de Deus rei de Portugal, e rei de Castella e de Leão, que agora é

meu senhor, e principe mui catholico, e de grande fama, exemplo e de grã

virtude e prudencia, para manter e governar estes dictos meus reinos, em

justiça e verdade, como cumpre ao serviço de Deus, e meu, e ao regimento,

e reparo, e restauração d’elles para o futuro, e conformando-se com a

vontade do dicto rei meu senhor, que em sua vida, com accordo de muitos

prelados e grandes, diversas vezes o negociou e procurou, accordaram e

assentaram com elle, que casasse, e celebrasse desposorio commigo: e para

isso viesse e entrasse n’estes dictos meus reinos como rei, e senhor

d’elles, como meu legitimo esposo, e marido. E estando eu na cidade de

Turgilho, sob a salvaguarda do dicto marquez de Vilhena, o dicto rei meu

senhor enviou seu embaixador e procurador com seu poder bastante, para

se desposar, e desposou commigo, em legitima e devida fórma: e depois,

estando n’esta cidade de Plasencia, ... dias do mez de maio d’este anno,

da data d’esta minha carta, o dicto rei meu senhor chegou á dicta cidade

por sua pessoa, e desposou-se e _dio las manos comigo_: e solennemente

jurou, e fez voto solenne, de nunca me sacar fóra d’estes dictos meus

reinos, nem sua senhoria sahir fóra d’elles, até, mediante a graça de

Deus, os acalmar e pacificar.» Noticía depois como se celebrara o acto

da acclamação, e ordena que, logo que aquella carta regia recebam, _se

ajuntem todos por pregão e alcem pendões pelo dicto rei D. Affonso_.

Diz constar-lhe que os _reis da Sicilia_ têem feito espalhar o boato

de que os portuguezes são por indole hostis aos castelhanos. Desmente

este boato, recorda o parentesco e amizade de Affonso V com a casa real

de Castella, e accentua que os portuguezes são christãos catholicos, e

obedientes á vontade do seu rei.

Um dos pontos que melhor estão tratados no _Manifesto_, é o que se

refere á desobediencia de D. Isabel, tendo fugido da côrte para casar

com o rei da Sicilia, que era extrangeiro, não confederado, nem alliado

com Henrique IV, quando ella o não podia nem devia fazer, não só por

ser contra vontade do rei, mas tambem porque as leis do reino dispunham

que as donzellas, menores de vinte e cinco annos, não casassem sem

consentimento de seus paes e irmãos mais velhos. De mais a mais, Fernando

e Isabel eram parentes em grau prohibido, e não tinham obtido dispensação

apostolica.

Lembra finalmente D. Joanna quanto Fernando e Isabel fizeram para se

apoderar do thesoiro real de Segovia, como se apoderaram de todo o oiro

e prata, joias, brocados e pannos, que deixara Henrique IV, não dando,

nem consentindo que se désse para o seu enterro e sepultura _o que para

qualquer pobre cavalleiro de seu reino se dera_, e tentando havel-a á mão

para a fazerem encarcerar perpetuamente ou porventura matar.

Como se vê, o _Manifesto_ está habilmente redigido; procura ferir todas

as notas, tanto a da legalidade, como a da sentimentalidade.

D. Affonso V tambem escrevera á cidade de Salamanca, sobre o direito de

D. Joanna á coroa de Castella,[32] e procurara apoiar-se na diplomacia

para corroborar o effeito que esperava colher da publicação dos

manifestos.

De Plasencia enviou a França, como embaixadores, D. Alvaro de Athayde e

o licenciado João d’Elvas, com plenos poderes para negociarem a desejada

alliança. Philippe de Comines, que assistiu á audiencia dos embaixadores

portuguezes na côrte de França, accusa-os de não terem conhecido as

astucias de Luiz XI, de não terem ao menos suspeitado de que faltaria ás

suas promessas. Passa-lhes diploma de incapacidade, e o caso é que os

factos posteriores deram razão a Comines.

Affonso V queria que Luiz XI, a quem D. João de Aragão tinha tomado o

condado de Roussillon, fizesse guerra a D. Fernando, pela fronteira

franceza, envolvendo assim Castella em duas invasões simultaneas.

Tambem Affonso V enviou embaixadores a Roma, a fim de solicitarem do papa

a dispensação matrimonial de que carecia, para realizar o casamento com

sua sobrinha.

Com estas armas julgava o rei portuguez ir ferindo o adversario.

Enganava-se. Fernando levantava em Valhadolid um exercito de quatro mil

homens de armas, oito mil ginetes e trinta mil peões, verdade seja que

pela maior parte mercenarios. Fôra D. Isabel quem obtivera as sommas

indispensaveis para equipamento do exercito, conseguindo que André

Cabrera lhe entregasse o thesoiro de Segovia;[33] Fernandes de Oviedo

não duvída affirmar, nas _Quincuagenas_, que estava na mão de Cabrera

fazer rainha a princeza Isabel ou a princeza Joanna, segundo elle se

decidisse a entregar o thesoiro, que continha cêrca de 10:000 marcos de

prata, a uma ou a outra princeza. Diz Zurita que o marquez de Vilhena

fizera grandes promessas a Cabrera por parte do rei de Portugal, chegando

a offerecer-lhe a renda annual e vitalicia de dez contos de maravedis,

e que elle os recusara, porque já em vida de Henrique IV era affecto á

causa de D. Isabel.

O que é certo é que Cabrera entregara a D. Isabel o thesoiro de Segovia,

cohonestando este valioso auxilio com o pretexto de lhe dar a rainha sua

filha em refens.

D. Isabel, apesar de se achar gravida a esse tempo, não descansava um

só momento; a fadiga fez com que tivesse um aborto no caminho de Toledo

para Tordesilhas. Tentou D. Isabel, em Alcalá de Henares, congraçar o

arcebispo de Toledo, mas o prelado mandou-lhe dizer que se ella entrasse

no paço por uma porta, elle sahiria por outra.

Affonso V, depois de se refocillar nas festas de Plasencia, passava

a Arévalo, um pouco por lisonjear os duques, que lhe queriam dar

hospedagem, um pouco por em Plasencia não sobejarem os mantimentos. O que

é certo é que Affonso V resolvera aguardar em Arévalo os reforços que

deviam enviar-lhe os fidalgos castelhanos do seu partido, commettendo

assim a imprudencia de dar tempo a que Fernando pudesse organizar em

Valhadolid um exercito de _condottieri_, mais valioso pelo numero do que

pela disciplina.

De Arévalo, seguiu Affonso V para Touro, seguro de que o alcaide João

de Ulhôa lhe abriria as portas da cidade. Assim aconteceu, mas a mulher

de um irmão d’este Ulhôa não quiz entregar o castello, pelo que

Affonso V lhe poz um apertado cerco. Entretanto Samora rendera-se aos

portuguezes, e Fernando, que com o seu exercito se tinha approximado

de Touro, reconhecendo que não podia luctar com vantagem, porque lhe

faltavam artilheria, posições e meios de communicação, deu ordem para

retirar. A retirada foi desordenada e desastrosa, dil-o Lafuente, e a

derrota haveria sido completa, se a cavallaria portugueza carregasse

sobre o inimigo.[34] Uma companhia de byscainhos chegou a suspeitar de

traição por parte dos generaes castelhanos, e violentamente foi arrancar

o rei de entre elles, quando todos estavam conferenciando n’uma egreja.

Ainda assim, Fernando soffrera, em sua gente e carriagem, muito damno e

perda.[35]

O castello de Touro rendera-se, finalmente, ao apertado cerco que

lhe puzera Affonso V. Em varios pontos, aqui e alli, rompiam-se as

hostilidades; e os povos da Estremadura hespanhola e da Andaluzia

faziam varias incursões sobre Portugal, como represalia de guerra. Em

Burgos, a cidade estava por D. Isabel, mas o castello estava por D.

Joanna. Fernando, a fim de attenuar a má impressão de Touro, foi cercar

o castello, que se julgava uma posição importante, no presupposto de

que Luiz XI acommettesse por Guipuzcoa. Affonso V, a instancias da

duqueza de Arévalo e do arcebispo de Toledo, deixou D. Joanna em Samora,

e dirigiu-se a Burgos para soccorrer o castello. Encontrou, porêm, a

tomarem-lhe o passo reforços isabelistas em Baltanás, aos quaes Affonso

V deu combate, pondo cerco á villa. A peleja foi renhida. Os portuguezes

combatiam a pé, só o rei de Portugal estava a cavallo. Morreu ahi D.

Alvaro Coutinho, filho do marechal, mas em compensação ficou prisioneiro

o conde de Benavente, cunhado do marquez de Vilhena, que, por segurar a

vida, diz Pina, constrangidamente a veio em pessoa pedir a Affonso V, de

cima do muro, e o portuguez de viva voz lh’a outorgou.

A condessa de Benavente, ao saber do captiveiro do marido, exaltou-se a

tal ponto que escreveu a Fernando o Catholico, pondo á sua disposição

e obediencia todas as villas e fortalezas dos seus estados, que eram

grandes. Assim, a paixão politica, como quasi sempre acontece nas guerras

civis, abria barreiras profundas no seio de uma mesma familia! A condessa

de Benavente era irmã do marquez de Vilhena.

As finanças de Portugal e Castella estavam seriamente compromettidas, em

ambos os paizes, por causa da guerra. Isabel reunira côrtes em Medina

del Campo, no mez de agosto e, não podendo já impor aos povos novas

contribuições, appellou para o clero, propondo-lhe que entregasse ao

thesoiro a prata de todas as egrejas de Castella, promettendo remil-as

em tres annos por amortização de trinta contos de maravedis. O clero

annuiu promptamente. Por sua parte, Affonso V, depois de haver tomado a

villa de Cantalapiedra, e de se ter recolhido a Samora para hibernar,

tendo gasto já todos os recursos com que sahira de Portugal, teve de

«soccorrer-se aos dinheiros dos orfãos dos seus reinos, e a outros muitos

d’emprestimos particulares», que por seus officiaes foram logo levados a

Castella.[36] Accrescenta Ruy de Pina que o principe D. João, depois que

foi rei, pagou, como piedoso filho, todos estes encargos _quanto poude_.

Mas tambem D. João, quando resolveu ir soccorrer seu pae, teve de tomar

de emprestimo a prata das egrejas, a exemplo do que fizera em Castella

D. Isabel.[37] Esta desastrosa guerra parecia destinada a arruinar as

finanças de Portugal. Em treze mezes, o exercito mobilizado contra

Castella havia de custar ao paiz duzentas setenta e cinco mil dobras.[38]

O principe D. João, ao mesmo passo que tinha de reger os negocios

internos do reino e de levantar recursos para acudir a seu pae, via-se

a braços com as incursões armadas que alguns cavalleiros castelhanos

faziam pela fronteira. Uma d’essas incursões dirigiu-se contra a villa

de Ouguella, morrendo na refrega o brioso fidalgo João da Silva,

camareiro-mór do principe.

Em Castella, D. Isabel entabolava negociações com o alcaide das torres

e portas da ponte de Samora, para que se entregasse, procurando assim

arrancar a Affonso V uma das mais importantes fortificações que tinham

voz por elle. Fernando estava no cerco de Burgos, e, sabendo dos planos

de sua mulher, fingia-se doente para lhe dar tempo a negociar a compra do

alcaide da ponte de Samora.

Affonso V havia mandado recado a seu filho para em Samora conferenciarem

sobre negocios de Estado.

D. João deu-se pressa em partir, e já tinha chegádo a Miranda do Douro,

quando por Vasco Chichorro, o qual de noite atravessou o Tejo a nado, seu

pae lhe mandou dizer que retrocedesse, porque seria victima de traição na

passagem da ponte de Samora. Esta ponte tinha nos extremos duas torres

que estavam combinadas para apertar o principe real entre ambas, quando

elle passasse com a sua gente. Eis no que consistia a traição preparada

por Isabel. Affonso V indignou-se, e atacou os castelhanos, mas por este

facto teve occasião de reconhecer que não podia contar com a lealdade dos

habitantes de Samora, pelo que resolveu mudar-se, com a _Beltraneja_,

para Touro, onde o alcaide os recebeu amavelmente.

O principe real ficou vivamente contrariado com o caso da ponte de

Samora, e pensou logo em tirar desforra d’esse projecto de attentado

contra a sua vida. Retirando sobre a cidade da Guarda, ahi reuniu

conselho, resolvendo-se enviar novos auxilios a D. Affonso V, para o que

foi preciso tomar, como dissemos, toda a prata das egrejas e mosteiros,

com excepção d’aquella que era indispensavel á dignidade do culto; bem

como se tomou dinheiro de emprestimo a particulares. E não sem grandes

dores e gemidos do povo, que o muito sentiam, diz Ruy de Pina. Feitos

estes preparativos, o principe D. João, deixando sua mulher como regente

do reino, partiu no mez de janeiro de 1476 para Castella, a encontrar-se

com o rei, ao qual ia reforçar, tomando na passagem a villa de S.

Felizes, que saqueou.

Entretanto, el-rei D. Fernando e a rainha D. Isabel entraram em Samora, e

puzeram cerco ao castello, que tinha voz pelo rei de Portugal. O desejo

de Affonso V era ir em soccorro da fortaleza, que D. Fernando parecia

disposto a disputar-lhe palmo a palmo.

D. Affonso estava em Touro, como sabemos, e logo que o principe D. João

ahi chegou pensou-se em ir effectivamente defender o castello de Samora,

mas, depois de ponderados os prós e os contras, achou-se que o melhor era

pôr cerco á ponte da outra banda do rio, causando assim grande damno a D.

Fernando e aos da cidade.

Uma vez assenhorado de Samora, tratou Fernando de combater o castello,

que se conservava fiel a Affonso V, e d’ahi escreveu a seu pae, João II,

de Aragão, pedindo-lhe que mandasse auxilios para Burgos, cujo castello

não se tinha ainda rendido.

Diz Lafuente, que Affonso V se não mostrara adverso a uma reconciliação,

sob condição de que lhe seriam entregues as praças de Touro e Samora, e

aggregada a Galliza a Portugal, mas que D. Isabel se recusara a alienar

um só palmo que fosse de territorio castelhano.

Lafuente trata este assumpto muito por alto, mas Damião de Goes dá

interessantes pormenores que convem recordar.

O cardeal de Castella, D. Pedro de Mendonça, escrevera a Affonso V

exhortando-o a fazer a paz, e offerecendo-se para medianeiro. Era facil

perceber que esta proposta partia dos reis catholicos, sob a impressão

de desanimo que produzira a precipitada retirada de Touro para Medina

del Campo. Affonso V annuiu, e perguntou se Isabel e Fernando tinham

conhecimento d’essa proposta, e quaes deveriam ser as condições da

paz. Respondeu o cardeal que Fernando e Isabel obtemperavam, mas que

as condições as formulasse Affonso V. O rei de Portugal pediu com

largueza, aproveitando a situação: queria Touro, Samora e a Galliza;

exigia uma indemnização de guerra, e a restituição de todas as honras e

estados que pertenciam aos fidalgos castelhanos bandeados com o partido

da _Beltraneja_. Isabel oppoz-se á alienação de qualquer territorio

castelhano, porêm sujeitava-se á indemnização de guerra e á rehabilitação

dos fidalgos castelhanos que estavam com Affonso V. Promettia tambem para

D. Joanna o dote que se arbitrasse, hypothecando a este encargo as terras

que fossem precisas.

Damião de Goes, conclue: «Estes recados andaram por alguns dias de uma e

de outra parte, sem se em nada poder tomar conclusão, pelo que a guerra

se ateava cada vez mais, fazendo-se de uma e de outra parte grandes

damnos, sem se a tamanhos males poder dar algum remedio».[39]

Seria talvez esta proposta de paz que fez com que Luiz XI procurasse

intimidar Fernando e Isabel. Diz Lafuente que Affonso V _havia

manhosamente entabolado tratos de mediação e de concordia_ com D. João

II, de Aragão, para entreter Fernando, emquanto o principe D. João não

chegava de Portugal com reforço, e Luiz XI não atacava pela fronteira

franceza o reino de Aragão.

O que é certo é que Affonso V conseguira tratar com Luiz XI uma liga

offensiva contra o aragonez. Luiz XI aproveitava o ensejo para se

collocar n’uma posição que pudesse ser-lhe vantajosa em qualquer dos

casos. Assim, em setembro de 1475, ficara concertado que o rei de França

ajudaria ao de Portugal na conquista dos reinos de Castella e Leão,

com as condições seguintes: «Que todas as cidades, villas, logares,

castellos e fortalezas que fossem tomadas ou conquistadas por terra e

por mar pelas tropas d’el-rei de França, nos dominios do reino de Aragão

e de Valencia, seriam sem difficuldade entregues e restituidas a el-rei

de Portugal, e ficariam para sempre pertencendo a esta coroa. E pelo

mesmo teor que todas as cidades, villas, logares, castellos e fortalezas

do principado da Catalunha e condado do Roussillon e Sardenha, ilhas de

Mayorca, Minorca e Iviça, as quaes cahissem em poder dos portuguezes,

seriam entregues a el-rei de França, para ficarem para sempre annexas á

sua coroa.»[40]

Luiz XI, tendo feito treguas com o duque de Borgonha, por um tratado em

que o rei de Portugal fôra incluido como alliado do duque, principiou a

dar maior attenção aos negocios da Peninsula, sob o doble ponto de vista

da sua exclusiva conveniencia. Foram, pois, renovados os antigos tratados

de paz e amizade entre os reinos de Castella e Leão e o de França,

figurando Affonso V na qualidade de rei de Castella. No mez de dezembro,

Luiz XI promulgara uma carta patente declarando ter resolvido mandar, em

auxilio do rei de Portugal, um bom e grande exercito, tanto por mar como

por terra, a Guipuzcoa e Byscaia, ou aonde fosse necessario, nomeando

para commandante em chefe da expedição a sire d’Albret (Alano Grande, pae

do rei de Navarra), com poderes amplissimos.[41]

O que é certo é que Luiz XI, não obstante todas estas suas promessas,

se limitara a mandar para a fronteira hespanhola um exercito que

parecia manobrar de concerto com a doblez do _bom rei Luiz_, porisso

que, fazendo-lhe frente os guipuzcoanos e os byscainhos, retirava para

Bayona... á espera dos acontecimentos.

Quando o principe D. João de Portugal, levando comsigo um exercito

de oito mil infantes e dois mil cavallos, _gente mal armada e pouco

aguerrida_, diz Lafuente, fôra juntar-se com seu pae em Touro, o castello

de Burgos, depois de haver sido atacado por D. Affonso de Aragão, irmão

de Fernando, rendia-se. E, segundo o testemunho do mesmo historiador,

pouco faltou para que a propria praça de Touro se entregasse a D.

Fernando, que uma noite se approximara dos muros da cidade com essa

esperança. Parece fóra de duvida, como mais adeante veremos, que D.

Fernando pensava em apoderar-se da pessoa da _Beltraneja_.

É ainda Lafuente que nos diz, que D. Affonso V se _envalentonara_ tanto

com a chegada do filho, que enviou um arrogante manifesto ao papa, ao rei

de França e aos seus parciaes de Castella e Portugal, jactando-se de que

não tardaria a derrotar Fernando e Isabel. Não encontro, comtudo, nos

historiadores portuguezes noticia d’este _manifesto arrogante_.

Deixemos, porêm, Affonso V e seu filho no cêrco que foram pôr á ponte

de Samora, na margem do Douro. D. Joanna havia ficado em Touro, sob a

guarda do duque de Bragança e do conde de Villa Real. Cruzava-se o fogo

dos portuguezes contra a ponte, com o dos castelhanos contra a margem

opposta. Procedentes de Burgos, tinham chegado de reforço aos castelhanos

D. Affonso de Aragão e o infante D. Henrique, aos quaes se unira o conde

de Benavente, livre já. A situação era dolorosa para ambos os exercitos,

ao mesmo tempo sitiados e sitiadores.

Ruy de Pina diz que, n’estas circumstancias, houve uma entrevista, n’uma

insua do rio Douro, para concertos de paz, entre cavalleiros portuguezes

e castelhanos, mas que não foi possivel chegar a resultado satisfactorio.

Outra versão diz que a entrevista seria entre os dois reis, estando cada

um em sua barca, como acontecera com D. Fernando de Portugal e Henrique

III, de Castella, mas que, pela força da corrente, a barca de Affonso V

se não pudera approximar da barca que conduzia o marido de Isabel.

O portuguez, conhecendo que a sua posição era insustentavel, porque

já os mantimentos iam escaceando, e porque recebeu denuncia de que D.

Fernando pensava em fazer uma sortida sobre Touro para apoderar-se de D.

Joanna,[42] resolveu levantar o acampamento na madrugada da primeira

sexta-feira de março de 1476, em direcção áquella cidade, depois de haver

cortado a extremidade da ponte de Samora. Esperava Affonso que o exercito

castelhano o seguisse. Assim aconteceu. Diz Pina que o principe D. João

ardia em desejos de dar batalha; o mesmo assevera Lafuente a respeito de

D. Fernando, apesar dos conselhos que lhe dava seu pae, o rei de Aragão,

o qual lhe recommendava o systema que empregou Fabio Maximo, _Cunctator_,

fatigando e desalentando os exercitos de Annibal.

Não se enganou Affonso V. Fernando demorara-se apenas tres horas, o tempo

preciso para reparar o damno feito á ponte. Ao cahir da tarde, o exercito

castelhano avistou o exercito portuguez, a tres leguas de Touro, no

momento em que aquelle exercito sahia de um apertado passo entre o rio e

a serra. O conde de Loulé acudiu a escaramuçar com os castelhanos, para

lhes difficultar a passagem, mas ficou tão gravemente ferido que teve de

ser recolhido a Touro.

Affonso V e seu filho prepararam-se então para dar batalha, posto que

muita da sua gente, mais avançada na marcha, já tivesse entrado em Touro,

e outra houvesse lá ficado de guarda a D. Joanna.

O exercito portuguez dispoz-se d’este modo: na vanguarda, os continuos

e familiares da casa do rei, e alguns cavalleiros castelhanos, de que

era capitão Ruy Pereira; logo em seguida o conde de Faro D. Affonso com

a sua gente e outra que el-rei lhe ordenou; á esquerda da vanguarda

o principe D. João com a flor do exercito, seguindo-se a esta ala do

principe a do bispo de Evora, D. Garcia de Menezes, com muitos bésteiros

e espingardeiros; depois, o rei D. Affonso com a bandeira real, e á mão

esquerda o arcebispo de Toledo com a sua gente, logo seguido pela do

duque de Guimarães e do conde de Villa Real, commandando a retaguarda

D. João de Castro, conde de Monsanto. A peonagem ficara repartida por

quatro secções, toda da banda do rei.

Vejamos agora qual a disposição do exercito castelhano.

Na vanguarda, todos os continuos da casa real, e a gente da Galliza,

Ulmedo, Medina del Campo, Valhadolid, Salamanca, Ciudad Rodrigo e Samora,

sob o commando de D. Henrique, que levava a bandeira real de Castella e

Leão. Seguiam-se dez alas, quatro grandes e seis menores.

Notou o principe D. João que uma das seis alas menores do exercito

castelhano se destacava como para de refresco acudir ás outras, se fosse

necessario. Assim fez tambem, mandando apartar a gente que julgou precisa

para o mesmo fim.

Affonso V, depois de ter ordenado as alas do seu exercito, retirou-se,

por conselho dos seus, para um oiteiro, d’onde pudesse assistir á

batalha, e salvar-se a tempo no caso de desastre.

Veiu então ao acampamento portuguez um rei de armas de D. Fernando

desafiar Affonso V. O portuguez respondeu: «Dizei ao principe da Sicilia

que é mais tempo de nos encontrarmos do que de mandar desafios.»

A luz do dia principiava a faltar, não só porque o sol tocava o occaso,

mas tambem porque o céo se conservava carregado de grossas nuvens. Cahia

uma chuva miuda. O scenario d’este drama de odios politicos prestes a

desencadearem-se, era lugubre, como se vê.

O principe D. João e D. Pedro de Menezes arremessaram-se impetuosamente

contra as alas menores do exercito de Castella. Gonçalo Vaz de

Castello-Branco fôra o primeiro portuguez que lograra romper as fileiras

castelhanas. O fumo das descargas augmentava a escuridão do ar. Gritos

de guerra, como rugidos de leões, atroavam o campo de batalha. Os nossos

invocavam S. Jorge e S. Christovão;[43] os castelhanos clamavam por S.

Tiago e S. Lazaro. _Traidores, aqui está o cardeal!_ gritava o cardeal de

Hespanha, provocando os castelhanos que pelejavam no exercito portuguez.

E um d’esses castelhanos era, como elle, um prelado da Egreja, o

arcebispo de Toledo.

Rotas pelo esforço dos nossos as fileiras castelhanas, com uma bravura

que os proprios chronistas hespanhoes não podem desmentir, os soldados de

Fernando e Isabel acolheram-se, fugindo, ao centro do exercito.

D. Affonso V, electrizado pelo enthusiasmo da contenda, lançara-se

no combate, seguido pelo conde de Faro. Lafuente diz que D. Fernando

investiu com furia contra o sitio onde se ostentava o estandarte real

dos portuguezes. Garcia de Rezende diz, porêm que D. Fernando, vendo

o desbarato que o principe D. João produzira no exercito castelhano,

tratou de acolher-se a Samora. Ruy de Pina faz egual affirmação. Segundo

a opinião de Lopes de Mendonça,[44] que de todo o ponto achamos fundada,

o consenso dos escriptores portuguezes dá-nos o direito de duvidar da

palavra de D. Fernando quando diz em carta dirigida á cidade de Baeza:

«E eu com os dictos grandes e cavalleiros que commigo se acharam na

batalha, estivemos no campo por espaço de tres ou quatro horas regendo

o campo, e assim me volvi com victoria e muita alegria a esta cidade de

Samora aonde cheguei á uma depois da meia noite, etc.»

«Mesclaram-se então todas as lanças e todos os corpos, diz Lafuente,

pelejando com o encarniçamento de dois povos enfurecidos por uma antiga

rivalidade. O pendão das quinas portuguezas foi arrancado pelos esforços

do intrepido Pedro Vaz de Sottomayor; valoroso até ao extremo era o

alferes Duarte de Almeida que o desfraldava; depois de haver perdido o

braço direito, susteve com o esquerdo o pendão, e quando perdeu ambas

as mãos apertou-o fortemente entre os dentes até que perdeu a vida,

feito este que nos recorda outro só exemplo por nós consignado em nossa

historia.»[45]

Pulgar diz que Duarte de Almeida fôra feito prisioneiro e conduzido

a Samora. Marianna affirma que a armadura d’este brioso cavalleiro

portuguez se via, ainda no seu tempo, na cathedral de Toledo, _como

trophéo d’aquella insigne façanha_. D. Fernando, na carta dirigida á

cidade de Baeza, diz, referindo-se ao rei de Portugal: «... foi derrubado

e tomado o seu pendão das armas reaes e morto o alferes...»

Vejamos, porêm, o que d’esta façanha de Duarte d’Almeida tem podido

apurar a critica dos escriptores portuguezes até á hora em que escrevemos.

Arrancado das mãos do alferes-mór, o estandarte portuguez seria o mais

completo testemunho da victoria castelhana, e fluctuando desenrolado

afugentaria, de vergonha e desalento, os soldados portuguezes. Mas Duarte

d’Almeida perfeitamente comprehendia a grande, a enorme responsabilidade

do seu posto. Bem sabia elle que preso áquelle estandarte andava desde

Santarem e Ourique, abençoado por Deus, o nome portuguez, e portanto

resolveu defender até á ultima gotta de sangue, se tanto fôra preciso,

esse precioso deposito que lhe confiara a patria.

Aggridem, cercam, embrenham o valente alferes-mór as lanças castelhanas;

elle heroicamente resiste sobrepondo-se a essa cerrada floresta de

ferro, que lhe braceja contra o peito os seus farpões mortiferos. Todo o

empenho castelhano é arrancar-lhe o estandarte; portanto uma cutilada lhe

corta a mão direita. Vale-se da esquerda, e n’ella fecha o seu thesoiro.

Nova cutilada lhe decepa a mão esquerda. É um duello titanico, de um

contra mil, de um só homem contra um exercito. Duarte d’Almeida não

fraqueja, não cede, não cai. Toma o estandante portuguez entre os dentes,

e espera, defendendo-se, que lhe arranquem finalmente a vida para que

possam arrancar-lhe o estandarte. Multiplicam-se da parte dos castelhanos

os golpes, o desespero do inimigo attinge o seu maior grau, é indomavel,

feroz. Duarte d’Almeida cai, emfim, vencido pelos golpes repetidos e

certeiros, mas, como se não pudesse morrer um portuguez d’aquelles ás

mãos de castelhanos, Duarte d’Almeida não é ainda cadaver.

Cahem em peso sobre o alferes-mór os inimigos; entre si disputam qual

ha de arrancar-lhe dos dentes, raivosamente cerrados, o estandarte

portuguez, que finalmente tremula na mão d’um fidalgo castelhano,

de appellido Sottomayor. Este improvisado porta-bandeira do rei

castelhano, alegremente corria, seguido d’um troço dos seus, para o lado

onde suppunha estar o rei Fernando, a fim de lhe entregar o glorioso

trophéo, quando o escudeiro portuguez Gonçalo Pires, com alguns poucos

portuguezes, acommette os de Castella, e arrebata a Sottomayor o

estandarte das quinas, travando-se entre todos combate que entre Gonçalo

Pires e Sottomayor foi singular.

Entretanto Duarte d’Almeida era conduzido semimorto para o acampamento

inimigo, d’onde recebeu o primeiro curativo, e d’onde foi mandado para um

hospital de Castella.

Regressando á patria, ao cabo de longos mezes, andava escripto nas

chronicas que elle não achara em Portugal _mais galardão que viver mais

pobre do que vivia antes_, como dizem, pouco mais ou menos, Duarte Nunes

e Damião de Goes, mas o sr. Camillo Castello Branco escreveu modernamente

nas _Noites d’insomnia_ ácerca do _Decepado_, com o proposito de mostrar

que elle não acabara tão pobre como se dizia. Conta este erudito

escriptor, que Duarte d’Almeida, voltando de Castella, onde fôra muito

honrado pelo rei Fernando, se recolhera ao castello de Villarigas, o

qual herdara de seu pae Pedro Lourenço d’Almeida, e não era o unico que

possuia, pois que tinha outro na quinta chamada de Cavallaria. Chegado a

Villarigas, o velho _Decepado_, que já ia adeantado em annos, encontrou

sua mulher D. Maria d’Azevedo, filha do senhor da Lousã, Rodrigo Affonso

Valente e de D. Leonor de Azevedo, que grandes haveres herdara de sua

tia D. Ignez Gomes d’Avellar, e á volta da esposa encontrou tambem o

_Decepado_ os seus dois filhos, Affonso e Ruy. Até aqui isto serve apenas

para mostrar que Duarte d’Almeida não vivia pobre _antes_ da batalha de

Touro, tanto mais que Affonso V, estando em Samora no anno anterior a

esta batalha, lhe fizera mercê, pelos seus grandes serviços, para elle

e seus filhos, de um reguengo no concelho de Lafões. Todavia quer-nos

parecer que a ingratidão da patria subsiste, porque Duarte d’Almeida

ficou com o que tinha e... com ambas as mãos de menos. Affonso V, esse,

se estivesse em Portugal, havel-o-ia galardoado largamente, porque era

um mãos rotas, e tanto que o principe D. João, prevendo as prodigalidades

de seu pae, obteve d’elle um documento que declarava nullas todas as

doações que fizesse durante a guerra de Castella, e que excedessem dez

mil réis de renda. O galardão concedido em Portugal a Gonçalo Pires foi

o appellido de _Bandeira_ e o brazão de armas com bandeira branca, tendo

no centro um leão rompente, de oiro. Mas no _Decepado_, que provavelmente

pouco sobreviveu ao seu regresso, ou em seus filhos, não se fala. Em

Castella é que effectivamente elle foi honrado, porque D. Fernando mandou

pendurar na cathedral de Toledo as armas de que havia sido despojado

Duarte d’Almeida, e em Samora foi tratado, quando prisioneiro, com

grandissima distincção.[46]

O sr. A. X. Rodrigues Cordeiro, que, a proposito de uma visita recente

á cathedral de Toledo, escreveu um artigo sobre _Duarte d’Almeida_, dá

noticia de existir n’aquelle templo uma armadura completa de cavalleiro,

que se presume ser a do _Decepado_, e uma bandeira, que alguns dizem ser

a portugueza, mas que se não vê, por estar resguardada n’uma bolsa de

tela.

O illustre escriptor, e nosso amigo, não duvida de que a armadura seja a

de Duarte d’Almeida, mas refuta que a bandeira seja a portugueza, visto

que Gonçalo Pires a arrancou heroicamente das mãos de Sottomayor, como

testemunham os nossos chronistas. A bandeira, que se não póde reconhecer

por estar encerrada na bolsa, será porventura a que os castelhanos

tomaram aos moiros na batalha do Salado.[47]

Havia mais de uma hora que o combate durava, sem que a victoria

parecesse pender para qualquer dos dois exercitos, quando a ala esquerda

do castelhano correu a reforçar a hoste real. Então a retaguarda do

exercito portuguez, em que pelejava o arcebispo de Toledo, correspondendo

ao movimento do inimigo, correu a auxiliar Affonso V, engrossando a

fileira para aparar o embate. A peleja reaccendeu-se fogosa. Mas o

choque da fuzilaria e da cavallaria castelhanas foram de tal ordem, que

desconcertaram as fileiras portuguezas.

Affonso V quiz, verdadeiramente allucinado, lançar-se contra o grosso do

exercito castelhano, onde certamente haveria encontrado a morte. Não lh’o

consentiram, porem, alguns fidalgos.

A noite tinha, entretanto, cahido tenebrosa, como estivera o dia. E,

receosos de que alguma força castelhana lhes cortasse a retirada, os

fidalgos que acompanhavam o rei, partiram para Castro Nunho.

Muitos cavalleiros portuguezes tentaram atravessar o Douro para

acolher-se a Touro. Talvez cerca de mil e duzentos morreram afogados

n’essa empresa, em que o desanimo devia quebrantar-lhes as forças.

O principe D. João, reunida toda a gente que poude, deixou-se ficar no

campo até ao romper d’alva, tendo mandado accender fogueiras e soar os

clarins. O seu desejo era empenhar-se n’uma nova batalha. Mas o exercito

castelhano retirara para Samora, juntamente com o rei D. Fernando, ou

depois do rei. Assim, por conselho do arcebispo de Toledo, o principe,

que desejara demorar-se tres dias no campo, reduziu os tres dias a tres

horas, «por comparação que trouxe (o arcebispo) da resurreição de Nosso

Senhor, diz Ruy de Pina, que foi depois da morte tres dias não todos

inteiros.»

É, porem, certo, que a batalha de Touro não tivera uma importancia

militar de tal ordem, que por si só pudesse resolver definitivamente

tão grave pendencia internacional. «A batalha de Touro, portanto,

escreve Lopes de Mendonça, em que ambos os adversarios se proclamaram

vencedores, parecendo á primeira vista ter sido decisiva para a questão,

não foi senão um successo de guerra, bastante duvidoso para qualquer

dos partidos, e que pouco significaria para o desenlace d’esta grave

lucta, se a causa de D. Affonso V não estivesse já perdida pela defecção

successiva dos seus partidarios, pelas repugnancias nacionaes contra o

dominio portuguez, e pela influencia que Isabel de dia para dia adquiria

entre a burguezia, e as classes populares.»

É certo que deserções importantes tinham aggravado a situação de Affonso

V. O marquez de Vilhena, como Affonso, recusara o conselho de penetrar

com o exercito portuguez até Madrid; tratou, julgando perdida a causa

da _Beltraneja_, de bemquistar-se com Fernando e Isabel, mediante a

condição de lhe serem restituidas suas terras e rendas. Os duques de

Arévalo passaram-se tambem para o partido de Isabel. Só permanecera fiel

a Portugal o arcebispo de Toledo que, depois da refrega, se recolhera aos

seus estados, que tinham sido invadidos pelos exercitos de Castella.

Lafuente faz sentir que as condições do exercito portuguez na batalha de

Touro lhe eram sobremodo favoraveis.

Esta asserção é apenas um echo do que o proprio D. Fernando escrevera

na sua carta á cidade de Baeza: «... e como quer que muitos cavalleiros

dos que commigo estavam eram de parecer que eu não devia dar batalha

pelas muitas vantagens que o dicto meu adversario tinha para ella, assim

porque na verdade era _mais gente em numero que a que commigo estava,

como porque as minhas gentes iam cansadas e a mór parte da peonage que

commigo sahiu fôra deixada no caminho pela grande pressa que levavamos

para alcançal-o, e por não levar commigo artilheria alguma, e era quasi

sol posto e estava tão proxima a cidade de Touro d’onde elle e os seus se

podiam recolher sem muito damno, uma vez que fossem vencidos_...»

É preciso contrapôr, porem, a estas considerações do rei de Castella

o que D. João de Portugal escreveu ao concelho de Evora sobre o mesmo

assumpto: «... e depois de todos assim de uma parte como da outra serem

em campo, _ainda que os contrarios tivessem vantagem, por terem as costas

em serra e por terem mais gente de pé, porquanto a sua_ (do rei D.

Affonso seu pae) _era já toda em a cidade de Touro, e assim mesmo alguma

de cavallo que fôra adeante com a fardage, pelo qual os contrarios tinham

de vantagem bem sete ou oito lanças_...»

Assim, pois, acabou a batalha de Touro em que bem podiam ter succumbido

o rei e o principe de Portugal. Se tal houvesse acontecido, quem póde

calcular as complicações politicas em que se veria lançado o paiz, dadas

as represalias de Castella, e a menoridade do neto de Affonso V?

Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV) · 第 13 / 40 题