MÃE E FILHA

A anarchia continuava desenfreada.

Se as coisas iam mal quando um só rei, o fraco D. Henrique, dominava em

Castella, muito peor corriam agora que dois reis adversarios, posto que

irmãos, dividiam o paiz em continuas luctas civis, duplamente fratricidas.

Uma d’essas luctas travou-se a 20 de agosto de 1467, nas planicies de

Olmedo, entre os partidarios de Affonso e Henrique.

No numero dos cavalleiros promptos a combater pelo rei Henrique estava

Beltrão de Lacueva. Sobre elle recahiam principalmente os odios dos

adversarios, e tanto que o arcebispo de Sevilha lhe enviou um mensageiro

com recado de que quarenta cavalleiros de D. Affonso e do arcebispo

de Toledo haviam feito voto solenne de matal-o no combate que ia

empenhar-se. Beltrão respondeu com altivez castelhana que reparasse bem

o mensageiro nas armas e insignias, que trazia vestidas, para que os que

alli o mandaram pudessem, por sua informação, reconhecer facilmente o

duque de Albuquerque.

O combate travou-se com impeto, e o duque de Albuquerque defendeu-se

valorosamente dos golpes que lhe vibravam os que haviam jurado matal-o.

Valeu-lhe n’um aperto perigoso o marquez de Santilhana, seu sogro. O

duque portou-se bravamente; de um lado e do outro combateu-se com ardor;

porêm, no fim da peleja, a victoria não fôra decisiva nem para uns, nem

para outros.

D. Affonso esteve no campo, combatendo entre os seus, mas D. Henrique

julgou mais prudente retirar-se, com trinta ou quarenta cavallos, para

uma povoação immediata.

Um acontecimento politico veio, porêm, aggravar a situação do rei

Henrique: a infanta D. Isabel juntara-se com seu irmão D. Affonso.

Vejamos qual era, pouco antes, a situação da familia real.

A rainha com a infanta D. Isabel estavam em Segovia, e ahi tinham n’esse

momento todo o seu thesoiro e joias. A _Beltraneja_ havia sido entregue

ao conde de Tendilha, para que a guardasse em Buitrago. Os rebeldes

lograram tomar Segovia, e a rainha refugiara-se no castello, mas a

infanta D. Isabel teimou em ficar no palacio, a fim de poder juntar-se

com seu irmão. Foi o que succedeu. Tambem os rebeldes se apoderaram

do alcacer, sendo a rainha conduzida em refens, sob a vigilancia do

arcebispo de Sevilha, ao castello de Alaejos, onde iremos encontral-a.

O acto praticado pela infanta D. Isabel parecia dever reforçar a attitude

dos affonsinos, mas não aconteceu assim, porque elles tinham no seu

proprio seio grandes elementos de discordia. Um d’esses elementos era

o marquez de Vilhena, cuja ambição abhorrecia aos seus mesmos amigos.

Porisso os condes de Placencia e Miranda e o arcebispo de Toledo

passaram-se para o partido do rei, e Vilhena correu risco de ser

assassinado pelo genro, o conde de Benavente.

Um outro acontecimento, verdadeiramente inesperado, veio pôr em confusão

os affonsinos. A 5 de julho de 1468, estando D. Affonso na villa de

Cardenosa, a duas leguas de Avila, foi atacado de um somno profundissimo

logo depois de haver comido. Pela manhã, como não sahisse da camara,

foram chamal-o: estava morto. O veneno havia produzido o seu effeito. D.

Affonso morrera uma creança, quinze annos apenas.

Os affonsinos, aturdidos com este golpe, recolheram-se a Avila. Ahi

pensaram no que deviam fazer. Resolveram offerecer o throno a D. Isabel,

mas a infanta respondeu com hombridade: que em quanto seu irmão D.

Henrique fosse vivo, o rei legitimo era elle.

Desde esse momento a posição de Henrique IV seria facil, se elle

tivera mais energia. Podia impor-se, mas não fez assim. O marquez de

Vilhena propoz em nome dos conjurados prestar-lhe obediencia se o rei

consentisse em reconhecer D. Isabel como herdeira do throno. Henrique IV

annuiu logo.

O marquez de Santilhana e todos os Mendonças, a cuja guarda estava

confiada a _Beltraneja_, indignaram-se com este procedimento do rei.

Sahiram immediatamente da côrte. A rainha D. Joanna estava, como

dissemos, em poder do arcebispo de Sevilha no castello de Alaejos, e

parece que um sobrinho do arcebispo, de nome D. Pedro, entretivera por

algum tempo os ocios da rainha captiva.[9]

Mas os Mendonças encarregaram D. Luiz Furtado de arrancar a rainha ao

seu captiveiro. Uma noite, D. Joanna desceu por uma janella do castello,

ferindo-se na descida. Luiz Furtado pol-a sobre as ancas da mula, e a

largo trote a levou para Buitrago, onde sua filha estava.

Entretanto concertava o rei com os confederados as bases do accordo:

D. Isabel seria jurada herdeira do throno, e ser-lhe-iam dadas para

seu corregimento varias cidades e villas; reunir-se-iam côrtes para

sanccionar estes actos; D. Isabel não seria constrangida a casar,

nem casaria sem consentimento do rei; a rainha considerar-se-ia como

divorciada, seria enviada para fóra do reino, e não poderia levar comsigo

a filha.

Henrique IV acceitou de boamente todas estas condições humilhantes. Ouviu

ler o documento comprovativo da sua propria deshonra. «Item, porquanto

ao dicto senhor rei, e commumente em todos estes reinos e senhorios é

publico e manifesto, que a rainha D. Joanna, de um anno a esta parte, não

tem usado limpamente de sua pessoa como cumpre á honra do dicto senhor

rei, nem sua; e outrosim o dicto senhor rei é informado que não foi nem

está legitimamente casado com ella... etc.» Henrique IV assignou, e

dirigiu-se com sua irmã para o campo de Toros de Guisando, onde D. Isabel

foi solennemente jurada herdeira do throno, com assistencia de nobres e

prelados, e do legado pontificio que, em nome do papa, desligou todos os

presentes de quaesquer outros juramentos, que houvessem feito.

O marquez de Vilhena aproveitou a occasião para ser confirmado na posse

do mestrado de S. Tiago, e o rei Henrique julgou-se por certo o mais

ditoso dos homens coroados.

A rainha, tendo conhecimento da intervenção do legado pontificio no

reconhecimento dos direitos da infanta D. Isabel, enviou Luiz Furtado, o

seu salvador do castello de Alaejos, a protestar junto do representante

do papa, ameaçando-o de fazer subir o seu recurso a Roma, se elle a não

attendesse. A familia dos Mendonças, fiel ao partido da rainha, vira

com indignação tudo quanto se passava. O marquez de Vilhena soube-o, e

tratou logo de explorar a indignação dos Mendonças, a fim de obstar a que

a infanta D. Isabel viesse a casar com o infante D. Fernando de Aragão,

casamento a que a infanta se inclinava, e que o arcebispo de Toledo

promovia. Era uma razão de interesse pessoal, como sempre, a que demovia

n’este lance o marquez de Vilhena. Tinham sido encorporadas no seu

marquezado muitas das propriedades sequestradas aos infantes de Aragão,

e temia perdel-as pelo casamento da infanta com um principe d’aquella

casa real. Então o marquez de Vilhena não duvidou fortalecer com o seu

apoio o partido da rainha e, para obstar ao casamento que o contrariava,

renovou o antigo alvitre de que a infanta D. Isabel desposasse D. Affonso

V, de Portugal, e a princeza D. Joanna o principe herdeiro portuguez: no

caso da infanta não ter filhos de Affonso, o _Africano_, succederiam no

throno de Castella os que a _Beltraneja_ houvesse dado ao principe D.

João.

Houve idéa de que a rainha D. Joanna viesse pessoalmente a Portugal

tratar d’estas allianças. Mas a pobre rainha, que continuava a ser

perseguida pelo arcebispo de Sevilha, a cujo poder lograra subtrahir-se,

receou que fosse esse um pretexto para não a deixarem voltar a Castella.

Venceu a rainha; não veio a Portugal. De mais a mais a infanta D. Isabel

tomara uma attitude energica, recusava tenazmente casar com Affonso V.

Henrique IV, incoherente, como sempre, escreveu de seu proprio punho

ao papa para que não confirmasse a successão de D. Isabel; ao mesmo

passo sollicitava a confirmação pontificia aos direitos da _Beltraneja_.

Escrevia tambem ao rei de Portugal para que insistisse em desposar a

infanta.[10] «Estas cartas, diz o padre Flores, foram entregues ao

chronista D. Diogo Henriques de Castilho (a quem seguimos) para que

secreta e promptamente as levasse a Buitrago, onde estava a rainha com

sua filha, e fossem dirigidas com presteza a Lisboa e a Roma, como

aconteceu, com grande sentimento do arcebispo de Sevilha (quando o

soube), mas sem alvoroto, por mediar o mestre de S. Tiago.»

Affonso V estava lançado no plano inclinado do desastre. Obedeceu

ao pedido. A historia do segundo casamento do rei portuguez, nunca

realizado, é uma serie de _fiascos_, como hoje dizemos; o egregio

vencedor de Africa collocara-se n’um terreno escorregadio, e fora

resvalando até abysmar-se no ridiculo.

Segundo o testemunho de Lafuente, que se póde contraprovar em Damião

de Goes,[11] Affonso V enviara a Ocanha, onde estava Henrique IV, uma

_solenne embaixada_ a pedir a mão da infanta D. Isabel.[12] De Roma

chegara a vir uma bulla de Paulo II, dispensando para o matrimonio da

infanta D. Isabel com seu tio D. Affonso V.[13] Assim respondia o rei

portuguez á carta de seu cunhado. Mas essa embaixada solenne chegava

tarde a Castella. O arcebispo de Toledo apressara-se a tratar o casamento

da infanta com D. Fernando de Aragão, que já a esse tempo se intitulava

rei da Sicilia.

O prelado não perdera tempo, nem podia perder, porque o marquez de

Vilhena e o rei estavam dispostos a vencer pela força a tenacidade

da infanta. Pensaram em mandal-a presa para o alcacer de Madrid, mas

recearam-se dos habitantes de Ocanha que ridicularizavam em chistes e

satiras as pretensões de um viuvo de trinta e sete annos, como era então

Affonso V, á mão de uma donzellinha de dezoito, que naturalmente lhe

preferia um rapaz da sua idade, a mais florente de vida.

Era certo que, pelo tratado de Toros de Guisando, a infanta D. Isabel

não podia casar sem consentimento do rei, seu irmão. Mas o que valiam

tratados em Castella, sobretudo no tempo de Henrique IV, que tão depressa

os fazia como desfazia?!

O arcebispo de Toledo não perdera tempo, dissemos nós. E não podia

perder, porque, alem de Affonso V, pretendiam a mão da infanta o duque de

Guyena, irmão de Luiz XI, e um irmão do rei Eduardo IV, de Inglaterra.

O rei Henrique tivera que passar á Andaluzia, para socegar aquella

provincia. Antes de partir pediu á irmã que não abusasse da sua ausencia.

A infanta prometteu, mas por conselho do arcebispo, e a pretexto de

fazer trasladar para Avila o cadaver de seu irmão Affonso, sahiu de

Ocanha para o Madrigal, onde estava sua mãe, a rainha viuva. Estava,

porêm, em Madrigal o bispo de Burgos, sobrinho do marquez de Vilhena,

que andava com o rei pela Andaluzia. O bispo informava o tio do que se

passava. A espionagem era infatigavel; choviam as ameaças contra as

damas da infanta, e contra ella propria, que ia ser presa por ordem do

rei, quando o arcebispo de Toledo e o almirante D. Fradique conseguiram

arrancal-a á vigilancia dos espiões açulados pelo marquez de Vilhena, e

leval-a em triumpho para Valhadolid.

O arcebispo fez partir emissarios de sua inteira confiança para Aragão

a chamar o infante D. Fernando. A viagem dos emissarios, que temiam

ser descobertos, foi accidentada de peripecias arriscadas. Chegaram

a Saragoça, e conferenciaram com o infante. Foi combinado, que este

partisse apenas acompanhado por seis cavalleiros, disfarçados de

mercadores, e que por outro caminho sahisse uma partida figurando uma

embaixada do rei de Aragão a Henrique IV. Sobre a falsa embaixada deviam

incidir as attenções do publico, e as vistas dos espiões de Henrique IV.

Os seis cavalleiros jornadeavam de noite. O infante disfarçara-se em

criado; nas poisadas tratava dos cavallos, e servia á mesa. Foi assim que

os conspiradores conseguiram atravessar por entre os soldados do rei,

que cruzavam vigilantes as estradas, e passar incolumes sob a linha de

fortificações dos Mendonças, desde Almazan a Guadalajara. Uma noite,

porêm, o infante esteve em risco de ser victima. Chegaram ao burgo de

Osma, mortos de cançaço e frio. Chamaram á porta do castello do conde

de Trevinho, que era partidario de D. Isabel. A sentinella, julgando

serem inimigos, arrojou do alto do adarve uma pedra enorme, que passou

junto á cabeça do infante. O chronista Palencia, que era da partida, deu

então um grito; a sua voz foi reconhecida, e a porta do castello aberta.

Restaurada de forças, a cavalgada seguiu viagem, e dois dos cavalleiros

anteciparam-se para dar a boa nova á infanta.

Chegaram aos ouvidos do rei os rumores da conspiração. Henrique IV

deu-se pressa em regressar da Andaluzia, e em Trujilho recebeu uma carta

de D. Isabel participando-lhe a sua resolução de casar com o infante

D. Fernando, e fazendo em nome de ambos muitos protestos de obediencia

ao rei se elle não contrariasse este casamento, cujas vantagens para a

monarchia a infanta ponderava.

Fernando de Aragão completou a viagem com os quatro cavalleiros que lhe

restavam. Chegou de noite a Valhadolid, ás casas onde a infanta poisava.

O arcebispo de Toledo levou-o á presença de Isabel, e Gutierres de

Cárdenas, vendo entrar o infante, mancebo de dezoito annos, elegante e

robusto, exclamou: _Ese es, ese es._[14]

O casamento effectuou-se d’ahi a poucos dias, a 19 de outubro de

1469.[15] Estava, pois, dado o primeiro passo para a unidade hespanhola;

esse casamento unia duas monarchias.

Celebradas as nupcias, os noivos enviaram uma embaixada a Henrique IV,

participando-lhe que o casamento se havia realizado, remettendo-lhe copia

das capitulações matrimoniaes, e assegurando-lhe obediencia, no caso do

rei approvar o que estava feito.

A colera de Henrique IV foi enorme. Não lhe ficou inferior a do marquez

de Vilhena, que havia perdido a partida. Toda a côrte era um vulcão de

odios, que explodiam. Esperava-se apenas a hora da vingança, e essa hora

pareceu haver soado quando uma embaixada de Luiz XI chegou, a pedir

a mão da _Beltraneja_ para o duque de Guyena, seu irmão e porventura

herdeiro, que a infanta D. Isabel havia rejeitado.

Esta embaixada fortaleceu momentaneamente a causa da _Beltraneja_.

Foi recebida com grandes festas e pompa. O cardeal de Albi, um dos

emissarios de Luiz XI, perguntou solennemente á rainha se a princeza

D. Joanna era effectivamente filha do rei Henrique IV. A que baixezas

tinham nascido predestinadas a irmã e a sobrinha de Affonso V! A rainha

respondeu affirmativamente. Depois repetiu a pergunta o rei, e D. Joanna

repetiu a affirmativa. Então todos os prelados e cavalleiros presentes

beijaram a mão da _Beltraneja_, outra vez reconhecida herdeira do throno.

A infanta D. Isabel, não obstante haver escripto uma nova carta de

conciliação ao rei, e appellado para a arbitragem do bom conde de Haro,

Fernandes de Velasco, que era tido em Castella como o mais serio caracter

d’aquelle tempo, foi desherdada.

Henrique IV publicou contra sua irmã Isabel, já então mãe, um manifesto

injurioso; a infanta respondeu com outro, incriminando o procedimento

do rei. Entretanto nascera um filho de Luiz XI, o que afastava o conde

de Guyena da successão do throno de França. Chegaram, não obstante, a

fazer-se as capitulações matrimoniaes, mas o enthusiasmo de Henrique IV,

por esse casamento, esfriara desde que a Luiz XI nascera um filho.

Diz o padre Flores que todas as diligencias se mallograram por ter

morrido o noivo da _Beltraneja_. Esta asserção carece de reparo. O duque

de Guyena só morreu, em Bordeus, em maio de 1472. Elle mesmo havia

manifestado tambem pouca vontade de realizar o casamento contractado,

chegando a solicitar a mão da herdeira do ducado de Borgonha. De parte

a parte havia frieza. Ruy de Pina vem em reforço do que dizemos,

noticiando varias embaixadas entre as côrtes de Portugal e Castella, em

1470 e 1471,[16] para tratar de casamentos. Mas como D. Isabel houvesse

casado com o infante de Aragão, rei da Sicilia, e o infante D. João,

de Portugal, houvesse casado em Setubal, a 22 de Janeiro de 1471, com

sua prima D. Leonor, Henrique IV e Affonso V avistaram-se _entre Elvas

e Badajoz_ para combinar o casamento da _Beltraneja_ com o rei de

Portugal.[17]

D. Joanna e sua filha não assistiram a esta entrevista. Ficaram em

Escalona, acompanhadas pelo bispo de Burgos.

Diz Pina que D. Isabel e D. Fernando enviaram embaixadores á entrevista,

a fim de obstarem ao casamento de Affonso V com sua sobrinha. O rei de

Portugal reuniu muitas vezes conselho para tratar d’este assumpto, mas

sempre, em quanto Henrique IV viveu, sobrevieram duvidas e receios de

graves complicações entre os dois paizes.

O padre Flores escreve que, em todas estas negociações, o rei de Portugal

tinha grande desconfiança do mestre de S. Tiago. É natural que assim

fosse, mas tambem é natural que influisse no animo de Affonso V a

importancia que tinha realmente o partido de D. Isabel.

Como quer que seja, a causa da _Beltraneja_ perdia terreno. Quatro novos

projectos de casamento se haviam frustrado: com o duque de Guyena, com

D. Fradique, filho do rei de Napoles, com D. Henrique Fortuna, primo

coirmão do marido de D. Isabel, e com D. Affonso, de Portugal. Mas,

alem d’estes, ainda houve um outro projecto mais antigo, como sabemos,

relativo ao infante D. Affonso, que morrera. Andava a mão da pobre

infanta em almoeda, e ninguem a queria! A familia dos Mendonças afrouxara

tambem no seu enthusiasmo pela causa da _Beltraneja_, logo que o rei lhe

arrancara a infanta para a confiar á guarda do mestre de S. Tiago.

Ao passo que a má estrella da _Beltraneja_ parecia brilhar cada vez mais

sinistra no horizonte do seu triste destino, os partidarios de D. Isabel

logravam vantagens. Um d’elles, André de Cabrera, mordomo-mór do rei e

marido de D. Beatriz de Bobadilha, amiga dedicada de D. Isabel, pensou

em reconciliar o rei com a irmã. Soube-o fazer com fina diplomacia. D.

Beatriz foi a Aranda, disfarçada em camponeza, perguntar á infanta se

não teria duvida em avistar-se com o rei em Segovia. D. Isabel annuiu.

Cabrera venceu, por certo, sem grande difficuldade, as hesitações do

fraco rei Henrique.

Os dois irmãos avistaram-se em Segovia. Era isto em dezembro de 1473. O

rei não só se reconciliou com a irmã, mas quiz honral-a publicamente,

levando de redea a mula, em que a infanta montava, atravez das ruas,

ao som de musicas festivas. O mestre de S. Tiago, desairado por estas

secretas negociações, retirou-se da côrte.

Entretanto, a infanta D. Isabel, á qual viera juntar-se o infante de

Aragão, continuava a estar nas boas graças do rei. Banqueteavam-se

juntos, e foi n’um d’esses banquetes, dado por André de Cabrera que, no

domingo de _Reis_ de 1474, o rei se sentiu indisposto depois de ceia.

Fernando e Isabel visitavam na sua doença Henrique IV, mas não conseguiam

arrancar-lhe a confirmação dos seus direitos ao throno. Por sua parte, o

mestre de S. Tiago procurava desforrar-se do desaire recebido, procurando

infundir suspeitas de que os infantes houvessem envenenado o rei.

Voltando á côrte, o grão-mestre induzia o rei a apoderar-se dos infantes,

e assim teria acontecido se o plano não fosse denunciado a Fernando e

Isabel.

O rei melhorara, mas a sua saude tornara-se melindrosa. Não obstante,

João Pacheco, senhoreando outra vez o espirito de Henrique IV, fez com

que o rei o acompanhasse a Trujilho, para que o investisse na posse

d’aquella cidade, diz Lafuente; para concertarem d’alli secretamente o

casamento de D. Joanna com Affonso V, diz Zurita.

É certo que João Fernandes da Silveira, depois barão de Alvito, chegou a

ir a Castella encarregado d’este negocio.[18] Mas a viagem aggravara os

padecimentos do rei. Retiraram porisso de Trujilho, mas, a duas leguas da

cidade, João Pacheco, acommettido de uma inflammação de garganta, morreu

deitando muito sangue pela bocca.

A morte de João Pacheco, marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago,

impressionou o rei. Aquelle homem fôra o companheiro dos seus deboches

quando principe, e o instigador de grande parte dos seus actos como rei;

habituara-se a elle. Sentia-lhe agora a falta. Preso a esse cadaver

por laços torpes, honrara-lhe a seu modo a memoria, fazendo o filho de

João Pacheco marquez de Vilhena e grão-mestre de S. Tiago, sem sequer

consultar os cavalleiros da ordem.

Levantaram-se reclamações e protestos, que o rei teve de reprimir com

varias expedições. Este esforço quebrantou-lhe as ultimas forças.

Abandonou a lucta, para voltar a Madrid, cada vez mais doente. Morreu a

11 de dezembro d’esse mesmo anno de 1474.

Assim acabou, n’este rei fraco e nefando, a linha varonil da dynastia

Trastamara.

V

Rainha sem reino (Estudo historico do seculo XV) · 第 10 / 40 题