CAPITULO CXXII

_Como o conde d'Abranches tambem logo foi morto, e como acabou como

esforçado cavalleiro, e do que se mais seguiu no cabo da batalha_

O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial,

provendo e resistindo em sua estancia como bom e ardido cavalleiro, a

muitas afrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe

disse:

«Senhor conde que fazeis; porque o Infante D. Pedro é morto». E o conde

com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação

desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado

disse ao moço «calla-te e aqui o não digas a ninguem». E com isto ferio

rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamento, onde

sem alguma torvação pedio pão e vinho, de que por esforçar mais seu

esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas

honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e sahio a pé

pelo arraial, que de todalas partes era já entrado e vencido, e como foi

conhecido logo os d'El-Rei uns sobre os outros carregaram sobr'elle

cometendo-o de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança

que cortaram, e depois com sua espada os feria e escarmentava de

maneira, que os que a primeira vez o cometiam, de mortos ou feridos não

volviam a elle a segunda, e assi pelejou um grande pedaço como mui

valente e acordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam

trazendo as mãos e todas suas armas cheias não de seu sangue mas de

muito alheio que espargeo, porque emquanto andou em pé e se pôde

revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E em fim vencido

já de muito trabalho e longo cansaço, disse em altas vozes;--_Ó corpo,

já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas_--e com isto se

leixou cair tendido no chão, e uns dizem que disse,--_ora fartar

rapazes_ e outros _ora vingar villanagem_. Cujo corpo que já não

resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despedio a alma

de si para ir acompanhar a do Infante como lhe tinha promettido, e alli

um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com

que a El-Rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco

ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz

d'Almada seu irmão bastardo, que era vedor d'El-Rei, houve logo

enterramento no campo, e depois sepultura honrada.

E os outros fidalgos e nobre gente que eram com o Infante, vendo tão

claro seu destroço, cada um desamparou a defesa das estancias que lhe

foram encomendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o

coração e acordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á

aventura que se lhes oferecesse, e em fim de mortos, feridos, ou presos

não escapou algum.

E dos principaes da gente do Infante morreram ali: João Mascarenhas,

alferes do Infante, e Luiz Gomez da Grã, que levava a bandeira de D.

James, e um seu irmão, e Diogo Peixoto, e Rodrigo d'Anellos, e outros

cavalleiros e escudeiros de boa sorte, e foram muitos feridos; e da

parte d'El-Rei morreram principaes Ruy Mendez Cerveira, aposentador-mór

d'El-Rei, e Fernão de Sá, alcaide-mór do Porto, e João Rodriguez

Toscano, e assi alguns bons com outra gente de baixa condição, que

fariam numero de até XXV.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 50 / 69 题