_Como o Infante partiu de Castanheira, e se foi alojar no Ribeiro
d'Alfarrobeira_
E o Infante sendo no campo junto com o lugar da Castanheira, foi avisado
que El-Rei era já de Santarem contra elle partido; e porque o lugar em
que estava era campo devasso e sem disposição de se poder defender, e
muito menos de resistir, principalmente porque a gente não leixava cada
dia de lhe fugir, leixando já alguma parte de sua fardagem, partiu um
domingo com voz de se ir a Lisboa, em que n'aquelle dia queria entrar.
Mas isto se fingio assi por tal, que a gente na esperança de se salvar
fosse com elle e não lhe fugisse mais, e ante do meio dia se alojou logo
a além d'Alverca, em um ribeiro que se diz d'Alfarrobeira.
E o assento de seu arraial na maneira em que estava, foi d'aquelles que
nas cousas da guerra tinham bom conhecimento muito louvado; porque havia
n'elle disposição natural e artificial para poucos se defenderem a
muitos, e alli houve o Infante por melhor esperar sua ventura e não
seguir ávante, assi porque foi logo avisado da guarda de Lisboa, que de
todo estava irada contra elle, como porque tinha ainda esperança que
quando El-Rei sobre elle chegasse e o visse, que teria lembrança de
quanto serviço lhe fizera, e não se esqueceria d'outros muitos seus
merecimentos, com que lhe fizesse algum bom e seguro partido, e que para
outros lh'o lembrarem e fazerem fazer não acabava de desconfiar do
Infante D. Anrique, e d'outros muitos a que já fizera honra e mercê. E
quando isto assi não sobcedesse, e o rompimento não se escusasse, que ao
menos tinha escolhido lugar onde como Principe acabaria, e não sem
alguma vingança.
E alli esperou El-Rei, que logo á terça-feira, vinte dias de Maio, pela
manhã, chegou sobre elle, e mandou assentar seu arraial, de que o
Infante ficou de todo cercado. E em vindo El-Rei com suas batalhas para
chegar ao Infante, o conde d'Abranches sahiu e foi vêr sua gente, de
cuja somma, gentilleza e percebimento foi muito maravilhado, e em
volvendo como quer que de praça para esforço dos seus mostrasse e
dissesse o contrairo, porém ao Infante não encobriu a verdade, a quem
desenganou da pouca esperança que em sua resistencia e forças devia ter,
e alguns disseram que o conde pedira e requerera ao Infante, vista a
desegual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e
salvasse, e o leixasse com sua gente alli, onde folgaria acabar por seu
serviço, e que o Infante não quizera. Mas, o que mais verdadeiramente
ácerca d'isto se deve crêr, é que o conde pela certa sabedoria que tinha
do proposito do Infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos
por isso tinham feito, não lhe cometteria nem ousaria cometer tal cousa,
em que ao menos ficava o Infante por fé perjuro e fraco.