_Dos conselhos desvairados que ao Infante sobre sua proposição
foram dados_
Ao outro dia foram todos juntos, e leixando alguns apontamentos que
alguns n'este caso fizeram, finalmente no conselho houve tres conclusões
sustanciaes e em si desvairadas, e para cada uma não falleceram estas
vozes. A primeira foi do doutor Alvaro Affonso, homem assaz prudente e
bom jurista, em que depois de muitas palavras sumariamente concludio
«que o Infante como cavalleiro, e principalmente como catholico e bom
christão que era, não devia por si ir buscar a morte, mas antes
espera-la, em que havia muitas esperanças de vida, e quando sem razão
lh'a quizessem dar, que com grande fortaleza d'animo devia de defender
sua vida e honra, para que allegou muitos direitos e trouxe mui
autorizados exemplos, e que elle por mór resguardo de sua lealdade e
mais segurança de sua pessoa, se devia fortalezar em Coimbra, e bastecer
e prover d'armas e gentes os castellos de Monte Mór o Velho e de
Penella, e aguardar El-Rei, ainda que com todo seu poder o quizesse
cercar, e que sendo a cidade tão forte, e tendo elle tanta e tão boa
gente comsigo, El-Rei por força o não poderia logo tomar, e que para lhe
poer cerco prolongado, ou leixar sobre elle fronteiros, não havia
disposição nem possibilidade para isso, e que com Monte Mór teria tambem
a Foz de Buarcos, que em suas afrontas se sobreviessem, sempre seriam
portas abertas para sua salvação, e que por esta maneira não encurtaria
como desesperado sua vida, e como prudente alongaria o tempo, que emfim
por sua condição tudo com honra remediaria, especialmente que El-Rei
assi como crescesse nos dias, assi iria crescendo e esforçando seu
juizo, com que entenderia os enganos em que o traziam, a que sua nova
idade por então não alcançava, quanto mais que a Rainha sua filha estava
em esperança de emprenhar, e com a geração que Deus lhe daria, El-Rei se
acharia mais obrigado para o amar e honrar, e ella teria mór atrevimento
de em seus feitos o requerer. E que o povo que com malicias alheias
andava emnevoado, cansaria e amansaria de seus alvoroços, e que em fim
por partido sempre lhe fariam o que elle quizesse, pois com isso
claramente parecia elle com medo da ira de El-Rei, e por necessidade se
defender, e não com vontade de o desservir nem desobedecer, pois todos
sabiam que elle o tinha e amava por seu verdadeiro Rei e Senhor.»
E com este voto e parecer se foram D. Fadrique, Martim de Tavora, Aires
Gomes da Silva, João Corrêa, João de Lisboa, secretario, e Diogo
Affonso, e Pedro de Tayde, Dayão de Coimbra, que eram todos pessoas de
bom entender, esforço, e autoridade.
Eram outrosi com o Infante n'estes conselhos Luiz d'Azevedo, e Lopo
d'Azevedo, irmãos, e Martim Coelho, e Pero Coelho, tambem irmãos, os
quaes por serem entre si por casamentos liados seguiram todos outro
acordo, dizendo «que o Infante por maneira alguma não devia esperar
cerco, cá não era honra, ao menos por respeito da Garrotea que tinha,
nem proveito nem segurança, mas que leixasse suas villas e fortalezas em
bom recado, e que com a outra sua gente se saisse de Coimbra, e passasse
o Douro, onde n'aquellas comarcas teria a gente das terras de Lopo
d'Azevedo, e de Martim Coelho, e Ruy da Cunha, e d'Aires Gomez, e
d'outros muitos, com que seguraria sua pessoa e d'aquelles que o
seguissem, e que d'alli poderia tornar á Beira, e passar-se a riba do
Diana, e andar pelas terras do Condestabre seu filho; porque El-Rei o
não podia tanto seguir, que não andasse sempre diante, ou desviado a seu
salvo, aconselhando com isto que não sómente trouxessem a voz e nome
d'El-Rei seu Senhor, mas muito mais as vontades para o bem e lealmente
servir, e com a necessidade e fadiga que os do reino todo por isso
receberiam, conhecendo a sem razão de suas perseguições, ousariam dizer
a El-Rei a verdade e as falsidades com que seus imigos o moviam contra
elle, de que se seguiria que ou o leixariam livremente, ou lhe fariam
tal partido de que fosse contente.»
E com isto apontaram outras minguas, trabalhos, despesas e pecados, que
o cerco por sua condição trazia comsigo, pelos quaes o devia fugir e
avorrecer.
O conde d'Abranches tomou só outra conclusão, ás dos outros que apontei
em todo contraira, allegando e tocando com largas palavras, muitas
causas, razões e exemplos de Principes passados, porque não devia
esperar cerco, e outras tantas para não dever andar pelo reino,
especialmente com tão pouca gente, que muitas partes pela estreiteza dos
passos, e pelo grande poder d'El-Rei, se podia atalhar e acolher no meio
com muita deshonra sua, e assinado perigo seu e dos seus. E concludio
com a tenção do Infante que foi «antes morrer grande e honrado, que
viver pequeno e deshonrado, e que para isso vestissem todos os corpos de
suas armas, e os corações armassem principalmente de muita fortaleza, e
que se fossem caminho de Santarem, não como gente sem regra desesperada
nem desleal, mas como homens d'acordo, e que iam sob a governança e
mando de um tal Principe e tal capitão, que a El-Rei seu Senhor sobre
todos era mais leal e servidor mais verdadeiro, e que mandasse a El-Rei
pedir e requerer, que com justiça o ouvisse com seus imigos, que lhe tão
sem causa tanto mal ordenavam, ou lhe desse com elles campo, em que de
suas falsidades e enganos, elle por sua limpeza e lealdade faria que se
conhecessem e desdissessem. E quando El-Rei alguma d'estas cousas não
houvesse por bem, e todavia quizesse vir sobre elle, que então
defendendo-se morressem no campo como bons homens e esforçados
cavalleiros.