_D'outra falla que o duque fez a todolos seus, em que determinou
não leixar o seu caminho_
Honrados criados e amigos, eu sou aqui vindo por mandado d'El-Rei meu
Senhor, como vos disse, e por estas suas cartas o vereis; levo comvosco
este publico caminho sem danificar nem agravar alguem como sabeis, e ora
sou certificado que o Infante D. Pedro contra defesa e mandado do dito
Senhor, vem por elle com proposito de por força m'o impedir, e porque eu
por muitas causas que todos entendereis, sou em determinação de todavia
seguir ávante, eu vos rogo e encomendo, que para qualquer trabalho e
afronta que sobrevier, por serviço d'El-Rei meu Senhor e minha honra
esforceis os corações, e desenvolvaes as mãos como de vós e de vossas
bondades espero. E sabei certo prazendo a Deos, que a victoria é nossa
sem algum vosso perigo; porque a gente do Infante é pouca para a nossa,
e vem constrangida e cortada toda de temor; porque além de conhecerem o
dano a que se despõem, sabem o erro e deslealdade que cometem, vindo
contra a obediencia e mandado de seu Rei e Senhor. E por isso assi por
sem duvida, que todos estes na sombra do medo, vendo-nos logo o
leixarão. E por isso eu vos encomendo que no sangue d'estes não solteis
vossas mãos e ferro a toda a crueza, pois em fim são christãos e
vassallos de El-Rei meu Senhor, e á verdade innocentes, ainda que tenho
grande receio á vinda do Infante D. Fernando, e do conde d'Ourem meu
filho que vem detraz, e na hora do nosso ajuntamento serão comnosco, que
por ventura nas mortes e danos d'estes não quererão ter esse resguardo,
mas Deos o perdoe, ou acoime ao Infante D. Pedro, pois é causa d'isso, e
este trabalho que por mim tomaes, eu sempre vo-lo conhecerei, e El-Rei
meu Senhor tambem vo-lo deve e por meus requerimentos e intercessão
vo-lo satisfará com honras e mercês, como a bons e leaes vassallos que
soes; e com isto se recolheu a seu alojamento.