CAPITULO CI

_De uma falla que o Infante D. Pedro fez aos seus, estando todos a

cavallo_

Alli fez o Infante aos seus estando todos a cavallo uma comprida falla,

em que pareceu pela muita prudencia e gravidade com que a disse, que já

havia dias que a tinha cuidada.

Foi sua sustancia alegrar-se primeiramente no esforço, despejo, e

segurança que em todos para sua honra claramente via e conhecia, e que

não era sem causa; porque todolos que entre si via, poderia contar no

amor por seus filhos e netos, pois todos eram seus criados e filhos de

seus criados, e assi disse mui particularmente todolos agravos e

perseguições, e desfavores, que d'El-Rei por induzimento do duque e do

conde seu filho, e dos de sua valia tinha recebidos, com os quaes

justificou as causas de sua querella, para cuja emenda e vingança ali

eram vindos, e que não cressem que n'isto entrava odio nem escandalo que

tivesse d'El-Rei D. Affonso seu Senhor; porque elle como mui leal seu

vassallo e servidor, o reconhecia algum não, porque Deus sabia que elle

o amava e era razão que amasse sobre todalas cousas do mundo. E que na

criação que em sua real pessoa fizera, e na governança, paz e

conservação de seus reinos, que dez annos por elle regera e defendera,

quem sem paixão o quizesse consirar, acharia d'isso prova mui

autorisada, e que o agravo que tinha não era da natural inclinação

d'El-Rei, mas da pouca edade sua, com que madura e perfeitamente não

podia conhecer os enganos em que contra si seus imigos o traziam, e que

a principal causa da inimizade que seus imigos contra elle tinham, não

fôra por lhes dar pouco; porque do patrimonio real com honras e titulos

muito lhes tinha dado; mas porque lhe não dera todo, especialmente por

não dar ao duque a cidade do Porto e a villa de Guimarães, que muitas

vezes com outras cousas da corôa mui cegamente lhe pedira, e que o

acrescentamento que em si e em seus filhos fizera, fôra sómente de muito

amor e grande lealdade, e com mui verdadeiro desejo de servir, em que ao

mais leal do mundo não conheceria avantagem; porque da herança da corôa

de Portugal, não falando na que El-Rei D. João seu padre lhe dera, ainda

a primeira mercê e acrescentamento seu estava por receber, e porque seus

contrairos sentiram, que sua bondade e seu livre conselho acerca

d'El-Rei, seriam para suas cobiças e acrescentamentos cousas mui

suspeitas e perjudiciaes, trabalharam de o apartar d'El-Rei e a El-Rei

do amor que lhe devia ter, e credito que lhe devia dar, e que a vinda do

duque por sua terra, e na maneira em que vinha, não era com verdadeira

necessidade de serviço d'El-Rei, mas sómente pelo abater, ou por dar

causa com que El Rei mais se indinasse para sua destruição; porque se o

assi leixasse passar sem resistencia, seria publicar fraqueza de coração

com seu vituperio e abatimento, o que a elle seria grave pena e ao duque

muita gloria, se lhe resistisse indo á côrte, que lh'o reputariam a

desobediencia e deslealdade contra El-Rei, para o mais asinha moverem

para o que tanto desejavam. E porém que por ser quem era, e decender de

quem decendia, finalmente o não havia de consentir, e que tanto esforço

teria de morrer sobr'isso vencido com um só page, como então tinha

esperança de viver e vencer, vendo-se acompanhado de tantos e tão bons

amigos e criados, e que por isso era escusado esforça-los para a

vingança de suas injurias com exemplos de feitos passados, pois os via

para isso tão esforçados, antes se o caso viesse a rompimento como

esperava, lhes encomendava a todos mais piedade que crueza, e com os

olhos alevantados ao ceo cheios de muitas lagrimas pedio perdão a Deus

com palavras de muita devoção, e se encomendou a elle, e á Virgem Maria

sua Madre, e feito isto mandou que se armasem e percebessem todos.

Chronica de el-rei D. Affonso V (Vol. II) · 第 29 / 69 题