_Das cousas que o conde de Barcellos fez em abatimento do Infante
D. Pedro depois que soube que já não regia, e para lançarem o
Infante fóra da côrte_
O duque de Bragança como soube que o Infante desistira do regimento, e
que já El-Rei absolutamente regia, por imprimir e confirmar no povo a
suspeita de desleal que contra o Infante tinha já com El-Rei
principiada, partiu da Villa de Chaves, e com estrondo de gente armada
se foi á cidade do Porto, e a Guimarães e Ponte de Lima, e a outros
logares d'aquella comarca, onde aos criados do Infante tirou os officios
que tinham d'El-Rei, e a todos com infamia de tredores lançou fóra, e
com nome de receio do Infante mandou velar e roldar as villas e
castellos, como se El-Rei e o Infante foram imigos e houvera já entre
elles pregoada guerra, com outras oniões d'esta calidade, que no reino
contra elle individamente se faziam.
Estas falsas novidades vinham logo ás orelhas do Infante, que feriam sua
alma com muita dôr e tristeza, especialmente porque o remedio que
n'ellas cabia e elle procurava, via que com desprezos lh'o denegavam.
Na côrte d'El-Rei andava a este tempo um Berredo, proto-notairo, filho
de Gonçalo Pereira, de Riba de Vizela, mancebo avisado, que por estar já
em côrte do Santo Padre tinha boa pratica, e por algumas letras que
aprendera havia solta audacia de dizer. Este por astucia e conselho do
duque e do conde d'Ourem, veiu á côrte bem avisado d'elles, do que
secretamente diria a El-Rei para o fim que desejavam, que era meter
El-Rei em odio com o Infante D. Pedro e tira-lo do regimento, e com
achaque de despedir suas cousas para Roma, fallava com elle muitas vezes
em apartado, por cujo malicioso meio e falsa informação que
astuciosamente dava a El-Rei, se seguiu principalmente o maior damno que
o Infante e suas cousas receberam. Porque com isto fazia-se grande
servidor e muito familiar do Infante, a cuja casa, camara e mesa ia
continuamente. D'onde maliciosamente trazia novidades e suspeitas a
El-Rei, com que umas horas lhe fazia crêr que andava subgeito, e contra
o que a seu estado cumpria, e outras que sentia do Infante que queria
reinar e fazer seus filhos grandes, acautelando-se sempre que o que
dizia a El-Rei, não era como imigo nem desservidor do Infante, de quem
recebia honra e mercê; mas porque era portuguez leal a El-Rei a quem
mais devia.
E assi o sabia entoar, que todo o que queria imprimia á sua vontade na
molle e nova edade d'El-Rei, e por aviamento d'este se foi El-Rei vêr
com o conde d'Ourem a Torres Novas. Onde com muitas razões, que para o
caso com seus aderentes tinha compilladas, fez crêr a El-Rei camanho
abatimento e quão grande sobgeição sua era andar mais o Infante na
côrte, que cedo por isso não obedeceriam a El-Rei, e era razão que o
fizesse; porque andando o regimento assi misturado, sempre seria de crêr
que o Infante mandava e regia, o que a todos seus vassallos fazia grande
escandalo, e que por isto e por outras causas muitas que alegavam,
El-Rei com alguma mostrança de bem o devia despedir de si e de sua
governança, e que para isso seria melhor, e com menos pejo seu não
tornar mais a Santarem, e mandar por outrem dizer ao Infante sua tenção
e vontade, por se escusarem quebras e descontentamentos d'entre ambos em
pessoa.
El-Rei levemente consentiu no despedimento do Infante, mas disse «que
não havia com tal engano despedir seu tio; porque seria sem duvida
declarar de todo sua fraqueza e algum desconhecimento; mas que em pessoa
o despediria como era razão».
E para em caso que o Infante a isso não obedecesse e refusasse sua
partida, disseram que era bem que El-Rei levasse comsigo armados, como
levou, os vassallos da comarca. E que por força em tal caso, como a
revel o lançasse fóra da côrte, com aquella mais pena que por isso
merecesse. Mas o Infante a que tudo isto se logo descobrio, quiz da
força alheia fazer sua livre vontade, e como El-Rei tornou a Santarem
foi-lhe logo falar, e encobrindo com uma falsa alegria de seu rostro uma
verdadeira tristeza do coração que tinha; depois d'algumas praticas
extraordinarias, publicamente lhe disse.
«Senhor, dez annos ha que n'este cargo, que vós e vosso reino me destes,
vos servi como melhor pude e soube, nos quaes minhas terras por minha
ausencia receberam de mim pequeno repairo, como todos sabem, e minha
fazenda padeceu grande perda; porém tudo hei por bem empregado, pois
tudo redundou em vossa perfeita creação e mui inteiro serviço. Agora
pois vos Deos chegou a tal idade, e deu tal siso, entender e disposição
para sem outra ajuda regerdes por vós vossos reinos ainda que fossem
maiores, peço-vos por mercê que me deis licença para ir prover o meu,
que de mim já tem grande necessidade, e quando nas cousas graves e
pesadas, que em vosso reino e a vosso serviço occorrerem minha presença
fôr necessaria, mandae-me chamar, e prazendo a Deos vós n'isso e em todo
conhecereis que sobre todos vossos vassalos e servidores, eu vos amo e
vos sou o mais obdiente e mais leal».
D'este cometimento do Infante ficou El-Rei descarregado e mui ledo;
porque com elle se viu alivado do grande peso e cuidado que para isso
trazia, e por sua humana e mui real condição, com tudo lhe pesava
grandemente partir-se d'elle o Infante agravado nem descontente, e porém
com palavras que pareciam de muito agardecimento e amor lhe outorgou a
licença, e mais lhe mandou dar uma solemne quitação de todo o tempo que
por elle regera seus reinos, com aprovação de todo o que em seu nome até
então dera e fizera. O que alguns quizeram depois contrariar, dizendo
que devia antes ser revogação que aprovação; mas por então sua
contradição não aproveitou, por que todavia passou com toda solemnidade
e perfeição.
O Infante como teve licença d'El-Rei e aviou as outras cousas que lhe
cumpriam, se partiu de Santarem para Coimbra no fim do mez de Julho; e
porque se receiou de gente que o conde em Ourem tinha junta, quiz
n'aquella travessa segurar sua pessoa com outra gente sua que mandou
perceber, com que até Thomar foi mui honradamente acompanhado, e d'alli
a despediu e levou sómente comsigo os de sua casa, e dois seus filhos,
D. Pedro o maior, e D. James que depois foi Cardeal.
E como o Infante leixou a côrte, logo o conde de Ourem, e o Arcebispo de
Lisboa, e o conde D. Sancho com outros de sua opinião se foram a ella,
onde todo seu cuidado foi inventar com El-Rei novidades e determinações
que fossem em nojo e abatimento do Infante. E entre outras ordenaram que
El-Rei para segurança não sómente de sua vida, mas da justiça e fazenda
tirasse, como logo tirou todolos officios que os criados de seu tio na
côrte tinham de qualquer calidade que fossem, poendo suspeições e
testemunhos falsos, a uns que erravam na justiça, e a outros que
roubavam a fazenda, e a outros que dariam peçonha a El-Rei, segundo a
cada um em seus officios podia tocar, e para parecer que o queriam
provar, não falleciam logo pessoas induzidas, que com medo de pena, ou
com esperança de galardão que lhe promettiam, á sua vontade o
testemunhavam. Ajuntavam-se a isto os criados da Rainha D. Lianor, que
para mais agravarem suas querellas diziam contra o Infante por conselho
de seus imigos muitas cousas á verdade mui contrairas. E o fundamento
d'estes era semear contra o Infante e contra os seus estas desleaes
suspeitas; porque o amor e affeição que por seus beneficios e
merecimentos El-Rei e o povo de Portugal lhe tinham, e era razão que
tivessem, o convertessem em odio e desamor, com que celeradamente e sem
se poder remedear lhe causassem a morte como fizeram; porque sabiam que
sua vida se muito durasse, não sómente impediria o effeito das cobiçosas
esperanças em que para seus maiores acrecentamentos andavam, mas ainda
suas vidas ao diante não seriam isentas de perigo, por saberem que além
da grandeza do Infante e grande saber, a que seria mui deficil resistir,
tinha muitos no reino que por criação e por graças recebidas lhe tinham
grande amor, e des-hi que tinha filhos que seriam grandes senhores, e
sobre tudo a Rainha sua filha, de cujo amor e fruito de geração, se
El-Rei fosse ao diante vencido, como de sua edade e por suas virtudes e
perfeições se esperava, teriam para si mui duros contrairos. E por tanto
trabalhavam de poer El-Rei por qualquer maneira que podessem, no
derradeiro gráo de odio e imizade contra o Infante.