=Summario.=--Concepção da politica como sciencia experimental.
Origens d’esta concepção em Turgot, Kant e Condorcet. O seculo XVIII
não era o meio proprio para o desenvolvimento d’esta concepção.
Razões d’isso.--A sociedade é um phenomeno natural, cognoscivel pela
observação. Demonstração directa d’esta these.--É inexplicavel a
evolução social pela philosophia dos _principios absolutos_. Esta
philosophia na Allemanha. Divisões e subdivisões d’ella. A theologia
hegeliana. Descredito geral d’essa doutrina.--A influencia dos
_grandes homens_ não explica a historia. Os grandes homens não dirigem
o movimento social, apenas influenceiam a sua intensidade. Idéas de
Herbert Spencer sobre a theoria dos grandes homens. Critica d’essas
idéas.--A _providencia_, deducção racional da idéa de Deus, não dá
a explicação scientifica do universo. Doutrina da Egreja Catholica.
Theodicêa de Kant. O livro de Job e as idéas do philosopho allemão.
Como H. Spencer concilia a religião com a sciencia. Refutação de
Spencer por E. Littré. A nossa opinião.--Se existe uma formula, a que
esteja subordinada toda a sociologia. Resposta negativa.--Augusto
Comte e a _lei dos tres estados_. Argumentos contra ella de Littré,
Wyrouboff e Huxley.--A philosophia de Spencer. Exposição e critica
d’ella. Base hypothetica do systema de Spencer, e caracter empirico
da sua lei de _evolução_.--O _transformismo_ de Darwin. Esta
doutrina na biologia e na sociologia. Bagehot e o seu transformismo
applicado á historia. A porção de verdade que ha na hypothese
transformista.--Fundo commum dos systemas criticados: a experiencia é
o methodo da sociologia; esta sciencia tem a biologia por antecedente
necessario.--Situação politica e social do Occidente. Pangermanismo
e panslavismo. A _lei da extensão das raças_, applicada á Russia
e á Allemanha. Perigos para as nações neo-latinas. A constituição
scientifica da sua politica é o unico meio de os evitar. Conclusão.
Á politica, utilisação definitiva de toda a sociologia, pertence,
na serie hierarchica das sciencias, o logar supremo e culminante.
Disciplina custosissima de organisar, porque os factos de que infere
as suas leis são extremamente complexos e cambiantes, e, por isso,
só a grande esforço classificaveis, as suas difficuldades sobem de
ponto logo que se pensa em applicar os processos da deducção logica
ás observações e analyses realisadas. E sem essa deducção claro
está que seriam infructuosos os trabalhos sociologicos, porque, sem
possibilidade de previsão, não ha sciencia social.
Póde dizer-se moderna esta comprehensão da politica como doutrina
regida por leis experimentalmente determinaveis. Segundo as indagações
criticas de E. Littré[1], não vae além do seculo XVIII, sendo
Turgot[2] o primeiro que traçou com um grande talento generalisador
os lineamentos d’aquella concepção. A pequena distancia de tempo
attingiram o mesmo resultado Kant[3] e Condorcet[4]: o insigne
philosopho allemão demonstrando _a priori_ a possibilidade d’uma
historia universal referida á existencia da nossa especie, e o grande
escriptor francez esboçando genialmente o seu quadro dos progressos do
espirito humano.
Turgot e Condorcet demonstrando que ha successão natural nos periodos
da humanidade e perfeita continuidade no trabalho moral das gerações,
e Kant derivando esta mesma verdade, não da observação objectiva
dos factos, mas da consideração metaphysica de que a nossa especie
deve realisar o inteiro desenvolvimento das faculdades do espirito,
impossivel nas sós forças e condições do individuo,--assentaram
definitivamente no grande facto sobre que se basea toda a sciencia
social: a universal solidariedade do genero humano, a existencia da
sociedade como entidade sujeita, na sua evolução, a leis proprias e
determinaveis.
O seculo XVIII, porém, apesar da sua prodigiosa fecundidade
especulativa, não era ainda o meio proprio para estas concepções
fructificarem inteiramente. O espirito desenvolvia-se com espantosa
celeridade; o kosmos desvelava os seus mais importantes segredos aos
olhos da philosophia natural; a astronomia chegava, graças aos calculos
de Newton e de Laplace e ás descobertas de Herschell, á triumphante
conclusão dos principios de Galileu e de Descartes; a physica procedia
com muitissima felicidade nas suas experiencias, libertando das velhas
entidades metaphysicas o som, a luz, o calor; a chimica recebia de
Lavoisier a palavra dos seus factos e a lei das suas combinações;
Buffon traçava a historia verosimil do planeta; Lamark, secundado
por Gœthe e Saint-Hilaire, punha em solo firme os fundamentos da
zoologia, e preparava assim o advento da moderna theoria de Darwin, se
inacceitavel como lei universal, em todo o caso mais ou menos valida
como hypothese scientifica nos dominios da biologia. Por outro lado a
mais larga erudição, o mais consciencioso encyclopedismo e uma ou outra
tentativa de generalisação entravam de apparecer no espirito d’aquelle
seculo. É sabido que Voltaire expoz e verificou as theorias physicas
e mathematicas de Newton, que Montesquieu se mostrou grandemente
versado nos mais intrincados problemas da botanica, da acustica e da
physiologia, que Rousseau reflectiu nas suas obras moraes as ultimas
conclusões da philosophia cosmologica[5].
Esta é a gloria d’aquelle seculo. N’elle assumiu a maxima intensidade
o movimento destruidor, a negação scientifica, a critica social
principiada no seculo XVI. Este espirito critico utilisou, para
realisar o seu proposito, todos os meios de acção intellectual, desde
as graças picantes de Rabelais, as duvidas scientificas de Montaigne
e o empirismo politico de Machiavel, até ás ultimas convulsões
dialecticas da doutrina carteziana, aos fugazes explendores do
criticismo allemão e aos excessos exclusivistas do experimentalismo
inglez.
A lucta foi desordenada, vertiginosa, incoherente, mas indefessa. A
Encyclopedia, julgada com um criterio systematico, é um monstro, é um
cahos: é conjunctamente athea, deista, pantheista. O furor critico, em
todos os dominios que invadiu, foi á ultima extremidade: Kant, á força
de apurar as faculdades intellectuaes, negou-as; Rousseau, no proposito
de apurar o que de máu existia nas relações politicas e civis da
humanidade, negou primeiro a civilisação e alluiu depois os fundamentos
da sociedade!
Emquanto não estivesse concluida esta obra de decomposição universal,
emquanto não acalmasse esta febre de que estavam possessos todos os
espiritos, emquanto não desapparecessem de vez as velhas concepções da
edade-media que luctavam desesperadamente, na politica e na sciencia,
contra a _ideia nova_, que vinha na superficie d’aquelle grande mar
imponente e revolto,--claro está que não era possivel construir
calmamente, serenamente, os elementos organicos da moderna sociedade.
As concepções de Turgot, de Kant, de Condorcet não podiam ser mais que
uma fulgentissima aurora: allumiavam, é certo, uma ou outra das mais
elevadas consciencias, mas, para a grande multidão dos que liam e dos
que pensavam, não podiam deixar de passar inteiramente despercebidas.
Eram hypotheses uteis, mas incomprehensiveis naquelle tempo.
Por outro lado, o movimento scientifico, religioso e politico
dirigia-se num sentido claramente individualista, e chegava-se, por
esse modo, a altear a unidade humana em criterio absoluto de toda a
philosophia social. Ora a unidade humana, elemento principalissimo
da unidade social, não é a só base da sociologia. Como já dissemos,
esta grave sciencia tem por verdadeiro fundamento a comprehensão dos
agrupamentos humanos como corpos distinctos, naturaes e perfeitamente
evolucionaveis; e tal comprehensão era impossivel emquanto as sciencias
não copiassem na sua hierarchia didactica a perfeita serie dependente
da phenomenologia natural, e se assentasse d’uma vez para sempre em que
as forças do homem são impotentes para deduzir _a priori_, das puras
condições da consciencia, todas as verdades da natureza e todos os
principios da sociedade.
A sciencia da natureza foi a primeira a entrar afoitamente n’aquelle
caminho. As vãs entidades com que a escolastica pretendia explicar
todas as relações naturaes foram desapparecendo umas após das
outras, fortemente perseguidas pelo genio de Bacon, e dando logar á
consideração das leis physicas e chimicas como forças immanentes ao
kosmos.
Parallelamente a este movimento vivificador, a philosophia social,
descendo raras vezes das regiões verdadeiras mas incompletas do ideal
e do especulativo, provava em cada arrojo a sua impotencia; e, a par
e passo que as sciencias cosmologicas caminhavam com segurança de
hypotheses verificaveis para theorias assentes, aquella philosophia,
differente para cada periodo de tempo e para a indole de cada povo, ia
dispondo nos espiritos o germen do scepticismo, que é o mais grave,
o mais horrivel de todos os males de que póde ser accommettida a
humanidade.
A astronomia depois de Laplace, a chimica depois de Lavoisier, a
biologia depois de Bichat, estavam constituidas, tinham principios
incontestaveis, senhoreavam em plena prosperidade os seus dominios
independentes, e ainda na Allemanha, onde, desde meado do seculo
passado, parecia estar o mais amplo laboratorio das especulações
scientificas, dois homens eminentissimos, Hegel e Schelling, intentavam
deduzir racionalmente a philosophia da natureza, desprezando, para
o estudo d’ella, todo o proposito de analyse, todo o processo de
observação!
A estas ousadas e infelizes tentativas de _crear_, philosophando,
a natureza, chamou Humboldt, com muitissima razão, _les courtes
saturnales d’une science purement idéale de la nature_[6].
Parodiando a phrase do illustre sabio prussiano, diremos tambem que as
especulações d’aquelles e outros philosophos da mesma escola sobre os
fundamentos do direito e da moral, e sobre a verdadeira significação da
historia eram as _breves saturnaes d’uma sciencia puramente ideal da
sociedade_.
* * * * *
Mas existe realmente uma sciencia social? N’outros termos, os
phenomenos sociaes, no que teem de especifico, são susceptiveis de
observação e de classificação? Observados e classificados que sejam, é
possivel utilisar os seus resultados, deduzindo, applicando, prevendo?
Entendemos que sim. O que não quer dizer que a sciencia social esteja
inteiramente organisada. Não está. Sendo, como é, a mais particular
e a mais difficil de todas, dista ainda enormemente da perfeição que
attingiram algumas das que a precederam.
O que está é _constituida_; o que conseguiu, foi delimitar os
seus dominios, precisar os seus processos, conhecer a sua indole
propria; o que não póde disputar-se-lhe já, é a posse d’um fundamento
rigorosamente scientifico. Assim como a chimica se constituiu desde
que se descobriu a affinidade e suas leis; do mesmo modo que a
biologia adquiriu os fóros da sua independencia logo que se verificou
a existencia d’uma vitalidade inherente aos tecidos;--a sociologia
surdiu do chaos em que estava quando se liquidou o facto da transmissão
hereditaria das civilisações, e se começou de tentar a explicação
d’esse facto por leis mais ou menos hypotheticas, mas inspiradas da
observação historica.
Contra esta comprehensão da sciencia social sabemos nós que se
levantam ponderosissimas objecções. A existencia do livre arbitrio e a
infinita variabilidade dos actos humanos são a materia forçada d’esses
argumentos. A liberdade do homem, dizem, annulla toda a previsão
sociologica; se os factos sociaes não são jámais repetidos, não é
possivel fazer applicação de leis d’essa ordem.
Herbert Spencer, considerando devidamente n’um dos seus melhores livros
aquellas objecções, responde-lhes satisfactoriamente, demonstrando
em primeiro logar que, se em alguns casos, a vontade humana escapa
ao calculo, á previsão, em muitos outros, em quasi todos, cedendo a
motivos de consideração determinavel, póde incluir-se nas condições
d’uma lei; e notando em seguida que, se a variedade dos actos humanos
fosse argumento valido contra a sociologia, seriamos forçados a negar
logo, por um motivo analogo, a todas as doutrinas existentes o seu
caracter scientifico. «Na geologia, na biologia, na psychologia as
previsões são, pela maior parte, apenas qualitativas; quando são
quantitativas, são-no d’um modo vago, sem grande precisão. Apesar
d’isso não hesitamos em as considerar scientificas. O mesmo devemos
fazer relativamente á sciencia social. Os seus phenomenos, muito mais
complexos que os das outras sciencias, são, menos que todos esses,
susceptiveis de ser tractados com precisão... Mas, desde que póde haver
generalisação, e sobre esta generalisação basear-se uma interpretação
legitima, ha sciencia[7].»
A sociologia não é, não póde vir a ser uma disciplina exacta, mas teem,
mas podem ter valor provavel as deducções d’ella, e tanto basta para se
lhe não poder negar o fôro de verdadeira sciencia.
Todos os dias estamos nós fazendo applicação, embora muitas vezes
inconsciente, de leis devidas á experiencia, e exteriorisando assim
a convicção de que ha causalidade natural nos factos humanos. Nas
luctas da politica, como nos phenomenos da economia social, está-se
evidenciando isso a cada momento. Os esforços empregados para a
realisação d’um programma; as batalhas feridas em defesa d’uma
instituição; os sacrificios feitos á conservação d’um principio; as
revoluções operadas em serviço d’um pensamento qualquer, traduzem a
forte convicção em que está toda a gente de que, dados certos factos,
se modificam as condições sociaes, e sobe ou desce o nivel intellectual
e moral dos povos. «Se não ha causalidade natural nas acções dos homens
reunidos em sociedade, são cousas absurdas um governo e uma religião.
Podem, querendo, fazer depender os Actos do parlamento d’uma tiragem
á sorte, e até prescindir d’elles: visto que as condições sociaes não
seguem uma ordem determinavel, nenhum máu effeito ha a temer com isso;
fica tudo no chaos[8].»
A lei da offerta e da procura, a lei da divisão do trabalho, a
lei dynamica do trabalho ou a formula da sua productividade, e
tantas outras de que a industria e o commercio fazem frequentissima
applicação, são mero producto da experiencia. E ninguem por isso
deixará de as considerar inteiramente scientificas.
De tudo isto infere-se que a evolução economica e politica obedece
á influencia de leis naturaes cognosciveis pela observação, e não á
cegueira do acaso nem ao imperio de leis mysteriosas e indeterminaveis.
Para que a verdade d’aquella proposição ressaia do confronto com as
theorias adversas, vamos passal-as em revista, com a exactidão precisa,
mas com a rapidez demandada pela indole especial d’este capitulo.
* * * * *
Vigorou por muito tempo nas escolas uma theoria eminentemente
especulativa, que ainda tem partidarios decididos nas mais altas
regiões do saber official: a theoria que considera a sociedade,
no seu desenvolvimento historico, como acção fatal de principios
irresistivelmente fecundos, não em fórma mudavel, contingente e
progressiva, mas com um caracter de todo o ponto imperativo e absoluto.
N’este systema de idéas a sociedade é uma pura deducção da consciencia.
Este pensamento recebeu na Allemanha as suas mais solemnes fórmas
scientificas. A evolução d’elle, quanto á sua derivação logica, vem
desde o _formalismo_ de Kant até ao _pessimismo_ de Schopenhauer. Esta
ultima doutrina é o mais grave symptoma pathologico do idealismo
transcendental d’alem do Rheno. Aquillo morreu, ou vae morrer.
A moderna evolução philosophica da Allemanha tem, sem embargo dos seus
excessos e desvarios, manifesta utilidade. A extrema _individualisação_
de Kant preparou o _objectivismo absoluto_ de Hegel e de Schelling, e
estes dois philosophos, mas principalmente Hegel, são os precursores
das idéas correntes sobre evolução historica, que, posto não soffram
ainda coordenação systematica, dão com certeza uma forte direcção nova
e util ás especulações da sociologia.
Como os individuos teem caracter e temperamento proprios, as raças
produzem-se com qualidades especificas que as differençam notavelmente
das outras communhões sociaes. Ora uma das mais caracteristicas
qualidades da raça germanica é o seu irresistivel pendor para as
altas especulações metaphysicas e subtis. Nem os seus mais insignes
naturalistas escapam á força d’essa lei. Sirva de exemplo o _monismo_
de Haeckel. É a influencia indiscutivel do primitivo caracter aryano
nestes seus directos e legitimos representantes; é tambem, n’uma certa
proporção, a consequencia natural do meio geographico d’aquelle povo.
Aquelle caracter assume o _maximum_ de intensidade no labor
intellectual dos seus philosophos. Citaremos um facto. O movimento,
litteraria e scientificamente individualista, do espirito francez,
que produziu a revolução de 89, foi parallelamente correspondido na
Allemanha pela doutrina de Kant e seus discipulos; mas que differença,
que enormissima differença entre as faceis demonstrações practicas
e claras da philosophia franceza e a selva cerrada de deducções
e raciocinios de toda a ordem, que entumecem e difficultam as
especulações allemãs!
Longe de nós o querermos com isto offender a memoria do insignissimo
critico allemão, e muito menos ainda amesquinhar a importancia da sua
patria no movimento intellectual da Europa. Não. Sabemos muito bem
que, sendo a ultima a libertar-se das esterilisadoras influencias da
escolastica, em pouco tempo chegou, graças aos esforços geniaes de
Leibniz, de Lessing, de Wolf, de Kant e seus successores, a acompanhar
e, por vezes, a exceder as nações muito anteriormente despertadas por
Bruno, Bacon e Descartes.
Esta theoria dos principios absolutos, logicamente pantheista nos
homens mais notaveis da escola, decáe a olhos vistos. Ninguem se
entende neste chaos. Sem um criterio seguro e invariavel, transferindo
quasi sempre para o mundo fallaz da imaginação os principios da
sciencia, os philosophos d’esta escola divergem infinitamente uns dos
outros, dividem-se e subdividem-se, desacreditam-se por isso mesmo,
e ficam, a final, com toda a responsabilidade da lamentavel anarchia
intellectual de que tanta gente esta possessa! A fortissima dóse de
scepticismo, que tem envenenado muitas consciencias, não tem outra
causa....
Segundo uns, os _formalistas_, o espirito e a natureza não teem
realidade, não passam de phantasmas inapreciaveis e inconsistentes;
segundo outros, os _objectivistas_, a consciencia é um dos infinitos
tabernaculos do absoluto, do absoluto real, de Deus, ao mesmo
tempo pessoal e impessoal, perfeitissimo e progressivo! Damos isto
como amostra: «_Dieu est immanent non-seulement dans l’ensemble de
l’univers, mais dans chacun des êtres qui le composent. Seulement
il ne se connaît pas également dans tous. Il se connaît plus dans la
plante que dans le rocher, dans l’animal que dans la plante, dans
l’homme que dans l’animal, dans l’homme intelligent que dans l’homme
borné, dans l’homme de génie que dans l’homme intelligent, dans Socrate
que dans l’homme de génie, dans Boudha que dans Socrate, dans le Christ
que dans Boudha._
«_Voila la thèse fondamentale de toute notre théologie. Si c’est bien
là ce qu’a voulu dire Hegel, soyons hégéliens[9]._»
Sinceramente, não os comprehendemos.
Mas a divergencia dos resultados é que annulla inteiramente a
competencia do processo. Basta um exemplo: Dos que, seguindo
Hegel, procuram nos factos da historia a confirmação das suas
deducções ontologicas, uns, como Renan, vêem a humanidade ascender
successivamente para a suprema perfeição, clarificando-se cada vez mais
na sua consciencia o espelho em que se reflecte Deus; outros, como
Schopenhauer, consideram o nihilismo, a destruição propria pela negação
absoluta da vontade, como o verdadeiro ideal das almas; ha quem veja a
felicidade social nas fortes organisações economicas e politicas; em
sentido contrario, não falta quem sustente que a direcção do espirito
humano é no caminho do mais rasgado individualismo!
Disse já alguem que toda a heresia procurava na Biblia os seus
argumentos de auctoridade. É certo isso, como é egualmente certo que
ainda não appareceu concepção mental alguma, que não tenha obtido
da historia, por aquelle modo interpretada, apoio e fundamento. São
objecto das mesmas infidelidades o livro de Deus e o livro dos homens.
Bem certo que as cousas apparentam sempre as côres do prisma, através
do qual são vistas!
* * * * *
A theoria dos _grandes homens_ considerados como a principal, senão a
unica causa impulsora da evolução social, tambem não resiste á critica.
Este criterio de philosophia da historia, se tal designação merece, é
comtudo uzualissimamente empregado não só pelo vulgo ignorante, o que
não é para estranhezas, mas até pelos mais festejados escriptores,
pela _élite_, aliás muito restricta, dos nossos sabios e pensadores.
Basta, para nos convencermos d’isso, lançar os olhos pelos compendios
adoptados nos estabelecimentos de instrucção secundaria, e por quasi
todos os nossos livros sobre historia. E todavia um breve momento de
reflexão seria sufficiente para annullar em quaesquer consciencias,
medianamente esclarecidas, a influencia d’aquelle nefasto preconceito...
A direcção do movimento social não depende dos grandes homens. Não.
A historia não é, como geralmente se crê, a só lição do que foram os
heroes, os sabios, os grandes reis e os grandes martyres; a historia
é a consciencia do continuo desenvolvimento da humanidade por effeito
de leis immanentes ao seu organismo social. Os grandes homens não são
mero improviso da natureza; são, na maior parte da sua obra, verdadeiro
producto de estados sociaes anteriores, e os seus talentos, para que
vinguem, hão de necessariamente ser postos ao serviço do seu tempo.
Crê alguem que seria hoje possivel um Gregorio VII, ou um Innocencio
IV? Com outro rei que não fosse D. José, e noutras circumstancias que
não fossem as de Portugal no seculo XVIII, poderia o marquez de Pombal
fazer o que fez? A revolução franceza era possivel sem a precedente
desorganisação moral do velho regimen politico a datar de Luiz XIV,
sem o lento mas continuo effeito das descobertas scientificas e dos
descobrimentos geographicos, sem a decomposição das velhas concepções
a puros golpes da philosophia critica? Napoleão nas suas glorias, nas
suas conquistas, nos seus erros e na sua desgraça não foi o verdadeiro
reflexo da França nas suas relações com o mundo? Bismarck o que é senão
a alta personificação intellectual e diplomatica do actual momento da
raça germanica? Os elementos com que tem jogado, não os preparou o
tempo, não os produziu a historia?
Não amontoemos exemplos.
Os grandes homens podem influir, e têm influido, de feito, sobre a
intensidade do movimento social; mas não influem, mas não podem influir
sobre a direcção d’elle. São, em parte, causa do futuro, mas são
totalmente effeito do passado.
Herbert Spencer reduz claramente a questão a estes poucos termos: «A
origem do grande homem é natural ou sobrenatural. N’este caso,
é um verdadeiro missionario de Deus, e então ahi estamos nós caídos
no principio theocratico... Se a origem do grande homem é natural,
importa classifical-o sem hesitação, como todos os outros phenomenos
da sociedade, entre os productos dos estados anteriores d’essa mesma
sociedade[10].»
Sobre a genese d’esta theoria, H. Spencer produz algumas observações
cheias de interesse. Não concordamos inteiramente com ellas, e vamos,
por isso, modifical-as no sentido do nosso pensamento.
Eil-as, em summa, as suas observações:
Considera elle a theoria dos grandes homens como um legado moral
e physiologico dos tempos primitivos. Reunidos em volta da sua
fogueira, á noite, os selvagens celebram os acontecimentos do dia
findo, e as varias peripecias da caça realisada, e ahi votam louvores
ao que se mostrou mais dextro ou mais agil; se se consummou alguma
expedição guerreira, a força d’uns, a coragem d’outros eis o assumpto
mais versado n’aquellas suas práticas frequentes. Quando escaceiam
acontecimentos importantes na propria tribu, os das mais vizinhas
fornecem objecto para as narrações do costume, e, se isso não
convem, recontam-se mais uma vez os successos reaes ou lendarios dos
antepassados.
Assim se conserva a tradição moral da tribu, e «pois que taes
commemorações se referem á existencia e prosperidade da tribu, a ellas
ligam os selvagens o mais vivo interesse.[11]»
E não é isto privativo da vida nomada; dá-se egualmente nas primeiras
raças historicas. «Os frescos dos Egypcios, as pinturas muraes
dos Assyrios, representam as acções dos seus grandes homens; as
inscripções, como as da pedra Moabita, não rememoram senão os factos
dos reis. Só por uma inducção difficil é que se póde colher outro
ensinamento d’estes documentos primitivos, pinturas, hieroglyphos e
inscripções[12].»
Estamos, pois, sob a pressão terrîvel d’esta herança, segundo o
pensador inglez, e não é verdade que a especie humana tenha eliminado,
nos seus incessantes progressos, esta tendencia, aliás muito veneravel
pela sua antiguidade.
Effeito de se não acceitarem as heranças a beneficio de inventario!...
Muitas causas favorecem grandemente a conservação d’aquelle
preconceito: a universal predilecção pelas personalidades que, sendo
uma qualidade activa do homem selvagem, é ainda, nas gerações actuaes,
uma qualidade dominante; os encantos, as seducções que nos prendem ás
anecdotas, ás aventuras dos homens celebres; e, finalmente, a infinita
facilidade de, por este meio, se adquirir uma _grande sciencia_, sem as
muitas fadigas, sem as custosas lucubrações que por outro processo se
exigem.
Eis, muito por alto, a explicação de Spencer a respeito da origem
d’aquella inclinação da nossa especie, e sobre a sua permanencia
no entendimento humano. Aproveitando da theoria o que ella tem de
acceitavel, diz: «É mister reconhecer que ha alguma verdade na theoria
dos grandes homens. Limitada ás sociedades primitivas, cuja historia
apenas se constitue dos esforços feitos pelos homens para se destruirem
e subjugarem uns aos outros, podemos admittir que tal theoria se
harmonisa perfeitamente com os factos, mostrando-nos o chefe da tribu
na plena posse d’uma grande importancia,--posto seja muito pequena a
parte attribuida áquelles que obedecem ao commando d’esse chefe... Mas
o seu erro capital consiste em suppôr que o que foi verdadeiro outr’ora
é sempre verdadeiro, e que relações entre governantes e governados,
possiveis e uteis n’uma certa epoca, são uteis e possiveis em todo o
tempo[13].»
As nossas duvidas referem-se ao modo por que Spencer explica a
conservação da theoria dos grandes homens, e tambem á porção de verdade
que tal theoria encerra.
A natureza produzindo homens com faculdades extraordinarias e
distinctissimas, e a sociedade desenvolvendo-se desegualmente nas
differentes camadas de que se constitue, explicam o que ha de legitimo
n’aquella theoria, e dão, ao mesmo passo, a verdadeira razão por que o
habito intellectual dos selvagens se tem conservado, com maior ou menor
energia, na consciencia universal.
A constituição politica e social dos povos, obedecendo ás leis da
sua evolução, tem collocado á frente do movimento geral familias e
classes com os mais amplos poderes e os mais largos privilegios.
Só os Estados Unidos, pelas circumstancias muito peculiares da sua
formação, estão fóra d’essa lei. Aquellas familias e aquellas classes
teem necessariamente preponderado nos acontecimentos de maior vulto,
em parte pela sua posição hierarchica que as habilitou a tomarem o
primeiro e mais importante logar nas differentes phases da evolução;
em parte porque, se ellas attingiram aquella eminencia social, foi isso
devido ás suas mais felizes disposições nativas, e, como é sabido, no
concurso de todas as forças prevalecem sempre as mais validas. Tem
applicação aqui, restrictamente n’este ponto, a lucta pela existencia e
a selecção natural da doutrina biologica de Darwin.
Reduzida a estes termos, a theoria dos grandes homens é um exaggero,
não é uma falsidade. É inquestionavel que as desegualdades da
natureza e as desegualdades da sociedade teem permittido até agora,
e continuarão a permittir o predominio de algumas individualidades
nos mais importantes negocios dos povos; e, se assim é, n’esse facto
natural, legitimo, constante, está a razão do culto prestado, em todos
os tempos, aos esplendores da intelligencia e aos heroismos da vontade.
O que a theoria tem de falso é a idéa de que os grandes homens influem
na direcção geral do movimento humano, quando é apenas liquido que
elles influenceiam a sua intensidade.
Sem Thiers e sem Gambetta, a França appellaria das desgraças do segundo
imperio para as auspiciosas experiencias da democracia; o que poderia
acontecer, sem o serviço d’esses dois insignissimos patriotas, seria
retardar-se por alguns annos, infamados por fugazes restaurações e por
cruentas convulsões civis, o advento d’aquelle regimen politico. Sem
a acção pessoal do principe de Bismarck, a Allemanha realisaria a sua
unidade, para que tende visivelmente ha mais de meio seculo, do mesmo
modo que, sem o genio diplomatico do principe de Gortschakoff, a Russia
procuraria por todos os modos realisar o sonho panslavista, de que ha
muito está possessa; sómente aconteceria, na falta dos dois famosos
chancelleres, que as cousas seguiriam por outro caminho para aquelle
mesmo fim, ou teriam de realisar-se mais tarde.
Mas faziam-se, mas realisavam-se.
* * * * *
Para a maior parte dos espiritos, para quasi todos, a sociedade traduz
na sua evolução um plano da providencia, e, por isso, os esforços da
philosophia devem tender todos a procurar na phenomenologia humana
os vestigios d’essa poderosa acção constante e sobrenatural. Bossuet
julgou com este criterio a historia universal; Vico subordinou a este
pensamento os seus mais importantes trabalhos; Bunsen quiz determinar,
na sequencia das gerações, as linhas precisas da revelação moral, e
reduzir a esse facto todas as causaes do progresso historico.
É tão verdadeiro o principio fundamental d’esta theoria, como são
falsas as conclusões deduzidas d’elle. Se repugna á consciencia que,
sendo creações de Deus a natureza e a sociedade, elle as desampare
inteiramente estranho á sua obra,--repugna-lhe egualmente que o nosso
entendimento possa surprehender, nos varios factos observados, a
verdadeira intenção de Deus. O que é razoavel, o que é logico é isto:
elevar-se o espirito, pela analyse paciente dos factos, ás leis geraes
que os dominam, systematisal-as com ordem, e á medida que se forem
obtendo resultados incontestaveis e seguros, referir então á causa
suprema, na hypothese de se haver acertado, as idéas que fructeou
o estudo da sociedade, as verdades que se liquidaram no estudo da
natureza. O grande Newton, que descobriu a lei da gravitação universal,
não pronunciava o nome de Deus sem um forte sentimento de reverencia e
uma commoção profundissima...
Por este modo, a natureza e a sociedade dão-nos o pensamento da
providencia; não é esta, definida ontologicamente, que nos dá
a explicação do mundo. A providencia deduz-se _a priori_, mas
determina-se _a posteriori_, como se diz na linguagem da escola.
_Deus escreve direito por linhas tortas_, affirma o nosso povo. Esta
phrase, profundamente conceituosa, envolve conjunctamente a crença
na providencia divina e a completa ignorancia dos processos por
que ella actua no universo. Como vencer esta ignorancia? Estudando
despreoccupadamente o universo, e não invocando cada um, a seu puro
arbitrio, a auctoridade de Deus para as comprehensões que tem e para
os actos que pratíca. Explicar as cousas pelos designios sabidos da
divindade, afigura-se-nos orgulhoso e risivel.
Á hora a que escrevemos estas linhas, Deus é invocado como impulsor
de todos os movimentos realisados em face da guerra oriental. Na
Russia, manda exterminar a Turquia; na Inglaterra, manda defendel-a e
sustental-a. N’uma obra franceza, publicada depois dos desastres de
Sédan, o seu auctor explica o resultado da guerra franco-prussiana pelo
castigo que o céu quiz inflingir á França; todos sabem que o imperador
Guilherme está intimamente convencido de que os seus feitos politicos e
militares são inspirados pela providencia divina.
Isto não é scientifico, é ridiculo.
A egreja catholica ensina que a providencia é um mysterio insondavel,
e, todo o proposito de a interpretar, uma rematada loucura. É verdade
definida com egual clareza na escriptura e na tradição: _Quis cognovit
sensum Domini_, diz S. Paulo[14], _aut quis conciliarius ejus fuit_?
Sancto Agostinho desenvolve n’uma bella imagem este pensamento de
S. Paulo: _Si in alicujus opificis officinam imperitus intraverit,
videt ibi multa instrumenta, quorum causas ignorat; et si multum est
insipiens, superflua putat. Jam vero, si in fornacem ceciderit, aut
ferramento aliquo acuto, cum id male tractat, se ipsum vulneravit,
etiam perniciosa et noxia ibi existimat esse multa: quorum tamen
usum, quoniam novit artifex, insipientiam ejus irridet, et verba
inepta non curans, officinam suam constanter exercet_[15]. O que este
esplendido luminar da egreja diz dos que referem a Deus os varios casos
desgraçados da vida humana, é egualmente applicavel aos que explicam do
mesmo modo os successos bem afortunados. Quantas vezes nos enganamos
ante a falsa perspectiva d’uma situação, que se nos afigura má e o não
é? Que de vezes a felicidade de hoje é o prefacio do infortunio de
ámanhã? Commentando aquella passagem de S. Paulo, diz Liebermann: _Nos
neque rerum naturas cognoscimus, neque fines, nec quid cujusque naturae
conveniat, aut quibus legibus res quaelibet governari debeat, neque
alia multa viarum et judiciorum Dei inscrutabilia arcana._[16]
N’esta rendidissima humildade está uma philosophia sincera e profunda.
Contra ella braveja baldadamente a estolida immodestia dos Prometheus
da escola, que, julgando ter roubado ao céu o fogo das eternas
verdades, a final só teem no espirito a fugaz phosphorescencia das
proprias illusões.
Este modo de considerar a providencia recebeu de Kant a mais brilhante
consagração scientifica. Willm[17] resume d’este modo o pensamento
do grande philosopho: «O universo, considerado como manifestação
da vontade de Deus, é para nós um livro quasi sempre sellado; é-o
inteiramente para todos que procuram n’elle os seus designios
absolutos. É impossivel interpretar as vistas moraes da providencia
pelas apparencias do mundo phenomenal. Isso valeria o mesmo que ensaiar
uma interpretação doutrinal, eterno proposito de toda a theodicea
especulativa. Ha outra theodicea: a que responde a todas as objecções
contra a sabedoria divina, fundando-se n’uma decisão authentica e
dictatorial do proprio Deus, ou então n’uma decisão da razão, pela qual
a idéa de Deus, como ser moral e sabio, nos é dada necessariamente e _a
priori_...»
Kant viu uma interpretação d’esta ordem no livro de Job. Sapiencial ou
historico, este livro é um thesouro de philosophia.
Todos conhecem mais ou menos a moralissima narrativa d’elle. Job era
feliz e rico; o seu lar, abençoado e puro. A mais larga e reverente
consideração acompanhava a toda a parte o sou nome. A consciencia
esmaltava-se-lhe justamente nas suaves perspectivas da virtude propria.
Assim lhe corria a vida.
Um dia, inesperadamente, a desgraça vibrou contra elle todos os seus
raios. Empobreceu, a morte levou-lhe uma a uma as pessoas da familia,
accommetteu-o a mais horrorosa das molestias, e tudo revestiu para o
pobre do homem as sinistras côres da maldição. Foram visital-o alguns
dos seus amigos, e todos procuraram explicar aquelle reviramento na
fortuna de Job pela acção directa de Deus. Da hypothese passaram á
these. A maior parte d’elles pronunciou-se pelo systema que considera
castigos do céu todos os males do mundo; Job, pela sua parte,
curvando-se humillimamente perante os decretos divinos, consagrava o
systema da vontade divina absoluta n’esta profunda phrase: _Ipse enim
solus est, et anima ejus quodcumque voluit, hoc fecit_[18]. Outra vez
saíam-lhe dos labios estas palavras: _Dominus dedit, Dominus abstulit;
sit nomen Domini benedictum_[19].
Os seus amigos, como finamente observa Kant, preoccupavam-se menos
com a verdade do que com o desejo de agradar a Deus. Ao contrario de
Job, não tinham sinceridade alguma. A final, Deus interveio, premiou
a crença viva de Job, confirmou o seu modo de ver, indignou-se contra
os hypocritas que o haviam tentado, e só lhes perdoou por mediação do
varão justo e sincero, que foi restituido á felicidade que desejava e
merecia.
Kant deu ao pensamento de Job os fóros d’uma verdade scientifica; nós
acceitamol-o tambem como um perfeito principio especulativo, e, sobre
tudo, como fundamento prático da verdadeira moralidade humana.
Como é claro, o nosso pensamento dista infinitamente da ingenhosa mas
falsa theoria com que H. Spencer, no seu livro intitulado--_Primeiros
principios_, procura conciliar a sciencia com a religião. Eis, muito
resumidamente, a sua idéa[20]:
Importa distinguir o _cognoscivel_, objecto das sciencias, do
_incognoscivel_, objecto das religiões, não para negar o incognoscivel,
mas para o restringir aos dominios em que é legitimo como facto da
consciencia. A religião, phenomeno constante da historia da humanidade,
é a expressão d’um facto eterno; por outro lado, a sciencia é um grande
systema de factos e de leis, recrescente e progressivo com o movimento
da historia. Duas cousas legitimas de que é necessario tomar conta,
e que importa harmonisar devidamente. A tarefa será difficil, mas é
possível. _É inadmissivel_, diz elle[21], _a hypothese da existencia de
duas verdades em absoluta e perpetua opposição._ Spencer dedica a este
problema de conciliação os primeiros capitulos da sua obra, fortemente
encorajado pela convicção de que _da fusão de idéas antagonicas,
cada uma das quaes encerra uma parte da verdade, resulta sempre um
desenvolvimento superior_.[22] Parece que ha n’esta phrase de Spencer
reminiscencias de Kant e de Hegel.
Qual ha de ser, porém, a synthese conciliadora da religião e da
sciencia? Se fôr uma verdade religiosa, a sciencia não a acceita;
se fôr uma verdade scientifica, a religião repelle-a. Onde, pois,
encontrar a formula harmonisadora d’essas duas potencias historicamente
inimigas?
Na analyse profunda das religiões e das sciencias, responde o
auctor inglez. Umas e outras hão de contribuir por egual para a
solução do problema. Não sustentam todas as religiões, ainda as mais
diametralmente oppostas, que o mundo, com tudo que contem e tudo o
que o cerca, é um mysterio? Não é este o objecto commum, o objecto
irreductivel de todas ellas, desde o fetichismo até á doutrina
monotheista? Por outro lado, o limite da sciencia não é sempre o
_incomprehensivel_? A essencia das cousas não escapa inteiramente á
observação humana? Desde a hypothese cosmogonica do universo até á
theoria das sensações e das idéas, não ha mysterios a cada passo, a
cada momento? E confessar-lhes a existencia não é uma necessidade
logica? Devem ser respondidas affirmativamente estas perguntas,
e, sendo-o, ahi vemos nós convergirem n’uma formula abstracta e
geral os elementos da desejada conciliação. A religião affirma o
_incognoscivel_, e faz d’elle o seu objecto; a sciencia affirma-o
também, e faz d’elle o seu limite. Seja, pois, a religião a encarnação
do mysterio absoluto, cuja existência a sciencia legitíma; incumba-se
pela sua parte a sciencia de systematisar os factos conhecidos, e as
leis d’esses factos derivadas....
Ahi fica, sem o imponente prestigio d’um sem numero de raciocinios e
demonstrações, o alvitre conciliador proposto por H. Spencer.
É acceitavel? Não.
Em primeiro logar, esta theoria é a apresentação, sob nova fórma, das
velhas idéas de Th. Reid, de D. Stewart e de Hamilton. _A relatividade
do conhecimento humano_ é um dos principios fundamentaes da escola
escoceza. O incognoscivel, que esta confiava á guarda do senso commum,
Spencer transfere-o todo inteiro para os dominios da religião. A
differença é pequena.
O incognoscivel da religião tem realidade objectiva; mas quem não
vê que o incognoscivel da sciencia é o incognito, uma negação, uma
não-existencia? Não sendo uma determinação positiva, póde harmonisar-se
com alguma cousa, póde comparar-se a alguma cousa? Não, evidentemente.
Littré põe esta theoria á prova d’um dilemma esmagador. Eil-o: «Em
todos os tempos a fé determinou o incognoscivel, isto é, ensinou cousas
de origem e de fim. Este ensino ou ha de conservar o seu caracter,
ou perdel-o. Se o conserva, como a sciencia declara indeterminavel o
incognoscivel, haverá, e é isso o que ahi se vê, scisão e conflicto;
a conciliação, que o sr. Spencer suppõe no seio do incognoscivel, não
se realisará. Se, pelo contrario, a fé renuncia ás suas determinações,
o seu ensino perde o caracter proprio, e confunde-se logo com o da
sciencia; haverá, não conciliação, mas absorpção. Então a fé poderá
queixar-se de lhe haverem dado uma designação vazia em vez das
suas realidades, a ponto de não encontrar, n’este limite variavel
que a sciencia chama o incognoscivel, um clarão do que ella crê e
espera[23].»
Aproveitamos contra o pensador inglez a critica de Littré, não
acceitando de modo algum as idéas d’este pensador sobre materias
religiosas. Para elle a religião é um facto legitimo, mas transitorio
da humanidade; é o systema de educação geral, fatalmente usado na
infancia da nossa especie. N’este ponto ainda o positivista francez
dista mais de nós do que o philosopho inglez, o qual, como vimos,
considera a religião uma inspiração eterna da consciencia.
Para nós a religião é um systema de factos e de principios relativos
á origem e aos destinos sobrenaturaes do homem. A realidade d’esses
factos e a auctoridade d’esses principios teem uma demonstração
positiva, embora não comportem uma explicação intima e completa. A
existencia de J. Christo, por exemplo, a realisação das prophecias, a
operação dos milagres e a manifestação de todos os outros caracteres
da sua doutrina, são factos, puramente factos. Toda a discussão
scientifica deve versar sobre a authenticidade d’elles. Reconhecel-os
como reaes, eis a obra da sciencia; acceital-os depois como verdades na
sua significação theologica, eis a obra da fé.
Ora, como entre factos não ha collisão possivel, claro está que só
por este modo é que podem cessar os conflictos da religião com a
sciencia. Aquella rege os dominios da fé apoiada sobre factos; esta
realisa a liquidação dos factos sobre que se fundamenta a fé. Isto nos
pontos em que se encontram; nos outros, inteira diversidade e absoluta
independencia de processos.
* * * * *
Se a evolução social não póde explicar-se pela theoria da providencia,
pela theoria dos grandes homens e pela que a faz derivar inteiramente
dos principios eternos da consciencia; se não póde ser mero producto
do acaso; se a observação verificou já o facto fundamental do
progresso,--a transmissão hereditaria do trabalho moral das gerações;
se, n’uma palavra, está _constituida_, quaes são as suas leis, qual é a
sua doutrina geral evolucionavel?
Aqui está o ponto mais difficil; aqui se combatem rijamente as mais
oppostas divergencias. Que, importa dizel-o desde já, dado o facto
da solidariedade humana, universal e perfectivel; demonstrado que
a verdadeira sciencia social assenta directamente, não só sobre
as qualidades do individuo, mas tambem, e principalmente, sobre a
estructura variavel dos agrupamentos humanos; considerado tudo isto
devidamente, já fica indicado o novo caminho a seguir, já ficam
rasgados novos horizontes ao espirito, e, emquanto não apparecer uma
theoria perfeita, emquanto se não formular a lei abstracta, ineluctavel
e completa, que presida á evolução humana, as menos defeituosas
hypotheses, entre as que teem sido offerecidas, poderão servir de leis
provisorias para trabalhos de investigação.
Pela nossa parte, não conhecemos theoria alguma que nos satisfaça
plenamente como formula superior de toda a evolução. Vamos dar a razão
d’isto, passando em revista, ainda que muito por alto, o _positivismo_
de A. Comte, o _evolucionismo_ de Spencer, e o _transformismo_ de
Darwin nas suas applicações á historia.
Como é sabido, os pontos fundamentaes do systema _comteano_ são:
_relatividade_ de todo o conhecimento humano, a lei dos _tres
estados_, que é, segundo elle, a formula fundamental de todo o
desenvolvimento historico; e a _classificação das sciencias_, baseada
na generalidade decrescente e na complexidão progressiva de todos os
generos de phenomenos observados.
A _relatividade_ dos conhecimentos humanos deveu-a a Hume; a _lei dos
tres estados_, se lhe não foi inspirada por Vico, deveu-a com certeza a
Turgot; a _serie_ das sciencias, essa é que representa o grande esforço
de A. Comte, e é, de certo, a sua maior gloria. Não queremos marear a
universal reputação do philosopho francez com isto de darmos aos seus
trabalhos alguns precedentes historicos; elle dizia muitas vezes, e
os seus discipulos repetem a todo o momento que essas precedencias,
essas longas preparações scientificas são uma das maiores glorias da
sua doutrina, e um dos mais valiosos titulos da sua legitimidade.
Reconhecendo n’essa philosophia a sua admiravel condensação de dados
positivos, e votando-lhe por isso o justo louvor que merecem as grandes
systematisações scientificas, declaramos já que, dos principios
essenciaes d’essa philosophia, só acceitamos um: a classificação das
sciencias. Sobre isto nada conhecemos tão perfeito, antes nem depois de
A. Comte. As criticas de Carey e de H. Spencer não fizeram mais do que
avultar-lhe o valor.
Para A. Comte, a formula geral da evolução é a lei dos _tres estados_,
como fica dicto. Copiamos para aqui as suas proprias palavras:
«Estudando o desenvolvimento total da intelligencia humana nas
suas differentes fórmas de actividade, desde os seus mais simples
ensaios até aos nossos dias, parece-me que descobri uma grande lei
fundamental, á qual elle está preso por uma necessidade invariavel, e
que póde ser solidamente estabelecida não só sobre as provas racionaes
fornecidas pelo conhecimento da nossa organisação, mas tambem sobre as
verificações resultantes d’um exame profundo do passado. Consiste essa
lei em que cada uma das nossas principaes concepções, cada ramo dos
nossos conhecimentos passa successivamente por tres estados theoricos
differentes: o estado theologico ou ficticio, o estado metaphysico
ou abstracto, o estado scientifico ou positivo. N’outros termos, o
espirito humano, pela sua natureza, emprega successivamente, em cada
uma das suas investigações, tres methodos de philosophar, cujo caracter
é essencialmente differente e até radicalmente opposto: primeiro o
methodo theologico, depois o methodo metaphysico, e por ultimo o
methodo positivo. D’ahi tres especies de philosophia, ou de systemas
geraes de concepções sobre o conjuncto dos phenomenos, que mutuamente
se excluem: a primeira é o ponto de partida necessario da intelligencia
humana; a terceira, o seu estado fixo e definitivo; a segunda serve
unicamente de transição[24].»
O pensamento do philosopho ahi fica claramente expresso. Vamos
combatel-o com armas da sua escola. Fornecem-n’as dois dos seus
mais devotados discipulos, Littré e Wyrouboff. Ninguem duvidará da
orthodoxia d’elles.
Littré julga insufficiente a _lei dos tres estados_, e propõe-lhe
uma modificação da sua lavra. O maior defeito que lhe encontra (e,
realmente, ninguem o dirá pequeno) é o de não comprehender e explicar
o desenvolvimento moral, industrial e esthetico da humanidade,
ficando assim aquella formula apenas _com a excellente qualidade de
ser relativa ás especulações em que a evolução por filiação é mais
manifesta, e, por isso, a de dar uma noção positiva da marcha da
historia_[25]. Tem além d’isso contra si o ser uma lei meramente
empirica, a _simples expressão abstracta_ d’um facto, e, por isso,
o inconveniente de não prestar á historia mais do que um fundamento
provisorio, puramente hypothetico. Na opinião do seu critico, a lei
dos _tres estados_ necessita racionalisada por uma lei superior que a
comprehenda. Só d’esse modo é que, de _infinitamente provavel_, ella
se póde tornar _absolutamente certa_. Estas phrases sabem um pouco á
metaphysica, mas são de Littré[26].
A modificação de Littré consiste n’isto: O desenvolvimento do genero
humano divide-se em quatro periodos, a que correspondem outros
quatro, perfeitamente semelhantes, no desenvolvimento do individuo.
No primeiro, a humanidade está sob o imperio preponderante das
necessidades; no segundo, a moral desenvolve-se despertando as
primeiras creações religiosas e civis; no terceiro, o sentimento do
bello cria as construcções e os poemas; no quarto, finalmente, a
razão, liberta das precedentes occupações, trabalha por si mesma e
procede á inducção das verdades abstractas. D’este modo a lei dos tres
estados que, segundo Littré, era a simples expressão abstracta d’um
facto, fica com um fundamento racional. Qual? A necessaria relação do
desenvolvimento collectivo com as phases essenciaes do desenvolvimento
individual. Eis as suas palavras: «Pensando em que o desenvolvimento
collectivo devia traduzir nos seus traços principaes o desenvolvimento
individual, fui impressionado pela nenhuma concordancia que ha entre
a analyse mental, que Augusto Comte copiou da hypothese de Gall, e a
lei empirica que elle tinha descoberto em sociologia. Concebi, sob um
outro ponto de vista, essa analyse mental, e, considerando-a como ponto
de partida da analyse sociologica, fui levado a uma lei racional que,
sem tocar na realidade da lei empirica de Augusto Comte, lhe serve de
interpretação, etc.[27]»
N’um livro publicado quatro annos depois das Palavras de Phil. Posit.,
Littré[28] reconhece que foi precedido nas suas vistas sociologicas
por Saint-Simon, e dá-lhe por isso as honras da prioridade; affirmando
logo em seguida que os seus estudos, feitos ulteriormente áquella
publicação, em nada alteraram o seu modo de ver, e insistindo em que
elle encerra os elementos essenciaes d’um tractado de sociologia.
Wirouboff tambem, por sua vez, desprestigia, modificando-a, a lei de
Comte. Levou-o a isso um estudo profundo sobre as civilisações do
extremo Oriente[29].
Como é sabido, Comte dividiu o primeiro periodo, o periodo theologico,
em tres phases successivas: a do fetichismo, a do polytheismo e a
do monotheismo. Wirouboff verificou que no Oriente as cousas se
não passam inteiramente assim. O movimento religioso da Indo-China,
de que primitivamente se inspiraram as duas raças aryana e chineza,
é n’ellas de todo o ponto divergente. Ao passo que a primeira se
desenvolve regularmente _nos tres estados_, segundo a afirmação de
Wyrouboff, a segunda, pelo contrario, escapa inteiramente á influencia
d’essa lei, pois, tendo principiado por um culto astrolatico, tem-se
afastado d’elle pouco a pouco, chegando pela influencia das doutrinas
de Lao-Tseu, de Confucio, de Mencio, e das especulações boudhicas,
á quasi negação de toda a divindade. «O traço saliente de todas as
religiões do extremo Oriente é o _atheismo_, não o atheismo systematico
que nega a existencia de Deus, mas o que raciocina sem se inquietar com
a divindade[30].» Os Mongoes são a unica excepção conhecida áquelle
caracter, o que póde ser plausivelmente explicado pelo contacto
d’elles com os Semitas, que, em tal hypothese, lhes influiram a idéa
do monotheismo arabe. De modo que a divergencia notavel, apontada por
aquelle escriptor, refere-se só á raça no seu estado de pureza.
Wyrouboff, depois de largas considerações sobre este assumpto, e
tendo, em serviço do seu pensamento, invocado a opinião de Renan, tão
combatida por Max Müller, de que o monotheismo é a religião fundamental
primitiva da raça semitica, reune todas as conclusões do seu estudo
n’estas palavras: «Se esta theoria é verdadeira, e eu não sei de facto
algum que a contradiga, a lei dos _tres estados_, formulada por A.
Comte, muda completamente de caracter: em vez de ser a expressão
d’um facto geral, d’uma funcção propria a todas as collectividades
humanas, abandonadas ao curso natural das cousas sociaes, torna-se o
resumo da historia da raça aryana... A lei de M. Comte deixa de ser
uma lei abstracta, e passa ao quadro das leis exactas mas empiricas da
sociologia[31].»
Em conclusão, os dois mais graduados representantes do positivismo
francez não acceitam a lei dos tres estados, consoante a entendeu e
formulou o chefe da escola. Littré sustenta que ella não comprehende o
desenvolvimento total da humanidade, explicando apenas as concepções,
em que a derivação por filiação é mais clara; e, por outro lado, sente
que ella não tem o caracter d’uma lei racional, uma base permanente
para as respectivas deducções. Wyrouboff considera-a como o resumo
da historia da raça aryana, no que está em divergencia com o seu
collaborador, e, alteando a raça a factor principal de todos os
systemas intellectuaes, religiosos e philosophicos, vibra áquella lei o
mais profundo golpe que lhe tem sido dado.
Nós acceitamos plenamente a parte critica d’estes philosophos na
questão sujeita, mas a parte organica, as modificações offerecidas em
substituição á doutrina comteana, essas só as acceitamos a beneficio
de inventario; e terminamos affirmando que não teem resposta plausivel
estas duas objecções capitaes, que, como provou Huxley[32], não
escaparam á penetração de A. Comte: o facto de muitos dos nossos
conhecimentos não terem passado pelos tres estados, e a coexistência
dos tres estados, constantemente realisada em todas as epochas desde os
primeiros clarões da historia.
Está, pois demonstrado que a fórmula geral da sociologia apresentada
por Comte não satisfaz ás exigencias da logica. Seremos mais felizes
com H. Spencer?
* * * * *
Eis, em summa, as doutrinas do grande pensador inglez: Para elle, como
para A. Comte, a philosophia é logica e chronologicamente posterior
ás sciencias particulares; é a comprehensão total do kosmos, é uma
grande synthese erguida sobre as analyses realisadas em todas as
repartições do saber humano. «A sciencia, diz elle, tem por objecto
as coexistencias e as sequencias dos phenomenos; tracta de as grupar
para formar generalisações simples do primeiro grau, e eleva-se
depois gradualmente a generalisações mais altas e mais vastas... A
philosophia é o conhecimento do mais alto grau da generalidade de todas
as sciencias... Emquanto se não conhecem as verdades scientificas senão
separadamente; emquanto se consideram independentes, não se póde, sem
sacrificio do verdadeiro valor das palavras, chamar philosophica ainda
á mais vasta de entre ellas. Mas quando, depois de as ter reduzido,
uma a um simples axioma de mechanica, outra a um principio de physica
molecular, outra a uma lei de acção social, se consideram todas
como corollarios d’uma verdade ultima, chega-se então á especie de
conhecimento que constitue a philosophia propriamente dicta.[33]»
Aqui já Spencer nos dá a radicalissima differença que o separa da
philosophia positiva. Esta constituiu-se como tal, na firme convicção
de que não podia subordinar a um principio supremo e unico as verdades
particulares de todas as sciencias.
Para tentar a explicação do universo, é mister partir d’um facto,
d’uma idéa primitiva, d’um elemento irreductivel. Onde encontral-o?
Na consciencia, responde H. Spencer. Só a consciencia nos póde
certificar da concordancia entre a representação das cousas idéas
e a representação das cousas reaes. E não podemos recusar-lhe o
testemunho. A phrase de Hamilton: _é necessario presumir a veracidade
da consciencia, emquanto não houver prova de que ella é fallaz_, é
um contrasenso. O facto de affirmar a concordancia dos dois estados,
o real e o mental, é fatal, é irresistivel. Póde haver engano n’um
d’esses actos desfeito posteriormente, mas isso não invalida a
força auctoritaria do testemunho, e serve sómente de provar que as
manifestações da consciencia mais reflexa são preferiveis ás da
consciencia menos reflexa. O criterio da certeza vem por este modo
a ser: a permanencia no espirito d’uma intuição de semelhança ou de
differença.
Conhecida a operação primitiva e incontestavel do pensamento, é
necessario partir logo d’um producto do pensamento adquirido por
tal meio. «Se a philosophia é o saber completamente unificado,
e a unificação do conhecimento não póde effectuar-se senão pela
demonstração de que alguma proposição ultima encerra e consolida todos
os resultados da experiencia, é claro que esta proposição ultima,
cuja compatibilidade com todas as outras necessita provada, deve
representar um fragmento da consciencia, e não sómente o que constitue
a validade dos actos da consciencia[34].» Posto isto, qual vem a ser
esse producto, esse _fragmento_ da consciencia, na phrase de Spencer? É
evidente que não póde deixar de ser universal. Deve ter toda a extensão
das experiencias realisadas, deve comprehender em si todas as classes
de semelhanças e de differenças de que a consciencia possa ter intuição.
Esse producto da consciencia, essa lei universal é a _força_. Como
a reconheceu Spencer? Por meio d’uma analyse psychologica sobre as
qualidades communs e sobre as qualidades differenciaes de todas as
impressões recebidas, classificaveis em dois grupos: impressões
fortes e impressões fracas, constituindo na consciencia series ou
correntes parallelas. O conjuncto das segundas impressões, eis o
_eu_, o conjuncto das outras, eis o _não eu_. O _eu_ é a força
_que se manifesta nas fórmas fracas_; o _não eu_ é a força _que se
traduz pelas fórmas vivas_. Estas duas series sente-as a consciencia
espontaneamente, conhece-as depois pela reflexão, e, distinguindo umas
das outras, vem assim a separar o sujeito do objecto do conhecimento.
Eis a base psychologica do systema de Spencer. É o sensualismo de
D. Hume sob nova fórma. As manifestações secundarias, copia das
manifestações vivas, são tudo o que existe na consciencia. Por este
modo o homem é _unicamente_ o producto fatal do seu meio. Sentir as
proprias impressões, eis todo o poder da alma, mas poder complexo, que
se desdobra depois em todos os actos _hiper-organicos_.
Resumindo o que fica dicto, temos que a consciencia é a origem de toda
a certeza; o criterio d’essa certeza,--a permanencia das intuições
de relação, unica que ella comprehende; as series ou correntes de
impressões, com as suas qualidades caracteristicas,--o meio de
distinguirmos o sujeito do objecto, o _eu_ do _não eu_, resultados
d’uma só força, que é o principio e a causa de toda a sciencia. Os
principaes elementos derivados d’esse principio são o _espaço_, o
_tempo_, a _materia_ e o _movimento_; são elementos necessarios da
sciencia, mas não no sentido da philosophia kantiana, porque não são
dados _a priori_, mas sim puras abstracções de experiencias de forças.
«A força, tal como nós a conhecemos, não póde ser considerada senão
como um certo effeito _condicional_ d’uma causa _incondicionada_, como
a realidade relativa que nos indica a realidade absoluta, pela qual é
produzida directamente[35].»
Posto isto, e demonstrada (?) a indestructibilidade da materia, a
continuidade do movimento, a transformação e equivalencia de _todas_ as
forças, a lei do movimento e a existencia do seu rythmo,--passa Spencer
a constituir a sua formula da _evolução_. É esta, na traducção franceza
de Cazelles: _L’évolution est une intégration de matière acompagnée
d’une dissipation de mouvement, pendant laquelle la matière passe d’une
homogénéité indéfinie, incohérente, à une hétérogénité définie,_
_cohérente, et pendant laquelle aussi le mouvement retenu subit une
transformation analogue_[36].
A idéa principal d’esta formula, com applicação aos organismos vivos,
tinha-a, havia muito, apresentado Baer na Allemanha. Baer escreveu: _A
serie de mudanças realisadas enquanto um grão se transforma em arvore,
um ovo n’um animal, é sempre a passagem d’um estado de constituição
homogenea para um estado de constituição heterogenea_. Spencer, que,
desde muito, tinha sido impressionado por esse facto, e queria uma lei
physica applicavel a todos os phenomenos, aproveitou aquella, fel-a
sua, estendendo-a a tudo quanto existe desde os seres inorganicos até
aos factos mais complexos da phenomenologia social.
Antes de a conhecer, o que teve logar em 1852, o pensamento de
Spencer tinha outra fórma, que não significava bem as intenções
scientificas d’elle[37]. Era esta: «_O progresso realisa-se quando
partes semelhantes e independentes se volvem em partes dessemelhantes e
dependentes, isto é, quando se individualisam_.» Tinha-lh’a inspirado
Milne Edwards[38], como elle mesmo confessa, mas não o satisfazia
plenamente porque era inapplicavel ás transformações inorganicas,
e elle queria, a toda a força, uma formula superior e completa, a
que sujeitar o universo na total complexidão dos seus phenomenos.
Forneceu-lh’a Baer, e, uma vez de posse d’ella, tratou Spencer de a
applicar á astronomia, á geologia, á psychologia e á sociologia. Na
astronomia, serviu-lhe a hypothese de que o systema solar proveio
d’uma nebulosa; na geologia, a hypothese de que a terra esteve
primitivamente no estado de fusão, etc. Como o que mais nos interessa
são as applicações que elle fez da sua formula á sociologia, vamos,
em poucas palavras, dar uma amostra do modo por que elle realisou na
historia os seus processos experimentaes.
A passagam do homogeneo para o heterogeneo manifesta-se no progresso
geral da humanidade, no progresso parcial de cada tribu, e no progresso
de todos os productos da actividade humana, abstractos e concretos,
reaes e ideaes. A sociedade, quando embryonaria, mostra-nos os homens
em perfeita homogeneidade de qualidades e de funcções: todos exercem
os mesmos officios, todos vivem do mesmo modo; depois apparece-nos
o primeiro facto de differenciação, com o estabelecimento d’uma
auctoridade qualquer, e, portanto, a divisão dos membros da tribu em
governantes e governados; no proprio seio da instituição politica,
assim rude e primitiva, ensaia-se logo uma nova evolução, porque o
chefe, que a principio exercia a mesma profissão que os seus subditos,
volvido pequeno praso, começa a distinguir-se d’elles pela differença
de occupações, até que chega a não fazer outra cousa que não seja
governar; em seguida a isto, a administração religiosa coordena-se
com a administração politica, e concorrem na mesma pessoa o prestigio
necessario a um chefe e as homenagens devidas a um Deus; depois, os
dois poderes destacam-se um do outro, os governados distinguem-se
em seculares e religiosos, e começam a subsistir separadamente o
Estado e a Egreja; o Estado multiplica as suas instituições, a
Egreja complica-se com um sem numero de serviços; pelo seu lado, os
governados experimentam parallelamente a mesma lei das differenciações
successivas, passando da identidade de profissão industrial para
a divisão do trabalho, da insulação economica dentro dos limites
nacionaes para a maxima expansão commercial, etc. O mesmo em qualquer
dos productos do pensamento, que H. Spencer denomina _hiper-organicos_.
A linguagem humana começou por exclamações, passou a um periodo,
historicamente verificavel, em que só dispunha de nomes e verbos, e
d’ahi data já uma clara differenciação progressiva, distinguindo-se
os verbos em activos e passivos, os nomes em abstractos e concretos,
apparecendo os verbos auxiliares, os pronomes, os artigos; depois
multiplicam-se as linguas, derivadas d’um tronco commum, como entendem
Bunsen e M. Müller, ou de varios troncos pertencentes a differentes
raças, como querem outros; mais tarde, as linguas dividem-se em
dialectos. Na palavra escripta a mesma evolução desde as pinturas
muraes dos Egypcios e dos Assyrios até aos hiéroglyphos e aos symbolos,
e desde esta fórma primitiva até aos ultimos aperfeiçoamentos da
escriptura phonographica. Nas bellas artes a mesma fórma de progresso,
desde a confusão da esculptura com a architectura e d’aquella com a
pintura de que é argumento a Grecia, cujos templos ostentavam nos
frisos baixos-relevos pintados, até á modernissima distincção dos
varios géneros de pintura...[39]
Tal é, muito em resumo, a doutrina geral de Spencer, o criterio com que
elle estuda as tres grandes especies de evolução--a _inorganica_, a
_organica_ e a _super-organica_, ás quaes tem dedicado a sua prodigiosa
actividade e o seu talento incomparavel.
Ainda não póde ser devidamente criticada a sua obra, porque está
incompleta. O seu tractado de sociologia, rapidamente esboçado
nos _Primeiros Principios_, ainda não veio a lume. A _Introducção
á Sciencia Social_, publicada em 1873, e o primeiro volume dos
_Principias de Sociologia_, publicado no anno findo e inteiramente
desconhecido fóra da Inglaterra, eis tudo o que ha. Muito para que se
possa admirar as eminentes faculdades do grande pensador inglez, e
para se conhecer que o seu trabalho vai imprimir uma forte direcção
experimental nos estudos d’aquella ordem,--mas pouco para se tentar já
com segurança uma apreciação conscienciosa e completa. No entretanto, e
se comprehendemos bem o que conhecemos d’aquelle escriptor, parece-nos
que podemos desde já oppôr á sua philosophia difficuldades, que se nos
afiguram invenciveis, e defeitos que reputamos da maior gravidade.
Como é que Spencer harmonisa o seu sensualismo puro, perfeitamente
inglez, com a determinação do _absoluto_, elevada á categoria d’um
elemento scientifico? Não se nos afigura muito facil a resposta a esta
pergunta.
Aquella determinação é suggerida pelos objectos externos? Mas por quaes
objectos, e de que modo?... É uma inspiração da consciencia? Não póde
ser, porque, na psychologia de Spencer, a consciencia é puramente uma
dupla serie de impressões, copiadas da natureza. É uma abstracção de
experiencias? É inadmissivel, porque a entidade abstracta não póde ter
natureza diversa das entidades concretas respectivas.
A formula geral da _evolução_, deduzida d’um pequeno numero de factos,
consoante o methodo proprio d’aquelle pensador, e depois applicada
á universalidade da phenomenologia cosmica, emerge de todas estas
provas com a força irresistivel d’uma lei scientifica? Não. Os
varios grupos de factos, a que elle a estende, estão presos entre
si por simples hypotheses. É meramente uma hypothese, embora muito
plausivel, a cosmogonia de Laplace respectiva ao systema solar; teem
o mesmo caracter as theorias cosmogonicas relativas ao nosso planeta;
o principio da transformação das forças, verificado ainda ha pouco
restrictamente nos dominios da physica e da chimica, não chega a ser
uma hypothese muito plausivel logo que se trata das propriedades
vitaes, e assume as proporções d’uma ousadia injustificavel quando
tenta sujeitar a si a explicação de todos os phenomenos mentaes; a
theoria biologica do transformismo está ainda distantissima de ser
uma doutrina inabalavel e assente... Pois é com todos estes dados que
Spencer edifica a sua philosophia!
Mas, concedido que tudo isso satisfaça ás mais escrupulosas exigencias
do methodo, o que vem a ser a formula de Spencer, senão uma formula
empirica, a simples expressão d’um facto, sem nada que lhe imprima
o caracter d’uma lei _racional_? Dado o facto das differenciações
successivas, não resta saber a qual lei obedecem ellas? Resta, sim; e,
emquanto isso se não fizer, toda a deducção é impossivel. «É de receiar
(dizia em 1864 Ernest Laugel, apresentando á França a philosophia
de Spencer), é de receiar que o philosopho se tenha illudido dando
o valor d’uma lei natural ao que não passa de simples enunciado
d’um facto. As cousas desenvolvem-se ao sabor de leis permanentes e
eternas, mas este desenvolvimento merece a qualificação de lei? A força
immanente á natureza produz n’elle necessariamente novos movimentos,
mas a simples successão d’estes movimentos nada nos ensina ácerca
das relações que os prendem. A evolução não produz sempre effeitos
comparaveis, e ora se faz n’um sentido, ora n’outro.... Não se descobre
uma lei só porque se affirma a sua existencia; é mister encontrar a
sua formula. Não basta affirmar que existe uma certa relação entre a
força activa dos corpos, a sua massa e a sua distancia: quero saber
que relação é essa; é necessario que me demonstrem que a attracção
se effectua na razão directa das massas e na inversa do quadrado
das distancias. Egualmente, não basta que se diga que a ordem dos
phenomenos é uma evolução regulada, sem começo nem fim: o que estamos
impacientes de saber, é precisamente o que essa regra seja[40].»
A philosophia de Spencer, verdadeiramente prodigiosa pelo infinito
numero de factos que procura generalisar; muito do nosso tempo pela
importancia que dá a todos os processos de observação scientifica;
cheia de vistas novas e de considerações valiosissimas; forte na
sua systematisação, e perfeitamente comprehensiva de toda a ordem
de phenomenos; esta philosophia soffre, apesar d’isso, o destino de
todas as doutrinas, que, procurando ser completas, se tornam sempre
arbitrarias. Sacrificam ás exigencias da logica a verificação
necessaria de todas as verdades. Algumas philosophias d’essa ordem
valem ao menos como inventario exacto dos conhecimentos possuidos pela
humanidade n’um dado momento. Está n’este caso o _monismo_ de Spencer.
Outras nem para isso prestam.
* * * * *
Com a philosophia de H. Spencer está intimamente relacionada a doutrina
de Darwin. Spencer é mais transformista do que Darwin. Este quasi se
preoccupou unicamente com a _evolução_ biologica, ao passo que aquelle
deu ao principio a maxima extensão, fazendo-o entrar, como vimos, na
intimidade do systema sideral, na composição do globo terrestre e nos
reconditos segredos em que está envolvida a genese complicadissima do
pensamento.
Darwin tem discipulos de tres especies. Acceitam uns a sua theoria
biologica, sem procurarem applical-a a phenomenos que não sejam os
da vida. Outros, considerando que a base das sociedades humanas é
perfeitamente biologica, applicam-na ás questões da sociologia. Outros,
como Spencer e como Haekel, estendem-na a tudo, explicam tudo por ella,
inclusivamente as transformações inorganicas.
É dos segundos, dos que entram na historia com aquelle principio,
alteado em criterio decisivo, que vamos, por ultimo, occupar-nos.
Nos dominios da biologia o _transformismo_ é uma hypothese, dissemos
nós acima. Não entra propriamente no objecto d’esta _Introducção_, nem
é dos muito estreitos dominios da nossa competencia, a questão no ponto
de vista das sciencias naturaes; mas, apesar d’isso, e com a timidez
propria de quem assim descobre a sua insufficiencia, vamos tentar a
prova d’aquella affirmativa.
Tracta-se da origem da vida, e da successão dos seres dotados d’ella.
Muito antes de Darwin, Lamark, admittindo a geração espontanea, e
partindo do apparecimento successivo dos seres vivos, verificado por
Cuvier, ensinou que estes seres estavam ligados entre si pelos laços
da descendencia, directa ou indirectamente; e, que, sob a influencia
de varios agentes, que elle especificou, e por virtude da herança, que
servia á transmissão de todas as mudanças, a força vital desenvolvia o
typo por uma serie de planos adaptaveis á sua organisação, d’elle.
Darwin, aperfeiçoando esta doutrina, accrescentou-lhe as duas famosas
leis da _concurrencia vital_ e da _selecção natural_. A primeira
affirma que a vida é uma lucta constante, uma lucta sem treguas, que
se realisa universalmente, em que ha sacrificios enormes, desde a
inutilisação dos germens superabundantes até á extincção completa
de raças inteiras; a segunda affirma que a natureza, supremo juiz
d’aquelle pleito, dá sempre a victoria ás organisações mais fortes,
mais aptas para as pesadas condições da existencia.
A embryogenia e a paleontologia depõem um pouco a favor d’esta
doutrina: aquella, demonstrando que é d’uma cellula primordial que
derivam todos os organismos vivos; esta, affirmando a successão
progressiva dos vegetaes e dos animaes nos periodos paleontologicos.
Se assim é, que falta para que a theoria da descendencia se eleve a um
principio rigorosamente scientifico? Que difficuldade se lhe oppõe?
Esta: a fixidez irreductivel do typo especifico. Diz Littré, de quem
vimos resumindo a exposição da hypothese transformista: «_Jusqu’à
présent, dans les bornes de la durée que nous connaissons, et avec
les moyens dont nous disposons, nous n’avons pas réussi à changer
un type spécifique. Les variations, quelque étendues que nous les
ayons produites, l’on toujours respecté; et d’un chien nous n’avons
jamais fait un loup, ni un âne d’un cheval. Tant que nous n’aurons
pas vérifié, par l’expérience, une mutation dans le type spécifique,
il faudra ne pas prendre la spéculation pour plus avérée qu’elle
n’est_[41].»
Mas não é esta a unica difficuldade da hypothese darwiniana. Como
explicar, n’esta theoria, o facto da perfeita identidade de muitas das
especies actuaes com outras pertencentes ás mais remotas edades?
Quatrefages, referindo-se aos estudos feitos por especialistas sobre
as collecções trazidas do Egypto por G. Saint-Hilaire, estudos que
concluiram pela affirmação d’aquella identidade, e computando em cinco
ou seis mil annos a distancia que separa esses fosseis de muitos
exemplares pertencentes á fauna e á flora actual,--pergunta como é
que se harmonisa _tal constancia de fórmas animaes e vegetaes com as
theorias que admittem a mutabilidade das especies_; e, confessando que
Lamark tem, no ponto de vista do seu systema, uma resposta, coherente
e logica, a tal pergunta, affirma logo que ella é de todo o ponto
irrespondivel na doutrina de Darwin. «_Il en est tout autrement de la
doctrine de Darwin. Ici la variation dépend de la sélection, commandée
elle-même par la lutte pour l’existence. Or, celle-ci ne s’est pas plus
arrêtée sur les bords du Nil que partout ailleurs; elle a régné pendant
et après l’époque glaciaire tout autant que de nos jours. La sélection
n’a pas pu s’arrêter davantage. Si elle n’a rien produit, c’est qu’elle
n’a exercé aucune action pendant les périodes dont il s’agit_[42].»
O mesmo distincto naturalista demonstra muito claramente que as
intercalações de seres vivos ou fosseis entre outros da escala
biologica, tão ardentemente saudadas pelos discipulos de Darwin, estão
longe de ser argumento de força incontrastavel em prol d’essa doutrina.
Confirmam a _lei da continuidade_, é certo, mas confirmam-na, seja qual
for o modo por que ella se explique. Servem ao transformismo de Darwin,
como serviriam ao systema de Blainville, que as faria depôr em defesa
da creação unica[43].
Mas apesar dos enormes trabalhos realisados pelos paleontologistas
modernos, a serie animal tem ainda grandes lacunas a preencher,
grandes espaços em aberto, principalmente no que respeita aos fosseis
das epochas primitivas; e, sendo assim, é mister descontar, na
plausibilidade da hypothese transformista, estes graves defeitos da
inducção que a sustenta. Recomposta a serie animal, ainda não passaria
d’uma hypothese; no estado actual da paleontologia, é uma hypothese,
sim, mas das menos válidas, mas das menos seguras entre as que ahi se
condecoram justamente com o titulo de scientificas.
O facto de que concluimos esta apreciação attesta-o o professor
Kölliker; e Huxley, que é todo darwinista, citando a objecção, não a
remove, deixa-a de pé[44].
Mas, concedido que o transformismo é uma verdade positivamente
adquirida para a sciencia, que alcance philosophico tem? Que nova
resolução fornece ao problema dos destinos do homem? Fica dirimida para
sempre a eterna questão philosophica da distincção entre o espirito
e a materia? Não vemos por que modo isso se consiga; pelo contrario,
os transformistas dão-nos argumento de que outra é a sua intima
comprehensão. Darwin é espiritualista; são materialistas Haeckel e
Büchner...
O transformismo é, pois, um facto indifferente aos grandes interesses
da philosophia. Como algures observa Littré, a transformação successiva
não póde arrogar-se maior importancia n’aquelle sentido, do que
a adquirida pela sciencia, depois de ter verificado que todos os
seres, animaes e vegetaes, teem a mesma composição chimica, subsistem
pela mesma funcção physiologica de assimilação e desassimilação,
reproduzem-se pelos mesmos processos, teem uma embryogenia analoga.
Apesar d’isto, a theoria, ultrapassando os dominios biologicos, tentou
logo explicar toda a evolução historica. A concorrencia vital e a
selecção natural despiram os seus habitos naturalistas e enfronharam-se
na ampla _toilette_ das graves explicações sociologicas. Haeckel, por
exemplo, não duvidou affirmar que a «raça germanica excede todas
as outras na concorrencia do desenvolvimento civilisador... e que a
disposição para receber a theoria da descendencia e a philosophia
unitaria, que n’ella tem a sua base, constitue o melhor criterio para
apreciar os gráus de superioridade espiritual entre os homens.[45]»
Isto é serio? É scientifico este dogmatismo atrevido e irritante?
N’um livro modernamente publicado pelo sr. Bagehot, _Leis scientificas
do desenvolvimento das nações_, procura este escriptor dar uma solução
definitiva ao problema do progresso, problema difficil que, segundo
elle, deve satisfazer ás diversissimas condições em que se encontram os
povos distribuidos pelos varios climas da terra, desde o estacionamento
quasi absoluto em que se encontram os habitantes das ilhas Andeman e os
selvagens da Terra de Fogo, até ao constante movimento progressivo das
sociedades europêas. Para isso formúla e propõe as tres seguintes leis:
1.ª «Em cada estado particular do mundo, as nações mais fortes tendem
a prevalecer sobre as mais fracas; e em certas particularidades
determinadas, as mais fortes tendem a ser as melhores.»
2.ª «Em cada nação, considerada á parte, o typo ou typos de caracter,
que, em certo logar e em certa epocha, são os mais attrahentes, tendem
a predominar; e o caracter mais attrahente, salvas algumas excepções, é
exactamente o que nós julgamos melhor caracter.»
3.ª «A intensidade d’esta concorrencia entre as nações e entre os
caracteres, não é devida, na maior parte das condições historicas, a
forças extrinsecas; mas em certas condições, como, por exemplo, as
que predominam hoje na parte mais influente do mundo, a intensidade
de ambas aquellas concorrencias teem augmentado por effeito de causas
d’essa ordem[46].»
Estas leis teem um grande fundo de verdade, e são abonadas por uma
grande copia de factos. Não são novas. Cremos que ainda ninguem leu a
historia, que não tenha induzido d’ella a consideração de que, na lucta
constante dos povos, das classes e das raças, prevalecem sempre as mais
fortes; e, como no animo de todos o movimento social é progressivo,
egualmente toda a gente tem concluido a legitimidade das victorias
alcançadas pelos elementos mais vigorosos e melhormente constituidos.
Bagehot invoca, como principal argumento da primeira these (unica que
procura demonstrar no livro citado) o progresso militar da humanidade,
desde a edade de pedra até aos ultimos factos da historia contemporanea.
Era talvez possivel objectar-lhe que, se a arte militar tem progredido
visivelmente, ao seu lado se tem desenvolvido muitas outras condições
sociaes incompativeis com o exercicio d’aquella arte; e que sendo a
occupação militar predominante nos povos antigos, as outras foram-se
differenciando e progredindo sobre ella, até que, desde o seculo XVI,
uma só classe foi destinada a esse encargo. Mas, seja esta a causa,
ou seja outra, a verdade é que, estando duas raças ou dois povos de
desegualissima cultura um em frente do outro, a lucta não tarda em
estabelecer-se, e a victoria pertence ao que é superior na escala da
civilisação; a verdade é que, ao passo que os barbaros supportavam
perfeitamente o contacto dos romanos, não obstante a cultura superior
d’estes, hoje os selvagens desapparecem diante dos povos civilisados.
Sirvam de exemplo os Australianos.
Liquidada, porém, esta lei da concorrencia entre as classes e entre
as nações, estabelecido que, no vasto theatro da sociedade humana, só
vivem, só se desenvolvem os organismos bem constituidos, resta saber a
qual lei obedecem estes na adquisição das qualidades vencedoras e no
seu ulterior desenvolvimento.
Talvez nos digam que, pela comparação das qualidades existentes nos
organismos que predominaram com as que tinham os organismos vencidos,
se póde tirar lição util e deduzir um ensinamento proficuo. Mas, em
primeiro logar, qual das qualidades importou o triumpho? Depois,
como essas qualidades não funccionam em meios perfeitamente eguaes,
antes ordinariamente diversissimos, qual o criterio para estatuir as
modificações necessarias?
* * * * *
Nenhuma das formulas offerecidas para coordenar e explicar, n’uma
synthese suprema, os movimentos sociaes, satisfaz plenamente ás
exigencias da logica. Não satisfaz a de A. Comte, nem a de H. Spencer,
nem a de C. Darwin. Todas teem alguma verdade, e valem, por essa razão,
como leis empiricas d’um certo numero de factos ou como hypotheses,
mais ou menos plausiveis, no momento actual da sciencia. Mas importa
não as considerar d’outra maneira. Teem todas uma base commum, que, a
nosso ver, ha de resistir aos ataques dirigidos contra ellas, e ficar
como resultado definitivamente obtido para a sciencia pelos esforços de
todo este seculo: referimo’-nos ao methodo de observação que aquellas
escolas professam mais ou menos, e a que devem as suas mais valiosas
conclusões, e á comprehensão da biologia como antecedente necessario de
toda a sciencia social.
A direcção a seguir no estudo da politica afigura-se-nos perfeitamente
determinada. Não está liquidado que a evolução social depende,
em grande parte, de condições biologicas? que se transmittem
hereditariamente as grandes conquistas moraes da humanidade? que
o progresso é um facto natural? Não é á pura observação que se
devem as leis economicas e politicas que a nossa consciencia mais
firmemente acceita? Os systemas, que procuram estudar e resolver os
problemas sociaes por outra fórma logica, não estão irremediavelmente
desacreditados na opinião scientifica de quasi toda a gente culta?
Hartmann e Schopenhauer, por exemplo, toma-os alguem a serio? Ha
ainda alguem que pense em determinar _a priori_, mediante processos
ontologicos, as condições estaveis da felicidade humana? Não sabe toda
a gente que o methodo mixto, o que, deduzindo da consciencia o criterio
supremo d’uma philosophia, vai depois buscar a consagração experimental
d’elle na historia,--sacrifica irresistivelmente á sua preoccupação
mental a apreciação objectiva dos factos?
Das respostas devidas a todas estas perguntas resulta que é necessario,
que é urgente imprimir nos estudos politicos o cunho da mais completa
observação, e acabar por uma vez com o insensato proposito de _salvar_
os povos a puro esforço da imaginação, ou por meio de expedientes
cheios de _habilidade_ muitas vezes, mas sempre faltos de sciencia.
Uma mulher celebre disse que a politica não era, no presente estado
de cousas, mais do _que a arte de subir ao poder_. A definição é,
scientificamente, absurda, mas verdadeira como expressão da prática
politica em quasi todos os povos. Só vivem as nações que teem direito
a viver, e só teem este direito as que se collocam por iniciativa
propria na corrente de idéas e de factos do seu tempo. A lucta para a
existencia, tomada esta formula no seu mais amplo sentido moral, é uma
verdade incontestavel.
Por um astronomo, por um chimico, por um biologista, pullulam em toda
a parte cem politicos. A proporção seria em sentido contrario, se,
na consciencia publica, houvesse estas duas cousas: a comprehensão
scientifica das difficuldades sociologicas, e dignidade moral bastante
para se não assumir tão facilmente a suprema responsabilidade dos
destinos populares.
Hoje já ninguem duvida de que a resultante social tem por componentes
as acções dos individuos, que são reguladas em grandissima parte
pelas leis da vida, e que, para resolver grande numero dos problemas
da politica, importa estudal-as muito, consideral-as devidamente.
E não é este dos menores progressos realisados na sciencia d’este
seculo. A idéa vem de longe; já M. Agrippa, no seu famoso apologo,
comparava o organismo social ao organismo humano; mas a relação entre
os dois organismos passou d’uma analogia, explorada pela oratoria,
para uma determinação positiva, rigorosamente scientifica. A lucta
para a existencia e a selecção natural, que é um facto na historia,
tem uma explicação puramente biologica; a transmissão hereditaria das
qualidades e tendencias, mil vezes demonstrada, é á physiologia que
cumpre explical-a; a acção do meio cosmico sobre o organismo humano,
que, desde Montesquieu, é o logar commum de tantissimos philosophos
da historia, pertence, como these a desenvolver, á mesma sciencia.
A emigração, para citarmos um exemplo bem conhecido, resulta da
desproporção que se dá entre o augmento da população e a producção das
subsistencias, e é impossível comprehender as condições de tal problema
sem os dados fornecidos pela biologia.
Sabemos de alguns escriptores que teem feito d’aquelle principio a
mais antipathica applicação. Spencer reprova, com o tom mais aspero
da sua palavra, a protecção dada, individualmente ou pelo Estado, aos
miseraveis, aos invalidos, aos _máus_, significando por este termo
os inhabeis para o trabalho, os desprovidos das fortes qualidades
necessarias ao tráfego da vida; considera a caridade como uma
loucura e como um grande mal, porque o beneficio feito ao miseravel,
dá-lhe muitas vezes energia, fugaz, sim, mas bastante para crear uma
geração, fatalmente condemnada a soffrimentos de toda a ordem; e a sua
indignação vai ao ponto de affirmar que os que procedem assim, na plena
ignorancia das leis da vida, contrariam criminosamente _este trabalho
de eliminação natural de que a sociedade se serve para se purificar a
si propria_[47].
Esta phrase, ainda que a intelligencia a justifique na sua horrivel e
crua nitidez, dilacera o coração, repugna ao coração. Sobre aquelle
preceito de Lycurgo, que condemnava á morte as crianças aleijadas,
pesam mais de dois mil annos de reprovação geral. Se o sentimento
tem direitos a entrar nos problemas sociaes, é aqui que elle os faz
valer todos. Mas a causa dos desgraçados, seriamente compromettida no
tribunal da moderna sciencia, não está ainda perdida. A intelligencia
tem que oppôr á sentença que os fulmina, quer a decrete Spencer em nome
da biologia, quer a pronuncie Malthus em nome da economia politica.
Porventura a beneficencia bem entendida não póde, em grande numero de
casos, rehabilitar os incapazes, dos preguiçosos fazendo diligentes,
dos criminosos homens dignos, dos physicamente fracos homens válidos
e talvez robustos em toda a extensão d’este termo? Se é verdadeira
aquella doutrina, prova só contra os irremediavelmente incapazes. Mas,
concedido, por hypothese, que estes não devem ser amparados, de qual
criterio hemos de servir-nos para a qualificação das incapacidades?
Em alguns casos, facilmente se distingue; mas em muitos d’elles
toda a distincção é arbitraria. O arbitrario em cousas d’estas, que
incomportavel horror!
Outras applicações d’esta natureza teem sido produzidas. O defeito
commum de todas ellas é o de não considerarem a humanidade sob o seu
duplo aspecto egoista e sympathico ou altruista, como hoje se diz.
Mas os erros de logica na applicação dos principios da sciencia não
destroem estes. Prejudicam-os, mas não os annullam.
* * * * *
Para nós, os povos do Occidente, nunca se fez sentir tão vivamente a
necessidade de resolvermos com inteira prudencia o problema da nossa
politica. As condições actuaes da Europa obrigam-nos, sob pena de
perdição inevitavel, a não preterirmos nenhum dos meios modernos com
que se desenvolvem e robustecem as nações. E esses meios só a sciencia
os ensina.
O pangermanismo e o panslavismo são duas ameaças terriveis. A Europa
salvou-se, na edade-media, luctando indefessamente contra as invasões
que a ameaçavam. Não ha hoje menos necessidade de nos premunirmos, as
nações de origem latina, contra a ambição desmesurada e recrescente da
Allemanha e da Russia, nossas naturaes inimigas.
Á hora a que escrevemos estas linhas, os slavos concentram-se em volta
da Russia, claramente indicada para nucleo da sua enorme nacionalidade,
e de certo não passará muito tempo sem que S. Petersburgo seja a
capital de todos elles. A Prussia, essa, reuniu já sob uma só bandeira
todos os povos allemães, á excepção dos que vivem sob o dominio da
Austria, o qual, de certo, não será muito longo,--e tão forte tem sido
a corrente dos allemães para a sua almejada unidade que até lhes não
serviram de embargo as mais radicaes differenças sociaes e religiosas!
A Polonia e a Turquia eram obstaculos á unidade germanica e á unidade
slava; mas que podiam valer dois povos, pessimamente administrados,
contra a torrente quasi invencivel de duas raças, possessas da ambição
de se engrandecerem? Nada. A Polonia acabou; a Turquia está em vesperas
do mesmo destino. A Europa occidental ainda ha de arrepender-se de
não ter obstado ao sacrificio da Polonia, assim como ha de soffrer
mais com a Russia do que soffreu com a Turquia. _Mieux vaut la morsure
d’un léopard que l’étreinte d’un spectre_, disse Victor Hugo. O futuro
dará razão á phrase do grande poeta. Por’ora aquelles dois colossos
preoccupam-se unicamente das suas respectivas nacionalidades; mas,
satisfeito esse plano, acredita alguem que está posto um limite ás
suas expansões, e que a força adquirida na lucta que teem suscitado
não ha de empregar-se no sentido do seu maior dominio, do seu maior
engrandecimento?...
Que póde servir de impedimento á extensão progressiva da raça
germanica, por exemplo? A biologia demonstra que, quando uma raça
não é forçada a conter-se nos limites da sua area geographica por
absoluta incompatibilidade com outras condições climatericas, a sua
força expansiva só póde ser reprimida pela falta de subsistencias, pela
esterilidade do solo. A Prussia comprehendeu isso, graças aos esforços
de Liebig, e, fazendo applicação dos melhores processos scientificos á
sua industria, é hoje a nação mais adiantada na agricultura, tem uma
producção muito superior ao seu consumo, e, uma vez lançada n’este
caminho, não cessa de explorar com admiravel tenacidade todas as suas
fontes de riqueza[48].
Egualmente, não ha obstaculos conhecidos que se opponham ao maior
desenvolvimento da raça slava. A Russia é um paiz essencialmente
agricola. A producção excede muitissimo o consumo, a população cresce
a olhos vistos nas regiões mais ferteis, como o _Tschornosjom_, o paiz
das terras negras, e a civilisação industrial, posto que incipiente,
pouco a pouco vai conduzindo os slavos á via das grandes transformações
sociaes. O meio geographico é excellente. A Russia é uma planicie
enorme, cortada por grandes rios, apta, pela variedade dos seus climas,
para todos os generos da cultura. A sua industria, logo que assuma
a energia, a independencia, a forte iniciativa de que dependem os
grandes emprehendimentos economicos, encontrará, na opulencia mineral
do seu solo, meios de fazer a mais assombrosa concorrencia aos centros
commerciaes do Occidente. «Pelas suas minas, pela sua industria apenas
suspeitada ainda (dizia ha pouco Franz Schrader[49] na _République
Française_), pelo seu ferro, pelos jazigos de carvão que possue e que
de futuro se descobrirem, pela sua situação no meio d’esta irradiação
de paizes, que, posto todos valham mais do que ella, todos d’ella
dependem mais ou menos,--a Russia póde chegar a representar um papel
importante no mundo moderno.»
Por outro lado o communismo russo tende a desapparecer[50], o que
é um claro symptoma de progresso, e, parallelamente a esse facto, a
consciencia slava não perde occasião de protestar contra as imposições,
demasiadamente _paternaes_, da politica do czar. Ainda ha pouco se
manifestou isso por occasião do famoso processo de Vera Zassoulitch. A
apreciação geral d’este processo pela imprensa europêa foi no sentido
de que a Russia estava repleta de vicios e n’uma podridão miseravel.
Não ha criterio mais falso. Vicios, tem-nos a Russia, e muitos, e muito
enraizados. Quem ignora isso?... Agora o que é menos exacto é que
aquelle povo esteja em via de esphacelamento. Não está. Não afaguemos
essa illusão. A philosophia dos ultimos factos, pertinentes á vida
intima d’aquella sociedade, é esta: a Russia agita-se; tanto melhor
para ella, tanto peior para nós...
Ora, á medida que a Russia progride assim nos augmentos physiologicos
da sua raça e na riqueza moral da sua civilisação; ao passo que a
Allemanha se encontra em tão propicias condições economicas, e imprime
nos seus destinos a força invencivel da sciencia, o que fazem as nações
do Occidente?
A França ainda póde oppôr-se a futuras invasões, porque é rica,
trabalhadora, tem uma industria florescente, e está resolvida a
governar-se scientificamente; mas a Italia, a Hespanha e Portugal,
estarão em condições felizes?...
A Italia, a grande nação antiga, que ha pouco emergiu do seu tumulo de
seculos, essa parece empenhada em imprimir na sua politica a nitidez
d’uma concepção artistica; mas nós e os nossos visinhos não queremos
por fórma alguma encravar a roda do nosso infortunio, do nosso longo
infortunio, para que contribuiram, por egual, os excessos do fanatismo
religioso, os exaggeros da monarchia absoluta, e o uso imprudente das
nossas faculdades conquistadoras.
Pois urge que nos resolvamos a romper com esta inercia que tão
tristemente nos caracterisa, com o empirismo politico que nos domina,
com este systema de não pensar no dia de ámanhã, com esta indifferença
por tudo e por todos, que nos está envenenando lentamente, mas
fatalmente.
_Não ha ordem nas idéas, nem prestigio nas pessoas_, dizia-nos ha pouco
um dos mais nobres caracteres que ahi se teem esmaltado na vida publica
d’este paiz.
Triste verdade, mas verdade innegavel!
Poderemos ainda salvar-nos? Não estaremos irremediavelmente perdidos?
Alexandre Herculano, nos ultimos annos da sua veneravel existencia,
descria inteiramente da nossa regeneração nacional. Nós, desalentados,
mas não succumbidos de todo, appellamos ainda para a sciencia. Se ella
não fizer o milagre, não sabemos de onde elle venha.