Depois de ter indagado as causas da felicidade dos tolos, e da
desgraça dos homens de espirito: perderemos tempo precioso em
accusar as mulheres? Não hesitamos em deitar as culpas sobre os
homens de espirito, como fez o profundo Champcenets.
Porque não estudam os tolos, diz-lhes este autor, para conseguir
imital-os? Hade custar-vos muito fazer um tal papel: mas ha proveito
sem dezar? E depois, quando assim sois a isso obrigado, visto como
não vos dão outro meio de solução, querer subtrahir o bello sexo ao
imperio dos tolos, descortinando-lhe a perversidade do seu gosto, é
cousa em que ninguem deve pensar, é uma loucura; fôra o mesmo
que querer mudar a natureza, ou contrariar a fatalidade.
Por quanto, ficai sabendo, continúa Campcenets, que as mulheres
não são senhoras de si proprias; que nellas tudo é instincto ou
temperamento, e que portanto ellas não podem ser culpadas de
suas preferencias. Só respondemos pelo que praticamos com intenção e
discernimento. Ora, qual dellas póde dizer que predilecção a impelle,
que paixão a obriga, que sentimento a faz ingrata, ou que vingança
lhe dicta as malignidades? Debalde procurareis nellas tão cruel
prodigio; nenhuma é cumplice do mal que cansa; a este respeito, o
seu estouvamento attesta-lhes a candura.
Porque vos obstinaes em pedir-lhes o que a Providencia não lhes deu?
Ellas se apresentam bellas, appetitosas e cégas: não vos basta isto?
Querel-as com juizo, penetrantes e sensiveis, é não conhecel-as.
Procurai as mulheres nas mulheres, admirai-lhes a figura elegante e
flexivel, affagai-lhes os cabellos, beijai-lhes as mãos mimosas; mas
tomai como um brinquedo o seu desdem, aceitai os seus ultrages sem
azedume, e ás suas coleras mostrai indifferença. Para conquistar esses
entes frageis e ligeiros, é preciso atordoal-os pelo rumor dos vossos
louvores, pelo fasto do vosso vestuario, pela publicidade das vossas
homenagens.