O homem de espirito é o menos habil para escrever a uma mulher.
Quando se arrisca a escrever uma carta, sente difficuldades incriveis.
Desprezando o vasconço da galanteria, não sabe como se hade faze
entender. Quer ser reservado e parece frio; quer dizer o que espera e
indica receio; confessa que nada tem para agradar, e é apanhado pela
palavra. Commette o crime de não ser commum ou vulgar. As suas cartas
sahem do coração e não da cabeça; têem o estylo simples, claro e
limpido, contendo apenas alguns detalhes tocantes. Mas é exactamente
o que faz com que ellas não sejam lidas, nem comprehendidas. São
cartas decentes, quando as pedem estupidas.
O tolo é fortissimo em correspondencia amorosa e tem consciencia
disso. Longe de recuar diante da remessa de uma carta, é muitas vezes
por ahi que elle começa. Tem uma collecção de cartas promptas para
todos os grãos de paixão. Allega nellas em linguagem brusca _o ardor
de sua chamma_; a cada palavra repete: _meu anjo, eu vos adoro._
As suas formulas são emphaticas e chatas; nada que indique uma
personalidade. Não faz suspeitar excentricidade ou poesia; é quanto
basta; é mediocre e ridiculo, tanto melhor. Effectivamente o extranho
que ler as suas missivas, nada tem a dizer; na mocidade o pai da
menina escrevia assim; a propria menina não esperava outra cousa.
Todos estão satisfeitos, até os amigos. Que querem mais?