XXII

Esta apparição, que n’outro momento me impressionaria immenso, não

conseguiu tirar-me da lethargia, em que me prostrara a terrivel scena,

que houvera entre mim e Alberto. Fitei um olhar estupido no rosto de

meu marido.

Annuviava-lhe a fronte uma profunda tristeza, mas nos seus olhos,

d’onde desapparecera a vaga desconfiança que era a sua expressão

habitual, transluzia não sei que meiga bondade, e que suavissima

ternura.

Curvou-se brandamente para mim, e disse-me com voz cheia de lagrimas:

--Quando me perdoará, Margarida?

Eu olhei para elle com indizivel espanto, e murmurei:

--Perdoar-lhe eu?

--Oh! bem sei que sou indigno de perdão; mas quando souber quanto eu

soffri, quando souber que diversos e innumeros golpes me alancearam

por tão longo espaço! quando comprehender bem o meu caracter fraco,

incerto, impellido por cada sopro extranho, cedendo machinalmente a

qualquer influencia, talvez me desprese, mas absolva. E depois, muito

depois, é possivel que um raio de affecto venha doirar a compaixão, que

eu lhe inspire.

--Affecto! exclamei no auge da exaltação, mas não sabe que mesmo agora,

ha um instante apenas, votei a outro homem um amor immenso e eterno?

Não sabe que a minha alma voou para bem longe d’aqui, nos labios d’esse

homem que m’a colheu n’um beijo? não sabe que sou uma mulher adultera,

indigna de perdão, porque me ufano do meu crime?

Um soluço doloroso, afogado na garganta fez arfar com violencia o peito

de Claudio. Lagrimas como punhos saltaram-lhe dos olhos, e rolaram-lhe

pelas faces lividas. Estendeu a mão como para me pedir que não

continuasse, e esteve um instante sem poder fallar.

--Sei; disse por fim, sei tudo. Avisado por minha tia de que se havia

de realisar esta entrevista, tive a fraqueza de os vir espiar. A

inquietação e o desasocego fizeram com que me adeantasse ás horas

marcadas. Esse caso fatal ou feliz proporcionou-me ensejo de assistir

a uma scena que me fez soffrer o duplo tormento do ciume e do remorso.

Pude apreciar, n’esta hora de grande provação para o seu espirito, a

nobreza do seu caracter, de que tão indigno me tenho mostrado. Porque,

devo confessar-lh’o, amo-a com um amor, bem que menos poetico, pelo

menos tão grande ou maior do que a paixão, que Alberto lhe consagrou.

--Quem o havia de dizer? murmurei eu com dolorosa ironia.

--Tem rasão, tem, tornou elle sem reprimir as lagrimas. Esmague-me

com o peso do seu odio, mas ouça-me: Educado severamente no seio

d’uma familia de idéas acanhadas, cedo me costumei a esconder no mais

recondito do peito os meus sentimentos, porque, se os manifestava, ia

excitar tempestades, que me obrigavam a retratar-me de novo. Todos me

dominavam; meus paes, e meus tios. Consideravam-me como uma creança,

cujos maus instinctos deviam ser reprimidos, e as minhas aspirações

para um mundo mais elevado eram castigadas como crime. Depois da morte

de meus paes, minha tia, ainda que mais velha do que eu em poucos

annos, continuou a exercer sobre mim um dominio indisputado. Só uma

vez me rebellei: foi quando se tratou do meu casamento. O amor que me

inspirara, foi mais poderoso do que o habito. Casei contra vontade

d’ella. Vingou-se cruelmente. Preciso de lhe contar as insinuações,

as calumnias, com que D. Antonia tentou semear a sizania entre nós

ambos? Não, porque era repetir-lhe a dolorosa historia dos seus e

dos meus tormentos. A timidez selvagem da minha indole impedia-me de

provocar uma explicação, que podia pôr termo a este penoso estado. A

desconfiança augmentava a minha reserva; a sua indifferença excitava-a

ainda mais. Foi-se envenenando a ferida com as apparencias, cada vez

mais illusorias. Suppuz que um outro amor lhe vendava os olhos, que não

viam sob a minha frieza exterior o fogo da paixão. Transformou-se em

realidade esta minha suspeita. Recresceu a minha dôr, e principalmente

o meu desalento. Sentia-me culpado, não podia criminar a pomba, a quem

estramalham o ninho, e que vôa tonta pelos ares e tonta vae poisar n’um

ramo de arvore estranha. Mas apesar d’isso, uma sombria tristeza se

apoderara de mim; torturava-me a duvida. «Serão culpados, pensava eu,

ou resistem ao sentimento, que se lhes está apossando dos corações?»

Ora pensava que o despeito e o desgosto a teriam levado a esse

estado, ora acreditava que era esse um amor antigo que habilmente me

disfarçara. Taes suspeitas alimentava-as minha tia, fazendo sobresair a

indifferença evidente, com que me aceitara por marido.

--E não suspeitava, tornei amargamente, que essa indifferença, não

era mais do que a despreoccupação da creança, que ainda não sentiu o

amor, e cuja alma immaculada é como livro branco, prompto a receber

as primeiras estrophes, que lhe queiram traçar nas folhas! Sempre a

supposição mais injuriosa!

--Oh! perdôe-me, Margarida. Isso que me diz entreluziu-me vagamente,

como clarão d’aurora por entre as sombras da noite. Pensei no encanto

que teria para mim esse amor, que fosse brotando a pouco e pouco entre

as doçuras da intimidade, cada vez mais estreita; mas as insinuações

de D. Antonia mataram-me o devaneio, e na constrangida ligação que

tivemos, não encontrei nunca animação para a empreza. Que funestas

consequencias teve esse engano, em que ambos laboravamos! Os nossos

dois corações, que talvez voassem um para o outro, assim se conservaram

isolados, e hoje...

Interrompeu-se tapando com as mãos o rosto inundado de lagrimas.

Commoveu-me a dôr d’esse homem, que fôra a causa do meu infortunio, mas

cuja falta era tão nobremente resgatada pela inexcedivel generosidade

do seu procedimento.

--Hoje é tarde, Claudio, disse-lhe eu tomando-lhe as mãos e

apertando-lh’as brandamente; a ferida do meu coração é muito profunda,

e receio que nunca cicatrise. Mas descance que o não hei de torturar

com o espectaculo dos meus tormentos. Viu que tive força bastante para

lhe salvar a honra, tel-a-hei para lhe não perturbar a tranquillidade.

Não lhe prometto amor, que seria enganal-o, mas affecto d’irmã, esse já

m’o conquistou. Bem sei que é estranho este modo de fallar d’uma mulher

a seu marido, mas á sua franqueza com igual franqueza correspondo. Se

o destino não consentiu que se formasse entre nós uma ligação mais

doce, vinguemo-nos dos seus golpes unindo-nos em fraternal alliança.

Juntos resistiremos melhor aos ataques da vibora, que nos envenenou a

existencia, e o nosso sanctuario, onde habitarão a paz e a amisade,

não será ao menos profanado pela intriga e pela calumnia. Acceita esta

alliança?

--Se acceito, Margarida! É esse o meu ideal agora, e não sou tão

insano que faça voar mais alto a minha ambição. Está feito o mal, e se

não tem remedio, tenha pelo menos allivio. Que balsamo mais doce podia

eu desejar do que a sua amisade, e uma esperança... louca talvez, mas

que lhe imploro que me deixe!

Sorri-me tristemente, e não lhe respondi.

--Oh! exclamou elle, dando mostras da mais violenta afflicção, o

castigo é horrivel, mas é justo. Essa esperança bem vejo que é uma

loucura; offendi-a cruelmente, e consenti que a offendessem. Deixei

que lançasse profundas raizes essa planta, que hoje me rouba toda a

sua vida, todo o seu coração. A lucta é impossivel com um rival, cujo

prestigio a ausencia augmenta e eternisa. Essa estranha fidelidade a um

amor impossivel é digna da sua alma, e, fazendo-me soffrer, inspira-me

admiração! Agora é que eu avalio o thesouro, que perdi, e que perdi por

minha culpa.

--Claudio, meu amigo, dizia-lhe eu embaraçada e tentando acalmar

a violencia da sua dor, não se afflija assim. É uma desgraça

irremediavel, e... quem sabe, (se o meu amor tem tanto apreço aos seus

olhos) quem sabe as mudanças, que o tempo pode produzir? Orgulhosa

seria se me julgasse isenta de todas as fraquezas da humanidade! Talvez

eu seja como tantas outras, talvez o que julgo eterno será passageiro.

A custo proferia estas palavras que me saíam dos labios, não do

coração. Eram uma impiedade, uma blasphemia, mas tambem eu não podia

deixar soffrer um homem que já tanto soffrera por minha causa, e que

eu via alli prostrado, desalentado, matando-lhe desapiedadamente a mais

ligeira esperança, negando-lhe a mais innocente consolação.

--Pois bem, disse-me elle erguendo a cabeça, só uma coisa lhe peço, e

espero que m’a conceda: sei que possue uma flor secca, memoria querida

d’esse amor que tão animosamente sacrificou. Bem sei que não tenho

direito de lh’a pedir, mas prometta-me que, no dia em que sentir um

affecto mais suave succeder á amisade que tão cordealmente me offerece,

me ha de entregar essa flor. Quando eu a receber saberei que estão

coroados os meus votos, realisados os meus sonhos. Promette fazer o que

lhe peço?

--Prometto, respondi, estendendo-lhe a mão; mas, meu pobre amigo,

parece-me que a pobre flor se ha de desfolhar sobre o meu tumulo.

--Sobre os nossos tumulos, diga antes. Depois de ter alimentado esta

esperança, o dia em que ella se desvanecer será o da minha morte.

Emmudeci. Elle cingiu-me, para assim dizer, com um longo, terno e

doloroso olhar, e depois, sacudindo a cabeça, como para expulsar os

pensamentos que na mente lhe referviam, tirou o relogio da algibeira, e

viu ao luar as horas.

--Duas! disse elle. Se me não engano, vamos ter novidade. Pelo que

deduzi de algumas palavras soltas, que minha tia e a condessa trocaram

esta noite, do facto de terem a condessa e D. Carolina voltado em

segredo depois de haverem saido ostensivamente, e de vagas ameaças

que minha tia me fez, quando me deu o ultimo aviso, no caso de eu

não cumprir o grande desejo d’ella, pareceu-me que essas dignissimas

pessoas conceberam o projecto de apparecerem de subito no jardim, para

produzirem um escandalo, que tornasse inevitavel a nossa separação.

E effectivamente, continuou pondo o ouvido á escuta, creio que ouço

passos abafados como de quem toma precauções para que o não sintam.

Apurei tambem o ouvido, e percebi com effeito, vagos rumores que mal se

distinguiam do murmurio da brisa; mas, affastando levemente a cortina

de buxo, vi scintillarem nas ruas do jardim frouxos clarões, como

lanternas de furtafogo.

--Dê-me o braço, disse-me meu marido, em voz baixa.

Encostei-me ao braço d’elle, e ambos nos dirigimos vagarosamente para

uma das extremidades da rua, como se andassemos saboreando placidamente

a frescura da noite.

Tinhamos dado apenas alguns passos, quando subito, e, como se fosse a

um signal convencionado, appareceram luzes por todas as bandas, e os

vultos de D. Antonia, de D. Carolina, da condessa e de Maria do Rozario

surgiram magestosamente, trazendo cada um d’esses quatro personagens um

candieiro ou um castiçal na mão.

As luzes, que tinham resguardado por baixo das capas ou dos chales,

inundaram de fulgor a rua escassamente allumiada pelo luar, e, batendo

em cheio na estatua, cingiram-na com esplendido manto.

Um passarinho, adormecido na espessura, despertou saudando esta

ficticia aurora. Eu e Claudio parámos tranquillamente relanceando os

olhos com espanto comico para os quatro actores, que tinham entrado em

scena, e que nos miravam estupefactos.

--O que é isto? perguntou Claudio desfechando uma sonora gargalhada.

Temos scena final de melodrama? Abre-se a porta do fundo, e apparece o

tyranno, rodeado de soldados e de luzes?

--Caso de grande monta deve ser, acudi eu logo, porque vejo aqui a

senhora condessa e a senhora D. Carolina, que a estas horas julgava que

dormiam muito socegadas nas suas camas!

Ellas não diziam palavra, mas voltavam os olhos pasmados, ora umas

para outras, ora para nós. Era tão comico o seu desapontamento que eu

desatei a rir.

A D. Antonia parece que trazia o discurso estudado, porque não o quiz

perder de todo, e ainda principiou:

--Minha sobrinha... aqui... a estas horas...

--A passear comigo, acudio Claudio, então que tem? A tia parece-me

somnambula!

--E estão sós? exclamou levianamente a condessa.

--Pois com quem haviamos de estar? continuou elle. Vossa excellencia

esperava aqui alguem, ou alguem lhe prometteu vir aqui esperal-a? Nada,

estamos sós, e devemos confessar que não contavamos ser surprehendidos.

Andavamo-nos deliciando com as frescas emanações de uma noite de

estio. N’estas noites foge-nos o somno das palpebras, e reconhece-se a

verdade do que diz um poeta francez:

_On ne dort qu’à demi d’un sommeil transparent_

D’esta vez todas nós olhámos estupefactas para Claudio; nunca o

tinhamos visto tão expansivo. Parecia que o jubilo, innundando-lhe o

coração, lhe trasbordava em torrentes de palavras. O meu amor proprio

não podia deixar de ser affagado um pouco pela idéa de que só uma

levissima esperança pudera transformar o caracter de meu marido.

Comtudo a posição estava sendo ridicula para os quatro conspiradores.

Era preciso sairem d’ella a todo o custo. Encarregou-se de preparar

uma retirada airosa a fertil imaginação de Carolina. Improvisou

uma historia de ladrões, que as tinham assustado ao irem para suas

casas, motivo por que tinham voltado para traz: explicou a sua visita

ao jardim pelo desejo de lhe explorarem os meandros a fim de se

certificarem que não havia homens escondidos n’algum canto.

Ouvi esta historia com um sorriso nos labios, Claudio com ironica

attenção, interrompendo-a a cada passo com exclamações de zombeteiro

espanto.

Quando ella acabou, não pude deixar de dizer, sorrindo:

--São poetas os bandidos! Escolhem noites de luar, claras e

transparentes, para fazerem as suas excursões! Estou que, antes de nos

roubarem, não haviam deixar de nos dar uma serenata.

--É possivel, respondeu ella amargamente, em todo o caso não seria eu

quem a ouvisse.

--Com muita pena sua, não é verdade, senhora D. Carolina?

Não me respondeu. Entretanto travara-se um dialogo em voz baixa entre

Claudio e D. Antonia. Só pude perceber as ultimas palavras:

--Has de sempre ser um tolo, Claudio, dizia-lhe ella.

--Favores, tia, favores seus. Mas olhe que estou sendo agora tolo... e

teimoso!

D. Antonia ergueu ao céu os olhos lacrymosos, e preparou-se para ter um

ataque de nervos. Mas lembrou-se que estava o chão do jardim humido com

o orvalho que principiava a cair, e houve por bem adial-o para outra

occasião.

Todas quatro se retiraram para casa, justificando um proverbio

portuguez muito conhecido, que diz respeito aos tosquiadores de lã.

Nós seguimol-as de longe, com passos vagarosos, indo eu encostada ao

braço de meu marido. A lua brilhava serena e limpida no firmamento

azul, e a aragem, meneando a copa do pecegueiro e as corollas das

rosas, colhia perfumes, que pagava com murmurios.

* * * * *

Passado um mez, partiamos, eu e meu marido, para uma viagem na Europa.

Era este o unico meio de nos esquivarmos ás iras de D. Antonia, e de

fugirmos ás pungentes recordações que despertava no nosso espirito cada

sitio onde tinhamos passado uma existencia attribulada.

A imagem pensativa de Alberto não me deixou um instante só, durante

os dois primeiros annos da nossa excursão. Visitou comigo Pompeia,

a resurgida cidade; Napoles, a voluptuosa; Palermo, a afortunada;

a historica Roma; a artistica Florença; a aristocratica Genova; a

melancholica Veneza; Milão, berço da moderna poesia italiana; Turin,

berço da liberdade. Saimos da Italia, e percorremos a Allemanha. Ahi

a imagem de Alberto interpoz-se menos vezes a mim e ás paizagens

grandiosas, aos castellos gothicos e ás floridas cathedraes do Rheno.

Muitas vezes, meu marido, quando a conversação entre nós ambos se

tornava mais expansiva, me perguntava o que era feito da flor secca.

Mas eu descorava, apertava-lhe a mão e ficava silenciosa. Salteava-o

então dolorosa melancholia, e estava longas horas sem proferir palavra.

Comtudo haviamos percorrido juntos a Allemanha toda, e passavamos

a França, quando em Colonia nos vimos forçados a parar por minha

causa. Ahi dei uma filha a Claudio. Não posso pintar o seu jubilo!

Eu sentia-me tão feliz por ser mãe, contemplava tão enlevada os

olhos azues e as faces mimosas da minha filhinha, que, vendo Claudio

debruçado sobre o berço com o mesmo enlevo, cheguei a pensar que o amor

antigo desapparecera afinal, e que essa creança fôra o anjo, enviado

por Deus para enlaçar os nossos dois corações, lacerados por tantos

martyrios.

Por isso uma noite, em que ambos miravamos a creança, deitada no berço,

e que olhava para nós com os seus grandes olhos pasmados e vagos, e

levantava para mim as suas mãosinhas brancas como brancos lyrios,

pareceu-me ouvir a voz de Deus, que me ordenava que completasse o

sacrificio, principiado havia tres annos.

Tirei a flor secca do peito, e deixei-a cair no berço da nossa filha.

Claudio soltou um grito de jubilo, caiu-me aos pés banhado em lagrimas.

N’esse instante fui verdadeiramente feliz.

Ai! devo confessal-o? passou rapido esse momento. Assomou-me de novo

na phantasia o vulto de Alberto, chamado pelos remorsos que sentia,

de ter trahido o juramento que lhe fizera. E depois, meu marido tinha

um coração excellente... mas aquelle nobre typo de Alberto possuia um

inexcedivel prestigio.

Voltámos a Portugal. Tornámos a ver a nossa casa da Cruz das Almas, e a

nossa quinta de Bellas. Em todos esses sitios me esperavam milhares de

recordações, emboscadas nas ramarias das arvores, aninhadas no teclado

do piano!

Indaguei por intermedio de Theodoro Leite a quem meu marido, antes de

se ausentar, assegurara uma posição independente, o que fôra feito de

Alberto. Soube que partira para as possessões de Africa occidental, com

um emprego na administração. Póde-se isto considerar um verdadeiro

suicidio. Resistirá a sua organisação tão delicada áquelle mortifero

clima?

Redobrou com estas noticias a minha tristesa, tristesa que me vae

matando, pela necessidade que tenho de a disfarçar. A minha consolação

unica é minha filha. Vejo crescer aquella formosa flor confiada aos

meus disvellos, e peço a Deus que a preserve dos ventos frios, e das

geadas que me mataram o viço.

Ás vezes quando vejo passar D. Antonia com os mesmos modos

pretenciosos, o mesmo olhar onde transparece a mesma ironia parva,

fuzila-me nos olhos um sentimento de odio. Não, mil vezes não: nunca

teria pensado em Alberto, se não fosse a teima de D. Antonia em me

attribuir maus pensamentos.

Felizmente agora já me não póde fazer mal. A intimidade affectuosa que

existe entre mim e meu marido é solido broquel, onde se partem todas as

settas, que ella nos dirige. Mas que importa que se esmague a serpente

com o pé, se ella já pôde morder, e entornar a peçonha na ferida? A

victima vae definhando a pouco e pouco, até cair prostrada no regaço

consolador do anjo da morte.

A flor secca: romance · 第 43 / 55 题