«Lisboa, 12 de setembro de 1842.
«Respondo, meu amigo, á tua cartinha. A esta hora já recebeste a carta
explicativa do meu procedimento. Julga-me, e absolve-me, se fui injusto.
O meu destino é vêr que as minhas acções, aconselhadas pelo dever,
redundam sempre em gravame alheio e desconceito meu. Estou enganado com
o mundo. Devo restringir-me, cada vez mais, n'um curto espaço em que
todas as operações de minha intelligencia, se reduzam ao trabalho
necessario á vida. Só assim poderei achar um cantinho da sociedade, onde
caiba com a minha insignificancia.
«Cuidei que, saindo de Madrid, deixava essa senhora em paz comsigo e com
o mundo. Puz o coração debaixo dos pés, e nem assim consigo a liberdade
do espirito!
«A entrada de Paulina no convento, a meu parecer, significa uma fadiga
de alma, que faz as mulheres eguaes aos homens. Paulina soffreu; creio
que sim. Está repousando para reassumir as poderosas faculdades de sua
juventude, formosura e aspirações. Póde ser que, ao receberes esta
carta, ella tenha já deixado o mosteiro pelas salas; e ámanhã deixará as
salas pelo mosteiro. Paulina lê romances. Os personagens femininos, da
novella moderna, são quasi todos a copia fiel da brilhante extravagancia
do espirito. Leem-se, e a sympathia, em vez do riso, nos impressiona.
Imitam-se, onde ha espaço, e é preciso te-lo, ainda assim, para as
scenas grandiosas, que, a final, desfecham em tragedias que o mundo,
futil e chocarreiro, denomina «comedias».
«Na proxima carta me dirás o proseguimento d'esse estranho passo.
Authoriso-te a dizer-lhe, tão directamente quanto puderes, que respeito
em silencio todos os seus designios, e peço a Deus, que ao encontro
d'elles, lhe saia o anjo da felicidade. Em quanto a ama-la, faz-lhe
sentir que eu sou bastante desgraçado para não poder esquece-la.
«Vou ámanhã ao Porto a fim de solicitar o embolso de algumas dividas de
calçado que lá devem a meu pae as lojas que se forneciam de nossa casa.
Tudo é necessario para ir custeando estas grandes despezas. Já vês que
estou feito caixeiro de cobrança de uma loja de sapatos. Para bem
desempenhar estas funcções, levo comigo as minhas cartas de bacharel
formado em leis!
«Vou ver as paragens onde vimos juntos a morte tantas vezes! Procurarei
o rochedo das Antas, onde me encostei ferido no dia em que fui
condecorado. Ama o teu camarada d'aquelles bons dias de sangue, de
esperanças, de alegrias.
_Fernando._»