XV

Paulina convidara Fernando a um colloquio nocturno, na vespera do dia em

que havia de ser requerido o deposito. Este convite fôra-lhe suggerido

pelo secretario da legação, que antevia mau desfecho do negocio tratado

com pannos quentes. Induzira elle a menina a propôr de viva voz e com

instancia ao noivo a fuga immediata: esperava Almeida que a presença, a

resolução e intimativa de Paulina quebrantassem a firmeza do seu amigo.

Era aquella a primeira vez que Fernando Gomes ouviu a voz de Paulina,

depois da saída de Florença. Foi com alegria de coração; todavia algum

vago presagio lhe ennublava o espirito.

A familia Briteiros occupava o primeiro andar do melhor hotel de Madrid.

Fernando devia entrar ás nove horas da noite e pedir um quarto no

_entre-sol_ do edificio. O corredor commum d'estes quartos baixos tinha

escada que subia ao primeiro andar. Ás onze horas Fernando subiria esta

escada, e encontraria Paulina no tôpo. A excellencia do plano

correspondeu á execução. Ninguem occupava os quartos inferiores, excepto

um francez chegado á mesma hora. O hospede entrara, e fechara-se em sua

camara. Ás onze horas era completo o silencio no andar superior.

Bartholo dormia o pacifico somno de quem tomou o chá com algumas

inoffensivas gottas de extracto de morfina, ministrado á filha pelo

previdente secretario da legação, que assim pensava ir lentamente

vingando os condiscipulos enforcados. O marquez recolhia da tertulia ás

tres horas da manhã. Eugenia velava com sua irmã, como quem velava em

cousa muito de seu interesse, e vae já dizer-se para que não esqueça.

Fernando subiu as escadinhas em espiral.

Quiz-lhe parecer que via um vulto á porta, aberta no cimo da escada, e

parou no intento de retroceder. Fez-se um pallido clarão no interior da

sala. Assomou á entrada Paulina, e murmurou:

--Sóbe sem receio, Fernando.

--Parece-me que estava aqui gente, quando eu subia...--disse o moço.

--Não te enganaste.

--Quem era?

--Depois saberás tudo: escuso dizer-te que não tem nada comtigo o vulto.

É um homem que ama minha irmã: é o conde de Rohan. Não podemos perder

tempo--continua Paulina com adoravel alvoroço.--Preferes os mil estorvos

com que vamos luctar á certeza da ventura sem o menor desgosto?

--E o que é a ventura sem o menor desgosto, minha querida

Paulina?--perguntou Fernando, já meio aturdido pelo magnetismo d'aquella

voz, d'aquelles olhos, d'aquellas roupas brancas, d'aquella luz,

d'aquelles braços, que, a tremerem, se lhe ousavam enlaçar no pescoço

com o mais pudico despejo das almas puras, que tudo fazem com a mais

santa das intenções.

--Pois não achas mil vezes melhor que fujamos para Portugal?--tornou

Paulina--Tu não me amas, não!... Vê tu que differença do teu coração

para o meu!

--Por Deus!--atalhou Fernando.--Eu não te amo, Paulina!?...

--Que quer dizer a tua repugnancia em acabar com isto d'uma vez!?... Ha

tanto tempo a soffrer a perseguição de meu pae!... Desde que acabaram os

quinze dias, estou n'um martyrio incessante com perguntas, maus modos, e

desprezos! E a padecer tanto por amor de ti! Sei que, se fôr depositada,

meu pae ha de dar-me dias horriveis de amargura; e, por fim, tu verás

que a justiça me entrega a elle para nunca mais saberes de mim, nem eu

de ti, meu Fernando! Olha, querido amigo, tira-me d'aqui; fujamos para a

tua familia; vamos ser felizes; lembra-te que eu deixo o amor de meu

pae, e tudo, para seguir a tua sorte! Leva-me, Fernando, leva-me, porque

depois de ámanhã n'esta casa nem tenho mesmo minha irmã que me console

as tristezas e saudades. Minha irmã foge ámanhã por noite com o conde.

Vão casar-se a Paris. Assim que ella lhe escreveu a chama-lo, veiu logo,

e preparou tudo para a fuga. E eu pensava que o teu amor era mais forte

que o d'elle!... Porque me não levas, Fernando? Falas-me tanto em honra,

meu amado! Eu não entendo os pontos de honra em que me estás sempre

falando! O nosso amigo Almeida tambem os não entende. Quando se ama

verdadeiramente, as considerações, que tu me fazes, parece-me que

ninguem as faz... Que prazer tens tu em que eu vá estar seis mezes ou

mais n'um convento á espera que a demanda se decida, sem mesmo

antevermos a certeza da decisão favoravel!? Isso é crueldade! Olha que

me não vês, Fernando, nem talvez possas escrever-me! Se eu morrer de

magua, de quem é a culpa? Quantas vezes te arrependerás de me não ter

ouvido n'esta hora?

Não era necessario tanto. Fernando Gomes estava vencido e convencido. As

ultimas palavras de Paulina tinham sido cortadas de soluços. Nunca homem

algum resistiu a isto! Scipião, o respeitador historico das mulheres, se

visse este lance viria outra vez ao mundo dar testemunho de uma virtude,

que a sua celebrada continencia usurpava.

Fernando tomou nos braços a soluçante menina, e disse-lhe:

--Fugiremos, Paulina. Fugiremos, quando quizeres. Ámanhã, se te apraz.

Deus vê as minhas e tuas intenções. Espero que nunca te arrependas do

passo, que o mundo, a seu pezar, não poderá infamar-te.

Paulina expandiu-se em requebros de ternura e raptos de alegria. A

combinação de horas, signaes, e menores accidentes da fuga ficou

pactuado. Disse a menina que se conservasse elle á escuta algum tempo,

emquanto ella ia preparar o pacotinho da mais necessaria bagagem; e,

depois, a recadasse no seu quarto, e de madrugada a levasse comsigo,

sendo este o melhor modo de não inspirar desconfianças. Como embriagado

de alegria, Fernando accedeu a tudo sem contestar; esperou, e recebeu o

pacote, que era uma mala ingleza quadrada, cujo peso elle notou com

admiração.

Ao romper da manhã, o passageiro, com ar de quem vae entrar nos

vehiculos da madrugada, saíu do hotel; sobraçando a mala com grande

espanto do creado, que o vira entrar sem ella, e recolheu-se á sua

pousada, d'onde logo escreveu ao secretario da legação.

Almeida acudiu logo a felicitar o reconsiderado amigo, congratulando-se

de ter elle sido o indirecto motor da saudavel reforma nos estoicos

principios do seu camarada. Traçaram o plano facilimo da fuga. Fóra de

portas estariam cavalgaduras. O funccionario diplomatico iria com os

fugitivos para remover obstaculos imprevistos da policia. Fernando era

já o homem avesso do dia anterior. Falava o coração, alliviado do

pesadello da impertinente honra.

Sentia-se enlouquecer de esperanças alegres, anciosas, insoffridas da

morosidade do tempo.

--Aqui tens a riqueza da minha Paulina!--disse elle sorrindo e mostrando

a mala.--Ninguem dirá que eu a raptei por causa d'essa malinha, que deve

encerrar algum vestido, e as minhas cartas...

Almeida tomou ao alto a mala, e disse:

--Não: aqui ha alguma cousa mais que sedas e papeis! Isto pesa como

ouro.

--Ouro?! estás brincando!--disse Fernando.

--Está aberta a mala. Se não temes a profanação, vejamos o que vae aqui.

--Sim, vejamos--condescendeu Fernando, desfivellando as correias.

Ao de cima iam as cartas em massos, cintadas com fitas de diversas

côres. Seguia-se alguma, pouca e finissima roupa branca, cuja

hollandilha, e cambraia tomava pouco espaço. Depois, um vestido de seda

azul, o que ella vestia no baile de Jeronymo Bonaparte, onde viu

Fernando Gomes pela primeira vez. Depois, sobre o fundo da mala,

descobriram uma caixa de tartaruga, pouco mais larga e comprida que um

palmo. Esta caixa é que realmente pesava como ouro, e estava fechada.

Fernando esteve algum tempo tomando o peso da caixa, em meditativo

silencio, e disse:

--Não levo isto: é preciso que faças chegar, antes de á noite, este

objecto a Paulina. Aqui vão grandes valores... não levarei comigo, aqui

fechada, a minha condemnação. O mundo chama ladrões aos homens que

praticam assim. Depressa, Almeida. Inventa o milagre de fazer entregar

isto a Paulina, quando não, está tudo transtornado.

--És um homem impossivel!--replicou o secretario da legação, menos

escrupuloso que philosopho, se é que se chama acertadamente philosophos,

uns sujeitos que sabem receber, em pleno espirito, a luz toda do

seculo.--Pois tu recusas acceitar Paulina com as joias do seu uso?

--Recuso. Paulina não tem nada.

--Nem a legitima de sua mãe?

--Paulina é menor: seu pae é que lh'a administra.

--Eu não discuto direito comtigo; limito-me a descobrir que és um asno

exemplar, e dá-me vontade de te mandar cavar pés de... Com effeito!

Venham aqui aprender moralisação os futuros amadores de meninas que

levam caixõesinhos pesados, quando fogem com os amantes!...

--Tens graça; mas eu tenho razão, que é melhor--retorquiu Fernando

Gomes.

Emquanto elles altercam já em phrases desabridas, saibamos que rumor é

este que vae em casa de Bartholo de Briteiros.

O creado do hotel, como visse saír o hospede de algumas horas com a mala

que não trouxera, obedeceu ao instincto da curiosidade, e seguiu-o com

todas as precauções. Viu a pousada em que entrára, tomou o numero da

porta, e voltou a casa a dar conta ao patrão.

O dono do hotel, timbroso em manter a fama honrada do seu

estabelecimento, consultou o alcaide sem aventar suspeitas além das que

realmente davam em resultado a verdade inteira do facto.

Sabia elle que o locatario do primeiro andar era um portuguez

riquissimo, e que mais de uma vez pernoitara, nos baixos da casa, um

francez mysterioso, que tinha intelligencias com uma das filhas do

portuguez, segundo elle deprehendera d'uma troca de escriptos, por alta

noite, entre as janellas do primeiro andar e sobre-lojas. Estes

esclarecimentos deram rastros ao alcaide para suas averiguações.

Com quanto o sujeito da mala não fosse o francez alludido, observou mais

o austero hospedeiro que, no mesmo dia, entre as oito e nove horas da

manhã, o francez rebuçado cautelosamente sahira com um volume debaixo do

braço. Estas coincidencias de dois homens na mesma pousada, na mesma

noite, e com volumes iguaes, ou cousa assim, feriram faiscas de

penetração na cabeça, aliás cerrada, do hespanhol, que, de collaboração

com o alcaide, deu como effeito um consideravel roubo ao portuguez

Bartholo de Briteiros.

Esclarecido assim o facto, o alcaide apresentou-se ao fidalgo ás dez

horas da manhã, e perguntou-lhe se suspeitava que em sua casa faltassem

objectos de valor.

--Não!--disse Briteiros--Quem ha de subtrahir objectos de valor de minha

casa?!

--Examine, senhor--disse o subalterno da policia--que a minha obrigação

é averiguar, e sem detença.

Bartholo entrou nos quartos de suas filhas improvisamente, e

encontrou-as empacotando e dobrando roupa de seu uso.

--Que fazem as meninas?!--perguntou o pae com assombro.

Paulina e Eugenia ficaram tolhidas, interdictas, e incapazes de

responder um monossyllabo.

--Que estão a fazer, não ouvem?!--replicou Bartholo examinando a roupa

dobrada.

Acudiu-lhe uma atroz suspeita. Fez-se côr de terra. Dilataram-se-lhe em

arqueijos as azas do nariz. Raiaram-se-lhe os olhos de linhas

sanguineas. Correu ás gavetas dos toucadores e das commodas; remexeu

tudo, revistou tudo impetuosamente, e exclamou:

--As caixas das joias!? As tuas joias, Paulina, e as tuas, Eugenia? Onde

estão cem mil cruzados de brilhantes de vossa mãe?

Paulina cravou os olhos no chão, perdida a côr, e quasi os sentidos.

Eugenia, mais fraca de compleição, e muito timorata, cahiu em joelhos, e

exclamou:

--Perdão, meu pae!...

--Roubado! roubado!--bradou o velho--roubado por minhas filhas!

E saiu em vertiginosa corrida e a brados por a casa fora, até entrar na

sala onde estava o alcaide.

Paulina, logo que o pae sahiu, disse á irmã:

--Tu és uma miseravel se descobrires alguma cousa. Não pronuncies o nome

dos desgraçados, Eugenia! Ainda que nos matem, salvemo-los a elles!

D'ahi a instantes, foram as meninas chamadas á sala, e interrogadas.

Nenhuma resposta deram ás perguntas do alcaide. Ás do pae respondiam,

principalmente Paulina:

--Os brilhantes e as joias não estão em poder de ladrões.

Mas, no tocante a nomes, nenhuma proferiu palavra.

N'este momento angustioso, entrou o secretario da legação. N'um relance

comprehendeu tudo. Briteiros abraçara-se n'elle, exclamando:

--Roubado em muitos contos de réis por consentimento de minhas filhas...

E ellas, estas infames, estavam-se preparando para seguir os ladrões!

Não haverá justiça em Hespanha, senhor alcaide?

--Ha--respondeu Almeida--e o ministro portuguez, em Madrid, é o

funccionario a quem primariamente compete solicitar a justiça em favor

do senhor Bartholo de Briteiros. Os passos do senhor alcaide hão de ser

dados de accordo comigo. Queiram esperar-me, que eu volto.

Sahiu Almeida, e entrou em sua sege, que o transportou á pousada de

Fernando Gomes.

Sem lhe dar completa explicação das causas, obrigou-o a sair, e

transportou-o a sua casa. Ahi, simplesmente lhe disse:

--Se o meu plano vingar, d'aqui a pouco ha de estar Paulina comtigo.

E saíu, a desapoderado galope dos cavallos, para o hotel de Briteiros.

Ao apear, disse ao boleeiro:

--Se uma senhora saltar na sege, vai n'um raio apea-la em casa, mas

torce o caminho.

Subiu. As meninas tinham saído da sala.

Bartholo e o alcaide estavam ouvindo o depoimento do dono e creado do

hotel, que denominavam francezes os conductores dos volumes.

Almeida pediu licença para ter particular conferencia com as meninas.

Bartholo cedeu de prompto, entregou-se cegamente ás deliberações do

funccionario, que se dava o ar mysterioso de quem tem o fio da meada.

A conferencia foi sem testemunhas.

--Fernando está em minha casa--disse Almeida.--Aqui ha um desesperado

recurso, um unico. A senhora D. Paulina entra na minha sege, e é

conduzida a Fernando.

--Oh! meu Deus! já!--exclamou ella, erguendo-se para saír.

--E eu fico, Paulina?--bradou Eugenia.

--Pois vossa excellencia tambem quer fugir com Fernando?--disse Almeida.

--Eu havia de fugir esta noite com o conde de Rohan--respondeu Eugenia.

--Fujam ambas!--tornou o secretario, mas onde está esse conde?

--Era hospede cá no hotel... Amo-o ha cinco annos... Vamos, vamos,

Paulina...

--Eu indagarei onde está o conde--disse Almeida--Não se demorem.

Alguns segundos depois, o estrepito da carruagem fazia tremer as

vidraças do hotel. A visinhança viu o rapido saltar de duas meninas,

veleiras como anjos alados, cobertas e encapuzadas de capas de merino

branco com bordados e borlas verdes nos capuzes. Ninguem soube dizer

mais nada.

O secretario saíu com o alcaide, e Bartholo de Briteiros tornou aos

aposentos das filhas, no intento de as mandar vestir para entrarem n'um

convento.

Quando assomou á porta do quarto, viu duas creadas debulhadas em

lagrimas.

Agulha em Palheiro Quinta edição · 第 30 / 49 题