Que existencia a do desprezado Mario Campos!
Pareceu-lhe aquillo, a principio, um sonho, um pesadello, esse tremendo e
inopinado capricho de loureira a perturbar-lhe todos os planos e calculos
e a exasperar-lhe a paixão por modo inacreditavel.
Fez ainda algumas tentativas, procurou encontros, entrevistas; mas achou
todas as portas fechadas, as vasas cortadas, esbarrando com uma resolução
tão valente e decidida como a sua. Empenhava-se Sofia em mostrar-se de
posse do maior sangue-frio; e a sociedade, curiosa e attenta, observava
aquella especie de duello travado repentinamente entre dous entes, que,
pouco antes, tanto lhe dera que fallar em sentido bem diverso.
Cahiu depois o moço em profundo abatimento. Tudo se lhe afigurou
perdido, a mesma natureza em vesperas de definitiva destruição, apezar
dos rutilantes esplendores dos mais formosos e festivos dias. Encerrado
em casa semanas e semanas, n’essa casa cheia de conforto e luxo em que
não soubera dar o devido apreço á suave affeição da perdida esposa,
reconcentrava-se num desespero medonho, tétrico, a sós com os mais negros
pensamentos. Não lograva um momento de socego, e, para conciliar uma ou
duas horas de acabrunhado torpor, tinha que recorrer, após noutes de
absoluta insomnia, a elevadas doses de morphina.
Ahi emergiu-lhe das mais fundas entranhas odio immenso áquella mulher, e
com elle sêde ardente incontentavel, de estrepitosa vindicta. Ah! sim,
queria, precisava por força vingar-se, mas de modo unico, nunca visto,
inexcedivel, nem sequer imaginado. E tornou-se-lhe prazer exclusivo
procurar que desforço seria esse, capaz, só em ideal-o, de lhe applacar
um pouco tamanhas ancias, fogo tão devorador e indomavel.
Matal-a-ia sem vacillar; oh, sim! mas como fazel-a soffrer mil mortes,
n’uma agonia intérmina, á maneira d’essas aves de rapina, cruentissimos
açôres, que, por instincto infernal, dilaceram as victimas membro a
membro, pedaço por pedaço, lenta e quasi scientificamente, poupando com
cautela os orgãos essenciaes á vida, afim de se saciarem, dia a dia, de
carne sempre sangrenta e palpitante?
Mataria, oh, sim! aquelle homem... Tudo isto, porém, não fôra tão
banal? Que valia esse rival de occasião? Eliminado da scena, outro o
substituiria sem demora. Por tão pouco não se abate nem recúa a perfidia
da mulher. Para que, aliás, essa suppressão de vida? Em muitos casos não
é um favor a morte? Não representa a cessação da dôr, do soffrimento,
da vergonha? Por ella não suspirava elle, como supremo bem? Sim, tambem
tinha que morrer. No perpassar de todas as odientas combinações,
intoleravel se lhe afigurava continuar a existir. Reservava essa tortura
para Sofia; mas como transmudar tamanha concessão em martyrio constante,
em angustias sem nome, em indizivel supplicio, calcando para sempre aos
pés o seu orgulho, conspurcando-a perante a sociedade toda, arrastando-a
com eterno labéo, imprimindo-lhe na fronte signal de inapagavel ferrete?
Como?
Comparava os tempos anteriores ao amaldiçoado amor com tudo quanto
occorrera, uma vez ateada a criminosa e já tão flagiciada paixão. E a
lembrança da esposa, tão boa em sua discreta feição, o enchia de pavor.
Fugia de aprofundar comsigo mesmo o incerto mysterio... aquella janella
aberta por noite frigidissima, em Buenos-Ayres, ella a dormir fraca dos
pulmões, presa então de perigosa bronchite... depois a pneumonia dupla...
as vascas de terrivel agonia num estreito quarto de hotel... Que momentos
agora tão claros á sua memoria... Parecia os estar vendo; bastava
fechar os olhos. A pobresinha, resignada, quasi a sorrir, emquanto as
lagrimas lhe rolavam silenciosas pelas faces, apertando a mão assassina,
implorando protecção contra a morte que chegava... elle, com o pensamento
fixo no Rio de Janeiro, ardendo de impaciencia, brutalisando-a, doudo
por vêr tudo acabado, concluso, findo, espreitando, espiando o ultimo
estertor, o derradeiro suspiro, a convulsão suprema, que ia desatar as
cadeias do abominado captiveiro... Que indigna contraposição! De um lado
tanta pureza e resignação; do outro tamanha maldade, tão satanica e baixa
ferocidade. E para que o monstruoso attentado? D’elle agora emergiam
obrigatoriamente outros crimes, novas infamias.
Sentia-se condemnado. Justiça inteira havia de ser feita e pela propria
mão. Era ponto decidido, indiscutivel já no seu espirito. Ficaria, porém,
impune a causa de tantos males? Impossivel! Para beneficio de todos,
cumpria esmagar ente tão pernicioso, inutilisar de vez encantos tão
perigosos e lethaes.
E parafusava, sem se lhe deparar nada que apaziguasse um tanto as iras
exasperadas, em fremente ebullição.
Depois... serenou. Mostrou-se por toda a parte altivo, calmo e
indifferente. Tornou a frequentar theatros e logares, fallando no
proximo enlace de Sofia com desembaraço e naturalidade, applaudindo-o
até. Declarou-se curado de mal entendidas e pueris velleidades. Chegou a
cumprimentar a moça e, uma feita que se encontrou cara a cara com ella
apertou-lhe a mão sem nenhum constrangimento ou perturbação.
A varios amigos falou em proxima partida para terras longinquas, e ás
rodas habituaes levou um todo, senão risonho, pelo menos de tranquilla e
digna compostura.
Publicaram-se então os primeiros proclamas do casamento de Lucio Barroso
com Sofia Dias, a qual se suppunha afinal livre de qualquer complicação,
toda radiante de alegria e felicidade, cada vez mais formosa, faceira e
seductora, nos labios sempre róseo sorriso sobre nacarados dentes, bocca
humida e appetitosa de tentar um santo.
Numa bella manhã, sobresaltou-se a cidade em peso. Acabára de suicidar-se
com um tiro de revolver Mario Campos.
Sem declarar o motivo d’esse acto, recommendava que dessem immediata
publicidade e prompta execução ao testamento por elle depositado, dias
antes, no cartorio do tabellião Matheus.
N’esse documento, feito de accordo com as mais restrictas formalidades,
distribuia varios donativos a institutos de caridade e legava alguns bens
a parentes da sua mulher. Terminava, porém, pelas seguintes e terriveis
palavras, que causaram escandalo enorme, ecoando por todos os cantos da
capital:
«Eternamente grato a não poucas provas de affeição e condescendencia,
deixo os remanescentes, que calculo em 200 contos de réis, á minha amante
D. Sofia Dias, devendo esse legado transmittir-se em qualquer tempo á
successão ligitima ou _illegitima_, verificada em regra a filiação. Caso
não seja a quantia reclamada logo, entregar-se-hão annualmente os juros á
Misericordia.»
Dentro, duas cartas da imprudente moça, que se prestavam a muitas
interpretações.
No meio da indignação geral, do profundo abalo de uns, do revoltado
pasmo de outros, da pungente ironia dos maldizentes e da compungida
piedade dos bondosos, rompeu Lucio Barroso com estrondo o casamento; e
a malaventurada Sofia, salteada de febre cerebral, por largas semanas
esteve entre a vida e a morte.
Rumorejou-se na possibilidade de melindrosa justificação perante os
tribunaes; mas, afinal, a familia toda, mãe e duas filhas menores, depois
de mezes e mezes de sumiço, partiu para a Europa. Nunca mais se ouviu
fallar, se não vagamente, em Sofia Dias; parece que por lá se casára.
Ainda não foi até hoje levantada a ominosa herança... Quem nos diz, que
será sempre repellido o maldito e infamante legado?
Assim seja!