Quando voltámos aos nossos bancos, parecia Alberto presa de agitado
somno. Pelo menos, tinha as palpebras cahidas, como que prostradas por
vontade alheia ao organismo.
Via-se que febre intensa lhe trabalhava nas veias—faces escarlates,
beiços rubros, estremecimentos repetidos por todo o corpo, fulgurantes.
Relampagos de frio—assim nos dissera—lhe zigzagavam pela espinha dorsal,
contrahindo-lhe, de cada vez, os bracinhos magros, descarnados.
—Agua, agua, murmurou a custo, depois de algum tempo e abrindo com
sofreguidão os labios seccos, ávidos.
O molecóte apresentou-lhe rapido um copinho de leite, cortado com agua
mineral.
—_Mió_, nhonhô? perguntou baixinho com expressão de tocante e inquieto
interesse, _miósinho_.
Com um gesto de dedo, respondeu não o pobre do menino.
Em extatica e inexcedivel desolação, o contemplava a mãi, achegando os
cobertores, quando um movimento mais impacientado e vivo do doente os
atirava ao chão, n’aquellas crudelissimas alternativas de algidez e de
inaturavel calor.
—Apenas chegarmos ao Rio—disse ella para o marido, que, sorumbatico,
olhava pela janella a fugitiva paisagem—devemos logo embarcar, fazer uma
longa viagem de mar, talvez até á Europa...
Entreabriu Alberto os olhos e, em tom de ligeira malicia, objectou:
—Ora, a malvada embarcará comnosco... Está dentro de mim; não me largará
mais...
E o trem corria, corria! Entre Mendes e Rodeio, engolfou-se no tunnel
grande, acordando barulhos ensurdecedores, de fantasticos ferros a se
chocarem, sopros gigantescos, estalos enormes e suffocadora fumaça.
—Mamãe... mamãe! chamou o menino com indizivel angustia.
E ella, inclinando-se toda sobre o malsinado, como que a defendel-o de
mysterioso inimigo, a chorar, o acalentava, qual creancinha de berço.
Ia então desembocando em offuscadora claridade a locomotiva, triumphante
e a apitar estridente e galhofeira.
—Como é boa a luz, como é boa! exclamou Alberto erguendo nervosamente a
cabeça e com ar de verdadeira exultação. Pensei que ia morrer. A morte
deve ser assim; um tunnel, do qual a gente não sai mais nunca, comprido,
comprido e tão escuro, tão escuro, Santo Deus!... E onde a boa mamãe para
animar o filhinho... só, abandonado!...
Não sei por que, julguei dever intervir, como que desvendar consoladora
clareira ás negras idéas d’aquelle menino tão combalido e ameaçado.
—Não, Alberto, repliquei com involuntaria gravidade e imposição, na morte
ha tambem muita luz, muita esperança, muito céo, o verdadeiro céo, sempre
azul e grandioso... Na morte, mil alegrias e gozos esperam a alma, como a
vida não as póde dar... O tunnel acaba logo... começa depois sem demora
a realidade, eterna, cheia de encantos e esplendores... Illimitada é a
bondade do immenso Creador!
E estaquei, vexado do que acabara de expender, na vivacidade espontanea
daquella especie de prelecção tão descabida.
Mostrára Alberto certa sorpreza ao ouvir essas palavras, e, encarando-me
muito sério, respondeu com resignado desalento:
—Póde ser, póde bem ser... mas eu não quero ainda morrer!...
E retrahiu-se ao silencio. De vez em quando tiritava, encolhendo-se todo
e a bater os queixos. Buscava, porém, cauteloso, dominar manifestações
que impressionassem mais os paes, attentos ao menor symptoma de
aggravação, tão attentos quanto impotentes e vencidos; pobres, pobres
paes!
Passada a estação de Belém, já noite escura, observou a mãi, para dizer
qualquer cousa, que o trem não parava mais senão no Rio, no campo da
Acclamação.
Contrariou-a Alberto com inesperada alacridade e, nos olhos subitamente
accesos, pareceu ter singular prazer em assentar incontestavel verdade:
—Não, senhora; pára ainda em Cascadura.
E como suscitasse duvida o que affirmava, eu mesmo opinando contra elle,
mostrou bastante resolução e jovialidade em sustentar a sua asseveração.
—Você não se lembra, José, que o trem de São Paulo costuma parar em
Cascadura? perguntou para o molecóte, levantando-se a meio.
—_Iô_, nhonhô? respondeu o pagemsinho todo assarapantado, _iô_, não...
_ué_!
E tal a figura atrapalhada do negrinho pela obrigação de interpôr juizo
no debate, que não pudemos, todos nós, deixar de sorrir.
—Que tolinho! exclamou Alberto.
E deu uma risadinha gostosa. Depois cahiu novamente em comatoso
abatimento.
E, á luz vacillante, cheia de vaivens, quasi sinistra das fumosas
lampadas, o iamos observando, cada qual entregue a penosas meditações que
se concentravam, em doloroso accôrdo, n’um ponto unico.
Identificado, como se fosse velho amigo, ou, mais ainda, parente
chegado d’essa gente, que eu nem de longe conhecia, cujo nome ignorava
e nem sequer procurava saber, soffria com elles n’uma contensão dura,
cruciante, numa affinidade affectiva da maior intensidade e violencia.
Que viagem interminavel! Que hora aquella! Tudo tão sombrio em torno de
nós! Cessara a chuva; mas as trevas humidas, gottejantes, se condensavam
carrancudas, caliginosas, como que palpaveis. E a cada estação eram
apitos e assobios de perfurarem os ouvidos, ou então clamores angustiosos
e um bater de sino melancolico, lugubre, a dobrar finados.
—Ainda por cima este agouro, murmurou uma das creadas num como muchôcho.
Em Cascadura, parou, com effeito, o _expresso_, e um trem de suburbios
com elle cruzou n’um estrondear ensurdecedor de fragorosos gritos, uivos
e sibillos, como que a annunciarem pavoroso e irremediavel desastre,
choques horriveis, encontro medonho.
—_Boy, boy_, clamou a mãi simulando certo jubilo, você é que tinha razão!
Olha...
—Nhonhô, nhonhô, avisou por seu turno o molecote achegando-se e puxando
de leve o doentinho por um braço, _tá hi_ Cascadura.
Conservou-se Alberto inerte, indifferente. Suspirou apenas com mais força.
—O tunnel... o tunnel... Depois vem luz e céo... Bem me disse o homem...
—Não será bom vêr o thermometro? propoz a mãi com respiração cortada,
offegante.
—Não, mamãe, pelo amor de Deus, poude ainda implorar o pequeno.
Já ahi entraramos na zona dos suburbios e os lampeões de gaz, cada vez
mais chegados, indicavam a proximidade da capital. As estações todas
illuminadas, cheias de borborinho e animação populares. Numa d’ellas
tocava uma banda de musica saltitante peça e o contraste d’esses alegres
compassos mais me apertou o coração.
Revoltava-se, comtudo, o meu egoismo. Que necessidade essa de me
associar a todo aquelle drama intimo, que me trazia tão consternado e
tanto me abalava o systema nervoso? Por que não mudava de logar, não
procurava outro qualquer vagão? Afinal, não era aquillo tão comesinho?
Não assistira a tantos episodios de agonia e morte? Mais uma criança que
desapparecia no barathro insondavel... para dar razão ás estatisticas.
Que importancia no desenrolar geral da existencia? Gotta d’agua pura e
crystallina a cahir no abysmo... Não era, mesmo por isto, um afortunado
da sorte? Sahia da vida sem as miserias e desillusões que a vão
assaltando... limpo de toda a poeira e lama...
Procurava distrahir o espirito; mas ahi se me prenderam as vistas
insistentes, teimosas, hypnotisadas aos olhos então largamente abertos
de Alberto, não mais desassocegados e em tresvario, mas num movimento
lento de oscillação, como que destacados das orbitas a se mexerem um
tanto ao acaso. De quando em quando parecia que se sumião, cahidos, sem
mais apoio, dentro do craneo vasio, oco. E me diziam, assim mesmo, tanta
cousa, me falavam de tantos mysterios, me interpellavam com tamanha
anciedade!...
Interrogavam supplices, meigos, quem, em boa hora, lhe déra do mundo de
além idéa outra, que não de simples terror e aniquilamento para sempre,
n’aquelle instante tão proximo da suprema partida.
Sim, devéras, lá, fóra d’aqui, tambem sóes, tambem flores, esperanças,
carinhos? Tambem o conchego doce, protector de entes bons, superiores,
compassivos? Palavra?! Podia confiar? Não o quizera enganar... A leval-o,
d’alli a pouco, longe, longe, pela immensidade na desconhecida viagem, o
regaço de algum anjo, faria vezes da estremecida mãi? Para que, porém,
deixal-a? Para que despedaçar o coração d’aquelles fulminados pais?
Amavam-n’o tanto, tanto!
Quem incutira, porém, a esse homem desconhecido o poder de saber quanto
se passava da outra banda da vida? Talvez fosse um d’esses anjos
destinados a carregal-o, não era?... Ah! o disfarce mostrava-se bem
claro! Por que, porém, não se deixava enternecer? Não via a pungente dôr
dos que o cercavam? Pedisse a Deus misericordia... consentisse-lhe o
viver... A ninguem, nunca fizera mal algum... Promettia tudo... não por
elle, mas pelos paes... Passaria os annos a estudar, a dispensar o bem,
o amor, a pagar a divida solemne de interminavel gratidão! Seria quieto,
reflectido, honesto, caridoso, a sacrificar-se pelos outros, por todos...
amigo dos humildes, dos mendigos e desgraçados!... Mas tivesse pressa...
do contrario não o acharia mais na terra... Bem sentia a morte... sim, a
morte...
Passou mais um trem de suburbios com assustador estampido:
Ouvisse, ouvisse!... Ahi vinha ella... Que medo!... E já estava como que
sosinho... via-se na cova estreita com um mundo de terra por cima do seu
corpinho tão batido pela molestia!
—Não, não! Havia de ter coragem... dominava o seu terror, embora bem
justo, bem natural!... Creança, saberia morrer como homem... Poderia
estar chorando nos braços de pae e mãe, mas para que? Para tortural-os
mais? Quem sabe se não haviam de morrer tambem alli! Viessem, viessem
para cobrirem de flores o cantinho que eternamente o acolheria no
cemiterio, alvo, consolador com tantas cruzes e anjinhos de marmore a
rezarem.
Debalde buscava eu fugir á obsessão. Duas vezes me levantei; mas
irresistivelmente voltava a conversar com aquelles olhos, cada vez mais
resignados, penetrantes e de dolorosa eloquencia, cheios de sorprezas,
desconsolos e revoltas, com energia sopitados...
É preciso, é preciso: que fazer?
Bem quizera estar pensando, como menino, em cousas futeis e risonhas e
da sua idade, mas tinha por força que cuidar no que ha de mais serio e
triste, na morte... morte!
E já as pupillas negras, virando de vez em quando, se escondiam sob as
arcadas orbiculares, buscando vêr além, para dentro do pobre organismo
combalido... E já se fixava, no bater lento das palpebras pesadas,
plumbeas, impenetravel, o branco das escleroticas, como alvacento panno
cahido de scena finda, acabada...
E os bicos de gaz illuminavam de fóra, intermittentemente, o vagão, como
que em fantasmagorica visita, dando repentina luz a todos os recantos ou
deixando-o de subito em completa escuridão...
Iamos chegando, e no rostosinho de Alberto se desdobrava o pallor dos
ultimos instantes. Desbotava-se a rubidez das faces incendidas e
afilava-se, a mais e mais, o nariz correcto, aquilino.
Já a luz electrica chegava até nós.
E o trem estacou com o baque de definitiva parada, salteado pelos
carregadores em grita: «Malas, malas! bagagens! n. 20, n. 53!»
—Leve ao hombro o seu filho, disse eu para o pae, elle está...
E a palavra «expirando» ficou-me atravessada na garganta.
Parado, immovel, os vi partir, a todos. O pae, na frente, com o sagrado
fardo, a mãe, tropega, fóra de si, ao braço das creadas em soluços, atraz
o molecote com cobertores e chales...
E no vagão vasio, como que continuei a fitar aquelles olhos ardentes,
indagadores, tão suaves no ingente desespero, na duvida do problema
eterno....
_Poor boy, alas!_