20 de novembro

Chove um dia, outro dia, sempre... Amanhece um dia nublado, outro dia

alvoroce negro e aspero. O vento abala a pedra sobre que é construido o

casebre. O inverno tem a sua voz propria, a sua côr, o seu vestido em

farrapos com que agasalha os montes deixando-lhe os ossos de fóra. Mas o

inverno é sonho. Só agora o comprehendo. É sonho concentrado: sob esta

casca resequida está uma primavéra intacta. Esta voz clamorosa é a voz

dos mortos. Uma pausa, a prostração da tempestade, e depois redobra o

clamor... Andam aqui as suas lagrimas... Na sufocação reconheço esta voz

que me chama. E depois a tempestade, novos gritos, a escuridão

profunda...

Lá andaremos todos não tarda! lá andaremos todos não tarda!

E ouço sempre a mesma voz:

«Que frio o outro mundo! Que impassibilidade a do outro mundo!

Saudade, saudade de tudo, até do fél, saudade de te não sentir ao pé de

mim. Tenho saudade da vida. Só poder aquecer-me ao lume, só sentir o

lume n'este inverno sem limites, n'este frio de morte--sem outra

primavéra! O que a vulgaridade sabe bem! o que a materia sabe bem!

Não vejo. Ceguei.

Disperso-me, e por mais esforços que faça, sinto-me desagregar: perco

pouco e pouco a consciencia de mim mesma. Sou ainda ternura e pouco

mais. Já não tenho lagrimas.

Quem me dera a desgraça!

E uma pena da vida! uma saudade da vida! uma tristeza de não poder

misturar-me á vida! A vida--e um cantinho do lume, a vida banal, a vida

comesinha... Tenho saudades do muro a que costumava queixar-me.

Vive devagarinho. Aquece-te á restea do sol como quem nunca mais tornará

a aquecer-se; perde todas as horas a trespassar-te da vida.

Deixa que sobre ti caia o pó d'oiro. Vive-a.

Tu és a nuvem, tu és a arvore. Enche a consciencia de todas estas

coisas, porque não tardarás a perdel-a.

Vive--não tornas a viver. Põe d'acordo a tua alma com a pedra, extrahe

encanto do céo e da miseria. Pudesse eu gritar! pudesse eu ter fome!

Só agora dou pelo sabor das lagrimas.

Humus · 第 72 / 83 题