10 de maio

O que eu sinto é o desespero de não haver dôr eterna. A dôr pela

eternidade das eternidades era ainda viver. Sofrêr sempre, com a

consciencia do sofrimento, é viver sempre. Antes o inferno! antes o

inferno! o inferno em logar do nada.

O inferno era ainda o céo.

Alguma coisa nos conduz e nos leva até á morte. Rodeia-nos. Impele-nos.

Não a vêmos e está ao nosso lado. Só ella existe no mundo. Estou nas

suas mãos com desespero. Extasia-nos. Aturde-nos. Escarnece-nos.

Tu não existes! tu não existes! E não há mãos mais crueis que as tuas.

És abjecta. És cega e phrenetica. Levas-nos enrodilhados e envolvidos. E

queira ou não queira estou nas tuas mãos. Só tu existes no mundo.

Nem a vida nem a morte, nem o tempo nem Deus. A unica realidade és

tu--fétida e immensa, sofrega e horrivel. Gritas? hás-de gritar pela

eternidade das eternidades. Fazes parte para todo o sempre d'esta força

que vem do principio da vida e se projecta nos confins da vida, com

bocca ou sem bocca, capaz de todo o sonho e de toda a belleza--para

nada! para nada!... Na minha alma reflecte-se o dialogo do universo como

a claridade na agua para me entontecer.

Cheguei ao ponto em que tenho medo. Fecho as janellas, fecho tudo. Outra

vêz a primavéra! outra vêz o escarneo! O que tu queres é iludir-me. A um

dia de nevoa sucede um dia doirado. E extasias-me. Se abro a porta, a

noite está cheia de estrellas e de vozes. No fim da tarde, quando a agua

tem um som mais lindo, a neblina dá encanto á minha vida e aos grandes

montes compactos. Alheias-me, fazes-me sonhar, levas-me escarnecido até

á morte. Atraz de ti só há dôr e o desconhecido. Mascaras-te para me

iludires. Mais uma vez tentas inebriar-me com o teu arôma; mais uma vez

os pinheiros sacodem no ar o seu polen sulfuroso... Não quero vêr! não

posso vêr! Não te posso vêr! A vida é amarga, a primavéra é secca e

inutil. Fecho tudo para não te vêr. Fecho tudo para não vêr a primavéra

e sinto-a atravez dos muros.

Oh o grande oceano, a torrente impetuosa--sempre! sempre--o mar de mãos

fluidas que me envolvem--o mar do silencio, o grande mar inexgotavel que

deslisa no silencio--como tudo isto me mete medo!

Reconheço-te força, mas não me importas nada. Este deus faz o que elle

quer e não o que eu quero. Este deus desordenado e imenso, não é feito á

minha imagem e semilhança. Não me ouve nem me atende. Não o posso

desviar da sua marcha á custa de suplicas e de gritos. Não se apieda.

Não sei se tem o sentimento da justiça. Talvez tenha outro sentimento de

justiça--outro maior--outro que não abranjo. Este deus não me é nada.

Para elle é vão tudo o que se grita no mundo, tudo o que se sofre no

mundo é vão. Todos os santos são grotescos. Todos, os que te chamaram e

suplicaram, todos os que te ofereceram a renuncia e a dôr, o fizeram no

vacuo. Pai, tu não existias! E não existindo impeles-me, entonteces-me e

esmagas-me. Estou nas tuas mãos e não as vejo. Crias-me e não existes.

Eu sei, eu sinto que estás ahi desconforme, vivo, e obstinado--mas não

és o meu deus. Tanto faz esfacelar-me contra este muro compacto, como

conservar-me quieto, indiferente e calado. Tu estás ahi patente, vivo

como a vida, mas não me conheces nem eu te conheço a ti. Não nos

chegamos a entender. Não tens nome. E estou nas tuas mãos.

Estou nas tuas mãos e não me interessas. O que me interessava eras tu.

Tu, que não existes, entranhaste-te-me na carne e no osso, de tal forma

que não me livro de ti. Não existes e dominas-me. Não existes e

torturas-me. Não existes e só tu és a razão da minha vida, dos meus

actos, e do meu sêr. Não existes e só tu existes. Tenho mil annos e um

dia para prégar deante do vacuo que não existes. Para te chamar sabendo

que não ouves. Disponho de mil annos e um dia de desespero, de mil annos

e um dia deante da mudez, a clamar, a prégar, a mentir.

O resto são phrases e mais nada. Só a vida futura, só a vida presente

sob o teu olhar tinha finalidade e razão de sêr. O resto são phrases com

que me procuras iludir e com que te procuro iludir. Porque se um dia,

sós a sós com a tua alma, te detiveste deante d'estas palavras--a vida

eterna e a morte eterna, não como palavras mas como realidades, nunca

mais podeste desviar o olhar.

O que me interessava eras tu porque para, que tu existas é preciso que

eu exista tambem. Eu não posso passar sem ti, mas tu não podes passar

sem mim.

Se tu não existes, estou nas mãos da força obstinada e cega. O que me

interessava era o espectaculo da minha propria alma, o dialogo dos dias

e das noites entre mim e ti, a immensidade temerosa mas viva, de que eu

fazia parte.

E agora, reconheço-o, toda a dôr resulta de eu criar um universo que não

existe. De tu me creares a mim e de eu te crear a ti. O resto do

universo ignora a vida e a morte. Toda a dôr resulta d'este esforço para

a mentira. De eu não não me submeter á força desabalada e cega. De eu

têr inventado um Mundo maior que o teu e diferente do teu, para o

sobrepor ao mundo cahotico, ao mundo atroz. De mentirmos com obstinação

até á cova, ao céo e ás estrellas. D'estas duas creações antagonicas

resulta a maior dôr humana. Se eu não tivesse criado outra vida

imaginaria, tu passavas e calcavas-me, tu passavas e esmagavas-me, mas

não me cabia em lote a morte e a consciencia da morte, a vida e a

consciencia da vida. Mas creando a mentira tragica sou maior do que tu.

Resta-me o bem. Mas fazer o bem para quê se tudo acaba alli, se não ha

outra vida consciente, se não tenho de responder perante ti pelos meus

actos? E mesmo diante do escantilhão sofrego, o que é o bem e o mal? A

que eu tenho de obedecer é ao instincto e mais nada. Se não estás ahi

para me julgar e para me ouvir, que importa fazer isto ou fazer

exactamente o contrario? Só uma coisa resta: iludir os desgraçados,

leval-os para uma mentira cada vez maior, para que possam suportar a

vida. Não se trata do bem ou do mal, do justo ou do injusto--trata-se de

mentir, de mentir sempre--de mentir cada vez mais.

Estou nas tuas mãos... Esta noite limpida como um diamante polido não

existe. O que existe é atroz... Nem a primavéra existe, e tudo se

entreabre em entontecimento azul. Nem esta harmonia dos mundos, que eu

criei, existe. O que existe é atroz. Nem este sonho em que ando

envolvido e iludido. Só tu existes no mundo e me trazes estonteado no

mundo. Fecho-me para te não vêr e estou nas tuas mãos. Se eu pudesse

ouvir-te, ouvia todos os gritos que se soltaram no mundo, se eu pudesse

encarar-te em toda a tua plenitude--via o negrume monstruoso e cahotico

avançando para mim, o repelão doirado levando tudo diante de si, no

desespero, na vida e na morte, esmagando sempre e renovando sempre, para

crear mais dôr. Não te fartas. Isto é desconhecido, é absurdo, é

eterno--mas a belleza tragica da vida ephemera consiste em te resistir,

todo o nosso afan em crear uma mentira para opor a tua verdade--de que

resulte dôr. Tu podes tudo como verdade. Estou nas tuas mãos. Eu posso

tudo como mentira, e só assim saio das tuas mãos. A verdade é a

dissolução e a morte, és tu; a mentira é a vida. Resisto-te para poder

viver; para poder viver crio a mentira tragica. Se cedo ao teu impulso,

se escuto as tuas vozes, levas-me para uma vida inferior; se te oponho a

mentira, caminho por uma via dolorosa: engrandeço-me. Estou nas tuas

mãos--e nego-te. E o homem é tanto maior quanto mais alto afirma que

existes. Crispa-se-lhe a bocca, dilacera-se até ás ultimas fibras,

lucta, grita e sae em farrapos das tuas mãos.

Todos os heróes são martyres, todos os santos foram iludidos até á

morte.

Humus · 第 64 / 83 题