3 de março

Sombras. Tres cabeças monstruosas projectadas n'um muro, que se

aproximam e afastam depois de confundidas. A velha a um canto agacha-se

aos pés da filha. E ao lado as tres sombras fundem-se n'uma unica sombra

disforme. Duas, tres horas talvez... A sombra da velha reduz-se a nada,

a menos que nada, á sombra da dôr. Por fim erguem-se, mergulham e

dissolvem-se na caligem da noite, as tres sombras dos ladrões e as

sombras das mulheres, a quem não distingo as feições... Eu já vi isto

algures, em outro mundo onde me custa a entrar. Metem-me medo. E não é

só medo, é dôr. Vivi com estas sombras n'um pesadelo, de que sahi

atonito e exhausto, n'um sonho em que tudo isto fazia parte integrante

da minha propria alma, e que sonhei lavado em lagrimas. As tres grandes

sombras levam, não sei para que destino, as outras enrodilhadas. Duas,

tres horas da madrugada talvez... Caminham sem se lhes ouvir os passos á

beira do rio que corre para o mar desde o principio do mundo.

E o silencio é cada vez maior. Só a agua fala nos buracos poidos das

pedras, em dialogos que nunca cessam, n'um côro de vozes ininterruptas e

indistintas--ameaças, suplicas e gemidos. A Joanna cala-se: só se lhe

ouve um anh... anh... de cançasso, como se arrastasse na escuridão uma

cruz do tamanho da escuridão. A seu lado o côro inutil da agua corre

sempre para o mar, com gritos, risos, vaias e apupos.

Uma voz, a do velho ladrão compadecido, diz-lhe baixinho:

--A tua filha... Se teimas levantas a desgraça a teus pés.

E lá deslisam no escuro, e o rio sempre a correr e a prégar o mesmo

presagio de dôr no chape que chape onde se percebem échos de todas as

desgraças que sucederam no mundo, levando para o mar todas as lagrimas

que se choraram no mundo.

Outra vóz no escuro:

--Ou tens de sofrer mil mortes na tua filha, ou tens de me fazer a

entrega. Agora escolhe. Uma ou outra. Agora ouve: ella é nada n'estas

mãos.--E pergunta-lhe:--Tu és ou não uma coisa que me pertence? Posso

matar-te?--Podes--E essa voz rouca, essa voz implacavel torna:--E ou...

Tu ouves velha? A mim ninguem me engana... Tu riste? (Ella faz anh...

anh...--cançasso ou dôr)--Aqui tens... Ouve mais... Tu ouves ou finges?

Tu que dizes? A velha é rica tambem te cabe uma codea. Ninguem te pede

mais nada. Eu cá é que executo.

E lança a dois metros um jacto de saliva.

A Joanna recua: avançam logo e não a largam as sombras que a envolvem.

--Tu hás-de abrir-nos por força a porta!

--Estafermo! estafermo!

--Tu abres-nos a porta. Á velha deito-lhe a mão ao gasganete e não dá

pio. Aperto no escuro--eeeh...--e sinto no escuro um estremeção e mais

nada...

--Jesus!...

--Ó pandorca! És um trapo! és peor que um trapo!...

--Deixem a velhota sósinha comigo, que nós dois entendemo-nos--intervem

o ladrão mais velho. E leva-a suspensa pelo braço como quem leva uma

pluma.

Cobre-os o céo profundo, onde palpita uma vida intensa. Arqueia-se sobre

a velha e o ladrão de lez a lez a abobada recurva. Ao longe seguem-n'os

sempre as outras sombras temerosas.

--Estupida! estupida! Passaste a vida a servil-os. Aproveitaram-te e

deitam-te fóra. Só te deram restos e enchiam-se até aos gorgomilos. E tu

apegaste e tu defendel-os!... Ouve tu abres-nos devagarinho a porta...

--Jesus Christo veio ao mundo para nos salvar!...

--Isso! Até me metes nojo! Isso! Até me fazes rir! Só tu, calhordas,

eras capaz de me fazer rir n'esta hora aziaga. Pilhasse-te eu no meu

tempo!...--E aperta-lhe o braço contra o peito, leva no ar aquelle molho

de ossos e ri-se com escarneo.--Tu lavas, tu esfregas, tu comes os

restos, tu até cheiras mal! Tu metes nojo. E hesitas... Que se te pede?

Que nos abras a porta e mais nada. Só há uma ocasião na vida, toca a

aproveital-a.... Se nos abres a porta, ficamos ricos.--Abraça-a. Vomita

uma risada. Peor que matal-a, enlameia-a. Aquillo vem do fundo da terra,

vem do boqueirão da noite e traz escarneo pegado. Sobre isto chove:

parece que toda a lama fetida da rua subiu ao céo para tornar a cahir. A

Joanna geme. Uma risada e um gemido que se amalgamam, gemido que se

extingue para depois subir mais alto, para se confundir com a risada,

sempre o mesmo gemido, sempre a mesma risada. E a noite é pó de

desgraça, cada vez mais moído e mais negro.

--Não te cabe n'esse caco que ninguem tem pena de ti. Escuta o que te

digo. Rouba-a, estupida! rouba-a! Na cadeia tambem se come pão. Ao menos

lá enches essa barriga. Abres-nos devagarinho a porta...

--O que havia de dizer a minha senhora!

--Ninguem no sabe. E ouve: se não nos abres a porta, a tua filha nunca

mais a vês.

O silencio e a noite com outras noites em cima, as sombras que caminham,

e aquella sombra humilde cada vêz mais pequena, reduzida á sombra da

sombra e do escarneo. E teima, e teima contra a desgraça, contra as

injurias e as vozes do rio. Há milhares d'annos que o dialogo nas pedras

dura, sempre nas mesmas ameaças, que vem do fundo da agua e a Joanna não

ouve. Devagar palpa a algibeira e tira do bolso e entranha na pele um

pedaço de ferro gasto e poido.

Outra vóz na noite:

--Mãe!

A vida d'essa mão de rachar lenha, d'essa mão de arvore e dôr! Como ella

se contrae, emquanto a Joanna caminha absorta. Talvez uma hesitação

instantanea, e depois, sem que ninguem repare, a mão abre-se e deixa

cahir a chave nas profundas da agua, que continua a correr e a prégar, a

correr e a falar ás pedras e ás estrellas nas mesmas palavras inuteis,

ao lado da vida sem destino.

Chegam emfim á muralha do predio, e outra vêz as sombras se juntam n'uma

unica sombra, outra vêz se ouve aquella vóz sahir da noite:

--Mãe, olhe p'ra mim! olhe bem p'ra mim!

E a velha sente na cara tres bafos monstruosos, ao mesmo tempo que as

vozes roucas reclamam:

--A porta... Depressa! depressa!

--A chave perdia.

Um repelão e um grito, um grito que se afasta e sae da noite, cada vez

mais longe e cada vêz mais alto...

Sobre este sêr humilde encarniça-se mais o sonho. Lá vae a mulher da

esfrega empurrando o farrapo monstruoso que se agita na noite. A sombra

e a mulher da esfrega, o espanto e a mulher da esfrega, o sonho doirado

de grandes azas esfarrapadas no negrume e as mãos encortiçadas de lavar

a louça, a vida phrenetica e a vida humilde. Uma bocca enorme d'um lado,

a voz da Joanna do outro, sentimentos cahoticos impossiveis de traduzir

em palavras, o que exprime a natureza impulsiva, o que responde uma

creatura agarrada á ideia do sacrificio.--Anda para deante.--Estupida!

estupida!--A bondade entranhou-se-lhe até ao amago. Tudo está nos seus

logares: as coisas simples e as coisas eternas, e há outra coisa que

ella não sabe exprimir, que a alma d'esta mulher não abrange: a intrusão

do sonho na sua vida humilde. Bronco e sonho. Até agora só com a

desgraça arca, agora o doirado tinge-a. Sacode-se como um cão molhado.

Debalde tenta desfazer-se do sonho immenso que se lhe pega: irrompe em

palavras baixinhas, hesitantes, que voltam atraz. Uma pausa e o monologo

recomeça logo. Há não sei que de monstruoso no mundo, que bebe todas as

lagrimas e leva todos os gritos. E não se farta. Há não sei quê que

reclama dôr. Toda a noite se desespera. A desgraça sua, a desgraça

trôpega e ridicula. A desgraça enche a noite de esgares. Depois o sonho

desgrenha-se. Depois sacode-a uma rajada, e lá torna, sem uma palavra,

sem um grito, a grande sombra que se envolve em si mesmo e a si mesmo se

estorcega. A desgraça sua de aflição sem poder exprimir-se. E quando a

dôr se concentra, quando a dôr se torce como quem torce um farrapo e a

velha não pode--a velha irrompe n'uma toada estupida. Mais doirado, mais

fundo...

Caminha e depara com a D. Restituta, que atravessou a vida com o

guarda-chuva incolume e que faz gestos desordenados no escuro:

--Acuso! acuso! acuso!

--Senhora D. Restituta...

A senhora D. Restituta está cheia de lama. Tem a penna do quico partida:

é uma figura feita com tres traços de tinta e algumas manchas de

desespero. O sonho doira-a, esfarrapa-a tambem. A penna em frangalhos

agita-se como um pendão de revolta, esgarçado e chamuscado. Todas as

vontades a compeliram e a esmagaram--quer retomar a forma primitiva.

Dir-se-hia que cresce na noite, e que a sua bocca é uma bocarra cada vez

maior, para prégar, para açular, para vomitar injurias. Sómente não

emite outro som senão este:--Acuso!--a velha gasta, a velha inutil, a D.

Restituta da Piedade Sardinha.

--Senhora D. Restituta...

A outra não vê, não ouve, não mexe.

--Minha senhora...

--Acuso!

--...para o que se vive n'este mundo não paga a pena ruindades.

Debalde a Joanna lhe fala. Resta deante do sonho com a mandibula

despegada e o velho guarda-chuva que conserva intacto desde a primeira

virgindade--teve duas--metido debaixo do braço. Nem uma nem outra

entendem aquillo. Uma empurra, afasta de si o sonho com as mãos de lavar

a loiça, a outra com as mãos pacientes, as mãos diaphanas da mentira.

Tem feito sempre todas as vontades, e se a figura um momento se

engrandece, amarfanha-se logo, como um trapo suspenso que se deixa cahir

ao chão.

--Acuso! acuso! acuso! De repelão--mete para dentro! uma vergonha mete

p'r'o sacco! desprezo, escrupulo, fome--mete tudo p'r'o sacco! Para um

sacco sem fundo. Passei tudo, passei mortes para o poder crear e nunca

pude dizer que tinha um filho. Para o crear, para o poder crear nunca

pude vêr o meu filho. Meti tudo p'r'o sacco, sem poder abrir bico, senão

matavam-me á fome... E nunca pude vêr o meu filho, senão matavam-me á

fome. Criei-o longe para o poder crear, criei-o como pude, de vergonha,

de restos, de codeas, de dizer a tudo que sim. E este filho! este filho

que nunca pude vêr, vi-o agora! Este filho que criei de mentira, este

filho que criei d'abjecção, sem nunca o poder vêr, vi-o agora! Este

filho que tinha sonhado ás escondidas, com a bocca tapada para não

gritar: Tenho um filho, tambem tenho um filho!--vi-o! vi-o! vi-o! Meti

tudo p'r'o sacco! meti o diabo no sacco! Só a noite me ficava livre para

sonhar com elle, para o vêr rico, para o vêr como os filhos das

outras... Aqui está a Restituta que é idiota, aqui está a Restituta que

é um poço sem fundo. Deante d'ella pode dizer-se tudo, a Restituta serve

para tudo, a Restituta mete tudo para o saco. Cala-se que é o que lhe

vale--mete a viola no saco. Só a Restituta sabe o que se passa, o que

está no prégo e o que está no fundo das almas. Calei tudo, disse a tudo

que sim para o poder crear. Mete p'r'o saco! mete tudo p'r'o saco! mete

a viola no saco!--E n'um crescendo de desespero:--Acuso! acuso! acuso!

Debate-se a Joanna n'uma cogitação a que não suporta o pezo. É como se

pela primeira vez désse com a vida e quizesse atalhar a vida. Tudo para

ella mudou de expressão: a desgraça muda de expressão, a filha muda de

expressão. E o sonho envolve-a, deforma-a, besunta-a. Sente-se-lhe o

ranger dos gorgomilos.

A dôr descarna-a e redul-a ás linhas principaes, á secca realidade. Um

ulular de tempestade, e tudo quieto. Nunca o concavo se concentrou em

mais serenidade. Gritos, um desabar monstruoso, e este sêr abjecto, que,

como uma coisa que andou a rasto por todos os sitios suspeitos, não tem

fórma nem côr: tem cheiro, e dois olhos de tanto pasmo que fazem

aflição. Desapareceu tudo: ficou a velha, ficou a desgraça aos tropeções

pela vida fóra.

É como se tivessem metido a dôr dentro de um saco e déssem com elle

pelas paredes.

Aqui está a mulher da esfrega e a desgraça que tem os seus direitos e

não os perde nem transige. Não a larga tambem o sonho. Agora é que ella

destinge todo o doirado e toda a agua de lavar a louça. Agora é que ella

ouve uma bocca enorme falar no escuro, e queda-se atonita e confusa

feita trapo e horrôr.

--Para que é que vocemecê me creou?

Um soluço, um ranger d'arvore que se deita abaixo, um estalido de cruz

que não suporta o pezo.

--Antes vocemecê me tivesse esganado ao parir. O que eu tenho chorado!

--Anh!...

--Olhe p'ra mim! olhe p'ra mim!

É um sêr diferente, um sêr aparte, que a Joanna vê pela primeira vez.

Como pôde creal-o aos seus peitos? Crear vida é crear um grito que não

se extingue? que nunca mais se cala? Sempre o mesmo grito:--Para o que

tu me creaste! para o que tu me creaste!--Juntem a isto o escarneo e

todas as vózes que lhe prégam:--Estupida! estupida! Toda a gente se ri

de ti!--Andou nas mãos dos ladrões.--Rouba! rouba!...--E sente ainda nas

mãos um pedaço de ferro gasto e poido como o aço, que entranha na pelle.

Um gemido lucta com uma risada e tenta subir mais alto, cada vez mais

alto... Juntem a isto que a Joanna quer ser má e não pode, e misturem a

isto humildade. Aqueceu a vida a bafo. Incutiram-lhe para sempre a

subordinação, só lá tem dentro ternura. Faz o gesto de quem tenta abrir

uma porta; quer levantar a cabeça, mas tanto tem obedecido que curva

logo a cabeça. Ridiculo sobre ridiculo.

Agora vejo a figura, vejo-a agora completa. Pouco e pouco tomou relevo,

tornou-se humana. Sumiu-se a velha tonta, caldeou-a a desgraça. Á força

de gritos represados obsidia-me. Engrandece-a a mentira e a dôr. E

aquillo persegue-a, encarniça-se sobre a velha tropega, n'um espectaculo

ao mesmo tempo desmedido e reles. A velha d'um lado, do outro a grande

sombra tragica que subverteu o mundo; o escantilhão sôfrego, e o gesto

que a mulher da esfrega faz para o afastar de si. Ao mesmo tempo a alma

dorida, a ternura que a não larga, e o contacto feroz que não explica e

a que sente o pezo.--Para o que tu me creaste! para o que tu me

creaste!--Atormenta-a, sufoca-a, e como não pode mais, como não

comprehende--não consegue--e como aquillo se encarniça, a Joanna

mostra-lhe as mãos enormes, as mãos roídas, as mãos só dôr...

Tem as mãos como cepos.

Humus · 第 52 / 83 题