5 de fevereiro

O que isto custou na obscuridade do mundo cahotico!... Houve decerto uma

primeira primavera, mas as flôres, que hoje são ternura eram então

espanto--tentativas frustradas de sonho. Os gritos da floresta

primitiva, não os ouço mas estão aqui contidos. E ainda hoje a terra se

perturba, porque vae assistir ao mesmo drama.

Todo o universo se concentrou para gerar a vida, todo o universo se

concentra para a destruir.

A villa estremece ao sentir a primavera estranha. Noiva. Noiva a D.

Ursula, pergaminho e escrupulo, que fez da vida um pecado, e ao réz de

cuja alma liquida se espalmam flôres venenosas. Não há sêr que fique

indemne. Até que chegou a vêz á macieira anainha, que um bafo

humido-lilaz turba e perturba. Há aqui um encolhido, que nunca sahiu do

saguão, que nunca olhou para o céo nem sabe que o céo existe: sente

tambem a primavera. Assim me succedeu com um tronco decepado que no

inverno meti no fundo d'uma loja: na primavera seguinte tinham-lhe

crescido ramos: sentiu-a atravez dos muros, e, com gritos represados,

botou um simulacro de flôr.

Fevereiro. Primeira noite de luar e de loucura. A primavera toca mais

fundo, mais fundo ainda--esta primavera que revolve os vivos e os

mortos. Todos deitam flôr. Acordam na profundidade dos sepulchros, com o

sonho que levaram para a cóva, com todos os sonhos desfeitos em pó.

Há-os que nunca se atreveram a declaral-o. Há-os que o sumiram com

receio de sonhar. Há-os estonteados...

Ouvel-os falar baixinho, surprehendidos, como se soltassem todos o mesmo

ah--de espanto, e se puzessem a falar baixinho uns com os outros?...

Fala a poeira, fala a sombra desconforme, fala o pó desaparecido.

Na frente uma aparencia--a vida está na multidão que nos impele, a vida

está nos mortos. Massa atráz de massa, os mortos empurram os vivos.

Sente-se o esforço doloroso. Atraz d'estas mãos, outras mãos de

desespero; atraz d'estes olhos sem orbitas outros se esforçam para a

luz. O peor era o silencio. O esquecimento é que é a morte definitiva, e

por isso o esforço augmenta. Formam uma cadeia infinita, a caminho para

a vida e para a dôr; a todo o momento nos falam e nos guiam, e toda a

sua ancia é viverem depois que estão no sepulchro. A velha que sahiu da

existencia mirrada, continua a trazer o menino ao collo. Outros caminham

tropegos, sacudindo a terra que se lhes pegou aos ossos. Eil-os

dispostos a sofrer por uma nova ilusão. A vida foi um nada, impregnou-os

para toda a eternidade: um instante de luz bastou para lhes dar gosto á

dôr. O que elles tentam misturar as suas lagrimas ás nossas lagrimas! o

que elles arfam para que o mesmo fluido que nos prende aos

sepulchros--onde estremecem--se não desligue da vida que ainda se não

tornou visivel! É que não só os mortos mandam nos vivos, tambem os vivos

mandam nos mortos. E avançam, empurram-nos... Conservam no fundo do

tumulo as manias da outra existencia. Esta velha aperta um trapo ao

peito como um filho, com medo de o perder. A moça, mesmo na cóva, dá um

geitinho tão lindo ao lençól! Este conserva na concha da mão uma moeda

de cobre, e áquella, Maria Antonieta, René reconhece-a mais uma vez por

a têr visto sorrir nas Tulherias... Estendem as mãos mirradas para se

aquecerem ao nosso lume; guardam nos ouvidos pela eternidade os ruidos

vulgares--os mais bellos--o das folhas cahindo uma a uma, o da fonte que

corre e que nunca mais tornará a correr, o da voz que lhes falou na hora

extrema; guardam nas mãos o ultimo contacto das mãos, e a restea doirada

d'este sol doirado ainda lhes reluz nos buracos das orbitas...

Deitam-se ao mesmo tempo a caminho do fundo dos fundos e de mais fundo

ainda. Mesmo morto o que eu não quero é morrer... Primeiro rebate, da

primavera doirada e phrenetica, primeiro impulso que estonteia e

deslumbra...

Os mortos é que estam vivos! os mortos é que estam vivos!

Humus · 第 36 / 83 题