O que isto custou na obscuridade do mundo cahotico!... Houve decerto uma
primeira primavera, mas as flôres, que hoje são ternura eram então
espanto--tentativas frustradas de sonho. Os gritos da floresta
primitiva, não os ouço mas estão aqui contidos. E ainda hoje a terra se
perturba, porque vae assistir ao mesmo drama.
Todo o universo se concentrou para gerar a vida, todo o universo se
concentra para a destruir.
A villa estremece ao sentir a primavera estranha. Noiva. Noiva a D.
Ursula, pergaminho e escrupulo, que fez da vida um pecado, e ao réz de
cuja alma liquida se espalmam flôres venenosas. Não há sêr que fique
indemne. Até que chegou a vêz á macieira anainha, que um bafo
humido-lilaz turba e perturba. Há aqui um encolhido, que nunca sahiu do
saguão, que nunca olhou para o céo nem sabe que o céo existe: sente
tambem a primavera. Assim me succedeu com um tronco decepado que no
inverno meti no fundo d'uma loja: na primavera seguinte tinham-lhe
crescido ramos: sentiu-a atravez dos muros, e, com gritos represados,
botou um simulacro de flôr.
Fevereiro. Primeira noite de luar e de loucura. A primavera toca mais
fundo, mais fundo ainda--esta primavera que revolve os vivos e os
mortos. Todos deitam flôr. Acordam na profundidade dos sepulchros, com o
sonho que levaram para a cóva, com todos os sonhos desfeitos em pó.
Há-os que nunca se atreveram a declaral-o. Há-os que o sumiram com
receio de sonhar. Há-os estonteados...
Ouvel-os falar baixinho, surprehendidos, como se soltassem todos o mesmo
ah--de espanto, e se puzessem a falar baixinho uns com os outros?...
Fala a poeira, fala a sombra desconforme, fala o pó desaparecido.
Na frente uma aparencia--a vida está na multidão que nos impele, a vida
está nos mortos. Massa atráz de massa, os mortos empurram os vivos.
Sente-se o esforço doloroso. Atraz d'estas mãos, outras mãos de
desespero; atraz d'estes olhos sem orbitas outros se esforçam para a
luz. O peor era o silencio. O esquecimento é que é a morte definitiva, e
por isso o esforço augmenta. Formam uma cadeia infinita, a caminho para
a vida e para a dôr; a todo o momento nos falam e nos guiam, e toda a
sua ancia é viverem depois que estão no sepulchro. A velha que sahiu da
existencia mirrada, continua a trazer o menino ao collo. Outros caminham
tropegos, sacudindo a terra que se lhes pegou aos ossos. Eil-os
dispostos a sofrer por uma nova ilusão. A vida foi um nada, impregnou-os
para toda a eternidade: um instante de luz bastou para lhes dar gosto á
dôr. O que elles tentam misturar as suas lagrimas ás nossas lagrimas! o
que elles arfam para que o mesmo fluido que nos prende aos
sepulchros--onde estremecem--se não desligue da vida que ainda se não
tornou visivel! É que não só os mortos mandam nos vivos, tambem os vivos
mandam nos mortos. E avançam, empurram-nos... Conservam no fundo do
tumulo as manias da outra existencia. Esta velha aperta um trapo ao
peito como um filho, com medo de o perder. A moça, mesmo na cóva, dá um
geitinho tão lindo ao lençól! Este conserva na concha da mão uma moeda
de cobre, e áquella, Maria Antonieta, René reconhece-a mais uma vez por
a têr visto sorrir nas Tulherias... Estendem as mãos mirradas para se
aquecerem ao nosso lume; guardam nos ouvidos pela eternidade os ruidos
vulgares--os mais bellos--o das folhas cahindo uma a uma, o da fonte que
corre e que nunca mais tornará a correr, o da voz que lhes falou na hora
extrema; guardam nas mãos o ultimo contacto das mãos, e a restea doirada
d'este sol doirado ainda lhes reluz nos buracos das orbitas...
Deitam-se ao mesmo tempo a caminho do fundo dos fundos e de mais fundo
ainda. Mesmo morto o que eu não quero é morrer... Primeiro rebate, da
primavera doirada e phrenetica, primeiro impulso que estonteia e
deslumbra...
Os mortos é que estam vivos! os mortos é que estam vivos!