A vida é tecida como o linho: um fio de dôr, um fio de ternura. Eu
intrometo-lhe sempre um fio de sonho. Foi o que me perdeu.
Só dei por ella depois de morta. As horas mais bellas perdi-as a sonhar,
quando a vida estava a meu lado. Eu não vivi! eu não vivi!
Agora é que me lembro della, como d'uma tarde que viesse devagarinho na
ponta dos pés, e se fixasse n'um minuto, no silencio, nas coisas
suspensas na luz--nos botões quasi a abrir.
Estraguei tudo, estraguei a minha vida e a sua vida.
O dia d'hoje não existe para mim: só penso com sofreguidão no dia
d'amanhã. Ora amanhã é a morte. E succede tambem que só dou pelas coisas
bellas da vida, depois que passaram por mim, e que as não posso
ressuscitar.
Há na vida um unico momento. Um momento que sorri. Que concentra em si
todos os momentos. Troquei-o pelo absurdo. Troquei a vida pela morte.
Só agora seus olhos verdes d'espanto me chamam, seus olhos que exprimem
o irreal e o mundo todo, seus olhos cheios de dôr represa e de sonho
coado por lagrimas...
Agora é que ella está viva! agora é que ella está viva! E tão viva que a
confundo com a morte.