Quando Tello, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do
castello de Algoço, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens d'armas
escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Sueiro Lopes;
alma negra do senhor, aonde alcançára com o braço deixára sempre
vestigios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia,
o villico (era o seu titulo n'aquelle tempo) não pôde conter o sorriso,
rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de
Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas á porta
despediram-o asperamente, respondendo que Sua Mercê repousava, e que
ninguem o despertaria para dar audiencia a um villão. A principio Tello
pôde sopear a ira, mas a pouco e pouco a altercação irritou-o, e
levantou a voz. Sueiro Lopes assomou de repente á porta. Inteirado do
motivo da disputa, virou-se para o besteiro, e perguntou:
--A que vens aqui?
--Trazer o que mandastes e pedir o cumprimento da promessa! redarguiu
elle friamente.
O senhor empallidiceu. Um estremecimento, que não soube vencer,
sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvissima e transparente, que
vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez da sua vida.
Depressa se recobrou e medindo o mancebo com indizivel escarneo,
replicou:
--Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das ortigas da
sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha
mortalha. Palavra de cavalleiro não quebra! Se cumpriste, não hei de
faltar. As camisas?...
--Eil-as! acudiu o besteiro. Ortigas deram o fio e fadas teceram o
panno.
Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o
noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admiravel bem
mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha D. Sueiro
tremia. Sobre o peito, em lettras côr de sangue, viu as iniciaes de seu
nome e pondo o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das
tres esposas que tinham passado ao tumulo do seu leito.
--Bem! exclamou. Silvana é tua se a achares. Quanto á mortalha....
Veremos esta noite quem a veste!
Não esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho
da choupana de Aldonça. Um presentimento vago advertia-o de perigo
incerto. A tristeza opprimia-lhe o peito; e todavia, a bôa nova, que
levava, devia alegral-o. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado.
Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das arvores
gemidos lugubres. No céu apagavam-se as estrellas umas apóz outras
debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima
do ultimo outeiro. Sem saber porque, sentiu-se Tello desalentado. Elle,
o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos,
deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando
chegou á choupana, achou a casa êrma e a porta arrombada, e acabou de
crer que os pressagios não mentem. Bastava olhar para dentro para
adivinhar uma scena violenta. A lampada ardia ainda junto do lar, e luz
mortiça deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as
arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em
um feixe. O mancebo parou, e de balde quiz ligar as ideias. O golpe
inopinado tinha-lhe quebrádo as forças. Nem o animo, nem a razão se
prestavam a ajudal-o.
Fôra rapto? Fôra vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia!
Saltaram-lhe então as lagrimas, e a dôr foi tão penetrante, que a não se
encostar caíra desfallecido. Occorreram-lhe as palavras de Sueiro Lopes,
e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do
Castello, e áquella hora entrava talvez as portas do Alcacer, que para
ella eram as portas do sepulchro. _É tua se a achares!_ dissera o
roubador. A quem iria Tello pedir justiça? Luctando com a agonia sentiu
que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava á donzella senão a morte
depois da infamia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou
atribulado: «Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não
embainheis a espada da justiça!»
No meio d'estas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no hombro.
Olhou. Viu Aldonça. Um signal imperioso atalhou em seus labios o grito
que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a
um logar deserto, e apontando para um cavallo ajaezado, preso ao tronco
de uma arvore, disse-lhe rapidamente:
--Monta!
O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha
ajuntou:
--O mordomo de Sueiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva.
Corre, que por tua felicidade corres, e não pares senão na villa de
Miranda. Busca os Paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és,
dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro d'esta manhã.
Dá-lhe a trompa, conta-lhe o succedido, e faze o que te mandar. Antes de
sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão
cumprido o seu fado.
O mancebo, atonito, viu-a desapparecer, e largando as redeas, partiu
direito á villa.
X
Como o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os
penedos do seu leito! Que trovões rebramam as aguas despenhadas em
cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a
noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos
bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os
relampagos fuzilam sobre as eminencias.
Lá em cima, nos penhascos fragosos, que villa é aquella, cujas torres
negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a
margem do rio, Tello Vasques não sente fadiga; o brioso corsel devora a
distancia. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo
atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pára no terreiro,
defronte dos Paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os
degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas
intentam detel-o; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde:
busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento
em aposento chega á sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam,
divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.
Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de
armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em
caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados
sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello,
encaminhou-se para elle. O mancebo vinha tão soffocado, que pôde dobrar
apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse
para o besteiro narrar o successo, que o trazia áquella hora.
Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflammada bradou:
--Levai-me aos pés de El-rei D. Pedro. Dizem que não conhece grandes,
nem pequenos. A donzella, que roubaram, é pura e santa como a mais pura
e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo o rico-homem por ella
ter nascido no berço de um villão!
Á medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de
aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e
jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O
gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Tello poz
termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão
dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes
mais se assimilhavam ás pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar
humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava tão convulsa, que
pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes
brados:
--Lourenço Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas
filhas!
O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Lourenço
Gonsalves era o corregedor da côrte. Ninguem ousaria chamal-o assim
senão el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperança.
--Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado á porta! A minha
capellina de aço! Gonsalo Vasques de Goes, escrivão da Puridade! Chamae
os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentença. Por alma
de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de
nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma
justiça de minhas mãos no livro de suas chronicas!
Fallando assim enlaçava a capellina, calçava as luvas de gamo, e com o
açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.
O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns
apoz outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atraz do
cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de
Algoço. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes.
A procella abria os ceus em clarões lividos, desarraigando as arvores
annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto
surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto
estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre
illuminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:
--É ali!
--Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiança.
Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu á chave e ao impulso.
--Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.
Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro
subiu. No topo da escada de caracol, a scena que se lhe representou
excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome
Justiceiro se perdoasse aquelle crime.
Era espaçoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto
mergulhava-se em meia escuridão. No centro da sala, em um leito, com as
mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a bocca até
os ais lhe suffocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados de
lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro
Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia
d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a
mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo,
estava nas mãos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes,
atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos
senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.
--Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo
por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua
prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e
os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villão, que preferiste ao
rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço as
portas chapeadas d'este castello ainda são mais fortes. Em esta areia,
que está por instantes, cahindo toda...
Faltou-lhe a voz. A mão erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo
dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um
clarão terrivel. A pesada acha reluzia em suas mãos.
--Traidor! bradou o principe. Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe
todas as portas. Vais ver!... Villão! ajuntou fallando ao villico. Solta
as mãos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta
bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais
comparecer na presença de Deus!
O orgulho indomito do cavalleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto
que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:
--Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro
Gonsalves? O rei carrasco, falso á sua alma e á alma de seu pae?
Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a
quem entra de noite e á má fé chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os
laços da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o
castello senão a Deus. A mim, homens d'armas!
--Deus é justo! clamou el-rei, cuja furia não conhecia limites. O
matador de tres mulheres levanta-se contra o seu rei. O perseguidor
cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como villão
ás mãos dos teus villãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha
acha. Villãos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido.
Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi está, rebelde e traidor,
prendei-m'o em quanto os meus não chegam!
A presença e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens
d'armas temiam, mas não amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida.
Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou á mercê de
el-rei.
--Passae um laço na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle
subir, e cingi-lhe o nó na garganta! proseguiu o soberano indignado.
--Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, caírá
sobre vós e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-hão contas d'ella,
verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.
--A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas
não é cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.
Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico
enrolava-lhe o laço. Commovida e tremula, Silvana lançou-se supplicante
aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:
--Pedes perdão a Deus e ao teu rei?
--Não!
O pé do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras
do cavalleiro.