IX

Quando Tello, ao cair da tarde do outro dia, trepava a pé a ladeira do

castello de Algoço, vinha descendo o mordomo, seguido dos homens d'armas

escolhidos. O mordomo era o cego executor da vontade de Sueiro Lopes;

alma negra do senhor, aonde alcançára com o braço deixára sempre

vestigios dolorosos. Passando pelo besteiro de Miranda, que o aborrecia,

o villico (era o seu titulo n'aquelle tempo) não pôde conter o sorriso,

rosnando por entre dentes: quantos vão que não voltarão! O noivo de

Silvana desprezou o riso, e continuou o caminho; mas á porta

despediram-o asperamente, respondendo que Sua Mercê repousava, e que

ninguem o despertaria para dar audiencia a um villão. A principio Tello

pôde sopear a ira, mas a pouco e pouco a altercação irritou-o, e

levantou a voz. Sueiro Lopes assomou de repente á porta. Inteirado do

motivo da disputa, virou-se para o besteiro, e perguntou:

--A que vens aqui?

--Trazer o que mandastes e pedir o cumprimento da promessa! redarguiu

elle friamente.

O senhor empallidiceu. Um estremecimento, que não soube vencer,

sacudiu-lhe os membros. Lembrou-se da tela alvissima e transparente, que

vira na choupana de Aldonça, e tremeu pela primeira vez da sua vida.

Depressa se recobrou e medindo o mancebo com indizivel escarneo,

replicou:

--Pedi-te duas camisas fiadas e tecidas com os fios das ortigas da

sepultura de Garcia, uma para o teu noivado, outra para a minha

mortalha. Palavra de cavalleiro não quebra! Se cumpriste, não hei de

faltar. As camisas?...

--Eil-as! acudiu o besteiro. Ortigas deram o fio e fadas teceram o

panno.

Era o mesmo que já lhe respondera Aldonça. A maravilhosa tela, que o

noivo de Silvana desdobrou diante de seus olhos, na finura admiravel bem

mostrava não ser obra de mãos humanas. Pegando na mortalha D. Sueiro

tremia. Sobre o peito, em lettras côr de sangue, viu as iniciaes de seu

nome e pondo o estofo contra a luz, retrataram-se-lhe as feições das

tres esposas que tinham passado ao tumulo do seu leito.

--Bem! exclamou. Silvana é tua se a achares. Quanto á mortalha....

Veremos esta noite quem a veste!

Não esperou por mais o besteiro, e partiu, apressando o passo, caminho

da choupana de Aldonça. Um presentimento vago advertia-o de perigo

incerto. A tristeza opprimia-lhe o peito; e todavia, a bôa nova, que

levava, devia alegral-o. A noite fechou-se escura. O tempo tinha mudado.

Rugindo no pinhal o vento arrancava por entre as ramas das arvores

gemidos lugubres. No céu apagavam-se as estrellas umas apóz outras

debaixo do pesado toldo de nuvens, e a lua encobria-se de todo por cima

do ultimo outeiro. Sem saber porque, sentiu-se Tello desalentado. Elle,

o melhor caminheiro dos arredores, o besteiro mais destro dos contornos,

deu por si mais de uma vez arrastando os passos e tremendo. Quando

chegou á choupana, achou a casa êrma e a porta arrombada, e acabou de

crer que os pressagios não mentem. Bastava olhar para dentro para

adivinhar uma scena violenta. A lampada ardia ainda junto do lar, e luz

mortiça deixava ver os escanhos partidos, os vasos de barro pisados, as

arcas espedaçadas. O pobre catre de Aldonça, despido de roupas, jazia em

um feixe. O mancebo parou, e de balde quiz ligar as ideias. O golpe

inopinado tinha-lhe quebrádo as forças. Nem o animo, nem a razão se

prestavam a ajudal-o.

Fôra rapto? Fôra vingança mais atroz? A mudez da cabana não respondia!

Saltaram-lhe então as lagrimas, e a dôr foi tão penetrante, que a não se

encostar caíra desfallecido. Occorreram-lhe as palavras de Sueiro Lopes,

e percebeu-as tarde. Silvana tinha sido roubada pelos servos do

Castello, e áquella hora entrava talvez as portas do Alcacer, que para

ella eram as portas do sepulchro. _É tua se a achares!_ dissera o

roubador. A quem iria Tello pedir justiça? Luctando com a agonia sentiu

que ia enlouquecer. Mas, louco, o que restava á donzella senão a morte

depois da infamia? No auge da desesperação, erguendo as mãos, bradou

atribulado: «Senhor! A vingança é mais vossa, do que minha! Não

embainheis a espada da justiça!»

No meio d'estas vozes pousou-lhe de leve a mão de uma mulher no hombro.

Olhou. Viu Aldonça. Um signal imperioso atalhou em seus labios o grito

que iam soltar. Guiando-o calada, a protectora de seus amores chegou a

um logar deserto, e apontando para um cavallo ajaezado, preso ao tronco

de uma arvore, disse-lhe rapidamente:

--Monta!

O besteiro obedeceu. Entregando-lhe então a trompa de prata, a velha

ajuntou:

--O mordomo de Sueiro Lopes entrou aqui e leva roubada a tua noiva.

Corre, que por tua felicidade corres, e não pares senão na villa de

Miranda. Busca os Paços do conde e apeia-te. Se te perguntarem quem és,

dize que procuras o senhor. Já o viste. É o monteiro d'esta manhã.

Dá-lhe a trompa, conta-lhe o succedido, e faze o que te mandar. Antes de

sol nado estaremos todos juntos outra vez. As duas camisas terão

cumprido o seu fado.

O mancebo, atonito, viu-a desapparecer, e largando as redeas, partiu

direito á villa.

X

Como o Douro vae fundo e impetuoso! Como se arremessa irado contra os

penedos do seu leito! Que trovões rebramam as aguas despenhadas em

cascatas contra as penhas, que lhe opprimem a furia da corrente! Como a

noute se cobre de luto quasi de repente de minuto para minuto! Aos

bramidos do vento responde o estampido longinquo da tempestade. Os

relampagos fuzilam sobre as eminencias.

Lá em cima, nos penhascos fragosos, que villa é aquella, cujas torres

negras estrellam vivas luzes pelas frestas ponteagudas? Seguindo a

margem do rio, Tello Vasques não sente fadiga; o brioso corsel devora a

distancia. Batia a hora de se alçarem as levadiças, quando o mancebo

atravessa pontes e estradas, enfia ruas e villas, e pára no terreiro,

defronte dos Paços do conde e da torre de menagem. Apeia-se, e sobe os

degraus a dois e dois até ao portal da primeira sala. Os guardas

intentam detel-o; mas sem voltar a cabeça, e continuando, responde:

busco o senhor! Ninguem o suspende. De corredor em corredor, de aposento

em aposento chega á sala de armas. Entre os cavalleiros, que passeiam,

divisa o monteiro desconhecido com o mesmo guarda-coz ainda.

Grossas tochas em armeis de ferro illuminam a vasta quadra. Corpos de

armas brunidas, achas, montantes, lanças e adagas entrelaçadas em

caprichosos ornatos enfeitam as columnas, cujos capiteis lavrados

sustentam os fechos da abobada. O monteiro, apercebendo Tello,

encaminhou-se para elle. O mancebo vinha tão soffocado, que pôde dobrar

apenas o joelho e offerecer-lhe a trompa. Foi preciso que elle sorrisse

para o besteiro narrar o successo, que o trazia áquella hora.

Concluindo, o moço ergueu as mãos, e com a vista inflammada bradou:

--Levai-me aos pés de El-rei D. Pedro. Dizem que não conhece grandes,

nem pequenos. A donzella, que roubaram, é pura e santa como a mais pura

e nobre de vossas filhas. Não deixeis sem castigo o rico-homem por ella

ter nascido no berço de um villão!

Á medida que o besteiro fallava, a phisionomia do desconhecido mudava de

aspecto. Os olhos pretos dilatados chammejavam, e o semblante, rosado e

jovial, empallidecia, torvo de severidade. Arquejava-lhe o peito. O

gesto infundia medo até nos que se achavam distantes. Quando Tello poz

termo a suas queixas, e levantou a vista, recuou assustado. A expressão

dos olhos do seu protector era terrivel. Ensanguentados e delirantes

mais se assimilhavam ás pupillas encandeadas do tigre, do que a olhar

humano. A voz cheia, mas presa, gaguejando, fallava tão convulsa, que

pouco se entendia. Adiantando-se, o desconhecido clamou em grandes

brados:

--Lourenço Gonsalves! Acudi! Um rico homem furtou a mais linda de minhas

filhas!

O brado, e a immensa colera, revelaram tudo ao mancebo. Lourenço

Gonsalves era o corregedor da côrte. Ninguem ousaria chamal-o assim

senão el-rei. Tello prostrou-se cheio de esperança.

--Segue-me! Affonso Madeira! o meu cavallo enfreado á porta! A minha

capellina de aço! Gonsalo Vasques de Goes, escrivão da Puridade! Chamae

os desembargadores, relatae-lhes o feito, e lavrae a sentença. Por alma

de Ignez de Castro!... Pelo seu amor! murmurou mais baixo. Antes de

nascer o sol haverá um criminoso de menos no meu reino, e mais uma

justiça de minhas mãos no livro de suas chronicas!

Fallando assim enlaçava a capellina, calçava as luvas de gamo, e com o

açoute cingido, desprendia a acha de armas mais pesada.

O besteiro seguiu-o sem proferir palavra. Os cavalleiros montavam, e uns

apoz outros galoparam para o alcançar. El-rei ia deixando atraz do

cavallo o proprio Tello Vasques, e cego de ira mettia-se pelas terras de

Algoço. Por cima d'esta vertiginosa carreira a chuva cahia em torrentes.

A procella abria os ceus em clarões lividos, desarraigando as arvores

annosas. Quando D. Pedro assomava diante da porta do castello, um vulto

surgiu, que tomou-lhe as redeas, convidando-o a apeiar-se. De um salto

estava em terra e levantando a cabeça via as frestas da torre

illuminadas. O vulto travou-lhe do braço, e disse:

--É ali!

--Vamos! redarguiu o principe, e seguiu-o sem desconfiança.

Uma entrada falsa, além do fosso, cedeu á chave e ao impulso.

--Ide agora e Deus seja comvosco! disse a mesma voz.

Ouvindo vozes e risadas no andar superior, o amante de Ignez de Castro

subiu. No topo da escada de caracol, a scena que se lhe representou

excitou-lhe ainda mais a colera. Perderia o terror salutar do nome

Justiceiro se perdoasse aquelle crime.

Era espaçoso o aposento. Um lampadario allumiava parte d'elle; o resto

mergulhava-se em meia escuridão. No centro da sala, em um leito, com as

mãos ligadas, jazia Silvaninha. Duas voltas de lenço sobre a bocca até

os ais lhe suffocavam! Só os olhos, os lindos olhos, banhados de

lagrimas pediam a Deus a morte, remedio extremo da infamia. Sueiro

Lopes, defronte, sorria-se medindo com a vista a queda lenta da areia

d'uma ampulheta. A seu lado o villico silencioso corria os dados sobre a

mesa. A tela da mortalha, fiada e tecida com as ortigas do tumulo,

estava nas mãos do cavalleiro, e suas palavras, ironicas como punhaes,

atravessavam o peito da infeliz. Estranho ao remorso, o neto dos

senhores de Biscaia cevava na formosura captiva o furor dos zelos.

--Porque choras, Silvana? Dera hontem o melhor arnez e o melhor cavallo

por um sorrir de teus olhos. Pedi-te amor e respondeste não. A tua

prenda foi esta mortalha! Que te acudam agora as fadas, que a teceram, e

os anjos porque chamavas! Brada pelo besteiro villão, que preferiste ao

rico-homem! Grita por el-rei D. Pedro! Por forte que seja o seu braço as

portas chapeadas d'este castello ainda são mais fortes. Em esta areia,

que está por instantes, cahindo toda...

Faltou-lhe a voz. A mão erguida do villico deixou tambem rolar o ultimo

dado. Ao limiar estava el-rei D. Pedro, e nos olhos d'elle brilhava um

clarão terrivel. A pesada acha reluzia em suas mãos.

--Traidor! bradou o principe. Mentes! O braço de D. Pedro quebra e rompe

todas as portas. Vais ver!... Villão! ajuntou fallando ao villico. Solta

as mãos e a boca a essa donzella. Ninguem se mova! Sueiro Lopes, conta

bem os grãos de areia da tua ampulheta. É o tempo que te dou. Vais

comparecer na presença de Deus!

O orgulho indomito do cavalleiro não cedeu. Empunhando a adaga, e posto

que pallido, sempre firme e seguro, voltou-se para D. Pedro e redarguiu:

--Quem dá aqui ordens e ameaça? O verdugo de Pero Coelho e de Alvaro

Gonsalves? O rei carrasco, falso á sua alma e á alma de seu pae?

Imaginas que farei como os outros cavalleiros? Estou no meu solar, e a

quem entra de noite e á má fé chamo-lhe inimigo! Villico! Aperta os

laços da captiva. No alto e no baixo, irado e pagado, não entrego o

castello senão a Deus. A mim, homens d'armas!

--Deus é justo! clamou el-rei, cuja furia não conhecia limites. O

matador de tres mulheres levanta-se contra o seu rei. O perseguidor

cruel de donzellas nega-me o preito e menagem. Bem! Morrerás como villão

ás mãos dos teus villãos. Não mancho em tal sangue o ferro da minha

acha. Villãos! bradou imperioso aos servos do senhor que tinham acudido.

Sou D. Pedro! Sou o rei! Esse que ahi está, rebelde e traidor,

prendei-m'o em quanto os meus não chegam!

A presença e a voz do filho de Affonso IV infundiam terror. Os homens

d'armas temiam, mas não amavam Sueiro Lopes. A ordem foi cumprida.

Depois de curta e desesperada resistencia, o cavalleiro ficou á mercê de

el-rei.

--Passae um laço na cadeia do lampadario, ponde um escanho para elle

subir, e cingi-lhe o nó na garganta! proseguiu o soberano indignado.

--Sou rico-homem por foro de Hespanha. A afronta da morte vil, caírá

sobre vós e sobre todos os filhos d'algo. Pedir-te-hão contas d'ella,

verdugo! gritou o cavalleiro estorcendo-se.

--A Deus as darei, e a mais ninguem! O desleal que violenta donzellas

não é cavalleiro. Quebro-te a espada e o foro com o meu sceptro.

Momentos depois, D. Sueiro estava em cima do escanho, e o villico

enrolava-lhe o laço. Commovida e tremula, Silvana lançou-se supplicante

aos pés do rei. Debalde! D. Pedro, desviando-se, perguntou ao paciente:

--Pedes perdão a Deus e ao teu rei?

--Não!

O pé do principe tombou o escanho e a morte cortou as ultimas palavras

do cavalleiro.

Contos e Lendas · 第 28 / 38 题