Enterro por noivado

Aqui Fr. Munio fez uma pequena pausa. Depois proseguiu:

Dava meia noute. A sineta da hermida repicou tres dobres compassados. Ao

primeiro as dansas estacaram. Homens e damas, suspensos e petreficados,

ficaram immoveis como estatuas. Ao segundo os sons emudeceram nas cordas

das violas e alaúdes. A ultima nota tremeu solitaria e reboou pelos vaõs

profundos das salas. Era surdo o sopro das trompas, e o canto dos

jograes transformou-se repentinamente em _dies iræ_ que retumbou. Os

cabellos erriçaram-se de horror. Ao terceiro dobre o castello tremeu e

vacillou dos alicerces, como se um terramoto o abalasse. Os eirados

jogaram, as torres inclinaram pendidas. E o cavalleiro negro? Ainda o

sino dobrava já tinha desapparecido. Que susto! Que pavor! Que immensos

clamores! Muitos intentaram fugir. Debalde! As portas, sem ninguem lhes

tocar, fecharam-se adiante d'elles. O portal maciço gemeu nos quicios e

cerrou-se por si mesmo. Mãos invisiveis alaram as dobradiças.

Ai noute de S. João, noute aziaga! Valiam reinos os olhos que por amor

de ti choraram; a alcachofra benta ardendo não brotou a flor de

esperança; o palmito symbolico, em vez de rozas e de fructos, só ramas

de cypreste esfolhou sobre o leito do noivado. Nos paços do conde

ninguem se entendia. Estava sobre elles o poder do inferno. O suor frio

borbulhava nas faces dos cavalleiros, e o tremor dos mais ousados fazia

tinir a espada contra a espora. De repente raiou uma pluma de fogo na

escuridão. Cresceu, alastrou-se e em breve as nuvens de fumo

enrolaram-se com as labaredas enroscadas nos grossos madeiros dos

tectos. Jesus! Acudi! O castello está a arder! Tudo isto se viu e se

obrou em um abrir e fechar de olhos. E as portas cerradas, e os eirados

tão altos, e o fosso tão fundo! N'este momento rompeu a lua outra vez o

toldo sombrio, que a velava, e o seu clarão pallido lançou como um

sudario sobre o rochedo talhado a pique, que se aprumava a curta

distancia sobranceiro ao castello. As aguas, rebentando ali á sombra de

antigos choupos, ferviam de encontro ás fragas, e despenhadas espumaram

batendo em cachões no leito da ribeira, que lá em baixo bramia

arremessada por entre a bronca penedia.

Aonde está D. Ordonho? Junto de Auzenda desmaiada! Com ella nos braços

por entre as chammas, que lhe crestavam o rosto, não correu, voou

baixando de andar em andar, até ao terreiro. Ahi, olhando, viu tudo

cerrado, as labaredas serpeando cada vez mais vivas e o castello pedra

por pedra quasi a desconjuntar-se. Os cavalleiros escondiam as lagrimas

envergonhados.

--Erusigis! Escudeiro!... A minha acha adamascada! clamou o senhor de

St.ª Olaia. Este pulso pode com ella. Nem diamantes a embotaram. Aqui

todos! gritou depois em grande brado.

Palpitou a esperança esmorecida nos peitos mais desalentados.

Ergueram-se as achas... Golpes de cem machados, rigor furioso de cem

robustos braços ferem a um tempo com ancia mortal a porta maciça e

chapeada. O roble gemeu, o ferro chispou fogo, os gonzos tremem... Mas

nas taboas nem signaes dos finos gumes. Os machados, estalando, lascam

até aos cabos. Por cima do ruido das pancadas e do alarido das vozes

rompem risadas altas. D. Ordonho volveu os olhos. Na coroa do rochedo

campeia o cavalleiro negro. As aguas espumavam por baixo dos pés do

corcel; a mão direita brandia um facho; a esquerda só peava com as

redeas o cavallo preto, quasi no ar sobre o abysmo.

--Conde Ordonho! Esta fogueira faltava á tua festa do S. João. Accendi-a

eu. Pago as arrhas da formosa noiva.

--Maldito!...

--Esquecias já D. Pedro Ansures, morto por ti ha quatorze annos?! Chegou

o dia e a hora das ultimas contas. O sangue dos teus vingará o sangue

dos meus. Cumpriu-se o voto de Inigo Lopes.

Ditas estas palavras, como se o inferno as soprasse, as chammas em vagas

furiosas investiram o castello por todas as partes. D. Ordonho ajoelhou.

No hombro tinha reclinado outra vez o lindo corpo de Auzenda sem

sentidos. As faces desbotadas da donzella tocavam o rosto queimado do

velho; as tranças de ouro misturavam-se com as madeixas brancas; os

olhos languidos, em que expirava a doce luz da vida, cerravam-se

mortaes.

--Castigai-me, Senhor! bradava o conde, chorando como creança. O sangue

verteu-o esta mão culpada.... Feri a cabeça do peccador saciado de annos

e de amarguras! Mas esta innocente! O que fez para acabar assim?...

Poupai-a em vossa justiça!.

Dizendo isto apertava a neta contra o coração. O que não daria n'aquelle

instante o senhor de tantos vassallos e castellos por alguns palmos de

terra livre, por uma respiração pura da briza nocturna, que nos serros

vizinhos refrigerava as miserias do escravo?

O conde ergueu-se de novo. As almas viris podem vergar um momento, mas

não quebram... As maiores dores calaram-se diante da sua dôr; o pranto

enxugou-se em todos os olhos; e os mais intrepidos estremeceram, vendo

passar muda e terrivel aquella vingança! Eil-o vai o velho fronteiro!

Nem capello de aço lhe cobre a fronte núa, nem arnez lhe veste o peito

descoberto. Leva porem a morte escripta no rosto. O sombrio clarão do

desespero reluz nas orbitas ensanguentadas. A voz emudeceu nos labios,

brancos e descorados. Deixai-o ir! É o castigo de Deus que se adianta!

Inclinai-vos! É o santo amor de pae que o inspira!

A aguia real não caiu logo. Varado o peito, sobe e perde-se nas alturas

para depois baixar inerte. Vai morrer longe da terra sobre as nuvens.

Que fogo ameaçador na vista immovel! Que fria raiva no vôo lento!

Guarde-se o falcão. Primeiro perderá a vida que o rei dos ares. Assim

era D. Ordonho!... A lua escondeu-se. A tormenta rugia ao longe. O vento

lastimava-se soturno. A distancia, nos outeiros e plainos, refletia-se o

clarão avermelhado do incendio. O fumo em rollos salpicados de faiscas

estendia-se como toldo immenso. As aguas e o furacão confundiam os

bramidos. Os relampagos lambiam a crista dos montes. O trovão estourava

em estampidos medonhos.

A aza negra da tempestade varria a face da terra.... Que vulto é

aquelle, que as labaredas rodeiam emoldurando-o encostado ao arco no

eirado da torre Albarran? Fogem-lhe aluidas debaixo dos pés as lageas

abrazadas e não recúa. Sobre a cabeça crusam-se mil centelhas e não as

sente. Ao lado estalam e desabam os madeiros com fragor, racham-se e

abatem as paredes, e não as vê! O temporal fustigando os cedros,

estronca-os; o raio, fuzilando, lasca os penhascos da montanha; as

torrentes, crescendo tumidas, inundam as margens como rios caudalosos.

Que escudo cobre, pois, aquelle homem que todos os perigos e horrores da

vida conjurados não o aballam? A desesperação! Que lhe importam ao

desgraçado as ameaças do ceu, ou as ruinas da terra? Esconde no seio a

peior das mortes. Morrera em vida. O castello de seus avós será o

sepulcro do ultimo descendente de uma grande raça.

Soltou por ultimo do peito um rugido immenso. A côr livida da ira

dava-lhe á face o aspecto de um cadaver. Encurva o arco, reteza a corda,

e a vista mede o espaço. Ai do que aparar o tiro! A seta só espera um

aceno para voar sibilando ao seu alvo....

Tres vezes estalou o trovão, e tres vezes um lençol de fogo jorrou dos

ceus abertos. Soa distinctamente o galope de um cavallo. As ferraduras,

raspando as fragas, fazem saltar as faiscas umas atraz das outras. Armas

brancas, capello sem viseira, no peito o açor do Douro. Será D. Moço

Ansures? Á claridade dos relampagos, á luz do facho sacudido pelo

cavalleiro negro, viram todos o corsel do mancebo ennovelado sobre a

aresta do precipicio, quasi a escorregar pelas rochas aprumadas. Cavallo

e cavalleiro arquejam suspensos de um fio sobre o abysmo. O que Inigo

lhe disse, o que elle respondeu, ninguem o ouvio. O vento bramia forte.

Pouco depois descortinava-se D. Moço enristando a lança meio corpo

debruçado para o precipicio, e o renegado arremeçando o facho ás aguas

para se rodear de trevas. O braço do Maldito alçou de subito a espada e

o golpe descia já... quando uma seta passa assoviando. O mancebo vio

então o seu inimigo rolar aos pés do ginete e logo apoz um corpo dobado

nos ares, resvalar, batendo nas pontas das rochas até se atufar

dilacerado e disforme nos cachões da nascente, que espirram a grande

altura espuma e sangue.

Do castello, no eirado fronteiro, uma voz cheia e vibrante levanta

brados de triumpho, e por momentos avulta a estatura gigante do conde

Ordonho, cosida nas chammas, immovel e magestosa, com os cabellos soltos

ao temporal. Depois abateu-se a torre com grande estrepito, as

quadrellas alluiram-se, as traves accesas remoinharam e cairam, e entre

os destroços, como em leito tranquillo, o velho guerreiro adormeceu do

somno eterno. Honra ao que morre amortalhado em suas armas e envolto no

seu pendão! Ao cabo de sessenta annos de pelejas o fronteiro sepultou

comsigo a orgulhosa raça de riba d'Ave, e do seu castello só ficaram de

pé aquella torre negra, que alem vemos, e a hermida aonde jazem os ossos

de Pedro Ansures.

--E D. Moço? perguntou Martim Paes.

--E Auzenda? acudiu D. Nuno.

D. Moço, cumprindo já de noute o seu voto, teve um presentimento, e,

cravando esporas no cavallo, despediu a carreira veloz por cabêços,

fragas, e alcantis. Já perto do castello, deu-lhe no rosto o clarão do

incendio e viu-o arder. Apertando o corsel, correu como louco, e só

parou quando o facho do cavalleiro negro lhe cegou os olhos. O que

succedeu então já vos contei. Apenas Inigo expirou, desfez-se o

encantamento. D. Moço buscou Auzenda. Encontrou-a, mas sem vida!

Levaram-a os monges á capella, puzeram-lhe na cabeça uma corôa de

cecens, e a terra comeu de quinze annos a formosura mais invejada das

Hespanhas.

D. Moço, desde esse dia, não viveu. A saudade matou-lhe a alegria, a

esperança, e a juventude. Nunca mais vestiu armas. O que iria pedir ás

batalhas? A gloria? Não tinha com quem a repartir. A morte? Para quê?

Não a sentia já no peito? A liberdade da terra do seu berço? Ai! Nem

essa ideia mesmo podia fundir já os gelos d'aquelle coração!... Sombra

do que fôra, o que fazia o desgraçado n'este desterro cruel, sem

affectos, sem amigos, sem consolações? Como o carvalho, que o raio feriu

na força do crescimento debruça os ramos mirrados e se torce e definha

até cair, a dôr e a memoria, verdugos implacaveis das existencias

desgraçadas, minavam-lhe a vida, seccando-lh'a na raiz.

Sobre a madrugada o somno pousava-lhe a medo nas palpebras molhadas de

lagrimas. Então a febre do delirio representava-lhe junto do leito a

doce imagem, que trazia no coração. Era ella! Via-a, como nos dias

ditosos. A mesma grinalda de flores do campo sustinha os cabellos louros

que fugiam em ondas; as mesmas roupas alvas desenhavam as formas

virginaes; nos olhos sempre a luz suave do amor, que o fizera tão feliz;

nos labios aquelle sorriso em botão, que se abria casto como a rosa. O

mancebo queria estreitar a visão querida ao peito, e acordava, chorando,

porque só abraçára o ar. N'este tormento agonisou por mezes até que

Deus, compadecido, lhe enviou a morte a um mosteiro humilde, aonde se

recolhera.

Quando o amortalharam, os monges acharam-lhe unido ao peito, sobre o

coração, um laço de cabellos; e no quarto de alva o frade, que ficára

orando a velar a tumba, contou depois que vira apparecer uma dama,

formosa como os anjos, e inclinar-se triste sobre o corpo. De dentro do

ataude saiu um braço, e ella, com a sua mão na mão do morto, passar-lhe

um annel no dedo e cingir-lhe a corôa de boninas que trazia, na fronte

descorada. Um guerreiro de armas negras, e de estatura descommunal, por

tres vezes lutou para romper o circulo luminoso, que a rodeava, e outras

tantas, vencido por braço invisivel, se prostrou com a face no pó do

templo. Eram as nupcias dos mortos, o noivado de Auzenda e de Ansures?

Era ainda a sombra de Inigo Lopes perseguindo na donzella o sangue

inimigo e a vingança contra o conde Ordonho? Altos mysterios de Deus.

Quem ousaria prescutar os segredos da sua justiça, e os prodigios da sua

clemencia infinita?!

Contos e Lendas · 第 16 / 38 题