Na sala de armas do castello soam mil vozes de jubilo. Que luz faisca
das malhas pulidas e que reflexos, que cegam, saltam dos dourados
capellos! Cavalleiros moços fallam de amores, inclinados sobre os
estrados das donas e donzellas. Violas e doçainas acompanham as coplas
dos trovadores. Mais adiante, em turbilhões de cem côres, em collos
ondeados e graciosos, giram e volteam as dansas, e o olhar furtivo de
alguns pares promette, em breve, dias semelhantes a mais de um solar.
Na vasta quadra apparelhada para o festim em quanto os convivas não
entram, o vento geme por entre frizos e laçarias dos delgados
columnellos. A lua, alta no ceu, entorna pelos vidros corádos das
frestas golphadas de luz branca. De repente as trompas quebram o
silencio. Avizinha-se, e já se reflete nas paredes, o clarão de muitas
tochas. Povoa-se a sala, innundada de luz subitamente. Os escanções
enchem as taças e fazem-as circular em roda. Saudes, acclamações, e
vozes crusam-se, trocam-se e voam em confusão jovial de um a outro
extremo da casa. D. Ordonho parece remoçado. Á sua direita senta-se
Auzenda. Da esquerda um escanho vazio aguarda D. Moço Ansures. Defronte,
em outro escanho, tambem vazio, estaria o pae do noivo, se podesse
deixar a sepultura. Cobre-o um veu de luto.
A meio do banquete as dansas tornam a entrançar os pares como grinaldas
vivas do festejo. Pelas portas abertas do alcacer enxameiam
incessantemente donas, cavalleiros e monges, convidados pela
hospitalidade quasi regia do rico-homem. As taças cheias de licor
espumoso correm de mão para mão. D. Ordonho, de pé, alça a sua, e com a
fronte erguida brada:
--Á paz dos christãos! Á ruina e confusão dos infieis! «Uma longa
acclamação responde á sua voz: «Assim findem todas as discordias entre
irmãos!»
Ainda não tinha pousado o vaso na mesa quando, voltando a vista, soltou
um grito. Os convivas olharam tambem e ficaram immoveis com as taças
suspensas.
No logar vazio destinado a honrar a memoria do pae de Ansures, appareceu
de repente um homem sentado. Vestia armas pretas com a viseira callada e
na cotta o açor bordado. Descalçando o guante direito, e empunhando a
primeira taça cheia, ergueu-a lentamente.
--Bem fallado, conde Ordonho! (exclamou.) Á paz da noute de S. João!..
Não bebeu, derramou o vaso, e o vinho, maculando a toalha, tornou-se
vermelho e vivo como sangue. No sitio em que pousou a taça uma malha de
ferro em braza queimou a alvura do linho. Alçou então a viseira. Os
olhos, as feições o os modos eram exactamente os do cavalleiro
assassinado havia quatorze annos; porem os cabellos e as barbas brancas
lembravam, que por cima do seu corpo passára o frio da sepultura.
Alguns dos que o viram desejaram fugir, mas, petreficados por um poder
occulto, não poderam mover-se. O horror gelava a todos.