O monge começou assim a sua historia:
No tempo em que os walis de Cordova tinham quasi todo o reino sujeito, é
que succedeu o que vou contar. Estava o conde D. Henrique a entrar por
dias, e com elle vinham boas lanças para o ajudarem a resgatar do poder
dos infieis as provincias de Portugal. A essa hora nos castellos da
fronteira não se descansava de dia, nem de noite; ninguem despia as
armas; e quer luzisse a manhã, quer cerrasse a tarde, o clarão das
almenáras, ou o rebate das trombetas não consentia nem leve repouso aos
defensores da verdadeira lei. Nas ameias, ou no campo da peleja, não se
socegava um momento. Os melhores castellos ainda tinham a voz dos
descridos; muitas terras pagavam-lhes tributo; e as bellas tapadas do
Minho e do Alemtejo eram para elles correrem os veados, os ursos e os
javalis. Do marmore de nossas pedreiras arrancavam as columnas e as
ricas laçarias de seus paços. Tudo na abençoada primavera d'este formoso
jardim chamado Portugal era dos sarracenos e em tudo punham o seu
deleite. Nas campinas floridas, em que a lua nasce suave como sorriso
infantil, e o ceu brilha radioso como olhar de virgem namorada, a
tristeza até parecia desmaiar o sol. Antes de o tragar o inferno, cujo
é, o arabe sensual passava pelo paraiso, que nos tinha roubado! Por isso
a saudade do que perdeu lhe punge tão viva hoje o coração!...
--E não havia cavalleiros, que lhes estalassem as lanças no peito,
bradando: esta terra é nossa! acudiu Martin Paes.
--Havia! redarguiu o frade. Mas eram poucos. N'aquelles dias de
captiveiro todos inclinavam a fronte, regando de lagrimas os sulcos da
charrua, guiadas por mãos de escravos. Deus exalte o braço victorioso,
que nos deu outra vez a terra de nossos paes, que fez nossos, a casa em
que abrimos os olhos, o cemiterio aonde dormem os que nos amaram, a
arvore que nos cobriu com a sombra a infancia e a velhice, e a fonte que
ferve ao pé do rosal!... N'aquelle tempo, quando o mouro passava,
baixavam todos a vista, porque elle era o senhor.
--Mas a terra havia de ser então quasi um deserto, padre?
--Não. As espigas douravam-se nas searas como agora; os campos
vestiam-se de relvas e de arvoredos; as noras gemiam nas hortas; e os
gados pastavam nos montes. Mas a terra, tão alegre por fóra, toda era
magoa e desconsôlo por dentro; porque a terra, em que sômos escravos,
mesmo que seja a da patria, parece-nos mais só e vasia, do que um êrmo.
A casa alheia, a courella que é de outro, e o fogo accêso na lareira a
medo, fazem-nos chorar, porque nada d'aquillo é nosso, e hoje, ou
amanhã, podem dizer-nos: sáe! O reino vivia, como vive agora; o que
estava morto era o coração do homem. Resplandecia o mesmo sol, corriam
as mesmas aguas, nasciam as mesmas flôres; porém as creanças não
brincavam por baixo dos pampanos da vinha, como brincam estas; e a
donzella assustada, tremendo de se vêr formosa, não se assentava
tranquilla, como aquella, debaixo da amendoeira em flôr ouvindo
descantar o rouxinol por cima da cabeça. O harem do sarraceno, aberto
diante d'ella, como um abysmo, fazia-a empallidecer. De um momento para
outro podia ser obrigada a escolher entre a deshonra e a morte.
--Que martyrio não seria a vida assim?!...
--Era! Foi!... Mas viveu-se, e por quantos annos!... O dia declina.
Faz-se tarde. Quereis que continue?
--Oh, de certo. Fallae!... Todos vos ouvimos.
--No tempo que disse, lavrava a discordia entre dous ricos homens nas
terras de Alem-Douro, afirmavam uns que por amor dos lindos olhos de
certa dama, juravam outros que por causa da aposta de um cavallo. De
seus castellos os dous inimigos, postos defronte, corriam o campo
talando vinhas, pomares e cearas, e mal um se descuidava, o outro,
assaltando-o, vinha logo acordal-o a ferro e fogo. Em suas mesnadas, ou
companhas de homens d'armas, ardia a guerra em toda a furia. Nos casaes
assolados de ambos, o solarengo ou o pastor nunca sabia se ao anoutecer
recolheria os frutos, e os rebanhos a salvo, ou se despertaria ao clarão
das labaredas, para enterrar algum dos seus assassinado.
Por fim o cavalleiro mais velho accommetteu o paço acastellado do
contrario, e tomou-o á traição, deixando a cabeça do senhor cravada nas
ameias. Aconteceu isto vespera de S. João, por alta noute, quando todos
festejavam o bemdito Santo com fogueiras, cantigas e follias. O
cavalleiro tinha um filho e um irmão. O filho de edade tenra; o irmão
temido pela indole e pelo braço. Entraram e sairam os annos assim; a
creança fez-se homem; e de parte a parte a aversão das duas familias
cada vez crescia mais. O rio que as separava, tingiu-se de sangue por
muitas vezes, e os sinos não cessavam de dobrar na egreja pelos que
morriam. O tempo, que tudo gasta de dia para dia, parecia avivar mais
aquella rixa. A este tempo o herdeiro do cavalleiro assassinado era já
um mancebo louvado pela destresa nas armas e pela prezença gentil a
cavallo e nos saráus. Chamava-se D. Moço Ansures, e vendo-o passar,
esbelto e affogueado da carreira, com o falcão no punho, as donzellas
sorriam-se e córavam, e os homens saudavam-o admirando a fiel imagem do
rico homem morto na vespera de S. João.
D. Moço ainda não dissera a mulher nenhuma: amo-te! Um dia, por
desgraça, viu a neta do senhor do solar inimigo, e logo o coração
esquecido da vingança guardou para sempre a doce imagem. O sangue do pae
derramado á falsa fé, as malquerenças de tantos annos, as promessas da
meninice e da juventude, tudo d'ahi em diante se apagou da sua alma para
não vêr outro sol, outra luz, senão a dos bellos olhos, que o tinham
feito seu captivo. Segredos de Deus! Do maior odio rebentou o mais
constante amor!... Correram mezes, e o affecto escondido saltou aos
olhos de todos. Os parentes lançaram em rosto ao mancebo a sua fraqueza,
mas a paixão pôde mais, que as memorias do tumulo, que deixava sem
vingança. Por ultimo, cansados das guerras dilatadas, os rancores
cederam, e o casamento ajustou-se. Uma rosa veiu unir as duas casas
inimigas. O sorriso de uma dama veiu aplacar no sepulcro os que não
podiam dormir o somno eterno, e os que haviam jurado não perdoar.
Aprazou-se para vespera de S. João o ditoso enlace. Seria proposito, ou
acaso? N'esse dia contavam-se justamente quatorze annos, que o pae de D.
Moço de Ansures fôra assassinado.
O homem põe e Deus dispõe!
O cavalleiro morto tinha, como disse, um irmão, que lhe queria mais do
que á propria vida. Haviam nascido ambos vespera de S. Pedro, e escusado
fôra procurar mais do que uma vontade e um affecto nas duas almas. D.
Inigo Lopes, era o nome do irmão mais novo, andava ausente. Acertou
chegar de longe, quando estavam pregando as taboas do caixão do infeliz.
A dôr fez de D. Inigo uma estatua, e sete dias com sete noutes o viram
todos jazer deitado sobre a sepultura. Parece que a terra, comendo-lhe
os ossos do irmão, consumia ao mesmo tempo n'elle tudo que tinha de
humano. Quando rompeu a alva do oitavo dia, e se levantou, trazia a
cabeça e as barbas brancas como neve. Envelhecêra ali um seculo em sete
dias! Nem um lagrima nos olhos seccos! Nem um soluço do peito mudo.
Deixou sobre a campa espada e arnez, e levou só comsigo o punhal. Ao
entrar ainda fizera o signal da cruz, mas, saindo, Jesus! voltou as
costas ao altar. Os anjos nos defendam!
O que fez sete dias com sete noutes D. Inigo só e encerrado na capella?
Se alguem o soube foi a cova fria. Contavam, depois, que um monge na
ultima noute vira a pedra do tumulo erguida sem lhe tocarem, e um corpo
crescer da sepultura e a mão do morto apertar a mão do vivo. Illusões!
Quem vae nunca mais torna. O que não foi fabula, porque todos o
presencearam, foi ao oitavo dia rebentar com o primeiro raio de luz uma
rozeira do centro da cova, tão viçosa e robusta como se existisse ha
muitos annos. Que frescas rosas e que lindos botões nos ramos! Mas se
queriam apanhal-os por devoção, murchavam nos dedos; se tentavam cortar
uma pelo pé, o sangue corria da haste como se corresse de veia aberta.
Em cada ramo abriam sete rosas brancas e sete rosas vermelhas. E que
outros tantos dias se contavam tambem desde que o corpo do valente
cavalleiro descera á sepultura trespassado de sete feridas.
Nunca mais se soube, ou se fallou de D. Inigo. Dizia-se que sete annos
com mais cinco vagueára como peregrino, pelos desertos, que Deus pisou,
comendo das ervas do monte, bebendo da agua das nascentes, dormindo ás
inclemencias do tempo. Que vida penitente a d'aquelle Santo! Vozes do
mundo! O Senhor, que lê nos corações, ha muito que tinha desviado os
olhos d'elle. Com ser christão nascido nunca mais ajoelhára á cruz, ou
se encommendára á Virgem. Quasi ao cabo do longo desterro anouteceu-lhe
no deserto da Tentação ao atravessar pela terceira vez a Palestina.
Valha-nos Maria Santissima!... De repente as areias inflammaram-se em um
mar de fogo; o ceu cobriu-se de trevas; e nas pontas recortadas das
altas rochas dançaram, crusando-se, milhares de luzeiros. Ouviu-se então
na vasta solidão do ermo um brado immenso. D. Inigo respondeu, e o
pacto, que ali firmou, foi tão negro, que a lua tornou-se côr de sangue
e sumiu-se, que as estrellas esconderam tremulas a sua luz. O christão
acabáva de vender ali a alma ao inferno pela vingança. Desde aquella
hora seguiu-o sempre por toda a parte, como a sombra segue o corpo, a
imagem do irmão assassinado. Ajoelhára ao poder de Satanaz, elle que não
se prostrára diante da cruz, e rasgando as veias afirmára o juramento.
Quando se ergueu soou o cantar do gallo por tres vezes no espaço,
repetido pelos echos, e risadas tremendas, levantando-se das aguas
immoveis do Mar Morto, applaudiram a victoria do espirito do mal. O
reprobo escarneceu do passado. Uma blasphemia atroz saltou-lhe da bocca.
Mas elle que se ria de Deus e do inferno, estremeceu sentindo fugir-lhe
a terra debaixo dos pés, como horrorisada do peso do seu crime. Aos
primeiros passos o clarão dos relampagos cegou-lhe a vista. O temporal
rebentava ao mesmo tempo no mar aonde as ondas se empolaram como serras,
no ceu aonde os trovões estalavam uns apoz outros; na terra, que se
abria em voragens, e no deserto, aonde o furacão, bramindo, cavava
abysmos, e alteava montanhas, revolvendo em vortice as areias. Cedros
antigos, como os do Libano, desabavam de pancada. As feras, timidas que
nem cordeiros, acoutavam-se submissas nos povoados. Os homens elevavam
suas orações a Deus pedindo-lhe piedade. Quando tudo se fazia humilde e
pequeno para a supplica, porque riria só o orgulho do culpado? D'ali em
diante não passou uma hora sem elle se despenhar mais e mais fundo no
precipicio. Raiava a manhã um dia e curvado sobre a corrente do Jordão,
debruçava o cantaro e enchia-o. As ramas das arvores enfezadas
torciam-se em toldo raro sobre a ribeira. A duas passadas de distancia
caíra um velho desfallecido de sede e de fadiga. Bastava uma gota
d'aquella agua para lhe restituir a vida. D. Inigo negou-lh'a
entornando-lhe de proposito o cantaro diante dos olhos para lhe
exacerbar o tormento, diante dos olhos que estavam tragando de longe a
agua, que o maldito derramava zombando da sua agonia, e dizendo-lhe por
mofa: «chama pelo teu Deus e pede-lhe uma nascente ao pé de ti!» O
Senhor não accudiu com prodigios ao seu servo. Quiz que expirasse
vencedor do inferno. Mas, desde aquelle crime, a sêde intensa ateiada
nas entranhas do reprobo, nunca mais se aplacou. Os rios e as fontes
convertiam a fresquidão em fogo para o abrazar. A gota de agua negada no
deserto pesára na balança do Senhor largos seculos de culpas.
Cumpridos doze annos, D. Inigo voltou, sem se saber como, á terra em que
nascera. Disseram que um cavallo da côr da noute, com os olhos todos
chammas, o trouxera em breves instantes da Judeia a Portugal. A cauda
varria o pó, a respiração era toda fogo, e as crinas ondeavam ao vento.
Diante d'elle as mais altas montanhas encolhiam-se e tornavam-se
outeiros; o mar e os abysmos solidificados aplanavam-se; e no perpassar
do galope infernal os carvalhos inclinados tremiam e beijavam o chão,
flexiveis como juncos. Cavallo e cavalleiro não corriam, voavam! Debaixo
da ferradura magica as aguas tomavam a dureza do diamante: a terra
oscillava, e mil faiscas, saltando da cratera dos vulcões, vinham coroar
o rei do fogo. Ao romper da aurora o corsel retrahiu-se, e estacou.
Apontava o dia no topo de uma cruz de pedra. Não passou d'ali. Á medida
que ia aclarando a manhã adelgaçavam-se-lhe as formas e do primeiro raio
de sol dissolveu-se desfeito em fumo.
Quando acabou de desapparecer tangia um sino. D. Inigo olhou e conheceu
o sitio. Estava junto da egreja aonde fôra sepultado seu irmão. Ao
primeiro passo que deu, descerrou-se o portal por si mesmo; ao segundo
illuminou-se a capella repentinamente; ao terceiro as rosas vermelhas
cairam seccas e as brancas floriram juntas. Um cantico suave dentro
levantava o _Ave maris stella_. Estava aplacada a vingança do morto. A
fé, porem, debalde chamava ali por Inigo; elle não a ouvia. A voz do ceu
em vão lhe offerecia o perdão; elle, surdo, não escutava a palavra de
misericordia! Orava n'aquelle momento a Deus, muito longe, um santo
hermita pelo maior peccador. Arrebatado em espirito, viu um homem
cuspindo por odio na cruz á porta de uma egreja. O anjo Custodio,
ajoelhado no cruzeiro, banhava de lagrimas as vestes luminosas; mas o
desacato gelou-lhe o pranto, e, cobrindo o rosto com as azas, subiu na
aragem até se perder nos raios dourados do sol nascente.
«A tua clemencia, Senhor, é infinita! exclamou o justo. Haverá perdão
para o que renega o teu Santo nome?»
N'este ponto a visão sumiu-se; as portas da ermida fecharam-se com
estrondo; e uma voz, semelhante á da tempestade, bramindo nas selvas,
repetiu ao longe: _memento, homo, quia pulvis es!_