Mas, esse Deus misterioso, que ceu o esconde nos paramos do ceu azul
immensuravel? Que Sinai enubla a sua gloria? O seu altar em que monte o
ergueram os profetas desconhecidos? Que rito é o seu--e em que taboas de
marmore escreveu o fogo de cima a legenda prodigiosa de sua lei? No meio
de nós por entre o tumultuar das gerações passa como o Deus antigo, por
entre os combates da Iliada, e ao longe retumba o echo de suas passadas.
E, emtanto, ninguem o vê. Só de longe a longe, algum profeta desce das
solidões a mostrar ao mundo a palidez de suas faces emagrecidas, seus
olhos cavos e fixos, da fixidez assustadora das visões, como testemunho
de ter entrevisto na sua noite um raio d'essa gloria que o deslumbrou e
consumiu.
É o absoluto que deixa nas mãos do homem, que o tentou prender na sua
fuga eterna, um fio apenas da sua tunica de brilho. Mas esse fio é um
raio de tal luz, que basta a alumiar o trabalho de muitos seculos!
Toma-o nas mãos Moisés, mostra-o ao mundo, e chama-se Jehová. Ergue-o
Mahomet entre os povos e chama-se Alláh. Deixa-o Christo cair do alto da
sua cruz, e chama-se amor. De cima d'uma guilhotina o atira Robespierre
para o meio das multidões e chamam-lhe Direitos do homem e Revolução. E
Hegel, levantando a cabeça de sob as ondas immoveis e tristes da
abstração, lança nos ventos, que a levam ao mundo, esta palavra--Ideia!
O que revela cada profeta não é o Deus eterno, o Absoluto dominador,
entre cujos braços se contém o universo, não confuso e multiforme nas
mil apparencias do relativo, mas na verdade ideal da sua essencia--o ser
puro.--Esse poderia por ventura, afirmal-o a creação toda, os soes e os
insectos, o espirito e a materia; o visivel e o invisivel, o certo e o
possivel, se um dia, esquecendo ao movimento lançar o metal ardente de
suas creações nos moldes da variedade, se precipitasse todo sobre o seu
centro ideal assumindo emfim a consciencia plena da sua universalidade.
Mas o homem não afirma nada mais além da sua mesma alma? E esse vulto
immenso a que ainda chamam Deus, é apenas a sombra do ideal humano, que
acha o mundo estreito e se alarga pelo espaço. Concebe o absoluto nos
limites da sua relatividade.
Por seus mesmos passos mede o caminho do infinito. E, nos ultimos
limites aonde alcança o seu pensamento, ergue elle as ballizas extremas
do possivel. As religiões são os marcos successivos das mais longas
corridas do seu desejo no caminho do infinito: mas não são o termo
d'essa estrada que se perde nas nevoas do inatingivel e cujos desvios
ultimos pé algum pôde ainda pisar.
É por isso que os Deuses morrem, se succedem e transformam. Vê-se o fim
d'essas eternidades--e o homem que as creára para perder cá a incerteza
do seu transitorio destino, o homem, o seu coração, o seu ideal,
sobrevive-lhes, é elle quem parece eterno ao pé d'esses absolutos
passageiros!
Mas que importa esse Deus que nenhum olhar pôde ainda descobrir no
deserto dos ceus, se d'um ceu interior, tão puro e tão bello, sae para
cada ouvido attento uma voz divina, e uma sybilla misteriosa deixa cair
dos labios palavra a palavra, o oraculo successivo do destino dos homens?
Se a alma cria deuses e, respirando, espalha o infinito em volta de
si--é que lá dentro alguma cousa infinita se concentra e o divino se
esconde para se manifestar dia a dia na revelação constante chamada
Vida. É que o mais humilde d'entre nós dá em seu peito morada a um
grande desconhecido que ali existe, cuja voz grave se ouve a espaços e
nos alumia a face com os relampagos da sua gloria.
Existe com effeito. Que somos nós todos senão uma forma visivel da
essencia infinita--um momento determinado da existencia sem termo--uma
vibração do movimento eterno--uma fase da Lei do todo, chamada aqui lei
humana mas a mesma no ser, com igual fim, igual origem, que nos
determina e de que vivemos? A lei! Protheu prodigioso de mil formas
d'innumeros vultos inesperados em toda a parte diversos, e em toda a
parte o mesmo sempre todavia! Mil faces, e uma só alma! mil braços, e
uma vontade só! por mil caminhos, e um unico o termo da viagem!
Uma d'essas do Protheu é o homem, a lei humana. A parte d'acção que
exercemos no movimento eterno: a hora que nos é dado preencher na
duração sem termo--é isso o que somos, por isso que nós agitamos, o
nosso ser, o nosso misterio. É o Deus, que o universo esconde
revelando-se pela consciencia. E o absoluto que fóra nem podemos
entrever, eil-o vivo e palpitante em nosso coração e debaixo de nossas
mãos, a ponto de o podermos palpar!--A alma da humanidade em cada homem;
e, na humanidade a alma inteira do mundo--.
No mais estreito, no mais tremulo e humilde raio de luz, coado a custo
por entre duas nuvens, se estuda e está o segredo do brilho immenso e
inefavel que innunda as alturas, se vê patente o misterio da maior
gloria dos esplendores celestes. No gemer da onda indolente, que se
espreguiça no areal, e nem assusta o folgar descuidoso d'uma creança,
está a voz do oceano, a sua ancia, o porque de suas luctas, o motivo de
tantas tempestades, tantos brados, tamanhas convulsões--. No que agita o
peito do mais humilde e desconhecido dos homens está o segredo de
anciedade, do desejo infinito, que commove os universos, o verbo do
movimento que arrasta os imperios como os mendigos, as folhas do outomno
como os astros do espaço--está a palavra do ser, a origem e o fim, Deus!
Sim. Esse Deus buscado em vão na vastidão dos ceus desertos, que não
revela a immensidade desoladora e fria, eil-o em fim que o vemos
concentrado no fundo da consciencia, dormitando, mas em movimento, mudo,
ao parecer, mas murmurando sempre, como um canto de lendas misteriosas,
o oraculo successivo dos Destinos! É o Deus da humanidade; a parte do
ser eterno, que se move n'ella, que a firma, que é ella mesma. Jehová,
Brama, Sabaoth, Allá, Christo, por grandes, por luminosos que pareçam,
não são mais que as sombras projectadas sobre a terra pelo vulto d'esse
grande desconhecido--degraus da escada do desejo que essa alma sobe no
caminho do seu Fim. É a luz, que nos sae de dentro, e diante dos nossos
olhos se agita, convidando-nos a seguil-a em seu correr. É a columna de
fogo do deserto--não aquella trazida de longe e sem se ver a mão que a
trouxe, mas saida do mesmo seio do povo, como que a sua propria alma,
adiante d'elle caminhando. Movemo-nos porque a seguimos; não pelo
capricho de nossos passos. O nosso trabalho o seu brilho nol'o indica,
não é só o lavor escuro de nossas mãos.
Toda a esphera de nossas acções, as maiores, as melhores, fecha-a o
circulo d'aquella lei--que é a nossa mesma.
Nem d'outra lei precisamos. Cumprir a tarefa d'este momento é cumpril-a
na sua fórma rigorosa, correspondendo ao destino d'elle entre todos os
movimentos de que se compõe a duração eterna.--O fim do Homem é ser
homem. E, para o ser, viver segundo a nós, ao nosso fim, que mais se
precisa que seguir a lei humana? É a nossa affirmação. A força que a
determina não lhe vem de fóra, d'alguma mão escondida entre as nuvens
gloriosas d'algum ceu inatingivel. De dentro vem, como as folhas do
lyrio, que se abre, vem todas do botão que as continha em suas dobras,
como todos os suspiros vem do coração que deseja, e não do objecto que
os accorda.
É o seu trabalho quem cria os absolutos que depois a esmagam. Mas a
força primitiva reage; e os espectros caem por terra estalados os braços
com que tentavam suffocal-a.
As revoluções, os cultos, os systemas, as philosophias, as revelações
não são principios exteriores que dominem a historia, de cima, da altura
de suas verdades determinando os sentimentos, os desejos, as crenças, a
vida emfim. Pelo contrario.--São apenas evoluções d'um interior, que os
cria e destroe, e faz o novo templo com as minas do templo antigo, e se
chama Natureza.
O Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu Ideal, a religião da Vida.
V
É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem.
O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida,
move-se--é um Deus progressivo.
O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo
acrescentada) dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai
do seio vasto e fecundissimo. É o culto de um misterio que
descobrindo-se sempre, jamais se poderá ver todo. E a Biblia tem brancas
as ultimas paginas, para que lhe possa cada geração nova escrever lá o
verso d'oiro de cada novo Evangelho que se revelle.
Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho
d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia! É
como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na contemplação do
mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No calix da
flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo--e que
profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o
coração d'um simples?!...
É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma
toda e toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e
quanto paira nas alturas--porque não despreza ninguem. Como Jesus entre
as crianças aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia
lições do mais humilde catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga
bastante para que o povo o commente, quando não acrescente um artigo á
lei. É a religião do movimento--o Colombo dos mundos encobertos do
espirito erecto na proa do galeão, sondando o horisonte com os olhos,
incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na
tripode santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do
Deus vivo: profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas
da bocca da fada legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca
interrompidas da sua revellação--a lei, o ideal humano.