IV

Mas, esse Deus misterioso, que ceu o esconde nos paramos do ceu azul

immensuravel? Que Sinai enubla a sua gloria? O seu altar em que monte o

ergueram os profetas desconhecidos? Que rito é o seu--e em que taboas de

marmore escreveu o fogo de cima a legenda prodigiosa de sua lei? No meio

de nós por entre o tumultuar das gerações passa como o Deus antigo, por

entre os combates da Iliada, e ao longe retumba o echo de suas passadas.

E, emtanto, ninguem o vê. Só de longe a longe, algum profeta desce das

solidões a mostrar ao mundo a palidez de suas faces emagrecidas, seus

olhos cavos e fixos, da fixidez assustadora das visões, como testemunho

de ter entrevisto na sua noite um raio d'essa gloria que o deslumbrou e

consumiu.

É o absoluto que deixa nas mãos do homem, que o tentou prender na sua

fuga eterna, um fio apenas da sua tunica de brilho. Mas esse fio é um

raio de tal luz, que basta a alumiar o trabalho de muitos seculos!

Toma-o nas mãos Moisés, mostra-o ao mundo, e chama-se Jehová. Ergue-o

Mahomet entre os povos e chama-se Alláh. Deixa-o Christo cair do alto da

sua cruz, e chama-se amor. De cima d'uma guilhotina o atira Robespierre

para o meio das multidões e chamam-lhe Direitos do homem e Revolução. E

Hegel, levantando a cabeça de sob as ondas immoveis e tristes da

abstração, lança nos ventos, que a levam ao mundo, esta palavra--Ideia!

O que revela cada profeta não é o Deus eterno, o Absoluto dominador,

entre cujos braços se contém o universo, não confuso e multiforme nas

mil apparencias do relativo, mas na verdade ideal da sua essencia--o ser

puro.--Esse poderia por ventura, afirmal-o a creação toda, os soes e os

insectos, o espirito e a materia; o visivel e o invisivel, o certo e o

possivel, se um dia, esquecendo ao movimento lançar o metal ardente de

suas creações nos moldes da variedade, se precipitasse todo sobre o seu

centro ideal assumindo emfim a consciencia plena da sua universalidade.

Mas o homem não afirma nada mais além da sua mesma alma? E esse vulto

immenso a que ainda chamam Deus, é apenas a sombra do ideal humano, que

acha o mundo estreito e se alarga pelo espaço. Concebe o absoluto nos

limites da sua relatividade.

Por seus mesmos passos mede o caminho do infinito. E, nos ultimos

limites aonde alcança o seu pensamento, ergue elle as ballizas extremas

do possivel. As religiões são os marcos successivos das mais longas

corridas do seu desejo no caminho do infinito: mas não são o termo

d'essa estrada que se perde nas nevoas do inatingivel e cujos desvios

ultimos pé algum pôde ainda pisar.

É por isso que os Deuses morrem, se succedem e transformam. Vê-se o fim

d'essas eternidades--e o homem que as creára para perder cá a incerteza

do seu transitorio destino, o homem, o seu coração, o seu ideal,

sobrevive-lhes, é elle quem parece eterno ao pé d'esses absolutos

passageiros!

Mas que importa esse Deus que nenhum olhar pôde ainda descobrir no

deserto dos ceus, se d'um ceu interior, tão puro e tão bello, sae para

cada ouvido attento uma voz divina, e uma sybilla misteriosa deixa cair

dos labios palavra a palavra, o oraculo successivo do destino dos homens?

Se a alma cria deuses e, respirando, espalha o infinito em volta de

si--é que lá dentro alguma cousa infinita se concentra e o divino se

esconde para se manifestar dia a dia na revelação constante chamada

Vida. É que o mais humilde d'entre nós dá em seu peito morada a um

grande desconhecido que ali existe, cuja voz grave se ouve a espaços e

nos alumia a face com os relampagos da sua gloria.

Existe com effeito. Que somos nós todos senão uma forma visivel da

essencia infinita--um momento determinado da existencia sem termo--uma

vibração do movimento eterno--uma fase da Lei do todo, chamada aqui lei

humana mas a mesma no ser, com igual fim, igual origem, que nos

determina e de que vivemos? A lei! Protheu prodigioso de mil formas

d'innumeros vultos inesperados em toda a parte diversos, e em toda a

parte o mesmo sempre todavia! Mil faces, e uma só alma! mil braços, e

uma vontade só! por mil caminhos, e um unico o termo da viagem!

Uma d'essas do Protheu é o homem, a lei humana. A parte d'acção que

exercemos no movimento eterno: a hora que nos é dado preencher na

duração sem termo--é isso o que somos, por isso que nós agitamos, o

nosso ser, o nosso misterio. É o Deus, que o universo esconde

revelando-se pela consciencia. E o absoluto que fóra nem podemos

entrever, eil-o vivo e palpitante em nosso coração e debaixo de nossas

mãos, a ponto de o podermos palpar!--A alma da humanidade em cada homem;

e, na humanidade a alma inteira do mundo--.

No mais estreito, no mais tremulo e humilde raio de luz, coado a custo

por entre duas nuvens, se estuda e está o segredo do brilho immenso e

inefavel que innunda as alturas, se vê patente o misterio da maior

gloria dos esplendores celestes. No gemer da onda indolente, que se

espreguiça no areal, e nem assusta o folgar descuidoso d'uma creança,

está a voz do oceano, a sua ancia, o porque de suas luctas, o motivo de

tantas tempestades, tantos brados, tamanhas convulsões--. No que agita o

peito do mais humilde e desconhecido dos homens está o segredo de

anciedade, do desejo infinito, que commove os universos, o verbo do

movimento que arrasta os imperios como os mendigos, as folhas do outomno

como os astros do espaço--está a palavra do ser, a origem e o fim, Deus!

Sim. Esse Deus buscado em vão na vastidão dos ceus desertos, que não

revela a immensidade desoladora e fria, eil-o em fim que o vemos

concentrado no fundo da consciencia, dormitando, mas em movimento, mudo,

ao parecer, mas murmurando sempre, como um canto de lendas misteriosas,

o oraculo successivo dos Destinos! É o Deus da humanidade; a parte do

ser eterno, que se move n'ella, que a firma, que é ella mesma. Jehová,

Brama, Sabaoth, Allá, Christo, por grandes, por luminosos que pareçam,

não são mais que as sombras projectadas sobre a terra pelo vulto d'esse

grande desconhecido--degraus da escada do desejo que essa alma sobe no

caminho do seu Fim. É a luz, que nos sae de dentro, e diante dos nossos

olhos se agita, convidando-nos a seguil-a em seu correr. É a columna de

fogo do deserto--não aquella trazida de longe e sem se ver a mão que a

trouxe, mas saida do mesmo seio do povo, como que a sua propria alma,

adiante d'elle caminhando. Movemo-nos porque a seguimos; não pelo

capricho de nossos passos. O nosso trabalho o seu brilho nol'o indica,

não é só o lavor escuro de nossas mãos.

Toda a esphera de nossas acções, as maiores, as melhores, fecha-a o

circulo d'aquella lei--que é a nossa mesma.

Nem d'outra lei precisamos. Cumprir a tarefa d'este momento é cumpril-a

na sua fórma rigorosa, correspondendo ao destino d'elle entre todos os

movimentos de que se compõe a duração eterna.--O fim do Homem é ser

homem. E, para o ser, viver segundo a nós, ao nosso fim, que mais se

precisa que seguir a lei humana? É a nossa affirmação. A força que a

determina não lhe vem de fóra, d'alguma mão escondida entre as nuvens

gloriosas d'algum ceu inatingivel. De dentro vem, como as folhas do

lyrio, que se abre, vem todas do botão que as continha em suas dobras,

como todos os suspiros vem do coração que deseja, e não do objecto que

os accorda.

É o seu trabalho quem cria os absolutos que depois a esmagam. Mas a

força primitiva reage; e os espectros caem por terra estalados os braços

com que tentavam suffocal-a.

As revoluções, os cultos, os systemas, as philosophias, as revelações

não são principios exteriores que dominem a historia, de cima, da altura

de suas verdades determinando os sentimentos, os desejos, as crenças, a

vida emfim. Pelo contrario.--São apenas evoluções d'um interior, que os

cria e destroe, e faz o novo templo com as minas do templo antigo, e se

chama Natureza.

O Deus da Humanidade é o mesmo homem: e o seu Ideal, a religião da Vida.

V

É a negação do absoluto e, como tal a affirmação do homem.

O Deus sae da immobilidade do symbolo inalteravel: faz-se vida,

move-se--é um Deus progressivo.

O seu dogma (semelhante á fonte nascida da terra e de continuo

acrescentada) dia a dia o vai o tempo completando com tudo o que lhe sai

do seio vasto e fecundissimo. É o culto de um misterio que

descobrindo-se sempre, jamais se poderá ver todo. E a Biblia tem brancas

as ultimas paginas, para que lhe possa cada geração nova escrever lá o

verso d'oiro de cada novo Evangelho que se revelle.

Religião doce e humana, que não despreza uma palavra de creança, o sonho

d'um coração de mulher, o presentimento da mais humilde consciencia! É

como o olho do sabio que se esquece horas sem conto na contemplação do

mais estreito calice d'uma flor sem nome d'esses campos! No calix da

flor, diz o poeta, se encerra a belleza toda do universo--e que

profundos e desconhecidos thesouros de belleza e verdade não guarda o

coração d'um simples?!...

É por isso que esta religião abraça no seu circulo maravilhoso a alma

toda e toda a vida como o sol do meio dia vê quanto rasteja na terra e

quanto paira nas alturas--porque não despreza ninguem. Como Jesus entre

as crianças aprende tanto quanto ensina. Missiona, e recebe todavia

lições do mais humilde catechumeno. O seu decalogo tem uma margem larga

bastante para que o povo o commente, quando não acrescente um artigo á

lei. É a religião do movimento--o Colombo dos mundos encobertos do

espirito erecto na proa do galeão, sondando o horisonte com os olhos,

incitando, animando todos para a conquista do desconhecido. Sentado na

tripode santa da sua inspiração, sente correr-lhe n'alma o espirito do

Deus vivo: profetisa, improvisa de continuo e, como a chuva de perolas

da bocca da fada legendaria, lhe caem dos labios as palavras nunca

interrompidas da sua revellação--a lei, o ideal humano.

A Biblia da Humanidade · 第 8 / 11 题