Este facto unico, aos olhos dos que lêem a historia nas lettras
impalpaveis mas luminosas das ideias, e não nos hieroglificos barbaros e
confusos dos acontecimentos fataes, basta a explicar o misterio que
segue tudo o que depois virá.
A adopção do ideal hebraico pelo genio grego: o christianismo,
misterioso hospede oriental recebido com amor sob o tecto cheio de luz
do Occidente; Jesus sentado entre os philosophos da Alexandria escutado
e applaudido no Agora de Athenas; Christo descendo da sua cruz da Judea
para, subindo ao Capitolio romano, estender os braços e tomar posse do
mundo--este drama da fortuna inexplicada d'um Deus desconhecido, esta
Odisseia das perigrinações da religião d'um mundo, acolhida, amada entre
os cultos d'outro mundo tão distante--que ha em tudo isto d'incrivel? No
dia em que Socrates exclamou «ha um Deus no homem» o primeiro arco da
ponte extraordinaria estava lançado: ficou firme, sustido no fundo do
oceano. Christo completou este caminho maravilhoso, lançou o segundo
arco! Desde essa hora os filhos da Sára oriental podem atravessar de
novo o Mar Roxo a pé enxuto: e a terra promettida, o occidente de doce e
humana luz, cá está para os receber em seu seio vastissimo.
O milagre, o milagre verdadeiro, começara ha seculos--o ideal commum--a
unidade na aspiração. A realisação devia para ambos ser igual. A mesma
prece deve subir ao mesmo céo. Egual desejo devia tarde ou cedo
affirmar-se na mesma realidade. Maria é a irmã das Sybilas... Jesus por
que não será então o irmão de Socrates? As differenças de genio, de
raça, nada são aqui: o ideal commum, isso é tudo. E esse que assentou
sobre a sua solida base a fé eterna da humanidade, a unidade dos
corações, a verdadeira cidade de Deus! O christianismo creou a
humanidade (no grande e verdadeiro sentido da palavra) mas foi a
humanidade toda que o creou a elle, não o genio estreito d'uma raça.
Fundando a unidade divina, construiu a unidade humana mas os elementos
da obra todos é que suscitarem o operario, é que o fizeram.
No dia em que Jesus se chamava a si Christo, n'esse dia deixou de ser
judeu para se naturalizar homem. E o filho do homem--o filho da
humanidade. Do desejo dos dois mundos brotou esse lyrio divino... mas o
perfume que lhe sae do calix não ha templo bastante para o conter! Todo
o ceu é essa cathedral: o templo de Jerusalem, o Parthenon e o Capitolio
são naves, apenas, d'essa egreja universal!