--Protestou o Thomé da Povoa que se o casamento de sua filha com Jorge
dependesse do seu consentimento, elle o recusaria, ainda mesmo quando da
recusa se seguisse a morte para ambos; e que para o não recusar seria
necessario que eu, o pae de Jorge, o senhor da Casa Mourisca, o unico,
segundo o pensar do mundo, de quem deveria partir opposição a essa
alliança, pedisse a elle, Thomé da Povoa, como favor, esse
consentimento.
Thomé fez um signal affirmativo, olhando para a baroneza, para Mauricio
e para Jorge como perguntando-lhes se a tão solemne protesto era
possivel faltar.
--Pois bem--continuou o fidalgo, depois de uma curta pausa, e fechando
os olhos á imitação de quem se prepara a vencer um precipicio, cuja
vista o faz recuar.--Pois bem, sou eu quem peço a Thomé da Povoa... como
favor... que permitta que Bertha seja a esposa de meu filho.
E ao acabar de dizer estas palavras tingiram-se-lhe as faces de uma
vermelhidão intensa.
Thomé fixou os olhos no rosto do fidalgo e leu n'aquelles signaes a
revelação do esforço gigante que elle fizera para conseguir pronunciar
tão nobres e generosas palavras.
Não estava no animo de Thomé resistir mais tempo.
Correu para o leito, ajoelhou ao lado do doente, e pegando-lhe na mão,
exclamou, cortada a voz pelos soluços:
--Snr. D. Luiz, v. exc.ª venceu. Digam o que quizerem. O meu orgulho não
dá para mais. Bertha, sê feliz...
O pranto não o deixou concluir, a phrase perdeu-a soluçando sobre as
mãos do fidalgo.
Não faltaram lagrimas e sorrisos aos que presenciavam a scena.
Passada esta explosão de sentimento, Jorge, tomando a mão de Bertha,
disse para Thomé:
--Aceito a felicidade que me offerece, Thomé, e prometto ser digno da
esposa que me confia. Mas á minha propria felicidade sou obrigado a
impôr condições, para que no futuro nenhuma nuvem a perturbe. A nossa
casa não está ainda, como sabe, livre dos encargos que por tanto tempo
pesaram sobre ella. As dificuldades principiam a aplanar-se e a
administração entrou no verdadeiro caminho. E ao seu auxilio e conselho
devo principalmente este resultado. O meu orgulho porém, visto que todos
aqui attendem a orgulhos, o meu orgulho exige que eu só por mim realise
esta obra que emprehendi, que á força do meu trabalho satisfaça os
compromissos contrahidos. Quando receber Bertha, quero recebêl-a em
minha casa, e que se não diga que foi ella quem me abriu as portas
fechadas pela miseria. Por isso esperarei até então para realisar a
minha felicidade.
--Muito bem, Jorge!--exclamou o fidalgo, fulgurando-lhe o olhar de
alegria.
--É justo--concordou Thomé.--Comprehendo esse desejo da sua parte, e
nada tenho a dizer contra.
--Mais ainda--proseguiu Jorge--posso aceitar a esposa que me oferece, e
orgulhar-me d'ella e da alliança com a sua familia, que é honrada e
generosa, mas uma coisa ha que não posso aceitar sem humilhação. É a
parte que pertencer a Bertna da herança paterna. Não quero que se diga
que eu restaurei a minha casa á custa da sua. Até aqui ainda chegam os
meus preconceitos aristocraticos, devo confessal-o.
--Bem, Jorge, muito bem!--bradou o fidalgo--quem pensa d'essa maneira e
assim procede, póde transmittir a sua nobreza, mas não a perde.
--Eu porém é que não posso desherdar minha filha. Essa condição é
impossível--disse Thomé friamente.
--A parte a que tiver direito cedo-a em favor de meus irmãos--disse
timidamente Bertha.
--Teus irmãos não precisam da tua desistencia, Bertha.
--Thomé--insistiu Jorge--sabe que o meu constante pensamento é manter ao
nome de minha familia o prestigio e o respeito que sempre teve na
provincia; não queira annullar os esforços que emprego para o conseguir.
--E quer que eu lhe sacrifique a minha reputação? Que se dirá de mim?
A baroneza, prevendo que as dificuldades cresciam, e que esta lucta de
sentimentos generosos poderia fazer surgir novos obstaculos, entreveio
dizendo:
--As clausulas do contracto são uma circumstancia secundaria e que só na
presença de um tabellião se regulam. Eu por mim não posso aturar taes
discussões, sobre tudo se o noivo toma parte n'ellas. Olhem que frieza
de namorado! Deixemos isso tudo para depois.
--Diz bem v. exc.ª--apoiou a Anna do Védor--o tudo é que elles casem, e
depois os homens que deslindem lá esse negocio do dinheiro como
quizerem. Mas sempre lhes digo que oiçam um advogado para não fazerem
tolices. Mas o fidalgo! O fidalgo é que sempre a deu em cheio! Sim
senhor! Nunca o esperei! Quem d'antes lhe fosse dizer... Mas bom foi e
verá como até nosso Senhor lhe ha de dar saude. E vossemecê, Luiza, que
diz a isto? Ande lá, que teve um sancto a pedir por si. Eu bem lhe
disse, mulher: cara alegre e confiança n'aquelle que está lá em cima. E
aqui para nós, talvez que a mim deva alguma coisa. E tu, rapariga?
Apesar de me engeitares o Clemente, olha que não te quero mal. Não
quero, porque eu se estivesse no teu logar, faria o mesmo. E o Thomé
ainda com o nariz torcido! Ó homem de Deus, vossê que mais quer? Sempre
a gente! louvado seja Deus!
Mauricio aproximou-se de Anna sorrindo:
--Já que vae correndo a roda, venha lá a minha ração.
--Que queres que eu te diga? Cuidas que por estares casado me mereces
mais aquella? Olha agora! O que me admira é que houvesse quem te
quizesse. Perdoe-me a senhora, mas não lhe gabo o gosto. A seu tempo
conhecerá a joia. Lá aquillo é outro barro.
E apontava para Jorge.
Todos riram das francas observações da desenganada matrona.
E emquanto D. Luiz conversava com Bertha, Jorge com Thomé, e Mauricio e
a baroneza com Luiza e Anna do Védor, assomou á porta a cabeça de frei
Januario, que ficou espantado de achar tanta gente reunida no quarto do
fidalgo.
--Ha alguma novidade?--perguntou elle inquieto.
Foi a Anna do Védor quem lhe respondeu:
--Ha, sim senhor. E póde já preparar-se, porque não lhe faltará que
fazer qualquer dia. Case-me bem estes noivos, ouviu?
O padre olhou espantado para os circumstantes.
--Quê? Pois então?...
--Estão vencidos os obstaculos--respondeu a baroneza á incompleta
pergunta.
--Ah!--observou apenas o padre.
E pensava comsigo:
--Digam lá que não anda n'isto a maçonaria!
O resto do dia passou-se pacificamente. D. Luiz dormiu com socego e deu
mais algumas esperanças aos que o rodeavam.
Não havia alli coração que não encerrasse um fermento de felicidade.