O antigo solar da familia da baroneza, chamado a Casa dos Bacellos, como
que ao despertar de um somno de muitos annos, abrira á luz do dia as
suas amplas janellas, reacendêra o fogo nos lares apagados, e restaurára
o movimento e a vida nos aposentos vazios.
Era a primeira vez, depois do seu casamento, que a baroneza voltava aos
sitios onde lhe corrêra a infancia, cujas suaves memorias ainda os
povoavam. Ao vêr de novo aquellas velhas paredes e aquellas arvores
frondosas, ao seguir pelos extensos corredores, ao penetrar nas
espaçosas salas e nos mais retirados gabinetes da casa, Gabriella, ainda
que pouco propensa a melancolias, não pôde subtrahir o espirito a uma
impressão de saudade.
Vestigios mal apagados d'aquelle tempo longinquo a cada passo lh'o
relembravam; alli fôra o theatro dos seus brinquedos e jogos, além
estava um objecto ao qual se prendia a reminiscencia de uma provação
infantil, aquelle era o logar favorito de seu pae, acolá desenhava-lhe
vagamente a sua recordação a imagem da mãe, que perdêra em criança, e
dominada por esta influencia, Gabriella suspirava e conhecia que ainda
não morrêra de todo em si o coração provinciano.
Mas uma tal disposição de espirito não podia durar muito. A baroneza era
uma mulher de acção, e não se esquecia de que tinha muito em que pensar
e que fazer em virtude dos acontecimentos ultimos da Casa Mourisca.
Não eram sómente as canceiras de dona de casa, que deseja accommodar
convenientemente os seus hospedes, que a preoccupavam, mas tambem, e
mais ainda, o desejo de restituir áquella familia a harmonia tão
inesperadamente interrompida e de reconciliar o irritado fidalgo com o
filho, que pelo seu nobre proceder incorrêra no desagrado do velho.
Gabriella tomava devéras a peito esta pacificadora empreza; mas para
isso era ainda cêdo. A paixão ensurdecia ainda muito D. Luiz, para que
lhe fosse possivel escutar conselhos.
Na manhã immediata á noite da installação solemne da familia de D. Luiz
na casa dos Bacellos, Gabriella foi procurar Jorge ao pavilhão no fundo
da quinta, onde elle desde a vespera se alojára, longe dos olhares
paternos.
A baroneza tinha sabido de frei Januario tudo o que se passára entre D.
Luiz e Bertha á porta da quinta de Thomé, e desejava fallar n'isto ao
primo.
Jorge recebeu-a com umas apparencias de serenidade, que não eram de todo
sinceras.
--E meu pae?--foi a primeira pergunta de Jorge, depois das palavras de
comprimento.
--Um pouco menos affrontado, depois que realisou uma ideia cavalheirosa
e vindicou, como entendeu, a sua dignidade aristocratica.
--Pois que fez elle?
--Foi entregar pessoalmente as chaves da Casa Mourisca nas mãos do Thomé
da Povoa. O frei Januario contou-me tudo. A aristocracia é assim em toda
a parte. Tem a cabeça cheia de tradições da idade media e por ellas se
regula. Procura sempre dar ás suas acções uma feição dramatica, e sempre
que o consegue, sahe desopprimida de qualquer situação apertada.
--E Thomé aceitou-as?
--O Thomé não estava em casa. A entrevista teve logar á porta da Herdade
entre o tio Luiz e Bertha, a heroina de toda esta historia, e a
proposito....
--Perdão, mas... o que se passou n'essa entrevista?
--Pelo que me disse o padre, correu muito sentimental ao principio. A
vista de Bertha recordou ao tio a imagem de Beatriz e commoveu-o a ponto
de chorar. A rapariga parece que lhe disse algumas coisas ternas, que
acabaram de o sensibilisar; abençoou-a, beijou-a e quasi se ia
esquecendo do que o levára alli, mas de repente recordou-se e fez a
entrega das chaves com uma gravidade igual á de Martim de Freitas, cuja
vaga recordação foi o que provavelmente lhe suggeriu a ideia da scena.
Tu sorris? Olha que é o que te digo. Eu conheço os achaques d'estes
nobres. Os mais serios e ajuizados são perdidos por umas coisas assim.
Se em uma occasião de crise tiverem um dito sentencioso, uma acção, um
gesto dramatico d'estes que se tornam proverbiaes, ficam muito
satisfeitos e resignam-se ás consequencias da crise. O certo é que as
chaves lá ficaram.
--Thomé por certo lh'as restitue.
--Póde ser, mas é peior. Teu pae socegará, sabendo que as chaves estão
nas mãos de Thomé. Então que queres? É uma puerilidade que se deve
respeitar. O acto em si, olhado á luz da actualidade, não tem o minimo
valor. Bem sabemos. Mas visto como o tio Luiz o vê, illuminado pelo
crepusculo dos bons tempos passados, é um desforço e uma acção fidalga,
capaz de o desaffrontar perante os seculos passados e futuros. Mas vamos
ao que importa. Em toda esta historia figura o nome de uma mulher. Ora é
sabido que nos attribuem sempre as primeiras honras no travar e
complicar da acção dos differentes dramas e comedias da vida; por isso,
com quanto o papel de Bertha se nos tenha apresentado até aqui como
secundario, ninguem me tira da ideia de que ella é a figura principal da
historia. Que te parece, Jorge?
Jorge, evidentemente enleiado pela reflexão da baroneza, respondeu:
--Bem vê que não é. A prima está já ao corrente de tudo, póde portanto
julgar da parte da acção que cabe a essa rapariga.
--Estou ao corrente de tudo? Isso é que eu não sei. Mauricio tem por
ella uma grande paixão, ao que parece.
--Não creio--acudiu Jorge vivamente.
--Como se explica então que, sendo elle tão teu amigo, se irritasse por
uma errada interpretação dos teus actos, a ponto de estar imminente uma
acção tragica, de que nem quero lembrar-me?
--Ora essa! Então não conhece o genio de Mauricio?--tornou Jorge quasi
impaciente--Os primeiros movimentos são n'elle sempre impetuosos.
Aquelle rapaz não se conhece. A cada instante se engana comsigo proprio.
Anda persuadido ha certo tempo de que ama Bertha, e essa persuasão é tal
que dá logar a scenas como essa que sabe.
--E porque dizes que não a ama?
--Porque o conheço e porque o tenho visto amar assim muitas mulheres.
--Uma serie de amores verdadeiros, é o que se conclue d'ahi;
verdadeiros, mas curtos.
Jorge sorriu.
--Parece-me que não acreditas que sejam verdadeiros os que são curtos?
Tu amarias sempre, se amasses?
--Creio que sim. Ou pelo menos, quando visse acabar um amor, dizia
commigo: enganei-me, não era amor ainda.
--Sympathica theoria, mas não sei se muito aceitavel. Porém quem te diz
que Mauricio não se fixaria d'esta vez? E olha que não seria uma má
resolução da vossa crise. O Thomé julgo que está em condições de ser um
sogro salvador, assim não houvesse a prevenção do tio Luiz.
--D'essa maneira não quereria eu nunca regenerar a nossa casa--replicou
Jorge gravemente.
--Ah! tambem tens d'esses escrupulos? Pois olha, filho, é o processo
hoje mais seguido.
--Bem sei, mas em um homem acho-o ignobil.
--Não havendo amor, concordo; mas quando o amor absolve a alma...
--Mais honra haveria em vencêl-o.
--Esta provincia é um terreno onde as velhas plantas duram eternamente.
Não ha vento revolucionario, nem corrente de ideias novas que as
derrubem.
--Mas deve confessar que são bellas e boas arvores essas!
--Algumas; outras são inuteis e damninhas, e fariam muito bem se
cedessem o logar a melhor e mais productiva cultura. Agora outra
pergunta: e Bertha ama a Mauricio?
Jorge córou a esta pergunta e evidentemente contrariado respondeu
apenas:
--Talvez.
A baroneza ia a insistir, quando o colloquio foi interrompido pela voz
do padre procurador pedindo licença para entrar.
Frei Januario entrou tossindo e assuando-se de uma maneira particular,
que para quem o conhecesse era indicio claro de uma grave preoccupação
de espirito.
--Então, snr. frei Januario, como se tem dado n'estas
ruinas?--perguntou-lhe a baroneza com a amabilidade de dona de casa.
--Excellentemente, minha senhora. Então até direi a v. exc.ª que ha
muito tempo não dei com um cozinheiro que melhor atinasse com o meu
paladar.
--Sim? O Gavião merece-lhe esse conceito? Se o rapaz o sabe! É capaz de
se me estragar de vaidade. Não o gabe na presença. Recommendo-lhe toda a
discrição, snr. frei Januario. Olhe lá.
--Mas é que é verdade o que eu digo. Que lhe pareceu a v. exc.ª aquelles
bifes hoje ao almoço? Olhe que aquelles bifes!... Não lhe digo nada! O
rapaz é geitoso. Mas deixemos isso. Tracta-se de uma coisa que me dá
cuidado.
--Então que é?--perguntou a baroneza, recostando-se--Não quer sentar-se,
snr. frei Januario?
O padre puxou uma cadeira, sentou-se e tornou a tossir e a assuar-se.
--O snr. D. Luiz--disse elle, interrompendo-se a cada momento--emfim...
eu ha tempos a esta parte ando assim a modo de doido....
--Vamos, snr. frei Januario, solte a grande novidade que nos traz
debaixo do capote. Depois fará os commentarios, que entenderemos e
apreciaremos melhor.
--O snr. D. Luiz chamou-me ha poucos momentos ao seu quarto para me
dizer... para me ordenar....
--O quê?
--Para me confiar de novo a procuração que me retirára, e ordenar-me que
participasse isto mesmo ao snr. Jorge para seu governo. Emfim....
--Cumpra-se a vontade de meu pae--disse Jorge--e Deus permitia que elle
tenha motivos para se applaudir por ella.
--Eu fazia melhor conceito do bom senso do tio Luiz--observou
francamente a baroneza--confesso que fazia. E o snr. frei Januario
acha-se com forças de desenredar esta meiada, embaraçada como está?
--Pois ahi é que bate o ponto--acudiu o egresso.--Eu... é verdade que
por mais de vinte annos dirigi estas coisas e, se mais não fiz, foi
porque os tempos eram o que nós todos sabemos. Mas, depois que o snr.
Jorge tomou conta disto, perdi o fio da meiada, entende v. exc.ª? Eu
tinha cá o meu systema e por elle me guiava. Agora porém venho encontrar
as coisas todas mudadas e... emfim, póde ser que estejam muito bem, não
digo menos d'isso, mas eu é que não as entendo. Para pôr tudo outra vez
no pé de d'antes, isso leva um tempo dos meus peccados; para continuar
no caminho em que isto vae, era preciso ter muito trabalho e a fallar a
verdade, já não estou na idade d'isso.
--E então que tenciona fazer?
--Eu sei? O fidalgo não ha quem o convença. Credo! Vão lá hoje
contrarial-o na mais pequena coisa! Vae tudo pelos ares! Por isso, a mim
lembrava-me....
--O que lhe lembra, snr. frei Januário?--perguntou Gabriella, fitando-o
com olhar penetrante.
--Lembrava-me dizer ao fidalgo que sim senhor, que tudo se havia de
fazer como elle mandava, que eu me encarregaria da direcção da casa,
mas, por baixo de mão, continuar o snr. Jorge a levar as coisas lá pelo
seu systema.
--E quer tomar sobre si a responsabilidade dos meus actos, snr. frei
Januario? Repare bem. Já sabe a que portas costumo ir bater, quando
preciso de capital, e quaes os meios que adopto. As suas crenças e
opiniões devem soffrer com isso.
--E a mim que me importa?--tornou o padre impaciente--A final de contas,
a casa é sua e não minha. O mal que fizer mais o ha de sentir do que eu.
--Não depõe muito a favor da sinceridade do seu affecto á minha família
esse dizer. Eu queria antes vêl-o oppondo-se energicamente á
administração viciosa que principiei.
O padre não tinha coragem para tomar conta da gerencia da casa sob a
inspecção de Jorge, a quem tomára um mêdo excessivo; tentava porém
colorir airosamente a proposta que alli viera fazer.
A baroneza interpellou-o muito terminantemente.
--A sua posição n'esta casa, snr. frei Januario, e as exigencias moraes
do seu caracter e da sua missão traçam-lhe distinctamente o caminho que
deve seguir. Ou entende na sua consciencia que póde fazer mais e melhor
do que Jorge, e n'esse caso deve obedecer ao tio Luiz, ou tem a
convicção contraria e só então é admissivel a sua proposta, mas depois
de confessar com franqueza e lealdade o motivo d'ella.
O padre torceu-se, balbuciando:
--Eu não digo... isto é... quero dizer... no estado em que as coisas
estão... no pé em que as puzeram.... Sim... cada qual tem lá o seu
systema... e eu... sim, v. exc.ª bem sabe....
--Deixemo-nos d'isso. Claro, claro. Notou alguns defeitos na
administração do primo?
--Defeitos... defeitos... não digo defeitos....
--Mereceu-lhe alguns reparos? Seja franco. Não se admittem palavras
ambiguas.
--Não, minha senhora, eu não tenho reparos a fazer... quero dizer....
--Achou-a boa?
--Sim... achei... isto é....
--Parece-lhe que não é capaz de fazer melhor?
--Não tenho vaidades....
--Tem medo de estragar o bem que está feito?
--Todos podem errar... emfim....
--Temos entendido. Parece-me que Jorge, em vista d'isso, não discordará
do seu parecer. Não é verdade, Jorge?
--Custa-me continuar a trabalhar clandestinamente; mas não me eximo a
esforço algum para salvar a minha casa.
--Muito bem; agora o snr. frei Januario póde dizer ao tio Luiz que se
cumprirão as suas ordens, e o mais que terá a fazer é assignar, sem lêr,
alguns papeis que por ventura sejam necessarios, isto nos primeiros
dias, porque eu confio ainda na boa razão do tio. E agora côma, beba e
durma, e deixe correr o mundo, que ha de correr para bom lado.
O padre retirou-se mais desafogado, mas pouco satisfeito com os modos da
baroneza, que o obrigaram a despir-se de toda a diplomacia e a confessar
a sua inaptidão administrativa.
*FIM DO PRIMEIRO VOLUME*