Duram pouco as effusões, dissipa-se em breve o enthusiasmo dos primeiros
instantes, em que tornamos a vêr scenas e pessoas conhecidas, de que por
muito tempo vivemos separados. A alma, de subito agitada, readquire
gradualmente a serenidade do costume; e o coração, que julgava saciar
emfim a ancia de mal definidos gozos em que continuamente vive, conhece
que ainda não chegou essa hora; porque o invadem de novo as mesmas vagas
e inquietadoras aspirações que sentia.
É grande a alegria do regresso, mas rapidos os momentos, em que se
experimenta na sua intensidade. Chegou-se de longe a phantasiar um
prazer perduravel, sem fim e, apoz as primeiras e irreprimiveis
expansões, desvanece-se a illusão em que se vinha; como sempre, como em
toda a parte, o vazio sente-se no coração, que nenhum gozo enche, e ahi
se volta a aspirar sem saber a quê, e a aguardar uma nova aurora sem
saber d'onde.
Quando, á noite, Bertha se retirou emfim ao seu antigo quarto, havia já
satisfeito a sêde de affectos e de saudades, que a devorava, ao chegar.
O coração batia-lhe com o rithmo normal, habituára-se de novo a sua
sensibilidade aos objectos que lhe foram familiares na infancia; da
impressão que o primeiro olhar que lançou sobre elles lhe produzira, já
nem indicios restavam.
O passado, resuscitando, perdêra já o prestigio e a poesia, que só como
passado tem.
Ó feiticeiras fadas, que nos acompanhaes quando por longe andamos,
devorados de saudades, a lembrar-nos da terra em que nascemos, porque
tão depressa nos abandonaes á chegada? Porque dissipaes os vapores
inebriantes de que rodeaveis aquellas imagens aos nossos olhos
fascinados, e nos fazeis vêr a realidade como a viamos d'antes?
Bertha, só no remanso e solidão do seu quarto, sentiu uma profunda
melancolia tomar-lhe o coração. Os cuidados e disvelos de Thomé e de
Luiza não tinham sido sufficientes para transformar completamente
aquelle aposento em um d'esses recintos, perfumados e graciosos, em que
respira, como em atmosphera propria, uma mulher delicada.
A este desconforto relativo não podia ser de todo insensivel a
organisação feminil de Bertha.
Sem que ella propria tivesse consciencia do que lhe produzia esse
effeito, sentia-se com uma disposição para lagrimas, que a surprendia.
O socego da hora, o silencio do campo, apenas cortado por uns
indistinctos murmurios, que são o mysterio das noites campestres,
conspiravam para augmentar-lhe esta melancolia.
Ha horas assim, em que parece que sentimos confranger-se dentro de nós o
coração, e o futuro escurecer e contrahir-se o circulo que nos abrange a
existencia, como um horizonte, que as nuvens pesadas da tempestade
estreitam cada vez mais a suffocar-nos.
Não accusem Bertha por esta inexplicavel tristeza que lhe invadiu o
coração na propria noite, em que voltára á casa paterna. Não duvidem por
isso dos affectos d'aquella amoravel indole de mulher.
Nem todas as almas nascem dotadas da commoda flexibilidade com que
algumas a tudo se amoldam. Ha-as tão delicadas, que a menor mudança
resentem.
Os corações que se prendem depressa com raizes onde se demoram, são os
que mais soffrem nos primeiros momentos de uma transplantação.
Não era isto em Bertha pezar por ser tão modesta a casa dos seus paes; a
sua tristeza era mais de instincto que de razão. E pelas impressões que
vem do instincto, ninguem é responsavel; só á razão ha direito de pedir
contas, e a de Bertha não recearia prestal-as.
Como para fugir á estranha melancolia que a dominava, Bertha chegou á
janella do quarto, que deitava para os campos.
Ha uma mysteriosa solemnidade no espectaculo que de noite, e noite de
pouca luz, se goza assim de uma janella aberta, no campo. Ha fóra um
silencio que amedronta, uma escura vastidão que apavora, silencio que ás
vezes interrompe o rastejar furtivo de um reptil, o cahir de uma folha,
e não sei que outros ruidos vagos; escuridão, onde parece distinguir-se
o movimento de umas fórmas estranhas e monstruosas.
Se vos demoraes silenciosos n'essa contemplação por algum tempo, já não
a interrompereis por uma palavra, por um movimento, sem que essa
interrupção vos sobresalte ou intimide quasi. Estremecereis ao ouvir-vos
no meio d'aquelle silencio. Instinctivamente falla-se baixo. Parece que
aquella paz, que aquella quietação, que aquella treva nos absorve, que
nos domina, que nos attrahe e que de alguma maneira nos faz parte
integrante de si mesma.
Opera-se em nós uma quasi magnetisação. Adormece a sensibilidade que nos
revela o mundo exterior; exalta-se o espirito; e o ruido, que nos acorda
d'este sonho, faz-nos estremecer. E o que se pensa calado n'esses
momentos, Sancto Deus! Como a imaginação vagueia, como parece que
d'aquellas confusas sombras, que temos diante de nós, nos surjem as
memorias do passado e veem, em silencioso vôo, adejar sobre as nossas
cabeças e estontear-nos com as suas rapidas e vertiginosas voltas.
O passado de Bertha era uma singela historia dos mais innocentes
affectos. Não havia n'ella a intensa luz dos amores, apenas o debil
clarão da aurora que os precede, essa mysteriosa vibração de alma, que
sente nascer em si faculdades novas.
Eram pois imagens apraziveis as que n'aquelle momento lhe appareciam.
Entre ellas a mais persistente era a da sua pobre amiga Beatriz, a
delicada criança, que parecia ter vivido sómente para semear de saudades
o coração de quantos a conheceram.
Reviviam para Bertha n'aquella hora todas as scenas da infancia passadas
com ella; os jogos, os folgares e até as lagrimas, choradas em commum.
Que tempos!
E ao lado da meiga e pallida figura de Beatriz surgiam as das outras
duas crianças, seus irmãos. Via o rosto infantil de Jorge, no qual já
então havia uns assomos da seriedade do seu caracter futuro; lembrava-se
Bertha das vezes em que elle tomava um ar grave para admoestar ou
reprehender os seus mais turbulentos companheiros, e do respeito que
todos lhe tinham, e do muito em que estimavam a sua opinião; e a
contrastar com esta serena imagem, esboçava-se a do inquieto, vivo e
estouvado Mauricio, criança prompta nos risos e no chôro, violenta nas
expansões, tão amoravel como colerica, e em cujo coração infantil
ferviam já nascentes as paixões de homem. Era esta talvez de todas a
imagem que avultava mais distincta nas recordações de Bertha. Que de
episodios em que ella recebia a luz principal do quadro! Dos dois irmãos
fôra este o predilecto; o seu coração de criança abrira-se mais á
franqueza de Mauricio, do que á seriedade de Jorge; havia no olhar
d'este uma expressão grave que a intimidava. Depois a differença da
idade concorria para augmentar esse effeito.
E Bertha, pensando n'isto tudo, erguia os olhos para o vulto da Casa
Mourisca, onde se tinham passado aquellas alegres scenas.
Era escuro todo elle, e parecia alli posto, como um d'estes monstros
enormes, que guardavam os jardins encantados.
De repente o monstro abriu um olho.
Appareceu uma luz em uma das torres do palacio.
Era a unica que divisava em toda aquella escuridão.
Bertha não pôde mais desviar os olhos d'ella.
De quando em quando, desapparecia momentaneamente a luz, como se alguem
passeiasse diante. Depois fixou-se, e sómente mais de espaço a espaço se
eclipsava, para surgir mais viva.
Tudo parecia indicar que se velava alli dentro.
--Será o snr. D. Luiz?--perguntava a si mesmo Bertha, observando a
luz.--Em que pensará elle a estas horas? Pobre velho, alli só, n'aquella
casa deserta!... É em Beatriz de certo que pensa como eu... Ou, quem
sabe? talvez não seja o fidalgo, mas algum dos filhos; Mauricio,
provavelmente... Sim, alli deve ser o quarto d'elles...
E a imagem do mais novo dos filhos de D. Luiz entrava outra vez no campo
da visão de Bertha.
As palavras que trocára com elle aquella tarde, a maneira como a olhára,
e o que o pae depois lhe dissera a respeito do rapaz, tudo a fazia
reflectir.
Adivinharia Thomé com o seu bom instincto de homem do campo?
Haveria para o coração de Bertha perigos na presença de Mauricio?
Era tão natural! Em uma alma, preparada para o amor, e que, á similhança
da noiva nos livros sagrados, espera ha muito, perfumada de mirrha e de
puros aromas, o noivo que tarda; encontra tão facil asylo a imagem de um
adolescente, como Mauricio, sobre tudo se o rodeia o prestigio das
saudades de um passado ridente e o vago reflexo que sempre deixam de si
umas pueris paixões, com que se illudiu a infancia, que razão tinha
Thomé para receios e razão tinha Bertha para, pensando n'elles, sondar
com inquieta apprehensão o sanctuario dos seus mais intimos affectos.
Prolongou-se esta contemplação em Bertha, e succederam-se-lhe no
espirito os mais diversos pensamentos, emquanto os olhos se fixaram na
luz da Casa Mourisca. Só muito tarde desappareceu subitamente essa luz.
Bertha, como acordando de um sonho, voltou-se então para o interior do
quarto, do qual lhe parecia haver andado longe em todo aquelle tempo.
A vela, quasi gasta, que tinha ao lado do leito, mostrava-lhe o muito
que, sem o sentir, se prolongou aquella sua abstracção.
A vista dos objectos do quarto evocou-a á realidade. Passou as mãos pelo
rosto, como para desviar de si a sombra dos graves pensamentos que a
opprimiam, sacudiu a cabeça suspirando, e procurou serenar o espirito,
para dormir.
--É necessario ter juizo--murmurava ella, soltando as tranças--e soprar
quanto antes estes nevoeiros que me rodeiam, para vêr, como elle é, o
sol da realidade. É tempo de me deixar de loucuras, e de aceitar a vida
que tenho a viver, como ella deve ser aceita por uma mulher como eu. Os
annos de criança passaram.
E adormeceu n'esta prudente e ajuizada resolução.
Assim como a luz, que, por entre as trevas da noite, rompia de uma das
janellas da Casa Mourisca, tivera quem a observasse e prendesse a ella
uma longa serie de pensamentos; tambem a do quarto de Bertha não se
perdêra no espaço, sem encontrar uns olhos que lhe recolhessem alguns
raios na passagem.
Jorge era quem velava no unico aposento alumiado do velho solar do
fidalgo.
Costumava prolongar a sua leitura e os seus estudos por altas horas da
noite, interrompendo-os de quando em quando por demorados passeios no
quarto, ou melhor diremos, continuando-os assim.
Era d'elle o vulto que Bertha via passar por diante da luz, occultando-a
momentaneamente.
Esta noite havia porém mais agitação em Jorge do que lhe era habitual;
os seus movimentos tinham o que quer que era nervoso e quasi febril;
concentrava menos o espirito na leitura, e interrompia-a mais
frequentemente.
As vigilias de Mauricio não eram mais curtas do que as de Jorge, mas
consagravam-se a differente mister; gastavam-se em aventurosas
digressões pelos montados e valles da aldeia, em visitas aos solares das
circumvisinhanças, onde houvesse uma mesa de _wist_ ou um canto de
fogão, animado pelo sorriso das damas.
Quando voltava a casa, vinha ainda encontrar o irmão estudando, e era de
costume d'elles passarem alguns momentos a conversar.
N'aquella noite, Mauricio recolheu-se muito tarde. Ao sentil-o, Jorge,
que passeiava no quarto, sentou-se depressa á banca, e inclinou a cabeça
sobre um livro que tinha aberto diante de si.
Á entrada de Mauricio, Jorge apenas lhe acenou com a mão, e proseguiu ou
fingiu que proseguia na leitura que encetára, até terminar a pagina.
--Boas noites, nigromante--saudou-o Mauricio.--A estas horas, n'esta
torre, á luz mortiça d'um candieiro e com um livro aberto diante de ti,
representas admiravelmente um astrologo.
Jorge apenas lhe respondeu com um sorriso e continuou a folhear o livro.
Mauricio chegou-se á janella:
--Mas é preciso, de quando em quando, examinar as estrellas tambem. E
ellas hoje que estão tão scintillantes! Ah! grande novidade no nosso
firmamento! Graças a Deus que, além de nós, ha já mais alguem na aldeia
que não dorme a estas horas!
Jorge fechou o livro, e foi ter com o irmão á janella.
--Que queres dizer?--perguntou aproximando-se.
--Que descobri um planeta novo! mais uma luz na aldeia!
--Uma luz?!
--Sim, e é em casa de Thomé.
Jorge fitou a luz com certa curiosidade e conservou-se algum tempo
calado; depois murmurou:
--Thomé ainda de vela a estas horas! É singular!
--Faz-lhe mais justiça--tornou Mauricio.--Thomé dorme ha boas quatro
horas. A gente do campo é incapaz do extravagante delicto de
escandalisar com luz as trevas da noite. N'aquillo percebem-se vestigios
de habitos cidadãos. Quem vela é a filha, com certeza.
--Ah! sim... Bertha... esquecia-me de que tinha voltado--acudiu Jorge,
esforçando-se por dizer isto em tom natural e indifferente.
--Voltou, e bem outra do que foi!--advertiu Mauricio.
--Em quê?--perguntou Jorge, olhando para o irmão.
--Foi d'aqui uma criança agradavel, e veio uma encantadora mulher!
--Ah! ah; já notaste?--disse Jorge, com um sorriso contrafeito.
--Digo-te a verdade, Jorge. Parecia-me impossivel, ao vêl-a, que fosse a
filha do Thomé. Um ar tão delicado, umas maneiras tão distinctas, tão de
cidade!...
--Olha se te deixas apaixonar por ella; anda lá!--continuou Jorge, ainda
no mesmo tom.
--Não seria prova de mau gosto, afianço-te. Que superioridade, comparada
a todas as nossas primas d'estes arredores! O que é a educação!
Jorge encolheu os hombros, dizendo com certo modo irritado:
--Provavelmente não produzirá em mim os mesmos effeitos. Tenho a certeza
de que hei de sentir saudades, ao vêl-a, da Bertha, que conheci pequena.
--Não duvido, porque és bastante philosopho para isso. Eu por mim
confesso-te que, na idade em que estou e, apesar de toda a sympathia que
tenho por crianças, não me sinto com disposições para repetir as
palavras de Christo, a respeito d'ellas. Eu prefiro que se cheguem para
mim... as grandes...
--Em vez da criança alegre e innocente--proseguiu Jorge com
acrimonia--da criança que brincava comnosco e com a nossa pobre Beatriz,
preferes encontrar a collegial, com o espirito voltado todo para a moda,
com um pouco de geographia e de historia na cabeça e deixando cahir da
bôca, quando falla, palavras francezas, como deitava perolas preciosas a
heroina d'aquelles contos que nos ensinavam em pequenos. E é isto o que
te encanta?... Pois olha, eu até já não gosto de vêr aberta aquella
janella a estas horas. Sabe-me aquillo a romanticismo, e é nas raparigas
uma doença impertinente, insupportavel.
E Jorge retirou-se da janella com um mau humor difficil de explicar.
--Ora! se o facto de uma janella aberta de noite fosse indicio do crime
que dizes, até tu, o homem menos capaz de commettêl-o que eu conheço,
poderias ser tambem accusado. Enganas-te; Bertha é realmente adoravel.
Verás. As mulheres, Jorge, teem isso comsigo. Amoldam-se muito mais
depressa aos habitos de elegancia do que os homens. Com certeza ninguem
suspeitará, ao vêr Bertha, a origem aldeã que ella teve. A mim
parecia-me impossivel que aquella gentil rapariga, que tão airosamente
cavalgava ao meu lado, fosse a filha de Thomé da Povoa e d'aquella
excellente Luiza.
--Ah! pois cavalgaste ao lado d'ella? Já?!--notou Jorge, em um tom de
acerba ironia, que era novo n'elle.
--Sim; encontrei-os na estrada quando chegavam. Não a conheci ao
principio. Aproximei-me, conversei com ella, achei-a encantadora. E
depois tinha no olhar tantas promessas!
Jorge deu em passeiar, evidentemente agitado.
--É o que eu digo--murmurava elle com um sorriso nervoso, e continuou:
--Mauricio, Mauricio; cautela! Cuidado com esse galanteio! Póde ser de
mais sérias consequencias do que as duzias de paixões que tens tido por
as nossas primas d'estes sitios. Essas o peior resultado a que poderiam
conduzir-te era a casar com alguma d'ellas e a enxertar assim no tronco
illustre da nossa arvore genealogica alguma illustrissima vergontea de
uma sêpa igualmente ante-diluviana.
--Ahi estás tu de novo zombando da nossa aristocracia. Desconheço-te,
Jorge. Realmente não sei d'onde te veio essa febre democratica e
philosophica, com que andas ha tempos. Picou-te a mosca revolucionaria.
Jorge acudiu com uma vivacidade, que provavelmente não lhe era inspirada
pelo assumpto:
--Não sabes d'onde me vem? Vem-me de meia hora de reflexão por dia. É o
que basta para me rir da fidalguia de toda esta nossa parentela, que se
deixa devorar por dividas, imaginando que ha em si alguma coisa que
resista á sua inutil ociosidade; e que hão de ficar muito admirados
quando, ao receberem um dia esmola da mulher do seu rendeiro, esta os
não tractar por fidalgos, nem lhes agradecer a honraria de aceital-a.
Outro menos despreoccupado do que Mauricio desconfiaria que na
vehemencia com que Jorge fulminava a incuria aristocratica, havia muito
de facticio; como se procurasse desviar a attenção do verdadeiro motivo
do seu estado nervoso.
--Não estou disposto a discutir a legitimidade das pretenções
aristocraticas. Deixemos isso. Dizias tu que fugisse de me apaixonar por
Bertha. Reconheço a prudencia do conselho. Porque é certo que ha
n'aquella rapariga um não sei quê tão superior ao que por ahi vejo que,
se eu não tivesse de deixar dentro em pouco tempo estes sitios, para...
arranjar um modo de vida... não juro que pudesse ser indifferente
áquelles encantos. Demais ha entre nós recordações de infancia e quer
parecer-me que ella ainda as não esqueceu.
Jorge, sem responder, continuava a passeiar no quarto.
--Mas aquella luz não me sahe do pensamento--proseguiu Mauricio.--Que
estará fazendo a pobre rapariga a estas horas da noite? Não te parece
que está alguem á janella?
--Mal se póde divisar atravez das folhas d'esses castanheiros; mas julgo
que sim.
--Pobre pequena! Alli, só, n'esta aldeia. Está scismando em como poderão
ter realidade as vagas aspirações do seu coração.
Jorge sorriu, e acrescentou com sarcasmo:
--Ou de que maneira ha de corresponder-se com algum Romeu collegial, que
deixou suspirando em Lisboa.
--Estás insupportavel, Jorge.
--Uma experiencia!--exclamou, passados alguns momentos de silencio,
Jorge, voltando á janella, onde permanecia ainda Mauricio.--Tu estás
dando tractos á imaginação para adivinhares qual será o pensamento de
Bertha. Eu aventuro uma supposição. Assim como nós vimos aquella luz,
ella vê esta, e talvez a nossa sombra na janella. É natural que supponha
que para alli dirigimos as vistas, e muito provavel que adivinhe que
fallamos d'ella. Sabendo-se observada, não ousa apagar a luz, por querer
mostrar que tambem prolonga as suas _rêveries_ por noite alta.
--Ora! deixa-me com as tuas observações!
--Queres verificar? Apaguemos a luz e veremos o resultado.
Mauricio condescendeu.
A unica janella alumiada da Casa Mourisca envolveu-se nas trevas da
noite.
Como o leitor já sabe, Bertha, por um motivo differente do insinuado por
Jorge, apagou tambem pouco depois a luz do seu quarto.
--Eu que dizia?--exclamou Jorge, rindo triumphantemente, mas como se
aquelle rir lhe fizesse mal.
--Pois bem; se adivinhaste, tanto melhor--disse Mauricio, despeitado.
--Tanto melhor?!
--Sim. Porque não hei de eu vêr, n'este proposito de acompanhar a nossa
vigilia, uma prova de sympathia pelo companheiro de infancia que hoje
tornou a vêr?
--Ah! ah! Pensas n'isso?
--Porque não? Olha, Jorge, a mulher sem as fraquezas do coração proprias
do sexo não é uma mulher perfeita. Eu, se visse anjos cá por este mundo,
anjos puros, correctos, impeccaveis; tirava-lhes reverente o chapéo,
benzia-me diante d'elles, rezava-lhes uma oração, mas afianço-te que não
os amava.
--Boa noite, Mauricio. Olha que são duas horas.
--Adeus, Jorge.
--Não sonhes com Bertha.
--Não sonhes tu com a arithmetica, que é peior pesadêlo.
E os dois irmãos separaram-se, rindo.
A ambos dominou por muito tempo a imagem de Bertha.
Jorge passou uma noite febril. Tentava desfavorecer Bertha, quanto
podia, no proprio conceito, esforçando-se por convencer-se de tudo
quanto a respeito d'ella dissera ao irmão, para diminuir assim a
impressão, que, a seu pesar, conservava ainda da imagem da rapariga.
Mauricio dera-lhe a entender que Bertha fôra sensivel ao seu galanteio,
e esta ideia torturava o espirito de Jorge.
Pela sua parte, Mauricio tanto lidou com a supposição de que a vigilia
de Bertha lhe fôra consagrada, que adormeceu firmemente convencido disso
e sonhou... sonhou... Oh! quem póde exprimir o longo romance dos sonhos
de um rapaz aos vinte annos e quando possue uma imaginação como a de
Mauricio!
X
Bertha acordou firme no proposito que formára na vespera, de aceitar com
coragem de mulher as suas novas condições de vida, e de entregar-se de
alma e vontade ao cumprimento dos deveres domesticos, soffreando para
isso a indocil imaginação de rapariga.
Mauricio, pelo contrario, estreiou os seus pensamentos d'aquelle dia,
avivando tudo quanto pudesse fazer-lhe lembrar de Bertha, e formando a
resolução de vêl-a e de fallar-lhe.
Jorge levantou-se cêdo, um tanto fatigado pelo inquieto somno d'aquella
noite, e procurou distrahir-se, estudando uma questão agronomica, em que
meditava havia muitos dias.
Veremos o que as diversas disposições de animo d'estes tres personagens
deram de si no decurso do dia.
O aspecto risonho da manhã dissipou as nuvens, que de noite se haviam
accumulado sobre o espirito de Bertha. Já lhe parecia, áquella suave e
vivificadora luz, mais risonha a sua sorte, e não podia perdoar a si
mesma a vaga tristeza que sentira. Auxiliando a mãe nas occupações
domesticas, encontrava n'isso uma distracção poderosa e quasi um intimo
prazer. As caricias dos irmãos commoviam-n'a, e foi já com desassombrada
alegria que, tomando um d'elles ao collo e dando a mão ao outro,
atravessou os campos cultivados, os vinhedos e os lameiros da Herdade, e
foi sentar-se no limite d'ella, junto a uma fonte rustica meia occulta
entre a sebe de rozeiras e estevas, que separava do caminho aquella
parte do casal. E como lhe causava prazer sentir-se humedecida pelo
orvalho, que ainda poisava nos trevos e nas fumarias do chão, e cahia em
gotas limpidas dos cumes das arvores sacudidas na passagem!
Os irmãos corriam a trazer-lhe as rozas e as mais flôres campestres que
iam colher, saltando por entre as searas e nos caminhos de passagem, e
ella entretinha-se a ajuntal-as em pequenos ramos, com que os
presenteava depois.
Entregue toda a esta tarefa, sentia-se tão do intimo contente, que se
pôz a cantar a meia voz a musica de uma cantiga em voga no sitio.
Pareceu-lhe por mais de uma vez ouvir rumor nas balseiras visinhas, mas
julgou-o produzido por algum passaro, agitando-se no ninho occulto nos
silvados, e não lhe deu maior attenção.
D'uma vez porém, em que os irmãos corriam para ella com uma regaçada de
flôres, viu-os de repente pararem enleiados e olharem para a sebe que a
separava da rua proxima. Bertha voltou-se na direcção d'aquelle olhar, e
descobriu Mauricio, que, por uma entreaberta das silvas, a estava
observando.
A filha de Thomé da Povoa levantou-se sobresaltada; e sem poder occultar
de todo a confusão que experimentava com o inesperado encontro,
interrogou sorrindo:
--Estava ahi ha muito?
--Ha alguns momentos, ao que me parece.
--A fazer o quê?
--A vêl-a e a ouvil-a.
--Com tão pouco se entretem!
--Então parece-lhe que não será novo para mim o espectaculo?
--Novo?! Um campo, uma fonte e umas crianças? Ora essa!
--Enumerou os accessorios, e esqueceu-lhe a figura principal, e n'essa é
que está a novidade. Se a Bertha soubesse que genero de figuras
femininas por ahi se me deparam, n'essas bonitas paisagens d'este nosso
bello paiz?
--É muito injusto com as suas patricias.
--Oh! não as lisongeie.
--N'isso interesso eu tambem, bem vê.
--Poupe-lhes a humilhação de comparar-se com ellas, Bertha. Creia que,
indo educar-se a Lisboa, foi para onde a chamavam os instinctos de sua
natureza superior. Seu pae, julgando tomar uma resolução espontanea, ao
mandal-a para a capital, obedeceu, sem o saber, a uma força occulta que
assim o exigia. O seu espirito estava voando para as cidades, onde
sómente encontrava ambiente apropriado.
--Engana-se; vê? Achava-me desterrada alli até, e, desde que voltei,
sinto um bem-estar, que me prova que é esta a minha verdadeira patria,
que estes são os ares, em que respiro á vontade.
--Esse bem-estar não tardará que se transforme em fastio.
--Não, não, não creio.
--Eu é que não creio que possa dar-se bem aqui, privada de satisfazer as
aspirações naturaes a um espirito como o seu.
--Mas, ó meu Deus, que qualidade de espirito me suppõe então? Que
aspirações são essas que diz?
--Ora para que finge ignoral-as? Acaso, diga, a satisfaria a vida da
immensa maioria das tres ou quatro mil pessoas d'este concelho?
--E espero que ha de satisfazer-me.
--E que ha de fazer da sua imaginação? Sim, que ha de fazer d'isto que
se sente na nossa idade, quando se não nasceu Manoel do Portello, ou
Maria da Azenha?
--Perdão, será por eu ter nascido simplesmente Bertha da Povoa, que não
me incommódo com isso.
--Não me entendeu, Bertha. Não havia nas minhas palavras a menor
baforada aristocratica; d'essa ridicula mania não padeço eu, graças a
Deus. D'entre os preclaros membros das casas fidalgas d'estes arredores,
posso assegurar que, apesar dos sete ou oito nomes, com que cada um se
assigna, nenhum experimenta isto que eu dizia. Mas Bertha...
--Olhe, snr. Mauricio. Fallo-lhe com franqueza. Não me supponha o que eu
não sou, ou então não diga o que não sente. Acredite; as minhas
aspirações são tão leves, tão realisaveis! Satisfazem-se com estes
cuidados caseiros; e fóra d'isto, não me sinto bem. Para fazer a vontade
a meu pae, segui a educação que elle desejou que seguisse; mas nunca
senti prazer n'isso; nunca morreram em mim as saudades do campo e dos
trabalhos aldeãos...
--Acredito que hoje aprecie melhor a aldeia, porque tem já sentidos
educados para a poesia que ella rescende.
--A poesia!--repetiu Bertha, com um forçado gesto de desdem, encolhendo
os hombros.
Mauricio percebeu-o.
--Ri-se?--interrogou elle.
--É que ouço fallar ha tanto n'isso, e se quer que lhe falle a verdade,
ainda não pude saber bem o que seja.
--Não sabe o que é a poesia?!
--A que se escreve nos livros sei, mas fóra d'ahi...--disse Bertha,
simulando um tom de completa ingenuidade.
A chegada das crianças, pedindo á irmã que as conduzisse a casa,
interrompeu n'este ponto o dialogo. Bertha despediu-se amigavelmente de
Mauricio, que por muito tempo a seguiu com a vista.
--Será possivel que eu me engane?--pensava elle.--Será a final de contas
uma mulher vulgar, capaz de continuar as prosaicas tradições da familia?
Não creio. Antes é astuciosa e dissimulada. N'esta apparente singeleza
de gostos ha muito espirito escondido. E, ou eu me engano muito, ou não
é indifferença o que ella sente, quando me falla.
E sahiu d'alli, trabalhando n'estes pensamentos.
Bertha, rindo e brincando com os irmãos, pensava tambem:
--Parece-me que alguma coisa conseguiria. É preciso desvial-o d'este
proposito; é preciso que elle se enfastie d'este galanteio; que me
aborreça. Hei de fazer-me bem vulgar, bem ignorante, incapaz de sentir e
de entendêl-o. Que eu não posso ficar pelo meu coração, que ainda não
experimentei. Antes quero evitar o ensejo, antes quero não luctar.
Chamam-me uma rapariga de juizo. Não sei, não sei se o sou, não o posso
saber nem quero. Ás vezes... desconfio de mim... receio... assusto-me.
Sentia-me mais animosa d'antes. Parecia-me tão facil dominar-me!...
Hoje... Não quero, não quero tentar; não quero expôr a tranquillidade do
meu coração. Eu não me sinto senhora de mim mesma, quando elle me falla.
É preciso acabar com isto, antes que augmente.
O dia passou sem outro episodio para Bertha, além da visita de algumas
relações da familia, que vinham festejar a chegada da primogenita do
venturoso casal.
Bertha conseguiu ser amavel com todos, apesar das impertinencias com que
a interrogavam sobre as particularidades da sua vida na cidade.
Luiza não se fartava de admirar as maneiras e a eloquencia da filha, e
não fazia senão alternar a vista entre o rosto de Bertha, que tão grata
perspectiva era para o seu amor de mãe, e o dos seus interlocutores,
onde espiava o reflexo da admiração, de que ella propria se sentia
possuida.
Assim correu o dia.
O principio da noite foi consagrado á familia. Então é que chegou a vez
a Thomé de perguntar, de querer saber, de fazer reflexões sobre o que
ouvia; e Luiza, a sancta mulher, muitas vezes a responder por a filha,
como quem já se achava mais adiantada em conhecimentos do que o marido.
Era já um pouco tarde e Thomé admirava-se da demora de Jorge, a quem
mandára aviso para que viesse aquella noite, porque tinha que
communicar-lhe a respeito de negocios que tractára no Porto e Lisboa.
Ouviu-se porém o ladrar dos cães no quinteiro, o som da aldraba no
portão e em seguida passos no lagedo das escadas, que conduziam ao
patamar.
--Ahi vem o snr. Jorge--disse Luiza para o homem.--Conheço-o já pelo
andar.
--É elle, é; e temos hoje bastante que fallar.
--Eu vou accender o candieiro no quarto--acrescentou Luiza, que sahiu a
preparar a sala das conferencias.
Pouco depois Jorge apparecia na sala, em que ficára Thomé com a filha.
Jorge não era superior a uma occulta commoção, ao entrar alli. Ia
encontrar-se com Bertha. O momento, de que vagamente se temia, chegára
emfim. Achava-se em frente do perigo desconhecido, de que sentia intimas
apprehensões. Era tão forte a sua turbação, que lhe tremiam as pernas ao
transpôr a porta da sala.
Na presença de Bertha, Jorge lançou para ella um olhar rapido, mas
penetrante, e desviou-o logo. O espirito não serenou com o resultado
d'esse primeiro exame.
Jorge reconheceu que o perigo, que tanto temia, era real.
Bertha, prevenida como estava a respeito do genio de Jorge, tão
differente do do irmão, acolheu-o com mais franqueza e menos precauções
do que tivera com Mauricio. Contra Jorge não precisava de acautelar o
coração.
O cumprimento de Jorge foi serio e quasi frio, sem um vislumbre de
galanteio, que se parecesse com as finezas de Mauricio. Apenas disse,
quasi sem olhar para Bertha:
--Bem vinda, Bertha; estimo vêl-a restituida aos seus. Espero que ainda
se lembre de um antigo conhecido.
--Não costumo esquecer-me, snr. Jorge--respondeu Bertha, sem poder
deixar de examinal-o com curiosidade.
Jorge proseguiu no mesmo tom:
--Dizem que se aprende depressa a esquecer nas cidades. Mas quero
acreditar que a sua memoria desmentirá o dito. E que lhe parece agora
esta terra?
E Jorge, fazendo a pergunta, quiz fitar os olhos em Bertha, mas
desviou-os ao encontrar os d'ella.
--A mesma que deixei--respondeu Bertha--a aldeia guarda melhor as
memorias do passado, do que a cidade. Vivem-se annos longe d'ella, e na
volta parece que as mesmas arvores e as mesmas flôres, que nos
despediram, nos dão as boas vindas outra vez. Se alguma mudança ha é nas
pessoas.
--Encontrou mudança n'essas?
E Jorge tentou de novo, mas sem melhor resultado, fitar os olhos em
Bertha.
--Nem podia deixar de ser--tornou esta--para nós não ha estações; as
folhas que vão cahindo, não vem primavera renoval-as.
Jorge pôz-se a folhear, com apparente distracção, um livro que encontrou
sobre a mesa; e a fronte contrahiu-se-lhe levemente, como se tivesse
ouvido alguma coisa que lhe desagradasse.
Bertha continuou fallando-lhe sem constrangimento e olhando-o com a
curiosidade que despertava naturalmente no seu espirito de rapariga
aquelle caracter serio de rapaz.
Thomé propôz a Jorge principiarem os seus trabalhos.
Bertha despediu-se d'elles, e foi ter com a mãe.
--Então que lhe parece a minha rapariga, snr. Jorge?--perguntou o
enlevado Thomé.
Jorge articulou uma pouco intelligivel phrase de louvor.
--Olhe o que é a educação--insistiu Thomé.--Quem ha de dizer que foi
nascida e creada aqui, n'este palheiro e no tempo em que elle era ainda
um pouco peior do que hoje?!
--Ah! sim... a educação... vale muito, mas é preciso que os dotes
naturaes a auxiliem--murmurou Jorge, como se lhe causasse repugnancia o
assumpto da conversa.
--Sim; tambem me parece que se a pequena não tivesse quéda... Mas o que
ella sabe! o que ella leu! o que ella aprendeu! É d'uma pessoa ficar a
ouvil-a uma noite e um dia inteiros, sem querer saber de mais nada!
Um ligeiro sorriso, não de todo despido de ironia, encrespou os labios a
Jorge, que nada respondeu d'esta vez.
Thomé interpretou o silencio do rapaz como uma manifestação dos seus
desejos de entrar no exame das contas e documentos, que tinham para vêr
aquella noite, e por isso abriu a sessão.
Antes porém teve de ir em procura de uns papeis necessarios.
Jorge ficou só por um instante, e deu alguns passeios no quarto.
Aproximando-se de uma mesa que estava proxima da janella, pegou
machinalmente na obra de costura, ahi deixada por Bertha, mas logo a
arrojou de si com impaciencia; depois abriu um livro, que, pelo aspecto
elegante da encadernação, conhecia-se pertencer tambem á filha de Thomé.
Era um exemplar do poetico idyllio de Saint-Pierre, da historia dos
amores de Paulo e Virginia.
Jorge pousou-o sobre a mesa, e voltou-lhe aos labios o mesmo estranho
sorriso, que mais d'uma vez lh'os contrahira n'aquella noite.
--Lê romances--murmurava elle.--A estas horas phantasia-se a heroina de
algum. Está apaixonada por o typo que mais lhe agradou, e busca pelo
mundo a realisação d'esse ideal. A final é o que eu digo. É como as
outras. É uma rapariga da moda, pretenciosa, romantica e um pouco
pedante... É o resultado do systema de Thomé... Fazer viver estas
mulheres em um mundo de phantasia, e trazêl-as depois para a realidade,
que lhes ha de parecer insupportavel!... Triste methodo de formar
esposas e mães!
E ao pensar isto, sentia uma amargura, uma irritação, que elle proprio
não podia justificar.
Depois proseguiu, com crescente malignidade:
--E quem sabe?... Este livro deixado aqui? Seria esquecimento ou
proposito? É natural o desejo de ostentar a sciencia e cultura de
espirito adquiridas no collegio, e ha tão pouca gente no caso de as
apreciar n'esta aldeia, que não admiro que seja eu um dos eleitos.
Emfim, são vaidades de rapariga; e peccado venial para que se deve ser
indulgente. E demais que tenho eu com isso?... Mauricio que averigue, se
quizer. Está no gosto d'elle...
Thomé voltou, e minutos depois estavam ambos em plena conferencia. Notou
comtudo o lavrador aquella noite, que Jorge mostrava-se muito mais
desattento do que de costume.
No meio dos seus exames, distrahiu-os uma voz melodiosa que, em outro
aposento da casa, cantava em tom de acalentar crianças:
Quando uma criança dorme,
Veem os anjos a sorrir
Abrir as portas do céo,
Para Deus as vêr dormir.
--Escute--disse Thomé, apurando o ouvido--é a minha Bertha a adormecer o
irmão.
E Thomé pôz-se a escutar, com fervor paternal.
Jorge, a seu pesar, experimentava um suave encanto ao ouvir aquella voz
juvenil, que continuava cantando:
E um d'elles á terra desce Junto do berço a velar Para longe do menino
Os sonhos maus afastar.
--Então? Não tem uma linda voz a rapariga?--continuava Thomé, olhando
para Jorge, que não respondeu.
A voz continuou:
Dorme, dorme, meu menino,
Que é alegre o somno teu.
E emquanto na terra dormes
Folgam os anjos do céo.
Jorge escutava com mais prazer, do que a si mesmo quereria confessar, o
canto que lhe chegava aos ouvidos n'aquella monotona e melancolica
melopêa de todas as musicas destinadas a acalentar o somno das crianças.
Thomé, esse estava verdadeiramente extasiado. A voz da filha parecia
encontrar um caminho direito para o coração d'aquelle pae extremoso, e
commovêl-o quasi a ponto de lhe ennevoar os olhos com lagrimas
consoladoras.
Quando expiraram as ultimas notas do canto, Jorge levantou-se.
Era tarde já e mais que tempo de dar por concluida a conferencia; mas
n'este movimento de Jorge actuára uma outra ideia.
Elle proprio estranhava o que ia na sua alma n'aquelle momento.
Revoltava-se contra si mesmo, porque se sentia fraco perante os
artificios de uma mulher, contra a qual devia estar precavido; Jorge
suppunha-se persuadido de que Bertha aproveitára de proposito o ensejo
de fazer-se ouvir e de mostrar os encantos da sua voz agradavel e
sonora; tactica vaidosa que muito escandalisava o caracter sisudo do
rapaz. Mas o peior era dizer-lhe a consciencia que, mau grado seu, a
tactica tivera effeito. A prevenção hostil, de que á força queria
armar-se, não era talisman bastante forte para o livrar de encantamento.
Isto principalmente o indignava, sem a si proprio o confessar. Sentia-se
sob o influxo de uma magia, que pensava funesta, mas, como succede
quando em sonhos procuramos fugir a um perigo que nos persegue,
annullava-se o esforço que fazia para quebral-o, e a seu pezar
permanecia no perigo.
Desconhecia-se, sentia uma turbação indefinivel, parecia-lhe que o ar
livre lhe seria salutar. Por isso levantou-se e sahiu. Ao passarem em um
corredor, que conduzia para o exterior da casa, abriu-se a porta de um
quarto, meio alumiado por a froixa luz de uma lamparina, que ardia junto
do berço de uma criança, e por o espaço entreaberto appareceu a figura
de Bertha, com o cabello já meio despenteado e solto, e tendo nos labios
o mais suave e affectuoso sorriso.
--Boa noite, snr. Jorge--disse ella, estendendo-lhe a mão, com uma
expressão de voz cheia de cordial franqueza.
Jorge estremeceu áquella vista inesperada, mas, dominando-se,
correspondeu ao cumprimento, apertando-lhe a mão:
--Adeus; boa noite, Bertha.
--Então o pequeno já dorme?--perguntou Thomé da Povoa, procurando sondar
com a vista a meia claridade do quarto.
--Psiu!--disse a filha, pondo um dedo nos labios--socegou por fim.
Trouxe-o para o meu quarto, porque não deixava dormir a mãe. Boa noite,
meu pae.
E tomando a mão do lavrador, beijou-a com affecto.
--Deus te faça feliz, minha filha--tornou-lhe este, exultando com
aquella simples acção.
E os dois seguiram, cerrando-se logo atraz d'elles a porta dos aposentos
de Bertha e ouvindo-se correr docemente a chave na fechadura.
Jorge, ao vêr-se na rua, aspirou com violencia o ar fresco da noite,
como para libertar-se de uma oppressão que o angustiava. Descobriu a
fronte e seguiu agitado pelos difficeis caminhos que iam d'alli até á
Casa Mourisca.
--Eu estou doido!--murmurou elle--que tenho eu com esta rapariga? Era o
que me faltava! que me entrasse na cabeça uma doidice d'estas! Estou
vendo que não é tão facil ter juizo, como suppunha. Se isto fosse com
Mauricio não admirava! E então uma criança de collegio... provavelmente
estouvada... Ora adeus! Veremos se isto me passa dormindo.
Mas, era singular! aquella rapida vista, insinuada por entre a porta
meia aberta do gabinete castissimo, em que dormia uma criança á meia luz
da lamparina, e aquella gentil figura de mulher, collocada á entrada,
com um dedo nos labios e no rosto um ar de solicitude quasi maternal,
não se lhe tiravam da ideia. Era como a visão de um paraizo que sonhára.
Quando Mauricio, voltando de um baile dado por um proprietario visinho,
entrou no quarto de Jorge, encontrou este, contra o seu costume, sentado
proximo da janella, com a cabeça sobre o braço dobrado, que repoisava no
peitoril, e tão absorto, que quasi não deu pela aproximação do irmão.
Mauricio parou diante d'elle admirado, e interpellou-o:
--Que fazes ahi?
Jorge sobresaltou-se, e respondeu sorrindo:
--Julgo que dormia.
--N'esse caso farei outra pergunta--que vieste para ahi fazer?
--Tinha calor... cancei-me de lêr... vim tomar ar. Ha um instante.
--Ha um instante? Não diz isso aquella luz, que parece de casa
mortuaria. Nada haveria mais natural do que tudo isso, se fosse com
outro; porém em ti é para estranhar a menor irregularidade de habitos.
--Tambem eu me estranho. É certo porém que esta noite não me sinto
disposto para estudar.
--Pois aproveita essas felizes disposições, e descança, descança. Que
diabo! Parece-me que dás á administração da nossa casa mais importancia
do que ella merece. A final de contas sempre é tarefa que o frei
Januario fez durante annos. Se soubesses como a noite está agradavel!
Não esteve de todo má a partida em casa dos Curujães.
--Ah! vens de lá?--inquiriu Jorge, com indifferença.
--Venho, sim. Bastante gente. Venancio cada vez mais parvo. A D. Anna
cantando a _Norma_ da maneira que sabemos. A Ermelinda do Nogueiral, com
a cabeça cheia de fitas, parecia um navio embandeirado; os pequenos do
Antonio Rodrigo estavam perdidos de riso. Quem não está feia é a Dôres,
a pequenita do João Tavares; dois mezes que passem mais por aquella
infancia e estará alli uma bella mulher. Mas que noite tão sombria! Nem
a luz de hontem em casa do Thomé! Hoje nem Bertha nos faz companhia.
Sirva-lhe isto para desconto dos grandes peccados de que a accusas. Está
provado que a vigilia de hontem foi consagrada á prosaica tarefa de
arrumar as suas coisas pelas gavetas e bahus. É verdade, já a viste?...
--Não... Já.
--Não? Já? Que diabo de distracção é essa? E que te pareceu?
Jorge esteve algum tempo antes de responder:
--Bem.
--Tão sêcamente bem? Devéras?!
--Então que queres que te diga? Sabes que não tenho o teu genio, para
esgotar a minha eloquencia diante da primeira figura de mulher que me
appareça.
--E a respeito das tuas prevenções?
--Nada pude decidir.
--Pois eu já decidi. Acho-a cada vez mais adoravel.
--Ah!
--Sabes que estive com ella esta manhã?
--Sim?! Hum!--disse Jorge com evidente constrangimento.
--É verdade. Fallei-lhe e, já se sabe, não me descuidei de advogar a
minha causa.
--Ah! sim? E então?...
--E então..., apesar de uma certa esquivança nas respostas que obtive,
quer-me parecer que não tenho razão de queixa.
--Bem, bem.
--Emfim, certas recordações de infancia... como sabes...
--Ah! ella recorda-se da infancia?
--Ora, como queres que ella se não recorde?
--Sim, é natural--concordou Jorge, fingindo bocejar, mas com suspeitas
contracções nervosas.
E estendendo subitamente a mão ao irmão, acrescentou:
--Boa noite, Mauricio. É tarde e eu tenho somno. Adeus.
E de facto Jorge deitou-se, deixando em paz os livros, mais cedo do que
costumava. Se dormiu é que não sabemos.
Mauricio dormiu com certeza melhor do que elle.
Embalava-o a vaidosa persuasão de que havia impressionado Bertha. Tinha
Mauricio este defeito de suppôr que eram promptas e profundas as
impressões que produzia no animo das mulheres. Defeito este vulgar, e
que ainda não é dos que dão de si mais serias consequencias.