D. Luiz exigiu que frei Januario fallasse primeiro.

--Visto isso, principiarei, e o que sinto é que seja para dar a v. exc.ª

noticias assustadoras--preludiou o egresso.

--Assustadoras! Que é a final? Alguma insolente exigencia de credor.

--Nada, nada; a coisa é outra. Tracta-se do filho de v. exc.ª

--De Mauricio? Que fez elle?

--Não, senhor; não é do snr. D. Mauricio, que eu fallo.

--Então? É de Jorge?

--Justamente. Eu conto a v. exc.ª

E frei Januario principiou a expôr ao fidalgo os pormenores da discussão

que tivera com Jorge ao jantar e a commental-a com reflexões proprias.

Horas antes, esta communicação teria talvez produzido o effeito

estupendo, que o egresso calculára; mas a prévia entrevista de D. Luiz

com os filhos tirára toda a importancia á revelação. D. Luiz apenas

franziu o sobrolho á parte mais demagogica das doutrinas do filho, mas

esse mesmo signal de desgosto foi passageiro, e quando o procurador

acabou a sua estirada confidencia, em vez da indignação e do espanto,

com que esperava vêl-a acolhida, apenas escutou estas simples palavras,

pronunciadas com a maior fleugma:

--E então que pensa d'isso, frei Januario?

Lá de si para si o padre replicou á pergunta com a sua expressão

favorita de desapontamento--Lérias!--mas em voz alta não foi tão

expressivo, e respondeu em phrase mais parlamentar:

--O que penso? Que hei de eu pensar? E v. exc.ª o que pensa? Eu por mim

penso que anda aqui febre liberal; o veneno já está no sangue. Tão

certo! Aquillo dá logo signal de si. Em elles principiando a cantar-me

ladainhas a S. Trabalho, eu digo logo com os meus botões: «Pois sim,

sim, estás arranjadinho.» O snr. D. Jorge conversou por ahi com algum

mação. Quem sabe? Alguns d'esses engenheiros que estão na estalagem do

Manco. Isto de engenheiros é gente que se não confessa; ou então são

coisas do hortelão, que eu não seja quem sou se ainda não ha de dar que

fallar n'esta casa; mas o certo é que lhe metteram na cabeça essas

caraminholas e se v. exc.ª não olha por isso, eu lhe protesto que dão

com o rapaz mação, o que é uma pena, porque é um bom rapazinho. Mas

quando elles me vem com as nobrezas do trabalho aos contos, torço-lhe

logo o nariz.

--Parece-me que d'esta vez são sem fundamento os seus receios, frei

Januario. A final, pondo de parte alguma expressão menos sensata, e que

o verdor dos annos desculpa, as ideias do rapaz são razoaveis.

--Razoaveis?

--Pois porque não? Que quer elle? Occupar em alguma coisa o tempo, que

perde na ociosidade. Está cançado da vida de rapaz. É natural e é

louvavel. E em que quer elle empregal-o? No que ámanhã será constrangido

a fazer, com peior resultado; no que eu devêra ter feito na idade

d'elle; em trabalhar, em gerir os bens da sua casa. Mais vale então que

principie já, frei Januario, sob a guia dos seus conselhos, do que

tarde, ás cegas e sem uma pessoa de confiança a encaminhal-o.

--Pois é verdade, mas...

--Elle fallou-me n'isso ha pouco.

--Ah! pois sempre fez o que disse?!

--Fez, sim, e fez bem. Achei que o rapaz tinha pensado maduramente no

caso e dei-lhe a permissão que elle pediu. Era até o que eu tinha para

dizer-lhe.

--Então, visto isso, de hoje em diante?...

--De hoje em diante, Jorge se entenderá comsigo. O frei Januario precisa

de descançar tambem.

--Eu ainda não estou cançado--resmungou o padre.

--Espero que dará a meu filho todos os esclarecimentos de que elle

precise e todos os conselhos da sua muita experiencia.

--Não seja essa a duvida; mas, na verdade...

O relogio do corredor, batendo nove horas, cortou inesperadamente a

phrase ao egresso.

Pelos modos a ceia ia tardando.

--Com licença--disse elle, levantando-se--eu vou vêr como correm as

coisas na cozinha.

Mas nos corredores murmurava comsigo, em tom aforismatico:

--Não tem que vêr. Filho mação, pae idiota... casa perdida.

Como frei Januario suspeitasse que ia encontrar o cozinheiro menos

attento no desempenho dos seus gravissimos deveres, dirigiu-se, pé ante

pé, á cozinha, a fim de surprendêl-o em flagrante.

Ao avisinhar-se deu-lhe maior rebate ás suspeitas um acalorado travar de

vozes, que de lá vinha.

Espreitou. A criadagem estava em congresso; orava o hortelão, o inimigo

irreconciliavel do padre; escutavam-n'o os outros boquiabertos, e mais

attento do que nenhum, o cozinheiro, que sentado em um banco baixo, com

uma perna atravessada sobre a outra e as mãos a segurarem o joelho, nem

ouvia o chiar das caçarolas, nem se lembrava da ceia.

O padre fumou com a descoberta.

O hortelão dizia:

--Foi então que o imperador... oh aquillo é que era um homem!... foi

então que elle fez aquella falla que lá está toda na memoria do

Mindello, que foi onde nós desembarcamos, no dia 8 de julho de 1832,

alli pela tardinha.

E o hortelão, tomando uns ares solemnes e endireitando o corpo, começou

recitando oratoriamente:

--«Soldados! Aquellas praias são as do malfadado Portugal; alli, vossos

paes, mães, filhos, esposas, parentes e amigos, suspiram pela vossa

vinda e confiam...

Era demais para a magnanimidade de frei Januario. A proclamação de D.

Pedro desafinava-lhe os nervos, sempre que a ouvia; o que não era poucas

vezes, graças ao enthusiasmo do hortelão. Cedendo pois ao seu animo

indignado, o padre rompeu pela cozinha dentro, exclamando:

--Então que pouca vergonha é esta? O fidalgo á espera da ceia, e esta

sucia de mandriões aqui postos a ouvir as patranhas d'aquelle senhor!

Os criados surprendidos ergueram-se em alvoroço e tomaram os seus

postos. O hortelão reagiu, como era seu costume.

--Patranhas? Isso lá mais de vagar. Isto vi e ouvi eu, como o vejo e

ouço a vocemecê, e muito me honro em dizêl-o. Patranhas! Quem quizer,

póde lêr tudo isso nas gazêtas e muitas coisas mais. Eu fui soldado do

imperador e...

--Está bom, está bom: pouco fallatorio. Você o que é, é hortelão; e o

logar dos hortelões não é na cozinha.

--Lá se vamos a isso, tambem o do capellão não é ao pé das panellas, e

comtudo vocemecê póde dizer-se que não tem outro posto, onde esteja mais

firme.

--Tenha cuidado com a lingua; olhe que um dia a paciencia esgota-se e

depois não se queixe.

--Não se metta o snr. padre commigo, se não quer ouvir. Olhe que eu fui

soldado, e não é um frade que me leva a melhor. A vontade que elles nos

teem sei eu, que ainda me lembra de ver arder por os quatro cantos o

convento de S. Francisco, na noite de 24 para 25 de julho, e por pouco

que não morriam queimados todos os meus camaradas de caçadores 5. Hein?

que diz vocemecê áquella caridade?

--Você não se quer calar? Eu direi ao snr. D. Luiz as conversas que você

tem aqui na cozinha e a maneira por que falla da religião e da igreja.

--Quem fallou em tal? Eu em quem fallo é nos frades, que é coisa

differente.

A desavença terminou com a subita sahida do padre, que perdia as

estribeiras n'estas luctas. A criadagem ficou rindo d'elle pelas costas,

e o hortelão passou a contar por miudo como tinha sido o caso do

incendio do convento dos Franciscanos.

O padre, na presença do fidalgo, encetou a sua millionesima queixa

contra o jardineiro, e acabou por dar o millionesimo conselho da sua

immediata demissão. O fidalgo ouviu-o pela millionesima vez com o

silencio do costume.

D'ahi a momentos estava o procurador aplacado..., porque ceiava.

Á ceia assistia o fidalgo e os seus dois filhos.

Ninguem fallou durante a refeição nocturna. O padre estava amuado, D.

Luiz pensativo, Jorge e Mauricio trocando olhares de intelligencia sobre

o aspecto carrancudo do padre.

Ao erguer-se da mesa, D. Luiz disse para o filho mais velho:

--O snr. frei Januario já está informado do que hoje se combinou. Ámanhã

elle que tenha a bondade de te dar os conselhos precisos.

E depois de uma sêca «boa noite», D. Luiz sahiu da sala.

Os filhos levantaram-se para tambem se retirarem.

Jorge interrogou o padre:

--A que horas quer que o procure ámanhã, snr. frei Januario?

--A que horas?... Ah!... sim... isso... eu sei?... A coisa não é de

pressa... Se não fôr ámanhã...

--Ha de ser ámanhã--atalhou Jorge.

--Ha de ser! Essa é boa! Sabe lá da minha vida? Ha de ser! Tem graça.

--Não lhe tirarei muito tempo. Socegue. Quero só que me passe os livros

e os papeis.

--Os livros!... e os papeis... Mas para que?

--Porque d'ámanhã em diante tomo conta d'elles.

--Eu não me entendo com criancices. Na verdade o snr. D. Luiz fez-me o

que eu nunca esperei d'elle. É bem custoso receber tal paga no fim de

tantos annos de serviço! E então que patetices! Attender aos caprichos

de uma criança em coisas tão sérias como estas! E sabe que mais, snr.

Jorge? Eu não tenho vagar nem paciencia para me pôr agora a ensinar

meninos.

Mauricio ia a responder, talvez com aspereza, mas Jorge atalhou-o,

dizendo:

--Mas quem lhe falla em ensinar? Quem lhe pede lição ou conselho?

--Então para que me procura ámanhã?

--Para que me dê os livros e mais documentos relativos á gerencia da

casa, e me preste os esclarecimentos que eu lhe pedir. Não são perguntas

de discipulo...

--Percebo o que quer dizer na sua, são de juiz.

--Não. Quem o suppõe réo? Não, senhor. É apenas uma curta conferencia,

como o trocar da senha entre a guarda que se rende.

--Então o snr. Jorge está seriamente resolvido a tomar conta d'isto?

--Muito sériamente.

--Sim, senhores. Ha de ser bonito! Mas isto é até um caso de

consciencia, e eu não sei se devo...

--Aplaque os seus escrupulos, frei Januario. A responsabilidade de um

procurador expira no dia em que a procuração lhe é retirada pelo

constituinte. Até ámanhã. Não se esqueça de me apresentar todos os

livros da sua escripturação.

--E elle ahi torna! Ora que scisma! Eu sei lá de livros e de

escripturação, homem? É boa! Isto não é nenhum armazem.

--Então geria de cabeça, frei Januario?--perguntou Mauricio, rindo.

--Geria, como entendia. Tomo os apontamentos precisos, mas lá de

parlapatices e espalhafatos é que nunca fui.

--Bem; ámanhã examinaremos esses apontamentos; boa noite, frei

Januario--concluiu Jorge.

--Snr. frei Januario, muito boa noite--secundou zombeteiramente

Mauricio.

--Ide com nossa Senhora--murmurou o padre irritado.

Os dois rapazes sahiram, rindo dos amuos do egresso.

Este ficou só, e encetando um habitual complemento da sua substanciosa

ceia, ia resmungando:

--Forte pancada a d'esta gente! Olhem agora o criançola... E como elle

falla?! Parece já um senhor que _todo lo manda_! Os livros! Era o que me

faltava! era ter livros para assentar contas com rendeiros e dividas da

casa. Bem digo eu! Mas deixa estar que eu curo-o da mania de metter o

nariz n'estas coisas. Dou-lhe uma esfrega ámanhã. Em elle vendo como a

casa está embrulhada, perde logo o furor com que está de a administrar.

Sempre lhe hei de fazer uma tal barafunda de papelada, que o rapazinho

ha de ir dizer ao papá que não quer saber de contas. Ora deixa estar!

Muito me hei de rir. Quando elle principiar a vêr o sarilho, em que isto

tudo está mettido, que nem eu sei já como sahir d'elle, então é que ha

de dar vivas, e gritar «aqui d'el-rei.» Ora deixa estar.

E o padre ria, ria de boa feição, ao pensar no logro que havia de pregar

a Jorge, ria e comia o bom do homem, que era um gosto vêl-o.

Depois foi deitar-se, e o somno de uma certa classe de bemaventurados

baixou-lhe sobre as palpebras, suave e restaurador.

Jorge não dormiu, como o padre; velou até alta noite, lendo, calculando,

combinando planos economicos. Mauricio tambem dormiu pouco; pensou

igualmente no futuro, na revolução que ia operar-se na sua vida, mas de

um modo vago, sem ter ainda um plano formado, nem trabalhar para isso.

As mais variadas e brilhantes imagens passavam-lhe pela phantasia, sem

que se fixasse uma só d'ellas. Era um succeder de ideias tão rapido, que

parecia estonteal-o, como o illusorio movimento das margens perturba o

viajante novel arrebatado no convez velocissimo d'um barco a vapor.

No dia seguinte teve logar a solemne conferencia do padre e de Jorge.

Frei Januario tentou realisar a traça que com applauso proprio delineára

na vespera. Desdobrou em cima da mesa toda a papelada, amontuou, sem

classificação nem escolha, procurações, recibos, contas, contractos de

arrendamento, titulos de propriedades, escriptos de quitação com a

fazenda, e outros varios documentos, com intuito de assoberbar a

inexperiencia de Jorge e castigar-lhe as aspirações ambiciosas.

Depois de ter assim patenteado aquelle cahos aos olhos do seu proposto

successor, o padre, encostando os braços á banca, apoiou o queixo entre

as mãos, posição em que a bôca repuxada lhe tomava um geito de

caricatura eminentemente comico, e ficou á espera do resultado das suas

manhas com um sorriso de malicia e triumpho.

Jorge porém não desanimou. Com um rapido lançar de olhos julgava da

importancia dos papeis, que successivamente examinava, e assim os punha

de lado para segundo exame ou os guardava como vistos.

Dentro em pouco tempo entrou a ordem no cahos, e Jorge passou a mais

minuciosa revista.

Frei Januario já se sentia um tanto incommodado com o andamento que ia

vendo ás coisas, e insensivelmente foi tomando uma posição mais discreta

e fugiu-lhe do rosto o ar malicioso com que até alli observára Jorge.

O peior não tinha principiado ainda.

Jorge acompanhou o segundo exame, a que procedeu sobre os papeis de

importancia, de uma serie de perguntas, que embaraçaram sobre maneira o

padre. Reconheceu então que o filho de D. Luiz não era a criança que

elle suppozera, que via mais claro n'aquelles negocios do que elle

proprio, com toda a sua experiencia, e que a conferencia, na qual

esperava dar uma memoranda lição ao impertinente discipulo, podia muito

bem terminar com notavel desvantagem do mestre.

Ao principio do fogo cerrado de questões e objecções, o padre tentou

entrincheirar-se atraz de evasivas, tractando o caso jovialmente, mas

teve de abandonar essa tactica, diante do tom e aspecto de seriedade

varonil, com que Jorge lhe insinuou:

--Snr. frei Januario, eu não vim aqui para brincar, nem o assumpto da

nossa conversação é digno d'essas jovialidades. Sou um dos futuros

herdeiros d'esta casa e quero saber como ella tem sido administrada até

agora.

O padre experimentou a arma da dignidade offendida.

--Então quer dizer que desconfia de mim?... e instaura-me um processo?

--Peço-lhe por favor que não venha com isso outra vez. Ninguem o accusa,

já lh'o disse. Peco-lhe só esclarecimentos sobre o passado, para poder

caminhar para diante.

Frei Januario acabou por se convencer de que não havia fugir á

sabbatina. Não lhe foi suave tarefa aquella.

Jorge pela primeira vez lhe fazia vêr os erros de officio que elle

commettêra, a imprudencia com que dirigira certos negocios, o desleixo

em que deixára outros, a illegalidade de certos actos, os riscos em que

puzera parte dos bens da casa. O padre suava, torcia-se, esfregava a

testa, entrava em explicações confusas d'onde com muito custo sahia,

titubiava, gemia, protestava, limpava os oculos, chamava em seu auxilio

céos e terra; mas tudo era inutil poeira de encontro á paciencia e

fleugma com que Jorge o interrogava ou lhe fazia qualquer observação

que, sem ser formulada como censura, feria no vivo a susceptibilidade do

padre. Em uma palavra, o resultado da conferencia foi exactamente o

opposto ao que frei Januario prognosticára. Quem d'elle sahiu atordoado,

desgostoso e disposto devéras a não querer saber mais da administração

da casa, foi o padre e não o rapaz.

Frei Januario viu com espanto esboroar-se o edificio da sua experiencia,

em cuja solidez elle proprio tinha a ingenuidade de acreditar, ao

simples sôpro de uma criança. A impressão que lhe ficou d'este apertado

inquerito foi tal, que o pobre homem passou a sentir um entranhado mêdo

de Jorge, e a empallidecer só com a lembrança de uma scena como aquella.

Sempre que Jorge lhe dirigia a palavra d'ahi por diante, já o padre

previa com terror uma interpellação e ficava nervoso! Muito mais se D.

Luiz estivesse presente.

Assim pois, graças a estes mêdos, frei Januario em vez de tornar-se

vigilante em relação aos actos de Jorge, tractou de evital-o tanto,

quanto podia.

O desgraçado persuadira-se de que tinha commettido tantas faltas na sua

administração, que o seu desejo era vêr passar já sobre ellas muitos

annos para desvanecer-lhes os vestigios.

Jorge ficou pois completamente á vontade. D. Luiz, interrogando o

capellão, ouvira d'elle que Jorge estava habilitadissimo para

administrar a sua casa. Foi quanto bastou ao fidalgo para confiar

cegamente no filho e para annuir sem exame a todos os seus projectos,

como por tantos annos fizera aos do padre.

Portanto, sem desconfiança de pessoa alguma, pôde Jorge combinar com

Thomé, em entrevistas nocturnas na Herdade, o seu plano de

administração. Thomé era n'estas coisas um prudente e avisado

conselheiro. Estudaram ambos a maneira de remediar muitas faltas

commettidas, entraram em correspondencia com o advogado do fazendeiro,

por causa de uma velha e importante demanda da casa; Jorge visitou todas

as suas terras, celebrou novos e mais vantajosos arrendamentos sempre

que pôde, e para estes primeiros actos levantou em segredo parte do

emprestimo agenciado por meio do capital e do credito de Thomé da Povoa.

Causou espanto na terra a revolução administrativa da Casa Mourisca. Os

que mantinham vistas interesseiras sobre os bens do fidalgo e que,

movidos por ellas entravam em transacções com a casa, conceberam ao

principio lisongeiras esperanças, vendo que tinham a tractar com um moço

inexperiente. Cêdo porém se desenganaram, encontrando-o sempre cauteloso

e perspicaz, graças á intelligencia propria e aos conselhos do

previdente Thomé, que entrava em tudo sem ser visto nem suspeitado

sequer.

As entrevistas de Jorge e do fazendeiro tinham sempre logar de noite,

como já dissemos.

Jorge sahia de casa quando já todos dormiam menos Mauricio, unico que se

recolhia ainda mais tarde e que nem sequer sabia das sortidas do irmão.

Thomé da Povoa esperava-o na Herdade, onde o rapaz entrava com o mesmo

mysterio, e ás vezes prolongavam-se até altas horas estes conciliabulos

economicos.

N'elles, ambos aprendiam. Thomé abria a Jorge os thesoiros da sua muita

experiencia, e esclarecia-o com os conselhos dictados por um são juizo e

uma natural lucidez. Jorge, que já enriquecêra a sua bibliotheca de

novos livros e de periodicos de agricultura e de economia rural, fallava

a Thomé dos progressos e melhoramentos agricolas dos paizes

estrangeiros, e eram para vêr a attenção e o enthusiasmo com que o

lavrador o escutava. Com o animo arrojado e despido do cego e

supersticioso amor pelas praticas velhas, Thomé tomava nota de muitas

d'essas innovações, para as experimentar, praticando-as nas suas

proprias terras. Que bellos e grandiosos projectos de futura realisação

não planeavam elles, inspirados das maravilhas obtidas pela agricultura

nos paizes mais adiantados, onde é exercida por homens intelligentes e

instruidos!

Passado pouco tempo Jorge gozava já na aldeia de uma fama de fino

administrador, que lhe grangeou os respeitos de todos os habitantes.

Para esta boa fama concorreu uma circumstancia preparada ainda pelos

ressentimentos de frei Januario.

Depois de destituido, e ainda para mais derrotado pelo estreito

inquerito de Jorge, e antes que conseguisse dominar completamente o seu

despeito, tentára o padre levantar ao rapaz uma nova difficuldade.

Com esse intento convocou um dia todos os criados da casa e da lavoura,

que viviam das soldadas do fidalgo, ou melhor na esperança d'ellas, e

depois de os ter juntos, deu-lhes velhacamente a noticia de que, tendo

sido dispensado pelo snr. D. Luiz de continuar a gerir os negocios da

casa, não era d'ahi por diante responsavel pelo pagamento das soldadas

atrazadas nem das futuras; que esses negocios estavam agora ao cargo do

snr. D. Jorge e que se entendessem com elle, por quanto da sua parte

lavava as mãos de tudo.

A estas palavras, levantou-se murmuração entre alguns criados, que não

tinham grande confiança no novo gerente e que reclamavam do padre o

pagamento das soldadas vencidas, dizendo que era elle o responsavel por

esses pagamentos, visto serem do tempo da sua administração.

--Não quero saber de contos--insistia o padre.--Por feliz me dou eu em

me terem tirado dos hombros esta canceira. Os outros que se avenham como

puderem.

A celeuma continuava, apesar da contrariedade do hortelão, que declarou

que pela sua parte estava satisfeito com a mudança, porque o snr. Jorge

era um rapaz de juizo e de brios, e, melhor do que ninguem, homem para

cumprir a sua palavra.

Estavam as coisas n'estes termos, quando um facto imprevisto as

modificou.

Foi o apparecimento de Jorge.

A scena passára-se em uma sala contigua á do cartorio da casa, onde

desde pela manhã Jorge se encerrára a examinar uns papeis de

importancia. O padre suppunha-o fóra, e por isso promovêra aquella

reunião, prestes a tornar-se tumultuosa. Assim pôde Jorge ouvir tudo.

Percebeu a necessidade de fazer cessar aquella scena escandalosa, e

terminal-a airosamente, embora á custa de algum sacrificio. N'esta

resolução levantou-se e abriu de par em par a porta pela qual

communicavam as duas salas.

Assim que o viram, os criados emmudeceram. O padre julgou-se perdido.

Jorge dirigiu-se placidamente áquelles.

--Quando o snr. frei Januario lhes disse que me procurassem para serem

pagos do que se lhes deve, era melhor que o fizessem logo, e não

levantassem esse clamôr proprio de uma feira. Entrem, que eu aqui estou

para lhes fazer contas.

E a um gesto imperioso de Jorge, os criados entraram timidos no

gabinete, occultando-se uns com os outros.

--Entre tambem, frei Januario--disse Jorge ao padre, que procurava

retirar-se sorrateiramente da sala.

O padre teve de obedecer, a seu pesar.

Jorge sentou-se á mesa e principiou a interrogar os criados, um por um,

sobre a quantia que se lhes devia, e pagando-lh'a integralmente, depois

de obtida a informação.

Assim os correu e satisfez a todos, á excepção do hortelão, que o estava

a observar calado e com os olhos humidos.

Jorge voltou-se para elle e disse-lhe:

--Estou que te fazia offensa, se te pagasse ao mesmo tempo que a estes

desconfiados. Tu és dos que esperam com esta garantia.

E estendeu-lhe a mão francamente aberta.

O hortelão quasi se precipitou para ella e apertou-a commovido nas suas.

--Ó snr. Jorge! A maior paga que me póde dar é... não me pagar nunca.

Movidos por esta scena, os outros criados vieram depositar na mesa outra

vez o dinheiro recebido.

--Lá por isso... nós tambem esperamos...

Jorge restituiu-lhes o dinheiro.

--Não é necessario... Levem-n'o.

E depois acrescentou:

--As circumstancias actuaes da nossa casa obrigam-nos a fazer mudanças

no serviço. Temos de reduzir o numero dos criados de dentro e augmentar

os de lavoura. Por isso, vossês quatro, Francisco, Lourenço, Pedro e

Romão, podem procurar outra casa. Para nos servir bastam os outros dois.

Vossês, os de lavoura, ficam, se quizerem, e se tiverem parentes que

pretendam empregar-se aqui no mesmo serviço, mandem-nos ter commigo. E

agora podem ir.

O tom em que foram ditas estas palavras excluia qualquer observação.

Sahiram todos.

--Frei Januario--acrescentou Jorge, dirigindo-se ao padre, que estava

meio aparvalhado--podia fazer-me saber mais delicadamente esta divida de

casa. Apesar d'isso agradeço-lhe o ensejo que me deu de a pagar!

O padre resmungou não sei o quê, e sahiu cada vez com mais medo de

Jorge.

--Onde foi o diabo buscar já tanto dinheiro?--pensava elle.--Não póde

deixar de ser da maçonaria.

O hortelão ficou só com Jorge.

O pobre homem estava enthusiasmado com a honrosa distincção que

recebêra, e para manifestar o seu enthusiasmo passou a contar a Jorge

como é que se tinha dado o ataque do monte das Antas.

Esta scena, divulgada em pouco tempo, concorreu, como dissemos, para

augmentar os creditos de Jorge em toda a aldeia.

Os fidalgos da Casa Mourisca Chronica da aldeia · 第 17 / 93 题