--Humh!--objectou elle--que carreira póde n'estes tempos seguir na
capital um filho meu? Queres acaso que elle vá renegar da causa, que a
nossa familia sempre abraçou, e fazer pacto com essa gente que hoje
governa?
--Confesso que mal pensei ainda na carreira que lhe convirá seguir; mas
sómente lá é que é possivel a escolha. Parece-me que sem deshonra se
poderá trabalhar e ser util á patria, que é sempre a mesma, qualquer que
seja o partido que a governe. Mas o caso não urge. V. exc.ª poderia
escrever n'esse sentido a nossa prima Gabriella, que melhor que ninguem
poderá fornecer-nos valiosas indicações.
--Gabriella?! A senhora baroneza do Souto Real!--accentuou
sarcasticamente o fidalgo.--Ora adeus! Uma doida...
--Tem-se mostrado sempre nossa amiga--corrigiu Jorge--e ainda por
occasião do fallecimento de Beatriz...
--Sim, bom coração tem ella. Mas a sociedade em que vive, desde que
casou e depois que viuvou, tem-lhe feito adquirir as qualidades da
época. Não se lembra de que seu pae foi um militar, que morreu com as
armas na mão a favor da causa legitimista. Hoje conta os seus amigos
entre a gente, que a fez orphã.
--Deve perdoar-se a uma mulher essa fraqueza. Ella não tem coração para
odios. Bem o sabe. Parece-me comtudo que, apesar das suas apparencias
frivolas, tem um fundo de bom senso d'onde póde sahir um aproveitavel
conselho. Falle-lhe v. exc.ª com franqueza, diga-lhe quaes as condições
sob que entende poder Mauricio entrar na sociedade, onde vivem sem
apostasia muitos adeptos da antiga causa, e eu creio que ella o
comprehenderá e lhe dará as informações pedidas.
Ainda n'isto se deixou convencer D. Luiz pela eloquencia do filho. Jorge
sabia que a prima era uma mulher de influencia no mundo politico e
elegante, e esperava que a reconhecida diplomacia d'ella conseguisse
aplanar as difficuldades, em que naturalmente se embaraçariam o orgulho
e a paixão partidaria do fidalgo. E para assegurar melhor o resultado
que esperava, resolveu elle proprio escrever-lhe confidencialmente.
Quando o pae e os filhos se separaram, achava-se em todos os seus
artigos sanccionado o projecto de Jorge.