(_Durante este tempo Alberto, que tem fallado com seu pae, empurra-o para

que se adiante._)

LEMOS.—Sr. Ribeiro, eu... venho lhe pedir a mão de sua filha...

RIBEIRO.—Homem, é excellente! Até você é candidato?...

LEMOS (_apressadamente_).—É para meu filho... meu filho Alberto...

D. RITA (_graciosa_).—É uma cousa muito possivel.

RIBEIRO.—Mas ella diz que não quer ninguem: que hei de...

ISABEL (_intervindo com animação_).—Papae, eu não disse isto...

RIBEIRO.—Então você aceita o Alberto?

ALBERTO (_sofrego_).—D. Isabel... minha sorte depende da senhora...

ISABEL (_confusa_).—Se... papae... consentir... Querendo a mamãe...

RIBEIRO (_risonho_).—Ah! sonsinha, isto é namoro velho. (_Para D. Rita_)

E a senhora não me dizia nada!...

D. RITA.—Eu de nada sabia...

RIBEIRO.—Pois eu... tambem ignorava. Em todo o caso dou com ambas as mãos

o meu pleno consentimento.

D. RITA.—Eu com a maior satisfação...

ROCHA (_adiantando-se com ar sombrio e theatral_).—E eu? Que fazem de

mim? De mim que entrei hoje aqui com um céo na alma, e saio com a morte

no coração!... A quem hei de maldizer?... Só a meu destino?

RIBEIRO (_puchando-o pela sobrecasaca_).—Ora, deixe-se d’isso, Alfredo, e

vem comer o nosso peixe.

ROCHA (_encara fixamente e por instantes Ribeiro: depois exclama_).—Não

quero comer o seu peixe! (_Sahe arrebatadamente._)

SCENA XVIII

LEMOS, ALBERTO, RIBEIRO, D. RITA E ISABEL.

RIBEIRO.—Vai o pobresinho furioso (_levantando os hombros_). Hão de vocês

vêr que versalhada sahe d’aquelles furores. O certo é que no fim de

contas faz-se um casamento com quem ninguem contava...

LEMOS.—Agrada-lhe menos...

RIBEIRO.—Qual!... Está muito conforme com as minhas idéas... Não tróco

o meu novo genro por uma duzia de Farias ou uma carregação de poetas...

Agora todos juntos, vamos á mesa beber á saude dos noivos... Comeremos

do tal peixe por quantos deixárão de lhe chupar as espinhas... Á mesa

e depressa... porque, como diz o proverbio: «_Da mão á boca se perde a

sôpa._»

(_Cahe o panno._)

FIM DA MÃO Á BOCA SE PERDE A SOPA.

CAMIRAN A KINIKINAO

EPISODIO DA INVASÃO PARAGUAYA EM MATTO GROSSO

CAMIRAN A KINIKINAO

Camiran era uma infeliz velha kinikináo, que passava os dias a prantear a

morte de um filho unico, baleado em acção de guerra pelos paraguayos.

Os seus olhos não derramavão lagrimas; mas o seu corpo mirrado pela

consumpção mostrava que uma dôr immensa ia aos poucos lhe devorando a

vida. Tudo era motivo para recordar-lhe o valente mancebo, que o chumbo

inimigo havia feito cahir para sempre nos campos do Aquidauana. O sol que

irrompia deslumbrante, a lua que despontava serena, a nuvem que corria

nos céos, a chuva que humedecia o solo, o vento que gemia ou a brisa que

sussurrava, trazião-lhe de prompto á lembrança algum facto que se prendia

á existencia de seu adorado filho.

Então Camiran, em voz alta e tremula, n’um canto que mais tinha de

resignação do que de desespero, contava como e quando elle havia

contemplado o sol ou a lua a nascerem, quando fitára a nuvem passageira,

se abrigára da chuva, contendêra com o furacão ou refrescára o corpo ás

caricias de branda aragem.

Vivia agora da caridade dos seus, caridade, porém, sem vexame para quem a

recebia, por isso que todos á porfia vinhão expontaneamente depôr em sua

choupana algum alimento escasso sem duvida, pois para todos escasseára,

mas dado de coração.

N’esse tempo a gente kinikináo experimentava uma dura provança. Expulsa

em principios do anno de 1865 pelo terror da invasão paraguaya que então

assolára repentinamente o districto de Miranda, havia ella vagado longos

mezes por matas e agruras antes de poder assentar arraiaes ao abrigo do

inimigo.

Tambem quem deixára de soffrer!

A columna devastadora vinha dirigida pelo coronel Resquin que, em nome da

republica do Paraguay, levára inopinadamente a guerra ao seio do Brasil.

O ataque havia sido tão pouco esperado que os batalhões paraguayos, sem

opposição alguma á sua marcha de conquista, forão tangendo adiante de si

toda a população tomada de sorpreza e possuida de immenso pavor.

Ao passar a divisa do Imperio, Resquin destacára de sua força de mais de

cinco mil bayonetas uns seiscentos homens para irem abafar a resistencia

do tenente Antonio João na colonia de Dourados.

Valente homem aquelle tenente!

Isolado no fundo dos sertões, sentinella perdida da fronteira, morreo

como um heróe, ao lado de onze companheiros em quem infundira a coragem e

o patriotismo que lhe inflammavão o peito.

Não podia esperar soccorro de ninguem. Encerrado em sua palissada, tinha

diante e ao redor de si a immensidade do deserto.

Avisado dous dias antes, que para Dourados marchava uma força imponente,

não quiz desamparar o posto. Reunio a gente da colonia e fez-lhe uma

falla em que citou francez e até latim.

O homem tinha pretenções litterarias que afagava com certo orgulho, e se

revelavão nos officios mensaes que costumava dirigir ao chefe militar de

Nioac.

N’essa falla elle expôz as circumstancias em que se achava a colonia

e a loucura da resistencia, e terminou dando a todos licença para o

abandonarem.

Elle ficaria.

—Para que? perguntárão uns soldados.

—Para morrer!

Onze de seus commandados declarárão que ficarião tambem.

Todos os mais partirão: mulheres, crianças, velhos e até moços.

Antonio João esperou então os inimigos da patria. Fez içar a bandeira

do Brasil e preparou com esmero o officio com que havia de responder á

intimação do invasor.

No dia 28 de Dezembro de 1864 um soldado, que sahira a cavallo a devassar

a redondeza, voltou a galope.

A vanguarda paraguaya vinha já apparecendo.

Antonio João mandou tocar a reunir e distribuio os seus onze fieis pela

palissada. Cada um tinha uma espingarda a Menié, duas clavinas carregadas

ao lado e não lhes faltava nem munição, nem valor.

Por todos os lados se abrião campos immensos, campos que já se ião

tingindo de vermelho. Erão os paraguayos, cujas blusas côr de sangue vivo

maculavão a verdejante relva.

—Estão todos promptos? perguntou Antonio João á sua gente.

—Todos, respondêrão os onze.

—Então amparem-se com Deos, porque ninguem se entrega.

—Ninguem! repetirão os onze.

Era Leonidas no meio dos lacedemonios.

De repente soou o clarim paraguayo.

Um parlamentario se approximava.

A bandeira brasileira desdobrou-se aos ventos do deserto. Parecia ufana

de abrigar aquelles doze sublimes insensatos. Losango amarello sobre

fundo verde; côres que mandão um sorriso de consôlo ao moribundo, quando

elle lhes deita o olhar de adeos no campo da batalha. A corôa imperial

como que preparava-se para descer sobre aquellas cabeças, transformada em

corôa de gloria.

Antonio João prezava-se de civilisado: recebeu, pois, com a maior

cortezia o enviado.

A intimação era curta: meia duzia de palavras, insolentes, como

costumavão alinhar os generaes de Lopez.

O commandante de Dourados rasgou em pedaços o officio que preparára com

tanto cuidado e carinho, e a lapis traçou esta resposta:

«Sei que morro, mas o meu sangue e o de meus companheiros servirá de

protesto solemne contra a invasão do solo da minha patria.»

E assignou com mão firme:

«Antonio João da Silva.»

Os paraguayos o chamárão de louco, e nem faltou brazileiro que ao depois

dissesse o mesmo.

Retirou-se o parlamentario, e a força inimiga em distancia cercou todo

o campo. Para qualquer lado que os defensores de Dourados deitassem os

olhos, virão um cordão vermelho que vinha se apertando.

Na guarnição não houve alma que fraqueasse. Quanto mais se demorava

aquelle ataque disproporcionado, mais crescia o enthusiasmo.

—Viva o Imperador! gritou de repente Antonio João.

Era o signal de fogo. Os brasileiros dispararão a um tempo as armas,

ligeira detonação para aquellas vastidões, respondida por uma immensa

repercussão.

O heróe brazileiro cahio ferido mortalmente.

—Fogo, minha gente, fogo! gritou elle nos arrancos da agonia.

Raros obedecêrão á ordem.

D’ahi a pouco era arreada a bandeira da palissada, mas ella desceu com

ufania como bandeira de victoria e, quando tocou o chão, uma das suas

dobras foi se ensopar no sangue d’aquelles que tanto a havião ennobrecido.

Parecia enrubescer de orgulho.

Os paraguayos fizerão justiça a Antonio João.

—Era um valente! disserão elles. Se o Brazil tiver muitos d’esses, a

nossa marcha por Matto-Grosso não será um simples passeio militar, como

nos contárão.

Outra vez repetirão isto.

Foi alguns dias depois, perto do rio Feio para lá da colonia de Miranda

seis legoas.

Ahi quem se impoz á admiração dos inimigos foi um paisano, Gabriel

Barboza.

Era mineiro esse; fazendeiro perto de Nioac, homem já feito, robusto de

corpo e estimado. Devia se casar quando arrebentou a invasão e trocou as

vestes de noivo pelo manto da morte. Dizem que ambos no céo se talhão.

Quando em Nioac, a 26 legoas da fronteira, soube-se que o Apa estava

transposto e que Resquin vinha marchando para o Norte, o commandante

do corpo de caçadores a cavallo fez montar os seus cento e quarenta

soldados, apenou alguns paisanos de boa vontade e marchou ao encontro do

inimigo.

Esse commandante gozava de bom nome e estava em condições de prestar

grandes serviços. Bemquisto dos seus subordinados e respeitado por todos,

podia ter dirigido em regra a resistencia: entretanto mostrou que servia

mais para o socego da paz do que para as contingencias da guerra.

Em todo o caso julgou de dever ir em pessoa conhecer a força que pisava

terras brazileiras.

Não caminhou muito.

A seis legoas de Nioac parou no rio Feio: do outro lado, encoberta pela

mata, estava a columna paraguaya; mais de cinco mil homens, já dissémos.

Era no dia 31 do Dezembro de 1864.

Muita gente pensou que não veria o anno novo.

No rio Feio cambiarão-se notas: Resquin, o commandante paraguayo, mostrou

alguma polidez: o brazileiro respondeu-lhe, apurando o tom.

Trocarão-se amabilidades antes das balas.

Era uma imprudencia ter chegado até lá: maior ainda estar a perder tempo.

O que convinha ter feito, fôra recuar em ordem de Nioac, para o que

sobrára tempo, arregimentar toda a população valida e os centenares de

indios que se apresentárão em Miranda expontaneamente, armal-os e esperar

os invasores nos angustos e emboscadas. Assim caro terião pago o seu

arrojo.

Em lugar de uma retirada aconselhada pelas circumstancias, retirada que

poderia ter produzido uma resistencia notavel, o commandante do corpo de

caçadores a cavallo avançou imprudentemente, vio a sua tropa quasi toda

debandada na volta para Nioac e, incutindo terror panico em todos os

habitantes, foi atropelladamente para a villa de Miranda, d’onde tomou

rumo de Sant’Anna do Paranahyba, depois de uns dias de vacillação que

mais concorrerão para destruir qualquer intenção de pôr peito á invasão

estrangeira.

Aquelle official, cuja fé de officio era honrosa, de certo n’um dia de

combate havia de sustentar com dignidade a sua posição, mas não tinha

cabeça para organisar a defeza de uma grande zona.

Ah! se fôra Antonio João!

Como diziamos, Gabriel Barboza se alistára entre os voluntarios. Montava

um cavallo magro e trazia uma espingarda de dous canos de caçar onças.

A manhã de 1 de Janeiro de 1865 raiou, quando o tiroteio já havia

começado. Na mata da margem esquerda do rio Feio estavão emboscados os

paraguayos, na da direita os brazileiros, isto é, soldados de cavallaria

que havião posto pé em terra. Commandava-os um valente capitão, Pedro

José Rufino, homem envelhecido nas fileiras, cheio de serviços e

esquecido ha muito no fundo de Matto-Grosso.

Os nossos atiravão bem, e um outro vulto vestido de baeta vermelho

estirado no chão immovel mostrava a certeza do fogo. Um cadaver rolára

mesmo pela barranca abaixo e tingia de sangue a agoa em que mergulhava o

tronco.

A fuzilaria rolava forte, quando soou um grito:

—Os paraguayos estão passando o rio!

Immediatamente o clarim do 1.º corpo de caçadores deu signal de retirar.

De facto já dous esquadrões de cavallaria paraguaya estavão na margem

direita e vinhão a redea solta sobre os brazileiros.

A principio os nossos retrocederão rapidamente, mas guardando ainda cada

qual o seu lugar na fileira; depois a carreira foi-se accelerando,

tornando-se vertiginosa, e ao passo que muitos deixavão a estrada geral

para se atirar nas matas, os outros mais fincavão as esporas nos ventres

de seus cavallos.

Então já não havia mais ordem nem respeito á gerarchia; tratava-se de

correr.

De repente Gabriel Barbosa sentio a cavalgadura afrôxar.

O inimigo, apezar de todos os esforços, ainda vinha bastante longe, de

modo que um soldado, ao passar pelo mineiro, parou por um pouco e lhe

perguntou:

—O seu cavallo _bombeou_?

—Não póde mais comsigo...

—Pois bem, então faça como eu; _fréche_ para aquelle capão que nós

cahimos logo na mata do Nioac.

—Não, replicou Barbosa. Estou cansado de correr... Eu fico aqui...

—Mas aqui é morte certa!

O outro fez um gesto de pouco caso.

—Ao menos, disse elle, não mostrarei só as costas aos paraguayos.

E descendo do cavallo, deo-lhe liberdade. Depois escorvou com cuidado a

sua arma e parou immovel no meio da estrada.

Ao vêl-o firme, um dos perseguidores, que tomára a dianteira aos outros,

apressou ainda mais a carreira que trazia.

Com o rosto braseado de ardor bellico, fazia na mão direita voltear uma

espada voraz de sangue, e na esquerda mantinha as redeas frôxas. Ouvia

atraz de si o galopar dos companheiros e queria colher a gloria de matar

o primeiro brasileiro.

Gabriel Barbosa fez pontaria com vagar e calma.

Um tiro echoou, e o cavalleiro paraguayo cahio, soltando um grito de

agonia.

Um segundo teve igual destino e rolou ferido por certeira bala, mas já a

esse tempo cinco ou seis outros se havião atirado sobre o brasileiro e

depressa o prostrárão sem vida, todo golpeado e lanceado.

Ainda hoje, n’esse mesmo lugar, se vê uma grande cruz lavrada e coberta

de desenhos, na qual está gravada esta inscripção:

«Aqui murió el soldado de cabaleria Eusebio Gama en agzion di

guera.—Ennero, 1—1865» (_sic_).

Ao pé d’essa cruz esteve por muito tempo atirado, como homenagem aos

restos de quem alli descansava, um craneo com dous grandes talhos de

espada.

Era o craneo de Gabriel Barbosa.

No dia 2 de Janeiro os paraguayos entrárão em Nioac. Aquella linda

povoação estava deserta e em poucos minutos ficou reduzida a cinzas.

Em Miranda, d’ahi a vinte e poucas leguas, n’esse dia, a perturbação

tinha tocado ao seu auge. Pela madrugada havião chegado os restos

desordenados do 1º corpo de caçadores, e tudo quanto morava nos arredores

da villa affluira para ella. A quantidade de indios terenos, laianos,

kinikináos, guanás, guaycurús e até cadiuéos, que são, comtudo, perfidos

e mal vistos, era consideravel, todos a pedirem em altos brados armas

e munições de que estava repleto o deposito de artigos bellicos, para

correrem a se metter em emboscadas.

Uns propunhão que se tratasse quanto antes da defesa, e aconselhavão

duas esperas excellentes no Lalima e no Laranjal; outros declaravão

qualquer tentativa de lucta inutil e impossivel, e só esperavão pela voz

de debandada; outros, emfim, e entre os mais notaveis da villa, já nem

esperavão por aquelle signal e tratavão de abarrotar de trastes as canôas

e igarités em que pretendião descer o rio Miranda, para demandarem a foz

do seu affluente, o Aquidauána.

No meio da grita das mulheres, do chorar das crianças, das lamentações

dos fracos, do vozear dos indios, dos conselhos desencontrados, das

discussões calorosas, aquelles que devião tomar providencias para o bem

geral e assumir a responsabilidade de uma resolução immediata, quer no

sentido de resistencia, quer no de prompta retirada, perdêrão a cabeça e

deixárão-se arrastar pelo movimento da população, que, a 6 de Janeiro, em

peso abandonou Miranda na mais extraordinaria confusão.

Nem sequer ficou indicado um ponto em que todos devessem se reunir. Uns

seguirão em canôas a procurar refugio nas matas do rio; o maior numero, a

pé, tomou a direcção da serra de Maracajú, distante umas vinte leguas, e

em cujas brenhas tinhão tenção de se occultar.

Os paraguayos porém vinhão marchando muito vagarosamente; tanto assim

que só a 12 de Janeiro é que entrárão na villa, que achárão quasi que

completamente saqueada. Erão os indios que, depois da dispersão do povo,

havião voltado e agarrado tudo quanto lhes approuve, principalmente

armamento e cartuxame.

O deposito continha, comtudo, ainda grande numero de armas e petrechos de

toda a qualidade, que o inimigo tratou logo de arrecadar e de remetter

para a republica.

—Os brasileiros, dizião muitos paraguayos, cuidavão defender o seu

territorio enchendo os cabides de espingardas e de lanças.

Uma vez de posse de Miranda, o coronel Resquin fez sahir um bando que

declarou haver d’aquelle dia em diante passado todo o districto a

pertencer á republica do Paraguay, debaixo do titulo de districto militar

de Mbotetiû, e convidou a população a recolher-se ás suas casas sob pena

de serem os recalcitrantes passados, sem appello, pelas armas.

Naturalmente ninguem se apresentou.

Os fugitivos, que tinhão descido por agoa, estavão então occultos no

lugar chamado Salôbra, a duas leguas da villa, sujeitos a milhares de

privações, e, o que mais doloroso era, dilacerados pela discordia e pelas

intrigas.

Tudo era motivo para recriminações e queixumes.

Debalde o vigario de Miranda, Fr. Marianno de Bagnaia, homem virtuoso e

querido quer de brancos, quer de indios, tentava restabelecer a paz, tão

necessaria n’aquellas tristes conjuncturas. Não era ouvido, e mais de uma

vez vio-se desrespeitado.

O acampamento dos refugiados em pouco tempo tornou-se intoleravel para

muitos: uns tocárão as suas canôas para ir mais longe fazer rancho á

parte; outros, em pequeno numero, forão espontaneamente se apresentar aos

paraguayos.

Entre estes figurava frei Marianno. O piedoso capuchinho sentia-se fraco

e acabrunhado diante de tamanha desgraça, e as suas lagrimas corrião a

miudo ao lembrar-se de tudo quanto os indios, a quem chamava de filhos,

estarião soffrendo, esparsos pelos montes, ou sem duvida cahidos em poder

do inimigo.

Depois de haver penetrado no seu espirito a idéa de se entregar ao

invasor e obter d’elle compaixão para todas aquellas victimas—mulheres

principalmente e debeis crianças—, não descansou um só instante, até ir,

acompanhado do tenente João Faustino do Prado e do alferes João Pacheco

de Almeida, se apresentar em Miranda no dia 22 de Fevereiro de 1865.

Havia na villa uma razão que o attrahia com força irresistivel: era a

igreja matriz que construira com grande trabalho, empregando n’ella os

seus magros vencimentos e tudo quanto conseguia da caridade dos freguezes.

Correr portanto a igreja para dizer missa foi o que fez logo frei

Marianno, n’um estado de jubilo difficil de descrever. Quanto tempo havia

passado longe d’aquelles altares, arredado de todos os objectos de seus

extremos, de sua adoração!

As ruinas que por toda a parte o cercavão, casas derrubadas, a meio

incendiadas, ruas atravancadas, por todos os lados signaes da destruição,

nada o impressionava, nada lhe detinha os passos.

Elle voava para a sua matriz.

Ahi tambem o esperavão destroços que tomavão o caracter de negro

sacrilegio. As torres sem os sinos, os altares despidos dos santos

ornatos, o tecto esburacado, o chão coberto de caliça e caibros, as

imagens mutiladas, de prompto ferirão os olhos de frei Marianno.

Então todos os projectos de conciliação desapparecerão-lhe da mente, e

elle, transfigurado pelo desespero e pela indignação, no meio d’aquelle

templo esboroado fulminou com a sua excommunhão a todos os paraguayos.

A eloquencia selvatica do capuchinho aterrou os que o cercavão.

—Forão os Mbaiás[18], gritou meio assombrado um d’elles.

—Não, não forão! Meus filhos não farião isto, exclamou o frade cuja

exaltação não achou limites senão quando de todo lhe faltarão forças para

clamar vingança aos céos.

Na manhã seguinte teve ordem de prisão e pouco depois foi transferido

para Assumpção[19]. João Faustino do Prado e Pacheco de Almeida

escapárão de igual sórte por se terem ausentado da villa no dia mesmo em

que n’ella havião entrado.

Que fim, porém, terião levado os indios de Miranda durante todos aquelles

inesperados successos?

Mais de dez aldeamentos regulares contava o districto por occasião da

invasão paraguaya.

Os terenos, em numero talvez superior a trez mil individuos, estavão

estabelecidos no Naxedaxe, a seis legoas da villa, no Ipêgue, a sete e

meia; e na Aldêa-Grande, a trez: os kinikináos no Agaxi, a sete legoas N.

E.: os guanás, no Eponadigo e no Lauiád; os laianos, a meia legoa—estes

todos da nação chané. Dos guaycurús havia aldeamentos no Lalima e perto

de Nioac. Quanto aos cadiuêos moravão em Amagalobida e Nabileke, tambem

chamado Rio-Branco.

Quando echoou o primeiro tiro n’aquella vasta zona, cada tribu manifestou

as suas tendencias particulares. Nenhuma d’ellas, porém, congraçou com

o invasor. O _castelhano_ era por todas considerado de longas éras como

inimigo figadal e irreconciliavel; umas, comtudo, identificárão-se com as

desgraças dos _portuguezes_; outras se separárão d’elles; outras, emfim,

começárão a hostilisar a gente de um e outro lado.

Guanás, kinikináos e laianos unirão-se intimamente com a população

fugitiva; os terenos se isolárão, e os cadiuéos assumirão attitude

infensa a qualquer branco, ora atacando os paraguayos na linha do Apa,

ora assassinando familias inteiras, como aconteceu com a do infeliz

Barbosa, no Bonito.

Voltemos, porém, aos kinikináos.

Quando alguns soldados do 1º corpo de cavallaria passárão em debandada

pelo Agaxi, a aldêa já estava sobresaltada.

—Que vamos fazer? perguntou a um fugitivo o capitão dos kinikináos,

Flavio Botelho.

—Fujão todos.

—Para onde?

—Ninguem sabe, foi a resposta. Cada um por si, Deos por todos.

Flavio Botelho era um velho sem prestigio nem prestimo. Tinha um unico

merecimento: ser pai de duas lindissimas moçoilas; no mais embriagava-se

diariamente sem respeito algum pela patente que possuia e mostrava com

grande orgulho, assignada por D. Pedro I.

N’aquella difficultosa emergencia elle esvasiou uma garrafa de aguardente

e tratou de dormir.

A gente do Agaxi comprehendeo que mais do que nunca estavão faltos de um

chefe, e, por tacito accordo, deixando, comtudo, as honras ao legitimo

possuidor, tratárão de escolher alguem que os soubesse dirigir.

Todas as adhesões cahirão sem discrepancia em Pacalalá.

Era o filho de Camiran.

Tinha elle pouco mais de 20 annos; mas era um soberbo indio, côr de

cobre vermelho, com feições angulosas, maçãs do rosto salientes, dentes

acerados, olhos pequenos e intelligentes, queixo accentuado e denunciando

energia.

Com tão pouca idade soubera conciliar o respeito dos seus e a amizade

dos brancos. Era elle quem tomava a peito as queixas da sua gente nas

relações com os moradores de Miranda, quem ia denunciar a frei Marianno

as irregularidades dos contractos ou os desmandos que se davão na sua

aldêa. Pedia providencias n’um e n’outro sentido; indicava-as acertadas,

e conseguia de vez em quando algum resultado, conforme os interesses

dos seus e como era de justiça. Soubera até em varias occasiões franzir

o sobrolho ás autoridades da povoação, dispostas sempre a abusar, e,

apoiado na boa vontade do frade capuchinho e no seu espirito de rectidão,

obteve que cessassem para os habitantes de seu aldeamento diversas

medidas vexatorias a que estavão sujeitos os indios.

Uma vez Pacalalá teve noticia de que um kinikináo, avelhentado e onerado

de familia, fizera com o juiz de paz de Miranda um contracto de locação

de serviços por dous mezes pelo preço de quatro mil réis, e mais uma

garrafa de aguardente no fim de cada mez.

Sem demora partio para a villa e recorreo a frei Marianno, que se

apressou em saber da verdade.

Um papel em regra de accordo mutuo foi-lhes apresentado, e o indio

declarou que o lavrára sem sugestões e de muito livre vontade.

Não havia recalcitrar.

Então Pacalalá adoptou um expediente novo. Propôz a substituição do

trabalhador, ficando de pé a letra do contracto.

Historias Brazileiras · 第 5 / 11 段