Fica este asylo a breve distancia de Torres, uns vinte minutos de
agradavel passeio a pé. Segue-se a estrada da Varzea, entra-se no amplo
valle, vestido de culturas, arvoredos fructiferos, bellos vinhedos;
ao lado da estrada fica um edificio moderno de aspecto alegre e
confortavel, convidativo, é o asylo de S. José; como o sitio se chama
a Conquinha, é vulgarmente conhecido por este nome. Santa instituição!
Foi este asylo fundado e dotado pela benemerita D. Maria da Conceição
Barreto Bastos, fallecida em 21 de maio de 1901. Velhinhos
impossibilitados de trabalhar encontram aqui agasalho e sustento,
abrigo tranquillo nos seus ultimos annos de vida.
A casa é cercada por ampla quinta bem cultivada com seus jardins
floridos, e bellas arvores de fructa. Tudo muito asseiado e
confortavel; mais me agradou ainda o ar satisfeito dos asylados,
felizes naquelle ninho de caridade. A fundadora instituiu tambem uma
escola, na villa, para meninas, com ensino gratuito; a sua memoria deve
ser abençoada; o seu nome gravado no marmore dos benemeritos, e no
coração de todos os que veneram estes bons exemplos do incondicional
altruismo christão. Quando alli estive, visita casual, era gerente ou
director do asylo, o sr. conego prior Antonio Francisco da Silva, cujo
nome ouvi cercado pelos asylados da Conquinha com palavras de respeito
e gratidão.
Ruços, além!
Preparava-se a jornada de Ceuta.
Havia cabeças enthusiastas, e cabeças duvidosas; timidos e prudentes
ao lado dos muito ousados. El-rei D. João I estava em Cintra com os
infantes; mandou convocar os do Conselho para Torres Vedras; eram
o conde de Barcellos, o condestavel D. Nuno, os mestres das ordens
de Christo, de Santiago e d’Aviz, o prior do Hospital, Gonçalo Vaz
Coutinho, Martim Affonso de Mello, João Gomes da Silva, muitos outros
senhores e fidalgos.
Nesses dias Torres Vedras acolheu muitos cavalleiros de espora dourada,
os grandes senhores territoriaes e militares do paiz.==El Rey partio
de Cintra, e foy folgando por aquella comarca de Lisboa caminho de
Torres Vedras (isto conta o Azurara, na _Chronica de D. João I_, parte
3.ᵃ, cap. 24) e antes disto chegando El-Rei a _Carnide_, o infante Dom
Enrique que muito desejava por seu corpo fazer alguma cousa aventejada,
chegou a seu padre e disse: _Senhor, primeiro que por estes feitos
mais vades adiante, porque com a graça de Deos vem já por tal via, que
viram a boa fim, eu vos peço por mercê que me outorgueis duas cousas. A
primeira que eu seja hum dos primeiros, que filhe terra quando a Deos
prazendo chegarmos davante da cidade de Ceita; e a segunda que quando
a vossa escada real fôr posta sobre os muros da cidade, que eu seja
aquelle que vá primeiro por ella, que outro algum._
Isto disse em Carnide o infante D. Henrique a el-rei D. João; estranho
requerimento para a morte na vanguarda extrema, bem natural ao forte
coração do rapaz. Chegou el-rei a Torres Vedras, e logo teve uma falla
com o condestavel.
Este approvou o plano e prometteu ao rei a sua influencia favoravel...
Tratou-se logo do corregimento da casa para o conselho _a qual era hua
sala dianteira, que está em aquelles paços de Torres Vedras, onde está
a capella_.
Numa quinta-feira o rei e seus filhos ouviram missa do Espirito Santo,
naturalmente na egreja de Santa Maria, que era capella real.
Celebrou-se o conselho; foi elrei que publicou o fim da reunião; depois
fallou o condestavel approvando a jornada, e o infante D. Duarte no
mesmo sentido. Mas havia gente duvidosa, novos que temiam o risco, e
criticavam o arrojado plano. Então surgiu um dito que fez época.
João Gomes da Silva, que era homem _forte e ardido, cujas palavras
sempre traziam jogo e sabor_, levanta-se no meio dos indecisos e
exclama dirigindo-se a elrei==_Quanto eu, Senhor, não sei al que diga
senão, ruços, alem_, apontando para o sul, na direcção do Algarve
d’alem mar, e isto dizia porque elrei e os mais dos que alli estavam
tinham já as cabeças cheias de cans. Elrei e os mais riram-se, e assim
folgando fizeram fim de suas falas==. Terminaram o conselho a rir-se,
os valentes e audazes; iam para Ceuta, para a conquista africana, o
inicio glorioso dos descobrimentos, para esse triumpho e sacrificio
incomparavel da nacionalidade portugueza. Pois esse grito _ruços,
alem_, ouviu-se nos paços reaes de Torres Vedras. (Azurara, parte 3.ᵃ
da _Chronica de D. João I_, cap. 26).